terça-feira, 19 de setembro de 2017

ROCK IN RIO E A UTOPIA

O Rock In Rio começou nessa última sexta-feira (15/09). A surpresa aguardada para a abertura se deu com a participação da modelo Gisele Bündchen e seu discurso sobre a necessidade de construirmos um mundo melhor, igualitário e com a devida atenção ao meio ambiente. Suas palavras – ao menos para mim – soaram muito verdadeiras. Mas não é sobre a sinceridade do discurso proferido que desejamos analisar. O que nos propomos nesse post é averiguar o que não foi dito, mas que era a base subjacente de toda a mensagem proferida.

Não precisamos discutir o mérito do anseio por um mundo melhor. Quem não deseja? Com exceção de Dark Side, Lex Luthor, Apocalipse e Coringa, creio que a resposta seja positiva. O otimismo por um mundo melhor e o idealismo do progresso humano, as bases do discurso feito no Rock In Rio, esbarram em tudo aquilo que insistentemente nos leva a pensar o contrário: duas guerras mundiais; Auschwitz; opressão, miséria, injustiça e morte como frutos das ideologias comunistas no afã de uma sociedade justa; violência em escala endêmica; terrorismo que parece não conhecer nenhum tipo de fronteira; degradação irrefletida do meio ambiente; insensibilidade, orgulho, imoralidade e alienação apesar dos avanços da tecnologia e da ciência. A utopia da construção de um mundo melhor colide na aridez de um mundo distópico à semelhança de Mad Max. 

Deveríamos então ser pessimistas? Largar a ponta da corda do otimismo para ficar com a outra extremidade, o pessimismo? Parece que é isso que muitos cristãos vêm adotando como fruto de sua leitura bíblica. “O mundo só vai piorar com o passar do tempo”, assim afirmam muitos pregadores e entusiastas das “últimas revelações proféticas”. Se tudo vai se degradar de qualquer jeito, porque alguém deveria se preocupar com esse mundo? Temos que lutar para que pessoas sejam salvas desse mundo, - diriam alguns – pois dessa criação não se pode esperar mais nada. Quem consertaria um computador que seria levado ao lixo no outro dia? Ou melhoraria a casa que foi condenada à demolição pela Defesa Civil? Se por um lado o espírito secularista de nosso tempo proclama um otimismo ingênuo no progresso humano, os cristãos de vertente alienadora exaltam uma espécie de pessimismo sombrio incompatível com a fé judaico-cristã. 

O que propomos é uma visão de mundo realista, sustentada pela meta-narrativa das Escrituras. A Grande História que explica as diversas histórias do nosso mundo. O abandono do otimismo ingênuo e do pessimismo sombrio que dá lugar a realidade da esperança bíblica. A resposta para nossas angustiantes perguntas: Por que o mundo está assim? O que nos impede de colocá-lo nos trilhos, se é que existe algum? O que há de errado com o ser humano? Há algum fundamento para esperança? Nossa resposta está contida não em pequenas sentenças que devem ser recitadas, mas numa grande história que deve ser contada, narrada em um “box com quatro discos blu-ray” – Criação, Queda, Redenção e Consumação.

PRIMEIRO ATO – CRIAÇÃO (Gênesis 1-2)

Esse mundo é o resultado da ação livre das mãos de um bondoso criador. Deus criou um mundo repleto de beleza, justiça, bondade e que foi em certo sentido arrendado ao ser humano para ser compartilhado em igualde de condições. O homem deveria cuidar e levar o mundo a sua verdadeira frutificação. Mas... 

SEGUNDO ATO – QUEDA (Gênesis 3)

Alguma coisa parecia estar errada. Uma serpente falando demonstrava que algo estava fora do lugar. O homem dá um salto de autonomia. Deseja um conhecimento e poder ilimitados. Desconfiaram da bondade de Deus e se rebelaram contra sua autoridade. O jardim que deveria florescer em toda a terra cedeu espaço a um deserto e no lugar de árvores, espinhos. A terra foi amaldiçoada e a morte se espalhou entre as pessoas. O homem fez tudo dar errado. Será que o criador abandonará sua criação? O que ele poderia fazer num cenário desses? 

TERCEIRO ATO – REDENÇÃO, PLANO DE RESGATE (Gênesis 12 – João 21)

É o ato mais longo de todo esse drama. Deus escolhe o desconhecido Abraão e diz que por meio dele reverteria toda a confusão e consertaria tudo o que Adão fez de errado. Mas o que se vê é mais confusão, imoralidade, idolatria, opressão, ganância e por fim, exílio. Nada parece funcionar. Teria o criador perdido as amarras da história? É nesse momento que ele tira uma carta decisiva e a lança na mesa. Deus mesmo vai entrar em cena. Vai desafiar o monstro indomável do mal na fragilidade de uma criança. É ele, Jesus de Nazaré. Vemos sua proclamação de que o reino de Deus estava próximo e suas ações que demonstravam como é o mundo quando governado por Deus. Ele morre de forma brutal, mas não trágica, pois na cruz ele derrotou o mal que tentava impedir os propósitos de Deus para sua criação. Ele ressuscita e antes de ir para o mundo de Deus, a dimensão do Criador, convoca seus seguidores a proclamar que o mal foi vencido e que um novo começo se iniciou, que o projeto abortado no Éden foi reiniciado em sua vida, morte e ressurreição e que um mundo melhor é possível. O que esperar agora?

QUARTO ATO – CONSUMAÇÃO (1Coríntios 15; Apocalipse 21-22)

O que Jesus fez e continua fazendo por meio da vida de seus seguidores no poder do Espírito Santo será completado no dia do seu retorno. O mal foi vencido na cruz e será aniquilado com o aparecimento do Filho de Deus quando a dimensão invisível do Criador ficar visível em toda essa terra. Nesse dia haverá cura completa para o meio ambiente em geral e para o nosso corpo em particular.

Essa é a narrativa que explica nosso mundo. Cremos que o mundo pode ser melhor agora não por causa do homem em geral, mas por aquilo que um homem em particular fez ao morrer e ressuscitar. Pela fé no Cristo que morreu e ressuscitou podemos trabalhar por um mundo melhor, pois temos a esperança que um dia Deus tornará essa criação decadente em uma nova criação. Podemos trabalhar localmente por sabermos que Deus aperfeiçoará nossas ações em escala global. A reforma social é possível devido a redenção em Cristo já ter acontecido. Não precisamos ser otimistas utópicos nem pessimistas distópicos, antes, a fé em Cristo “transcende essas realidades, não se refugiando no céu ou na utopia, nem sonhando estar em uma outra realidade. Ela pode passar os limites da vida humana, cercados por sofrimentos, pecados e morte, somente lá onde eles foram realmente derrubados; somente pela aceitação do Cristo ressuscitado do sofrimento...” (MOLTMANN). 

É certo que não ouviremos isso no próximo Rock In Rio. Mas será que poderíamos ouvir nas igrejas?

terça-feira, 27 de junho de 2017

LOGAN E A TEOLOGIA

Minha relação com os X-Men vem de longa data, quando o desenho era apresentado pela Rede Globo nos anos 90, 1994 para ser mais preciso. Tenho, desse mesmo ano, um Hq do Wolverine nº 34. Sempre que assistia aos episódios eu pensava (lembro que comentei isso uma vez com meu primo George): quando farão um filme dos X-Men, ou do Wolverine? Muita coisa se passou desde então, e ontem pude assistir ao último filme do Wolverine, Logan. Sempre que nos encontramos diante de algo grandioso, alguma coisa nos acontece, uma sensação de alegria, somos tomados por um sentimento de grandeza. Foi isso que me ocorreu ao assistir esse épico do cinema. 

Sei muito bem que o filme é violento. Mas em nenhum momento o diretor rompeu os limites entre violência abordada e maldade explorada de forma desmedida. Percebe-se que "existe um convite para a redenção, a esperança de uma humanidade melhor, e não uma negação niilista do tipo: Essa é a vida real. É melhor se acostumar com ela" (Brian Godawa). O filme conseguiu algo difícil em se tratando de longas de super-heróis, a humanização dos personagens. Somos brindados com emoções verdadeiras tanto de Logan quanto do professor Charles, mas nunca sentimentalismo forçado. O primeiro possui um enorme cuidado com o professor nonagenário, e o segundo nos mostra a dor de uma mente cansada que somente deseja ter uma refeição e uma noite de sono em paz – mais humano, impossível. 

Tendo isso por assentado, quero fazer referência a duas frases ditas em momentos distintos do filme. A primeira foi pronunciada por Charles ao próprio Logan: “Eu sempre sei quem você é. É que as vezes não te reconheço”. Ouvimos isso depois de vermos um Wolverine decadente, alcoólatra, tentando negar quem é ao assumir a profissão de motorista. Sabemos quem é Wolverine, mas não estamos reconhecendo-o. Olhando para a Bíblia, vemos um Deus que nos criou, que sabe quem nós somos, “imagem e semelhança de Deus” (Gn. 1.27), mas que infelizmente não nos reconhece. Fomos criados para refletir a vida de Deus nesse mundo, mas o que espalhamos é morte, indiferença, orgulho, egoísmo, imoralidade e destruição. Caímos num momento da história de nosso estado de bondade inicial (Gn. 3). Somos quem não deveríamos ser. 

A outra frase foi dita por Logan a jovem mutante Laura: “Não seja aquilo que eles fizeram de você”. Que frase bíblica! Laura é uma mutante, produto de laboratório, criada sem nenhum afeto, propensa a ser para os outros aquilo que outros foram para ela. Diante das injustiças sofridas, Laura poderia ter sua identidade distorcida, definida somente por sua dor. Ela precisa ser mais que a soma total de seus sofrimentos. Miroslav Volf, teólogo batista, assim se expressa: “Em vez de sermos definidos pelo modo como os seres humanos se relacionam conosco, nós somos definidos pelo modo como Deus se relaciona conosco”. Laura precisa ter sua identidade definida pelo comportamento de Logan com ela. Como cristão, devo ter meu comportamento alterado não pela injustiça que outros praticaram contra mim, mas pelo amor, misericórdia e bondade realizado por Deus em Cristo Jesus na cruz, lugar onde ele carregou toda nossa culpa e dor. 

Após se despedir de Logan, que foi morto sobre um madeiro (1Pe. 2.24) Laura se encontra diante de uma nova possibilidade, um futuro aberto se apresenta. Da mesma forma, Deus em Cristo Jesus nos promete um futuro de redenção, um mundo de vida, paz, justiça e beleza, um novo céu e nova terra (Ap. 21), o que para Laura seria a esperança do lugar chamado Éden.

Enquanto Logan vive uma decadência física e Charles uma fraqueza mental, o nosso herói Jesus, aquele que morreu, ressuscitou, ascendeu ao céu e em breve voltará de mudança para nosso mundo continua sendo “o mesmo ontem, hoje e para sempre” (Hb. 13.8). 

Obrigado por tudo Wolverine.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

O CRISTÃO E O MEIO AMBIENTE

Nesta última segunda (05/06) comemorou-se o dia mundial do meio ambiente. Uma data tão despercebida quanto nossa atenção dada ao cuidado com a natureza. Muitas igrejas adotam em seus calendários litúrgicos datas comemorativas para serem celebradas no espaço do culto: dia da mulher, dia das mães, dia dos pais são alguns exemplos. Mas qual de nossas igrejas alguma vez realizou o culto com sua temática voltada para o meio-ambiente? Qual foi a última vez que ouvimos um sermão onde fomos exortados sobre nossa responsabilidade com a natureza? Que ministério, dentre os vários que uma igreja possui, é voltado para o cuidado com o meio ambiente? A resposta para esses questionamentos revelará a falha do nosso atual cristianismo. 

Faz alguns dias o presidente Donald Trump anunciou a retirada dos Estados Unidos do acordo de Paris – tratado assinado por mais de 130 países que visa a diminuição de emissão de poluentes das fábricas, bem como outras medidas limitadoras para o aumento da temperatura da terra. Ele mesmo se denomina um cristão conservador. Isso deve explicar sua visão equivocada com o meio ambiente. Ele preserva o equívoco conservador que olha a natureza como algo que só deve ser explorada. A verdade que nos envergonha (ao menos deveria) é que não nos importamos com a natureza. 

Por que perdemos o olhar tão fascinante e ambiental da mensagem bíblica? Boa parte da crise ambiental que temos hoje se deve ao cristianismo. Não o cristianismo das páginas da Bíblia, mas ao cristianismo que se esqueceu de olhar com atenção para o texto bíblico. O mundo atual é um mundo pós-cristão, mas a mentalidade sobre a natureza ainda é uma mentalidade cristã equivocada: a natureza existe para ser dominada e esse domínio se dá pela força destrutiva.

Nosso cuidado com a natureza se dará na proporção que prestarmos mais atenção ao texto bíblico. Precisamos mudar o nosso ainda não admitido referencial gnóstico, que desmerece a boa criação material de Deus, por um referencial bíblico judaico-cristão, que reafirma a bondade da criação apesar de sua atual deterioração, bem como o empenho incansável do Criador em consertar a natureza. Mas como se dará isso? Entender que somos salvos como parte de um projeto maior, a salvação de todo o mundo criado em sua total biodiversidade. Esse novo referencial deve estar presente em nossos cânticos, que infelizmente desprestigiam a beleza da ordem material criada em busca de um escape desse mundo e não na busca de sua redenção. 

Dito isso, será que Jesus entendia que sua missão tinha relação com o destino da terra? Ao nascer, Jesus foi colocado num cocho de alimentar animais. Um grande perigo para uma criança. Esse incidente não descreve somente sua humildade, mas sua missão. O Salvador inaugura, ou serve de sinal, de um novo mundo que surgirá, marcado pela harmonia entre homens e animais. Isso foi um maravilhoso sinal para os pastores. Eles viviam a céu aberto, numa rotina cansativa e perigosa, proteger as ovelhas dos lobos (Lc. 2.8). Os pastores houviram o cântico dos anjos que foi muito carregado de significado para eles (Lc. 2.13,14). Como seria, à luz do olhar de um pastor de ovelhas da época, um mundo de paz? Seria um mundo onde não se precisa arriscar a vida para viver. Um lugar de perfeita convivência entre homens e animais. O fascinante disso tudo é que Isaias já antecipou essa verdade em Is. 11.6-9. Um mundo não marcado pela disputa de território, mas pelo compartilhamento conjunto.

O texto de Mt. 9.1-8 nos leva nessa mesma direção. Por que Jesus diz, nesse texto, que tem na terra poder para perdoar pecados? Somente indo para Gênesis 3.17 onde encontramos uma relação entre o pecado humano e desordem natural. A resposta é que Jesus liberta a terra da maldição perdoando os homens dos seus pecados. Os danos que o pecado de Adão trouxe para a terra começam a ser desfeitos quando Jesus perdoa nossos pecados. Não é sem motivos que Paulo chamou Jesus de o segundo Adão (1Co. 15.45). O primeiro Adão aprisionou a terra ao pecado, o segundo, Jesus, a liberta no precesso de redenção da humanidade pecadora (At. 3.21; Rm. 8.18-21; Ef. 1.9,10; Cl. 1.15-19).

Não podemos entoar louvores ao Deus criador ao mesmo tempo que destruimos parte de sua boa criação. Se somos a imagem e semelhança de Deus, nossa vocação é sermos para a natureza o reflexo do cuidado desse Deus criador.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

EVANGELHO MODINHA

Nesta última terça-feira (09/05), o programa Conversa Com Bial, contou com a participação de três jovens evangélicos que são sucesso nas redes sociais. A conversa se deu em tom muito agradável e Bial em nenhum momento se mostrou agressivo. Entre muitos risos, os convidados buscavam explicar termos oriundos do ambiente pentecostal e neo-pentecostal, tais como: manto; varoa, cheio de azeite entre outros. A seriedade da conversa só foi possível com a participação de um professor ateu (a parte mais produtiva do programa). Foi isso que me chamou a atenção.

Os três convidados evangélicos eram bons para a conversa cômica, porém, inapropriados para explicar o que realmente é o protestantismo. Isso foi tarefa do professor ateu. Foi de seus lábios que ouvimos o grande lema da reforma protestante do séc. XVI, a justificação por meio da fé (mais irônico impossível). Bial soube conduzir seus convidados evangélicos na estrada do discurso irrelevante. A única pergunta escorregadia feita por Bial foi sobre o homossexualismo. Sobre isso não foi nenhuma surpresa a resposta politicamente correta, que poderia ser sintetizada da seguinte forma: na minha igreja eles são aceitos, mas cabe ao Espírito Santo dizer se é errado ou não. 

Mas é claro que são aceitos! Assim como o jovem que faz sexo com sua namorada; ou mesmo aquele que não manteve sua fidelidade conjugal; o mentiroso, o corrupto. Todos são aceitos. Mas são aceitos nos termos do evangelho, para uma mudança radical de vida.

Bial não queria saber o que é pecado, salvação, fé, justificação, Deus, Jesus ou o Espírito Santo. E se o quisesse, não sei se seus convidados estariam aptos para lhe responder. Afinal de contas, tudo girou em torno da subjetividade: eu penso, eu acho, para mim. Em nenhum momento foi citado a fé de Jesus. Nada de novo nisso, pois há muito tempo nos esquecemos o papel de uma testemunha: relatar os fatos do que Deus fez em Jesus e através de Jesus e não sua opinião sobre esses eventos. 

Para que ninguém tire conclusões equivocadas sobre esse post, reafirmo minha admiração por Bial, por sua capacidade em articular as palavras. Também vejo alguns vídeos do pastor Jacinto Manto. Me agrada o fato da graça com os estereótipos evangélicos, mas que em nenhum momento desrespeita o Sagrado. 

Enfim, perto de comemorar 500 anos da reforma protestante, os evangélicos são admirados por serem engraçados, mas preteridos nos assuntos urgentes que assolam nosso séc. XXI. Mas parece que não percebemos isso. Queremos ser bem sucedidos em áreas onde o cristianismo primitivo ou Jesus jamais fizeram sucesso.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

FIM DO MUNDO?

Em posts anteriores afirmamos que Deus não descartará sua criação jogando-a num incinerador cósmico, mas que trará cura e restauração para a ordem criada. Mas como mantermos esse posicionamento diante do texto de 2Pe. 3.10-12? 

Em primeiro lugar, devemos concordar que a passagem é no mínimo complicada. Não admitir isso é não prestar atenção ao texto. Mas isso não quer dizer que ele esteja apontando para uma direção contrária ao ensino da Bíblia em geral ou mesmo da fé judaico-cristã do cristianismo nascente. Ainda que numa primeira leitura se tenha a impressão de que a criação aguarda sua aniquilação completa, podemos dizer, por mais estranho que pareça, que não era isso que Pedro tinha em mente. Admitir o contrário seria criar uma contradição com tudo o que Paulo ensinou, em especial Rm. 8.19-22. 

A primeira coisa para se entender esse texto tem a ver com a tradução. Algumas versões trazem no final do v. 10 “será queimada”, “consumida”. A NTLH diz que “a terra e tudo o que existe nela vão sumir”. Essa tradução é atestada por manuscritos do séc. V e VI. A NVI traz no final do v. 10 o termo “desnudada”. De acordo com manuscritos mais antigos, datados do séc. IV, o sinaíticus e o vaticanus a palavra original seria “descoberta”. Isso muda tudo. Na primeira, a ideia é de destruição completa, na segunda, de purificação. 

Levando em consideração os manuscritos mais antigos, Pedro nos diz que a criação e suas obras serão desnudas, descobertas, expostas de acordo com a antiga intenção do seu Criador. O fogo trará a verdade profunda da criação de Deus. A criação e suas obras quando provadas pelo fogo mostrarão sua real natureza. É algo semelhante ao que Pedro disse sobre a fé (1Pe. 1.7). O fogo em 2Pe. 3.10 é o julgamento moral que destruirá todo o mal. O paralelo aqui é com as águas do dilúvio (vs. 6,7). Não foi a terra em si que foi destruída no dilúvio, mas a impiedade e todos que a praticavam, o mundo conhecido da época de Noé. Pedro descreve uma espécie de limpeza moral completa de toda a ordem criada. O dilúvio trouxe uma limpeza parcial, o aparecimento de Jesus, por sua vez, trará uma limpeza completa. Podemos dizer que a linguagem pessoal do julgamento pelo fogo de Ml. 3.2,3, foi transposta para toda a criação. 

A restauração de uma catedral serve de comparação para entendermos o texto de 2Pe. 3.10: sujeira e outras pinturas acumuladas ao longo dos séculos encobrem as verdadeiras cores de uma catedral. Os restauradores removem meticulosamente essas camadas e descobrem a real beleza que estava escondida. A catedral, depois disso, mesmo tendo vários séculos de existência, pode ser vista como inteiramente nova. 

Queremos, com esse exemplo, dizer que não haverá uma abolição da criação, antes, o julgamento retirará as diversas camadas de corrupção acumuladas ao longo de milênios de história humana. Retiradas essas camadas, a beleza, justiça e bondade sem limites inundarão a criação, trazendo com isso, novos céus e nova terra (v. 13). Note que Pedro não espera depois do fogo, o nada, ou um céu etéreo, mas um novo mundo. Noé surgiu, depois do dilúvio, em um aparente mundo novo. Pedro descreve que após o julgamento do fogo, surgirá, verdadeira e definitivamente um novo mundo. Segundo o texto, a nova criação brotará da velha criação. Deus não fará, com isso, um novo ato semelhante ao de Gn. 1.1 – do nada – mas a partir do que ele já fez. Ou seja, do já existente ele trará algo novo. O autor aos Hebreus traz uma imagem diferente quando comparada ao texto de Pedro (Hb. 12.26-28). De um mundo abalado por Deus, sacudido, surgirá um mundo mais sólido.  

A linguagem do julgamento descrita por Pedro não pode ser separada do ensino bíblico de que a criação é fruto das mãos do bondoso Criador. Se a criação não é algo bom, o julgamento a consumirá por completo. Se ela ainda é a boa criação de Deus, mesmo sabendo que se encontra fora dos trilhos, o julgamento a resgatará, punindo somente aquilo que a desfigura.

sábado, 4 de março de 2017

SOBRE A DIFÍCIL DOUTRINA DO INFERNO - Mc. 9.43-48

INTRODUÇÃO

Alguns assuntos são difíceis de serem compreendidos. Temos dificuldade de assimilar um assunto por causa de sua complexidade (a trindade, por exemplo), ou recusamos uma doutrina por causa da aparente repulsa moral que ela nos provoca: como admitir a existência do inferno com a mensagem de um Deus de amor pregada pelo cristianismo? 

Em nossa época pós-moderna, não há espaço para assuntos que inibam o comportamento das pessoas, ou que digam que suas ações têm consequências eternas. Ninguém quer ouvir algo que incomode sua consciência. Queremos ir à igreja e ouvir alguma coisa que nos ponha para cima, que nos traga alegria, que mostre o quanto somos bons ou mesmo valiosos. Como pregar sobre o inferno num cenário desses?

Há outro problema também: alguns falam do inferno de uma forma tão caricata que na imagem popular o inferno se tornou o lugar de reinado do diabo (quem nunca ouviu a expressão, “nem o diabo quer ele no inferno"?), um folclore dos evangélicos. É comum vermos vídeos compartilhados por cristãos onde as pessoas são atormentadas no inferno pelos demônios (como no filme Constatine). Basta uma rápida pesquisa na internet para confirmar o que eu digo.

Por isso não quero ser nessa noite um pregador medieval. Alguém que fala do inferno como se ele fosse uma masmorra que satisfaça o desejo sádico por tortura de um deus maldoso. Ou mesmo alguém que tem o desejo mórbido para ver pessoas sendo punidas eternamente. 

INFERNO, UMA DOUTRINA INTOLERÁVEL

Todos concordam que possa existir um Deus de amor que perdoa, mas um Deus que julga e condena, isso não. É algo ofensivo. Um filósofo holandês (Hermann Dooyeweerd), disse certa vez que a fé natural do homem se torna incredulidade diante da verdade da Palavra de Deus.

A doutrina do inferno é um golpe mortal ao sonho moderno marcado pela busca do poder. Quantos líderes ao longo da história massacraram inocentes somente para que seus ideais de grandeza fossem satisfeitos? Quantos governos comunistas tiveram suas bandeiras tingidas pelo derramamento de sangue? Milhões de pessoas morreram sob o peso de regimes comunistas. A doutrina do inferno diz para esses ditadores: há um preço a pagar. Não ficarão impunes para sempre. 

O desejo por poder não é visto somente na vida de ditadores, mas também no comportamento do cidadão comum. Queremos que tudo seja alterado para se ajustar aos nossos desejos. A única verdade absoluta para o homem moderno é seu próprio desejo. Somos aqueles que determinam o que é certo e o que é errado (Is. 5.20). No programa do GNT, Papo de Segunda, Leo Jaime disse que temos a “liberdade de encontrar o prazer onde ele estiver”. O erro foi abolido da mentalidade moderna. Nos encontramos na época em que os insultos devem ser redefinidos e não abandonados. A mulher da atualidade tem o "direito de ser vadia ou piranha" (isso foi dito por uma mulher num programa de TV). É o chamado direito para se fazer o que bem deseja com o corpo. Todos devem aceitar isso. Só não se aceita que alguém discorde desse comportamento. Estamos numa época em que o mal é glamourizado, é o estilo de vida alternativo em um mundo sem sentido. 

Isso cria um embate com a mensagem do evangelho: ou as pessoas possuem o direito de determinar o que é certo e errado ou aceitam que haverá um julgamento final e condenação para os que adotaram o erro como prática de vida. Por que alguém deveria ser julgado pelo seu adultério se para ela não há nada demais em adulterar? A resposta fica com o apóstolo Paulo (cf. Rm. 2). Pelo fato da Bíblia ser a revelação de Deus, uma hora ou outra ela vai contrariar nossas opiniões. Já foi dito que o verdadeiro ópio do povo é a crença no nada após a morte. A ideia de que nossas traições, ganância, inimizades, imoralidades não serão julgadas. Esse é o melhor dos consolos para aqueles que se acham no direito de fazer o que bem entendem. 

CORRIGINDO A VISÃO POPULAR DO INFERNO

Quando falamos em inferno vem logo a nossa mente Deus lançando pessoas que imploram por piedade às chamas eternas. Essa imagem faz com que fiquemos do lado dos que são condenados e um pouco receosos com a atitude implacável de Deus. Podemos afirmar que isso é uma caricatura e não a imagem real. 

A palavra inferno, é gehenna, que no hebraico é Hinon, Vale de Hinon, um antigo lugar onde se fazia sacrifícios humanos (2Rs. 16.3; 21.6). Por ter sido considerado imundo, se tornou um depósito de lixo com fogo constante e matéria orgânica em decomposição, daí a imagem do bicho que nunca morre e do fogo que nunca se apaga. Logo, a imagem do fogo e do bicho é uma comparação feita por Jesus, não uma descrição literal do inferno. O fogo pode estar relacionado com a desintegração da personalidade humana, e trevas, outra imagem bíblica do inferno (Mt. 25.30), pode significar isolamento. O inferno é o lugar onde as pessoas estarão cada vez mais afastadas de Deus e umas das outras. 

A história do rico e Lázaro contada por Jesus nos dá algum indício da realidade e horror do sofrimento (Lc. 16.19-31). O rico parece ignorar a inversão de situação. Ele encara Lázaro como seu servo, uma pessoa de recado. Ele dá a entender que Deus não deu alerta suficiente sobre a realidade da condenação. Ele mesmo não pede para sair do lugar de sofrimento. É alguém que não possui nome, é somente o homem rico. Sua identidade se perdeu com a perda da riqueza, ao contrário de Lázaro. 

No inferno, o egoísmo e orgulho que marcam todos os pecados, crescerá por toda a eternidade, ao ponto de ninguém desejar nem mesmo sair do lugar de condenação, mesmo diante da dor e sofrimento. Seu orgulho e egoísmo não permitem. É um estado sub-humano, serão pessoas desumanizadas, nem mesmo poderão provocar o sentimento de compaixão nos outros. Cada vez menos refletirão a imagem do Criador. Sméagol, o Gollun de O Senhor dos Anéis, exemplifica muito bem isso. Se tornou uma criatura grotesca ao encontrar o Um Anel, o próprio poder do mal (Um Anel para a todos governar, um Anel para encontrá-los; Um Anel para todos trazer e na escuridão aprisioná-los - não resisti!).

O INFERNO ANTES DA MORTE

É costume relacionarmos o inferno a uma realidade somente depois da morte para os que recusam a mensagem do evangelho. Mas podemos identificar a desumanização do homem, a desintegração de sua personalidade, seu isolamento constante, o orgulho avassalador bem como seu egoísmo crescente na vida daqueles que por não seguirem a Jesus, por não adorarem ao Deus verdadeiro vivenciam a realidade do inferno em estado crescente em suas vidas. Quantos não se encontram assim pelo aprisionamento ao vício, ao sexo, dinheiro, poder, maldade? Um estado verdadeiramente desumano. 

A SOLUÇÃO

Aqui entra a boa notícia do evangelho. Jesus era judeu, um homem de pouco mais de trinta anos. Ele acreditava que Deus por seu intermédio estava cumprindo seu antigo propósito de salvar a criação. Por isso ele morreu na cruz, para que o mau fosse derrotado e o perdão de Deus irradiasse por todo o mundo. Ao ressuscitar dos mortos ele iniciou o projeto da nova criação e aqueles que o seguem passam a fazer parte deste projeto de renovação de todas as coisas. Quem está em Jesus é nova criação (2Co. 5.17) e por causa disso, não há mais condenação para seus seguidores (Rm. 8.1). Essa é a boa notícia que nos livra da condenação do inferno. 

Glória ao Pai, Glória ao Filho, Glória ao Espírito Santo.

domingo, 22 de janeiro de 2017

GÊNESIS 1-2, UMA RELEITURA

A história de Adão e Eva é do conhecimento de todos os judeus, cristãos e boa parte de não cristãos. É quase um patrimônio religioso-cultural da humanidade. Ouvimos sua narrativa na igreja bem como seu escárnio das vozes do assim chamado novo ateísmo. Nossa intenção com esse post não é reafirmar o que já se diz ao longo do tempo sobre Adão e Eva (que eles foram o primeiro casal da terra), nem tão pouco rebater as críticas ateístas sobre essa parte da Bíblia (que ela seria um mero mito destituído de fundamentação histórica), mas sim, permitir que o texto nos fale de uma nova maneira. 

É preciso dizer, em primeiro lugar, que essa releitura vem sendo feita por teólogos como Derek Kidner, John Walton e N. T. Wright, logo, não há nada de original nesse artigo, exceto o ordenamento das ideias desses estudiosos. Em segundo, continuo acreditando na autoridade da Bíblia bem como na criação da humanidade como ato criativo de Deus, ou nas palavras do renomado teólogo batista do séc. XIX, A. H. Strong: “As Escrituras, por um lado, negam a ideia de que o homem é um simples produto das forças naturais irracionais. Elas ligam a sua existência a uma causa diferente da simples natureza, a saber, é um ato criativo de Deus”. 

A leitura comum (não que seja errada) é vermos Adão e Eva como os primeiros e únicos humanos no início dos capítulos 1-3 de Gênesis. Mas é possível que tenhamos em Gn. 1.26 a criação de pessoas em massa, ou de uma humanidade geral e não de dois indivíduos particulares, Adão e Eva no nosso caso. O hebraico Adan (Adão) significa humanidade, bem como nome próprio. Na estrutura da criação, Deus cria um incontável número de animais e logo os abençoa com a dádiva da procriação (Gn. 1.20-27), o mesmo podendo ter ocorrido com o gênero humano.

Adão e Eva seriam neste caso, possíveis descendentes do grupo humano original de Gênesis 1.26. Em Gênesis 2 eles foram escolhidos como representantes da humanidade formada, ou seja, eles entram na história em um mundo já povoado. Adão e Eva são os únicos colocados no jardim do Éden com uma espécie de função sacerdotal. Uma função sagrada num espaço sagrado. Por meio desse casal os propósitos do Criador irradiariam por toda sua criação, a terra seria levada a sua verdadeira frutificação, se encher do conhecimento do SENHOR como as águas cobrem o mar. Através desse lugar e por meio desse casal a vida do Criador irromperia trazendo ordem, paz e justiça. A desobediência traria a morte, o caos, a desordem, tanto para sua descendência quanto para seus contemporâneos fora do jardim. 

Logo de cara surgem algumas dúvidas: se Adão não foi o primeiro homem criado, então nem todos são descendentes dele. Respondemos dizendo que a única descendência preservada na terra foi a de Adão e Eva. Os demais humanos presentes no grupo inicial criado em Gn. 1.26 teriam chegado ao fim com o dilúvio. Essa seria a razão de Gn. 3.20 falar que Eva seria a mãe de toda a humanidade. Outra objeção seria dizer que se Adão não foi o primeiro homem criado, teríamos que admitir que houve uma classe de pessoas sem pecado. Não necessariamente. O pecado é mais que uma questão de hereditariedade, mas sim de solidariedade. Adão é o representante de todos, desde seus contemporâneos aos seus descendentes. Somos o que somos em decorrência de Adão, da mesma forma que somos quem somos em decorrência de Cristo. Jesus é o arquétipo, aquele que nos representa, alguém que consertou o erro do primeiro arquétipo, Adão. 

Mas se Adão não foi o primeiro homem criado, como entender que Deus o formou do pó da terra (Gn. 2.7)? Não é preciso interpretar literalmente essa passagem. Pode ser uma metáfora para descrever que assim como Adão, todos nós somos formados por Deus, somos frágeis (pó da terra). Uma linguagem semelhante pode ser vista em Jó. 10.8; Sl. 119.73; 139.13. Não se pressupõe dessas passagens que o autor não tenha sido formado por meio de um processo biológico normal, somente porque usam termos como: “tuas mãos me formaram”. Adão foi sim um personagem histórico, mas sua narrativa encontra-se em linguagem mitificada, metafórica.

Sim, tudo bem, mas como entender a formação da mulher segundo essa posição (Gn. 2.21,22)? Podemos afirmar que é o mesmo quando se diz que Deus formou o homem do pó da terra, ou seja, linguagem metafórica. O sono profundo em que Adão se encontrava se enquadra muito com o sono profundo de Abraão em Gn. 15.12s, momento em que o patriarca recebe uma revelação de Deus. O sono profundo de Adão, ou seja, a informação dada por Deus de quem seria Eva, bem como o tomar de uma de suas costelas, seria uma forma de dizer que foi Deus quem preparou, escolheu por esposa uma mulher para Adão.

Essa leitura de Adão e Eva não suscita somente dúvidas, ela esclarece alguns problemas no texto de Gênesis. Muitos perguntam quem teria sido a esposa de Caim (Gn. 4.17)? A resposta, para alguns, está em afirmar que Caim casou com uma de suas irmãs, semelhante a dinastia Targaryen das Crônicas de Gelo e Fogo. É certo que Adão e Eva tiveram filhas (Gn. 5.4) mas o texto de Gn. 4.17 pressupõe que Caim já se encontrava casado, e segundo Gn. 5.4, uma filha de Adão e Eva só foi gerada depois do nascimento de Sete. Outra possibilidade é admitir que Adão e Eva não estavam sozinhos, e que Caim casou com alguma dessas pessoas. Se não havia outras pessoas além de Adão e Eva, qual o motivo de Caim pensar que se alguém o encontrasse poderia vingar o sangue de seu irmão Abel (Gn. 4.14)?

Além do mais, os vestígios de vida humana parecem ser mais antigos que o estilo de vida descrito em Gênesis 4. Há indícios do surgimento de cultura datadas de 30.000 a 40.000 anos, enquanto o estilo de vida de Gn.4, criação de animais e agricultura, pertencem ao período neolítico, 8.000 a 10.000 anos atrás. Temos um lapso de tempo de 20.000 a 30.000 anos, se Adão foi o primeiro homem criado e Caim o primeiro agricultor. A não ser que Adão seja mais próximo a nós que os humanos iniciais de Gn. 1.26. 

Por último, a visão de Adão e Eva como pessoas escolhidas em benefício dos demais faz parte do fio condutor presente no quadro narrativo do Antigo Testamento com a escolha de Abraão. A vocação conferida a Adão e Eva é reafirmada em Abraão (Gn.12) da seguinte forma: Deus escolhe Abraão para ser o veículo por meio do qual a benção de Deus alcançaria todos os povos, da mesma forma que a obediência de Adão e Eva abençoaria toda a criação. Abraão recebe a promessa de que seria pai de uma multidão, da mesma forma que Adão e Eva gerariam sua descendência exercendo a ordem de multiplicar-se. Abraão recebe a promessa de herdar uma terra onde Deus habitaria com seu povo, no caso de Adão e Eva, o paraíso, onde se encontravam desfrutando da presença de Deus. A família de Abraão, em caso de infidelidade à aliança, seria expulsa da terra, indo ao exílio. O mesmo destino de Adão e Eva, que por desobediência foram expulsos do jardim. Abraão e sua família foram chamados para desfazer o erro de Adão, mas eles também incorreram na mesma falha. Deus suscita um israelita fiel, Jesus, descendente de Abraão, ou como disse Paulo, o segundo Adão, que desfez o erro do primeiro, cumprindo a promessa de que todos os povos da terra seriam abençoados.

Essa é uma possibilidade de releitura, um acréscimo ao entendimento comum sobre Adão e Eva, e não o seu substituto, afinal de contas, “teologia se escreve a lápis”.

sábado, 24 de dezembro de 2016

NATAL

INTRODUÇÃO

Todos nós que somos evangélicos já ficamos um pouco com dúvida sobre a validade ou não da celebração do natal. Depois do crescimento do movimento neopentecostal, muita coisa começou a ser dita sobre o erro que é, cristãos celebrarem uma festa que não tem recomendação bíblica. Muitos dizem que uma árvore de natal é um poste ídolo semelhante aos que existiam nas culturas idólatras da época bíblica. Já ouvi sendo dito pela televisão que os enfeites da árvore de natal têm relação com as cabeças das crianças sacrificadas e que eram penduradas nos galhos das árvores.

O que fazer diante de tudo isso? Vamos por parte. Primeiro devemos jogar fora a água suja da bacia, mas não a criança que está dentro dela. 

COLOCANDO AS COISAS NOS DEVIDOS LUGARES

O natal não é uma festa que se encontra na Bíblia. Não dispomos de uma única recomendação para que os cristãos celebrem o nascimento de Jesus, bem como não há nenhum relato de que a igreja primitiva tenha feito tal celebração. Isso não quer dizer que a festa do natal não possa ser bíblica. Por exemplo: a Bíblia não fala em namoro. Isso quer dizer que não devo namorar? Não. Mas se eu namoro, o meu namoro precisa ser bíblico. O mesmo se dá com a festa do natal. 

A primeira evidência da celebração do natal entre os cristãos vem do séc. III com Hipólito, bispo de Roma. Era uma celebração feita em 2 de janeiro. Foi somente no ano 336 que a data de 25 de dezembro foi proposta. Nessa data era costume em Roma a celebração pagã ao sol invictus. Era a festa da saturnália, ou festa a saturno, o deus sol. Não é tão correto dizer que o natal tem uma origem pagã. A data de 25 de dezembro é que tem essa origem, não a celebração do natal. O natal foi uma festa que substituiu a celebração pagã ao deus sol. 

Não vejo nisso problema algum. Se devemos abandonar a celebração do natal somente porque o dia 25 de dezembro era inicialmente dedicado a uma celebração pagã, teremos que abandonar muitos de nossos hábitos. Eis alguns: 

· Maquiagem. Origem pagã entre os egípcios com o objetivo de afastar os maus espíritos. 

· Festa de aniversário. Os gregos dedicavam bolos com velas a determinados deuses. Acreditava-se que espíritos poderiam fazer mal a pessoa no dia de seu nascimento. Nesse dia os familiares se juntavam com os amigos e ofereciam presentes como meio de proteção. As velas no bolo tinham esse significado também. 

· Aliança de casamento. Os egípcios e os gregos usavam no mesmo dedo que usamos hoje, pois achavam que o terceiro dedo da mão esquerda possuía uma veia que levava diretamente ao coração. 

· Reveillon. A primeira comemoração foi feita na Babilônia. Foi em Roma que se estabeleceu que o primeiro dia do ano novo seria 1º de janeiro. Janus (daí janeiro) era um deus romano, das portas e dos portões. Ele que deveria abrir as portas do ano novo. 

Nós, os cristãos, embora adotemos todas essas práticas (sei muito bem de suas exceções), não o fazemos como pagãos, mas como pessoas que purificaram esses costumes. Para que a cultura seja reformada nós devemos interagir com ela de maneira redentora, não pelo isolamento alienador. Isso se dá também com o natal. Chegamos aqui na famigerada árvore de natal. Sua origem, tão combatida por determinados líderes evangélicos, é incerta. Acreditasse que venha dos países escandinavos, onde era costume ornamentar as casas e colocar um pinheiro nessa época do ano. Sabe-se muito bem o fascínio que o paganismo nutria pelo culto às árvores. Mas não tire conclusões precipitadas. Até onde eu sei ninguém presta culto a árvore de natal em casa. Não atribuímos função religiosa para ela. Não se pode usar Jeremias 10 como se a Bíblia condenasse o seu uso. Isso é uma gritante distorção do texto. Não se forma um ídolo com a árvore de natal, muito menos ela é vista como um ídolo, mas somente como um ornamento dessa época do ano. 

Alguns afirmam que foi Martinho Lutero quem fez uso pela primeira vez de uma árvore na celebração do natal. Diz a lenda que ao andar por uma estrada a noite, Lutero ficou encantado com o brilho das estrelas por entre os galhos de uma árvore. Ele levou para casa um galho de pinheiro e o enfeitou com o objetivo de representar a bela imagem. 

INCOERÊNCIAS DOS NATAL

O problema no natal não está em sua data inicial ter sido uma data pagã, mas em sua atual secularização. É uma época para consumismo. As lojas lucram muito nessa época do ano. Não há problema no consumo assim como nos lucros das lojas. Mas quando associamos o natal a um simples dado econômico, alguma coisa está errada. Todos ganham presente nessa data, menos o aniversariante. A figura do papai Noel superou à do próprio Jesus no natal. O bom velhinho que dá presentes e não o salvador do mundo é que são lembrados. 

SIGNIFICADO BÍBLICO DO NATAL

O natal não é simplesmente a comemoração do nascimento de uma criança, é a celebração da encarnação do Deus verdadeiro que se fez homem. É Deus entrando em nossa história de maneira pessoal. Ele está desembarcando num terreno que se tornou hostil a sua presença. Em meio a pessoas que voltaram suas costas para ele. Ele vem na verdade para uma operação de resgate. Na verdade, um resgate muito arriscado, isso porque ele vem como um recém-nascido. Mas não se iluda, ele é o Messias, o rei prometido, o Senhor de toda a criação (Lc. 2.8-18). 

A antiga promessa de Gn. 3.15 foi o disparo do cronômetro para o grande cumprimento desse plano. Milhares de anos se passariam. Mas na hora certa, no ano certo, na cidade certa e com os pais certos ele surgiu (Gl. 4.4-7). 

O natal é mais que o simples desejar boas festas, ou votos de felicidades. É a poderosa notícia de que o salvador veio a esse mundo. Deus arregaçou suas mangas e mostrou seu braço forte como bem disse Isaias 52.7-10 (A MENSAGEM). Mas essa imagem do braço forte de Deus em Isaias faz contraste com o braço frágil da criança na manjedoura. Mas com o tempo esse braço frágil iria adquirir músculos. Esse braço, com o tempo se mostrou poderoso para curar enfermos, conceder perdão de pecados, para abençoar refeições, para restaurar vidas. Esse braço do Senhor se mostrou poderoso quando foi estendido e pregado na cruz. Se mostrou poderoso para abençoar seus discípulos após sua ressurreição. E se mostra atualmente poderoso governando o nosso mundo. E se mostrará mais uma vez poderoso quando voltar para aniquilar todo o mal em sua criação. 

Celebremos o natal. “Aquele que foi colocado no útero de Maria pelo Espírito Santo; na manjedoura pelas mãos de Maria; na cruz pelos soldados romanos e na sepultura por José de Arimateia”. Celebremos o natal. “Pois o útero ficou vazio; a manjedoura está vazia, a cruz ficou vazia e a sepultura se encontra vazia”. Mas o céu e a terra bem como nossos corações estão cheios de sua presença. 

Celebremos todos o natal.

domingo, 27 de novembro de 2016

O EX-REGENTE DO CORAL NO CÉU?

Quem nunca ouviu falar que antes da queda o diabo era regente do coral no céu que atire o texto de Ezequiel 28.13. Não posso precisar em qual momento esse pensamento viralizou no inconsciente coletivo dos cristãos evangélicos, mas é inquestionável a sua influência na vida de muitos deles. Ellen G. White afirma essa ideia em algum de seus escritos, sendo possível encontrar aí o epicentro responsável pelos tremores dessa ideia que derrubou os muros do bom senso teológico da mente de vários evangélicos. 

Para alguns comentadores, encontra-se no capítulo 28 de Ezequiel duas personalidades. Dos versículos 1-10 teríamos o governante de Tiro, mas a partir de Ez. 28.12-19 o profeta estaria descrevendo a carreira do diabo, pois, segundo esses expositores, os termos usados não poderiam se aplicar a nenhum rei humano. 

Sobre ter sido o diabo antes da queda o regente do coral no céu, o versículo usado seria o 13b, onde se diz que os tambores e pífaros foram feitos quando da criação desse querubim. Aí já deu para perceber a associação. Sim eu sei, os anjos cantam (e como cantam no céu), mas dizer que o diabo antes da queda regia o coral lá, é ir além da mensagem bíblica. Outras versões preferem traduzir tambores e pífaros por engastes e guarnições (NVI) pois o termo faria mais sentido à descrição desse querubim revestido de pedras preciosas (v.13a), semelhantes ao do peitoral do sumo sacerdote (Ex. 28.17-30). O que se pensa ser um tamborim (Versão Revista e Corrigida), na verdade seria o suporte para fixar essas pedras em sua roupa.

Mas ainda que não exista base para se afirmar essa suposta regência no céu, o texto faz referência ao diabo? Novamente a resposta é negativa. Não faz sentido dizer que porque Ezequiel chama o líder de Tiro de príncipe (v. 1) e depois de rei (v. 12) teríamos dois personagens distintos, o primeiro homem e o segundo um ser angelical. Podemos ver que o rei Zedequias podia ser chamado de príncipe comparando o texto de Jr. 21.1 com Ez. 12.10, o que prova serem termos intercambiáveis. 

Faz mais sentido ao texto entender que do início ao fim do capítulo 28 Ezequiel esteja falando somente do rei e da cidade de Tiro. O rei é confrontado com sua própria autodeificação ilusória. O profeta já tinha feito isso com a própria cidade de Tiro no capítulo 27. A cidade era uma potência marítima, cuja glória durou do 12º ao 6º a.C. Em seu porto circulava as mercadorias de todas as nações. Por isso Ezequiel compara a imponente cidade a uma grande embarcação (Ez. 27.1ss), mas que em breve naufragaria (vs. 25-36). 

Para o rei de Tiro, tanto sua riqueza acumulada quanto sua sabedoria diferenciada eram vistos como seu marcador de identidade divina (Ez. 28.1-5). Sentia-se um deus sentado num trono invencível. Por causa disso, o verdadeiro Deus traria estrangeiros inimigos pondo à prova sua divindade (vs. 6-10). Diante de sua própria mortalidade sua humanidade seria exposta e sua divindade desmascarada (v.9). 

A partir do versículo 12, a linguagem de Ezequiel muda drasticamente. Assim como para se fazer uma curva um veículo deve diminuir sua velocidade, senão ele continuará em linha reta, o mesmo se dá nesse ponto do texto. Temos que desacelerar nossa leitura, pois do contrário bateremos no muro que interpreta esses versículos como uma referência ao diabo. O texto de Gênesis 3 não nos diz que no Éden havia um querubim, mas que foram colocados querubins como medida de proteção para a árvore da vida (Gn. 3.24). Da mesma forma, lemos que o tentador foi uma serpente, um animal criado, e não um ser angelical (Gn. 3.1). É claro que hoje sabemos que o diabo estava envolvido, mas não podemos pensar que Ezequiel tivesse essa leitura do texto de Gênesis. Além do mais, em Gênesis vemos a presença do tentador no Éden, um ser já corrompido, mas nunca nos diz, nem em nenhum outro lugar das Escrituras, que esse tentador foi algum dia um querubim (cf. Ap. 12.9). 

O que nos resta dizer então é que Ezequiel passa a descrever o rei nos termos de sua própria divindade, descrito em linguagem celeste, não porque era divino, mas porque se imaginava assim. Penso que Ezequiel faz isso usando termos de sua própria tradição judaica bem como de alguma fábula conhecida entre os seus contemporâneos: Éden é o termo acadiano edinu, que significa planície; querubim ungido pode lembrar os querubins acima da arca; monte santo é o lugar da habitação de Deus como atestam os textos de Sl. 43.3; 48.1,2; Ez. 20.40, havendo até mesmo uma associação com o monte Zafom, montanha mítica para os fenícios (Sl. 48.2), lugar da habitação dos deuses. Temos então uma história mítica, ambientada na narrativa de Gn. 2 e 3, que fala de um ser celeste primitivo, ideal, belo, sábio, rico, mas que por seu orgulho foi expulso do jardim de Deus, ou monte santo (qualquer semelhança é mera coincidência com o imaginário popular da queda do diabo). 

O que Ezequiel diz para o rei de Tiro nos versículos 12-19 é o que já havia alertado nos versos 1-10. Ao confrontar o homem que julgava ser deus (vs. 1-10), Ezequiel diz que inimigos o enfrentariam, agora, falando com o rei como se ele mesmo fosse divino (vs. 12-19), é o próprio Deus quem o enfrentará (v. 16). O lamento que Ezequiel deveria entoar (v. 12) torna-se, na verdade, um cântico irônico.

sábado, 22 de outubro de 2016

A GRANDE HISTÓRIA, PARTE II

Já assistiu aquele filme que a trama é tão complexa que na ausência de um personagem a história ficaria completamente sem sentido? Costumamos chamá-lo de herói. Alguém que é o centro gravitacional de todos os acontecimentos. Sua função é convidar o público a enxergar “o mundo da história através de seus olhos” (Christopher Vogler). 

Na Grande História, Jesus é esse herói. Ele mesmo afirmou isso ao dizer que não veio para ser servido, mas para servir. Mais do que uma demonstração de humildade, essa afirmação descreve alguém convicto de uma vocação, agir em favor dos outros. Aliás, a palavra herói no grego significa proteger e servir. Desta forma entendemos melhor o dito de Jesus. Sendo herói, ele nos convida a enxergar a longa história do Deus Criador narrada no Antigo Testamento através de seu próprio olhar. Mas de que forma? Preste atenção para não perder nada desse longa-metragem.

Jesus é o quarto ato de um longo drama. O primeiro ato foi a criação (Gn. 1-2), o segundo ato foi a Queda (Gn. 3) e o terceiro o chamado de Abraão e seus desdobramentos (Gn. 12 até Malaquias). Deus prometeu grandes coisas para o mundo através de Abraão e sua descendência. Percebemos, porém, que a grande vocação dada a família de Abraão, de ser o estranho veículo através do qual a benção de Deus alcançaria todos os povos, não se sustenta. Israel foi infiel ao chamado de refletir Deus para o mundo, e assim como Adão e Eva, absorveu a realidade da morte para si. Nesse momento surgem flashes de um antigo casal que foi levado ao exílio (Gn. 3). A história desse casal (Adão e Eva) se repete na vida da família de Abraão (Israel).

Mas se Israel não cumprir sua vocação, o propósito do Criador de abençoar todas as nações e libertar sua criação será abortado. Deveria ele escolher outro povo e recomeçar seu plano? Sua fidelidade a aliança será anulada? Surge aqui um personagem vindo do futuro, como flash em Batman vs Superman (perdoem o spoiler), que responde essas indagações e diz: Certamente que não. Seja Deus verdadeiro e todo homem mentiroso (Rm. 3.3,4).

Deus levantará um israelita fiel, alguém capaz de levar a história de Israel ao seu verdadeiro cumprimento. Esta pessoa será para Israel o que Israel deveria ser para o mundo, o veículo da benção que alcançará todos os povos.

Surge enfim Jesus. De uma forma muito arriscada ele incorpora em sua própria vida a antiga esperança da vinda de um grande e definitivo rei, da restauração do templo, lugar da glória do SENHOR bem como do tão aguardado retorno de Deus ao seu povo. Mas como ele poderia fazer isso? Proclamando em alto e bom som: O tempo é chegado e o reino de Deus está próximo (Mc. 1.15). 

O tom revolucionário da linguagem do reino unido à esperança de sua vinda, junto às frustrações de vários movimentos messiânicos, iria romper o dique represado das águas do longo plano de Deus, varrendo o mal concretado no mundo, surgindo em seu lugar uma nova humanidade e um mundo novo.

Se a notícia da proximidade do reino foi como um raio no céu, as ações de Jesus foram o estrondo desse raio que caiu na palestina do século I. Ele curou, realizou milagres, perdoou pecados, participou de refeições, contou histórias, tudo isso para demonstrar, de todas as formas possíveis, que o reino de Deus estava sendo inaugurado na terra como no céu. Uma nova ordem estava irrompendo no mundo de espaço, tempo e matéria. O que Jesus fazia não era simplesmente curar e salvar as pessoas, mas por meio de pessoas curadas e salvas, levar os propósitos do Criador para sua boa criação.

Não entender isso é o mesmo que apreciar uma paisagem de uma janela sem antes ter retirado suas persianas. Muitas pessoas por não entenderem a vocação de Jesus, confundem, com isso, a persiana com a paisagem por detrás dela. Por exemplo: sabemos que ele veio para Israel, seu povo, mas como este não o aceitou, ele se voltou para as demais pessoas. Costumava ouvir, com base nisso, que a nossa salvação se deve ao fato de Israel ter recusado Jesus, o Messias. Os dados históricos estão certos, mas a interpretação está errada. Deus não escolheu Israel em detrimento das demais nações, mas em favor delas. O amor de Deus por Israel irradiaria para todos os povos alcançando toda a criação. O amor exclusivo se tornaria expansivo. Jesus, com isso, salva seu povo de seus pecados (Mt. 1.21) em benefício da salvação de todos os povos, não como base de alguma expiação limitada. Ele se volta para as ovelhas perdidas da casa de Israel (Mt. 10.5,6) para que Israel se volte para o mundo (Mt. 28.19,20). 

Jesus disse certar vez: O Filho do homem tem na terra autoridade para perdoar pecados (Mc. 2.10). Ao pecar, Adão perdeu sua autoridade na terra, e como consequência a maldição invadiu o mundo criado (Gn. 3.17). Ao perdoar pecados, Jesus inicia o processo de libertação da criação, pois se o pecado de Adão aprisionou o mundo, o perdão dado por Jesus o liberta. Ele assumiu a responsabilidade em seus ombros de levar ao seu verdadeiro cumprimento o que a benção de Abraão prometia e deveria lidar, mas que parecia ser incapaz de realizar. É isso o que vemos em cada página dos evangelhos. 

Ele entendia, com seu apurado conhecimento das Escrituras do Antigo Testamento, que deveria levar a história de Deus com Israel ao seu momento decisivo. Com isso em mente, se dirige para Jerusalém (Mt. 21) com a estranha missão de cumprir o tão aguardado retorno de Deus ao seu povo. Alguns profetas disseram que um dia Deus voltaria para Jerusalém e entraria no templo (Is. 40.3-5; 42.7-10; Ez. 43.1-9; Zc. 2.10-12; Ml. 3.1-4). Jesus sabe que se estiver errado, no melhor dos cenários estaria equivocado, e no pior, seria encarado como um lunático. Ele estava disposto a correr esse risco. Em Jerusalém ele conta a história de um antigo dono de terras que depois de uma longa viajem um dia retornaria (Mt. 21.40; 25.19). O proprietário em questão era Deus. Ele havia deixado seu povo durante o exílio, esse é o referencial da história. Jesus estava dizendo: a espera pelo retorno acabou, chegou o momento de Deus revisitar seu povo. Mas quem tinha entrado em Jerusalém e no templo era o próprio Jesus. A conclusão não poderia ser outra: Deus revisitou seu povo na pessoa desse jovem profeta da Galileia. A esperança se cumpriu, mas de uma forma nunca esperada. 

Ele liderou a decisiva batalha de Deus contra o mal e venceu. Mas isso será uma outra história. 

Esse é o olhar do nosso herói. Não um olhar de filósofo, mas nem por isso menos complexo, nem de um teólogo, mas nem por isso menos religioso, ou mesmo de um cientista, mas nem por isso menos objetivo. É simplesmente o olhar de Jesus.