sábado, 3 de março de 2018

CRISTIANISMO VIKING

Não é preciso dizer muito sobre a atração que a série Vikings produz em seus fãs. Quem nunca ficou fascinado ao assistir na TV soldados destemidos, de semblantes ameaçadores, com escudos e machados em punho durante uma batalha? Qual amante de uma boa série não gosta de uma trama envolvente? Que leitor de mitologia não se encanta em ver mitos entretecidos na vida de seus personagens? Tudo isso nós encontramos na série da Netflix.

Levantando as velas de nosso barco viking, desejo entrar em águas não navegadas, ao menos por parte de alguns fãs da série. A brutalidade existente nos mitos nórdicos pode ser vista no estilo de vida viking, o que faz deles um povo coerente, ou seja, a vida dos deuses refletida em comportamento terreno. Deuses ávidos por sangue produziu um povo sangrento.

Nesse lugar coberto de neve, a morte faz parte do tear que compõe o tecido da vida. Basta assistir um episódio para se comprovar isso. Seu horror pode ser visto embora sua realidade brutal não seja temida. Isso se deve a uma visão de mundo fatalista. A morte de um inimigo ou mesmo do guerreiro viking em batalha não é outra coisa senão o resultado inevitável de algo que não poderia ser alterado.

O que me chama atenção na série é como cristianismo e mitologia viking se confundem. Penso que isso é tanto intenção do autor quanto constatação de um dado histórico pontual. Vemos, com isso, tanto traição, ganância e brutalidade em ambos os lados. Presenciamos ocorrências místicas tanto no terreno da cruz quanto no território do martelo de Thor. A fé do padre Athelsten é contrastada com a fidelidade de Floki aos seus deuses. Se os vikings matam em nome de Odin, o lado cristão diz matar em nome de Cristo. Nada mais autocontraditório. Um cristianismo brutal se torna, assim, um cristianismo pagão. Não dá pra fazer uso da força em nome daquele que morreu para acabar com toda forma de comportamento brutal. O cristianismo da série Vikings se auto-anula, destrói sua própria Mensagem ao deixar rastros de morte. A vitória dos que matam se torna a derrota dos próprios vencedores. Claro que não podemos confundir esse cristianismo medieval com a fé judaico-cristã das páginas da Bíblia.

Se os vikings aguardam o dia do Ragnarok (o crepúsculo dos deuses), o fim de acordo com sua cosmovisão, quando deuses, gigantes e guerreiros lutarão até não existir mais nada, e toda criação afundará num mar escuro, a mensagem cristã pode dizer em termos vikings que o Ragnarok já aconteceu, ao menos não na forma como eles imaginavam nem no lugar ou tempo em que eles esperavam.

A batalha decisiva foi travada por um homem, Jesus, o Messias, não por um exército de guerreiros. O mal em todas as suas formas foi decisivamente derrotado. Sua dimensão oculta, semi-pessoal, foi vencida lá na cruz, lugar onde o amor e a justiça de Deus se revelaram. Um mundo de injustiça, maldade e traição afundou em si mesmo no dia em que o mal fez o pior com o Filho de Deus. O fim foi inaugurado no meio da história. Um novo começo iniciou.

Se fosse possível um duelo entre Jesus e Thor, posso dizer que Cristo morreria, mas é certo que o deus do martelo perderia. Pois enquanto na mitologia nórdica Thor vence pela força bruta, a mensagem do evangelho diz que Cristo venceu a força bruta pelo amor que se doa. A força bruta vence no mito, o amor, por sua vez, venceu na história. 

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

ENTÃO FOI NATAL, UM SERMÃO

INTRODUÇÃO

Nunca falei isso para a igreja, mas gostaria de dizer que não gosto do Natal. Não o suporto. Não gosto do Natal promovido por Mamon (deus dinheiro) e seu desejo insaciável em nos ver gastar, gastar e gastar. Não gosto do Natal que somente enche os supermercados e shopping centers das grandes cidades. Não gosto do Natal que tem como única finalidade enfeitar as cidades de luzes enquanto a vida de muitos se encontra em trevas. Não gosto do Natal que se resume a uma ceia e troca de presentes. Não gosto do Natal que abandona a Mensagem poderosa do Evangelho por meras felicitações vazias de “feliz natal”. Não gosto do Natal que retira Jesus do centro para colocar em seu lugar a figura de um senhor barbudo que serve somente para atender o desejo de pessoas egoístas. 

Mas qual Natal que eu gosto? Gosto do Natal onde Jesus é o centro. Sua vontade é absoluta, seu querer, inquestionável. Gosto do Natal repleto de pessoas que reconhecem seu pecado diante de um Jesus que é santo, santo, santo. Gosto do Natal proclamado por pessoas que ao seguirem Jesus se tornaram não pisca-pisca, mas sim estrelas numa época de trevas. Gosto do Natal que proclama a boa notícia de que Deus veio ao nosso mundo para nunca mais nos deixar. 

A SECULARIZAÇÃO DO NATAL

Muitos dizem que o natal é uma festa pagã. Nada disso. O natal foi a substituição de uma festa pagã. No entanto, a natureza religiosa dessa festa foi aos poucos sendo substituída por elementos de uma sociedade secularizada, avessa a qualquer coisa que tem relação com a tradição judaico-cristã. Não se iludam, o natal só é uma festa popular porque se tornou uma celebração secular. Não se conta a história da encarnação de Deus, antes, fala-se de um velhinho que viaja em um trenó e que entra pela chaminé das casas para entregar presentes. Não se diz que Deus ouve nossas orações, dizem que o bom velhinho lê as cartas das crianças. Não se ouve o anúncio de que Jesus ao cumprir sua missão voltou à dimensão de Deus, o céu. Fala-se que após o Natal o papai Noel volta para sua terra, o Polo Norte. Muitos sabem lidar com a figura do bom velhinho, mas ficam desconcertados com a realidade do Jesus que é Senhor sobre tudo. Que esse não seja a realidade de nosso Natal.

MAS AFINAL DE CONTAS, O QUE É O NATAL?

O Natal foi o dia da invasão de Deus, o momento em que ele desembarcou em nosso mundo (Gl.4.4; Jo.1.14). O dia que Deus armou sua tenda entre nós. Como diria C. S. Lewis, Deus invadiu nosso território já ocupado por muitos inimigos. O Natal celebra a arriscada operação de resgate que Deus elaborou. O profeta Isaias previu que um dia Deus arregaçaria as mangas mostrando seu forte braço de salvação (Is.52.10). No entanto, Deus é alguém que sempre pensa fora da caixa. Como seria seu forte braço? Nada melhor que o braço nu de uma criança (Lc. 2.6,7). Para nosso espanto, Deus se tornou um menino, aquele que sempre existiu antes de todas as coisas. Maria segurou em seus braços esse Deus que se fez menino.

O que poderíamos dizer num momento desses? Não há o que dizer. Só há espaço para celebração, e foi isso o que os anjos fizeram (Lc. 2.10-14). O renomado teólogo Leonardo Boff capitou muito bem esse fato quando disse: “Todo menino quer ser homem. Todo homem quer ser rei. Todo rei quer ser Deus. Só Deus quis ser menino. Humano assim como Jesus, só Deus mesmo”. Deus pede para que nos tornemos como uma criança, porque um dia ele mesmo se tornou um menino. 

O Natal celebra a festa da grande inversão, do dia em que Deus começou a colocar nosso mundo de cabeça para baixo. Deus está transformando esse mundo. O Natal nos leva a acreditar nisso. Deus está redefinindo esse mundo. Como ele faz isso? Ele começou com um menino na manjedoura. O braço daquela criança criou músculos e começou a curar muitas pessoas, a alimentar multidões, a estender a mão para muitos oprimidos e marginalizados e por fim seu braço ficou pregado em uma cruz. Lá, naquele momento, aparentemente sem poder fazer nada, Deus estava salvando sua criação. 

O Natal celebra a continuidade do agir dos braços desse Deus que se fez menino. Agora a grande revolução não ocorre com uma criança na manjedoura, mas através do pobre de espírito, dos que choram, dos humildes, dos que têm fome e sede de justiça, dos misericordiosos, dos puro de coração, dos pacificadores. Faz parte de sua estratégia subversiva mudar o mundo por meio do insignificante. Enquanto o filósofo Nietzsche falou do super-homem que devemos nos tornar, o Natal pede para anunciarmos a vinda do Deus que se fez menino. 

E nunca se esqueçam, Aslam está voltando. Em breve ele aparecerá. Ele está de mudança. A porta do guarda-roupa será aberta e em breve o veremos. O Deus que se fez menino. O menino que se tornou homem. O homem que foi exaltado à direita de Deus. 

Feliz Natal.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

JESUS DE NAZARÉ

DEVO ACREDITAR EM TUDO?

Jesus é um personagem histórico muito bem documentado. Pode-se até duvidar de seu ensino, mas não que ele realmente tenha existido na Palestina nos primeiros trinta anos do primeiro século. Nenhum historiador de credibilidade jamais negou, de forma que fosse reconhecido pela comunidade científica, a figura histórica de Jesus de Nazaré. 

Dizer, como alguns, que as pessoas acreditaram que Jesus existiu e fez o que os evangelhos afirmam ter feito deve-se a ingenuidade crédula de uma era pré-científica, não se sustenta. Diante de um fato incomum a descrença era o comportamento natural dos personagens bíblicos, algo nada diferente do homem moderno. José, por exemplo, não acreditou que Maria poderia estar grávida e virgem ao mesmo tempo (Mt. 1.18-15). Até mesmo a jovem Maria, ao saber da notícia de sua gravidez, questionou como isso seria possível diante do fato de sua virgindade (Lc. 1.34). Por um momento João ficou com dúvidas se Jesus era ou não o Messias (Mt. 11.1-3). Os discípulos não acreditaram que Jesus ressuscitaria até o momento em que o viram ressurreto. A explicação mais plausível para a ausência do seu corpo era que o tinham levado e não que havia ressuscitado (Jo. 20.1-15). 

Queremos dizer com esses exemplos que não há como admitir a existência de Jesus e negar ao mesmo tempo os fatos incomuns em sua vida. Como se a única verdade histórica a seu respeito foi que além de ser carpinteiro, terminou seus últimos momentos numa cruz. Os contemporâneos de Jesus não entenderam no primeiro momento muitos eventos estranhos de sua vida. Duvidaram inicialmente tanto da concepção virginal quanto da ressurreição, pois sabiam, tão bem quanto qualquer pessoa, que virgens não engravidam e que mortos não ressuscitam. Os evangelistas foram forçados a admitir, por mais difícil que fosse, o peso da veracidade de tais acontecimentos, mesmo diante de todas as evidências contrárias. Negar tais eventos alegando que eles não ocorrem hoje, é ingenuamente achar que os mesmos facilmente ocorriam no primeiro século.

Se Jesus é o Filho de Deus, precisamos levar a sério seus ensinamentos, incluindo a confiança que ele depositava na Bíblia como um todo. Se ele não é quem afirma, por que iríamos nos importar com o que a Bíblia diz a respeito de qualquer outro assunto? (KELLER, 2015, p. 145) 

UM JESUS HUMANO, MAS NÃO QUALQUER HUMANO.

O que podemos aprender da humanidade de Jesus nas páginas dos evangelhos? Desconsiderar os evangelhos nesta questão é incorrer no erro de criarmos um Jesus à nossa imagem. O livro o Código Da Vince, assim como o filme criaram uma certa comoção entre as pessoas pois apresentava uma figura alternativa de Jesus que não condiz com os quatro evangelhos. O fascínio pelo novo que existe em um mundo pós-cristão, aliado a possível descoberta de documentos que retratam o verdadeiro Jesus oculto pela igreja ao longo do tempo, é a receita perfeita para atrair a atenção do público.

Jesus foi um homem igual a qualquer outra pessoa, com exceção da concepção – foi concebido milagrosamente, bem como por sua natureza santa – ele não tinha pecado. Logo de cara, podemos ouvir alguns protestos: “então ele não foi tão humano quantos as outras pessoas?” “Se não tinha pecado, como ele poderia ser tentado pelo mal?” Vamos por parte!

A concepção virginal acha-se registrado em Mt. 1.18-25; Lc. 1.26-38. Esse milagre nos diz somente que um homem não participou do processo para a geração da criança. Depois da concepção milagrosa, a gestação se deu naturalmente, respeitando todo o processo de desenvolvimento do bebê (Lc. 2.6). Jesus era sem pecado não porque nasceu de Maria sem a participação de José, mas por causa da ação poderosa do Espírito Santo (Lc. 1.35). Ele era santo não por ser filho de Maria, mas por ser Filho de Deus Pai. 

Embora não tivesse pecado (Jo. 8.46; Hb. 4.15), as tentações que passou foram tão reais quanto a de qualquer pessoa, até mesmo mais real (Mt. 4.1-11). Sobre isso, o escritor C. S. Lewis nos esclarece com as seguintes palavras: 

Nenhum homem sabe realmente o quanto é mau até se esforçar muito para ser bom. Circula por aí a ideia tola de que as pessoas virtuosas não conhecem as tentações. Trata-se de uma mentira deslavada. Só os que tentam resistir às tentações sabem quão fortes elas são. Afinal de contas, para conhecer a força do exército alemão, temos de enfrentá-lo, e não entregar as armas. Para conhecer a intensidade do vento, temos que andar contra ele, e não deitar no chão. Um homem que cede à tentação em cinco minutos não tem a menor ideia de como ela seria uma hora depois. [...] Cristo, por ter sido o único homem que nunca caiu em tentação, é também o único que conhece a tentação em sua plenitude – o mais realista de todos os homens. (Cristianismo Puro e Simples, p. 189). 

A pergunta que devemos fazer não é se Jesus foi tão humano quanto nós somos, mas se nós somos tão humanos quanto ele foi. O pecado é uma espécie de vírus que infectou todas as pessoas. Ele não fazia parte do que é ser humano. É comum as pessoas falarem que “errar é humano”, como se o erro mostrasse nossa humanidade. O erro mostra somente que somos pecadores. O pecado nos torna menos do que deveríamos ser. Jesus é o não infectado. Aquele que tem e ao mesmo tempo é a cura. Ele é o que deveríamos ser, a imagem de Deus sem pecado. E é isso que ele faz na vida dos que o seguem, restaura a humanidade distorcida e adoecida mortalmente pelo pecado. Com certeza Jesus não foi humano como nós somos, ele foi mais humano.

sábado, 4 de novembro de 2017

MULHER MARAVILHA E O JESUS MARAVILHOSO

Mais uma vez pude agradecer a Deus pelo dom da cultura. É libertador compreender que o Deus revelado na Bíblia é maior do que a nossa compreensão sobre ele. Saber que ele está tão interessado em religião quanto em política, se entusiasma tanto com um belo culto quanto com um filme bem feito. É gratificante entender que o verdadeiro e único Deus não é um religioso alienado. Como seria bom apreciar um filme e perguntar a Jesus o que ele achou do que assistiu. Com sua capacidade de reflexão demonstrada nos evangelhos, não podemos imaginar que ele só tenha opinião sobre textos da Bíblia. “Penso que Deus pode ficar ofendido ou encantado com a arte, mas nunca surpreso” (Steve Turner). 

Pois bem, o filme que assisti foi Mulher Maravilha. Vemos uma Diana, diga-se de passagem, filha de Zeus, (alerta vermelho para spoiler) com um olhar mais humano sobre a vida que os próprios humanos. Ela se encanta com um bebê nos braços de sua mãe e se deslumbra até mesmo com um simples sorvete (qual criança nunca fez isso?). Sente, ao mesmo tempo, o horror que uma guerra pode provocar, sendo humana o bastante para sentir compaixão dos animais tratado com tanta indiferença pelas pessoas. 

No cenário em que vivemos, o da efervescência feminista, pensei que o filme teria a intenção de unir voz ao coro contra tudo que tem relação ao universo masculino. Ao menos não foi isso que vi. Ela é a única mulher num grupo composto de homens com a missão de salvar o mundo, mas que não despreza o gênero masculino, pois agrega até mesmo aquele que não se sente útil para a missão (quem viu ao filme sabe do que estou falando). 

A composição da obra é bem estruturada em três atos, naquilo que se convencionou chamar de a Jornada do Herói, muito bem desenvolvida no livro A Jornada do Escritor de Christopher Vogler. Primeiro vemos Diana em seu mundo comum, um lugar protegido dos perigos do mundo, uma espécie de Éden na terra. Vemos que há uma perturbação da ordem natural quando um avião cai no oceano e logo é seguido por uma invasão de navios alemães. O segundo ato é marcado por desafios iniciais, encontro com aliados e novos inimigos. O terceiro é marcado pela luta decisiva seguida pelo retorno da heroína com o resultado alcançado para o mundo.

Uma coisa que me chamou a atenção foi o destaque para o elemento da fé. Próximo do fim, Diana olha para seus amigos na batalha com o rifle sem munição, e logo em seguida os veem dar as mãos em atitude de oração na busca por livramento. A própria Diana acredita que pode haver paz no mundo, desde que o deus Ares seja completamente destruído. Em um diálogo com Ares, ela é tentada a assumir uma missão que não era a sua para ter como recompensa o mundo restaurado. Nem é preciso dizer que isso faz um paralelo com a tentação de Jesus no deserto (Mt. 4), momento em que ele é induzido a ser um outro tipo de salvador. 

Steve Trevor, o espião inglês não acredita na existência de Ares. Para ele isso não passa de um mito. Steve deve levar em consideração que se Diana pôde fazer o que fez na batalha inicial tudo indicaria que ela estava certa a respeito da existência do deus da guerra. Isso tem uma forte relação com os evangelhos. Se Jesus fez o que os evangelhos dizem que ele fez, temos que levar em consideração seu ensino, em fim, tudo o que ele acreditava. Não podemos ficar com suas ações e desconsiderar seu ensino e sua crença. 

Steve afirma que homens são os únicos responsáveis pelo horror da guerra. Diane está convicta que Ares é o único responsável. Ambos estão equivocados. Vemos que Ares existe e que os homens são seres cruéis e não merecedores de ajuda. Ares simplesmente incentiva o uso da maldade, mas não faz o mal por eles. Nisso há uma relação com o que a Bíblia diz a respeito da existência do diabo assim como constata a maldade do coração das pessoas. 

No confronto final, Diana, antes de desferir o último e decisivo golpe que destruirá Ares, faz um gesto que se assemelha a Cristo na cruz. Logo em seguida o sol começa a nascer no horizonte, uma correlação com a ressurreição de Jesus, que marcou as primeiras horas de um novo dia. Mas para nossa surpresa Diana diz que sua luta contra o mal nunca acabará, o homem sempre terá a escuridão dentro de si. 

É aqui que entra em cena nosso Jesus Maravilhoso (Is. 9.6). Ele desferiu um golpe decisivo no mal que desfigura a criação de Deus. O mal foi derrotado, mas aguarda a sua completa destruição quando de seu aparecimento em glória. Jesus destruiu o mal não pela força bruta (algo que Diana quase realiza) mas pelo poder do amor, o protesto de Deus contra toda maldade e indiferença entre os homens. Não teremos para sempre a mesma humanidade deteriorada, pois na cruz uma humanidade e um mundo caído chegam ao fim e em sua ressurreição uma nova humanidade e o início de um novo mundo emergem da sepultura.

Por fim, quero falar de algo que acontece no início do filme, quando percebemos que a ilha em que Diana mora é separada do mundo dos homens por uma fina película. Penso que o mundo de Deus e o nosso, céu e terra estejam da mesma forma separados. Ao mesmo tempo juntos e oculto um do outro. Em breve essa película será tirada, quando veremos do nosso mundo o próprio mundo de Deus, e teremos com isso um novo céu e nova terra (Is. 11; Ap. 21). 

terça-feira, 19 de setembro de 2017

ROCK IN RIO E A UTOPIA

O Rock In Rio começou nessa última sexta-feira (15/09). A surpresa aguardada para a abertura se deu com a participação da modelo Gisele Bündchen e seu discurso sobre a necessidade de construirmos um mundo melhor, igualitário e com a devida atenção ao meio ambiente. Suas palavras – ao menos para mim – soaram muito verdadeiras. Mas não é sobre a sinceridade do discurso proferido que desejamos analisar. O que nos propomos nesse post é averiguar o que não foi dito, mas que era a base subjacente de toda a mensagem proferida.

Não precisamos discutir o mérito do anseio por um mundo melhor. Quem não deseja? Com exceção de Dark Side, Lex Luthor, Apocalipse e Coringa, creio que a resposta seja positiva. O otimismo por um mundo melhor e o idealismo do progresso humano, as bases do discurso feito no Rock In Rio, esbarram em tudo aquilo que insistentemente nos leva a pensar o contrário: duas guerras mundiais; Auschwitz; opressão, miséria, injustiça e morte como frutos das ideologias comunistas no afã de uma sociedade justa; violência em escala endêmica; terrorismo que parece não conhecer nenhum tipo de fronteira; degradação irrefletida do meio ambiente; insensibilidade, orgulho, imoralidade e alienação apesar dos avanços da tecnologia e da ciência. A utopia da construção de um mundo melhor colide na aridez de um mundo distópico à semelhança de Mad Max. 

Deveríamos então ser pessimistas? Largar a ponta da corda do otimismo para ficar com a outra extremidade, o pessimismo? Parece que é isso que muitos cristãos vêm adotando como fruto de sua leitura bíblica. “O mundo só vai piorar com o passar do tempo”, assim afirmam muitos pregadores e entusiastas das “últimas revelações proféticas”. Se tudo vai se degradar de qualquer jeito, porque alguém deveria se preocupar com esse mundo? Temos que lutar para que pessoas sejam salvas desse mundo, - diriam alguns – pois dessa criação não se pode esperar mais nada. Quem consertaria um computador que seria levado ao lixo no outro dia? Ou melhoraria a casa que foi condenada à demolição pela Defesa Civil? Se por um lado o espírito secularista de nosso tempo proclama um otimismo ingênuo no progresso humano, os cristãos de vertente alienadora exaltam uma espécie de pessimismo sombrio incompatível com a fé judaico-cristã. 

O que propomos é uma visão de mundo realista, sustentada pela meta-narrativa das Escrituras. A Grande História que explica as diversas histórias do nosso mundo. O abandono do otimismo ingênuo e do pessimismo sombrio que dá lugar a realidade da esperança bíblica. A resposta para nossas angustiantes perguntas: Por que o mundo está assim? O que nos impede de colocá-lo nos trilhos, se é que existe algum? O que há de errado com o ser humano? Há algum fundamento para esperança? Nossa resposta está contida não em pequenas sentenças que devem ser recitadas, mas numa grande história que deve ser contada, narrada em um “box com quatro discos blu-ray” – Criação, Queda, Redenção e Consumação.

PRIMEIRO ATO – CRIAÇÃO (Gênesis 1-2)

Esse mundo é o resultado da ação livre das mãos de um bondoso criador. Deus criou um mundo repleto de beleza, justiça, bondade e que foi em certo sentido arrendado ao ser humano para ser compartilhado em igualde de condições. O homem deveria cuidar e levar o mundo a sua verdadeira frutificação. Mas... 

SEGUNDO ATO – QUEDA (Gênesis 3)

Alguma coisa parecia estar errada. Uma serpente falando demonstrava que algo estava fora do lugar. O homem dá um salto de autonomia. Deseja um conhecimento e poder ilimitados. Desconfiaram da bondade de Deus e se rebelaram contra sua autoridade. O jardim que deveria florescer em toda a terra cedeu espaço a um deserto e no lugar de árvores, espinhos. A terra foi amaldiçoada e a morte se espalhou entre as pessoas. O homem fez tudo dar errado. Será que o criador abandonará sua criação? O que ele poderia fazer num cenário desses? 

TERCEIRO ATO – REDENÇÃO, PLANO DE RESGATE (Gênesis 12 – João 21)

É o ato mais longo de todo esse drama. Deus escolhe o desconhecido Abraão e diz que por meio dele reverteria toda a confusão e consertaria tudo o que Adão fez de errado. Mas o que se vê é mais confusão, imoralidade, idolatria, opressão, ganância e por fim, exílio. Nada parece funcionar. Teria o criador perdido as amarras da história? É nesse momento que ele tira uma carta decisiva e a lança na mesa. Deus mesmo vai entrar em cena. Vai desafiar o monstro indomável do mal na fragilidade de uma criança. É ele, Jesus de Nazaré. Vemos sua proclamação de que o reino de Deus estava próximo e suas ações que demonstravam como é o mundo quando governado por Deus. Ele morre de forma brutal, mas não trágica, pois na cruz ele derrotou o mal que tentava impedir os propósitos de Deus para sua criação. Ele ressuscita e antes de ir para o mundo de Deus, a dimensão do Criador, convoca seus seguidores a proclamar que o mal foi vencido e que um novo começo se iniciou, que o projeto abortado no Éden foi reiniciado em sua vida, morte e ressurreição e que um mundo melhor é possível. O que esperar agora?

QUARTO ATO – CONSUMAÇÃO (1Coríntios 15; Apocalipse 21-22)

O que Jesus fez e continua fazendo por meio da vida de seus seguidores no poder do Espírito Santo será completado no dia do seu retorno. O mal foi vencido na cruz e será aniquilado com o aparecimento do Filho de Deus quando a dimensão invisível do Criador ficar visível em toda essa terra. Nesse dia haverá cura completa para o meio ambiente em geral e para o nosso corpo em particular.

Essa é a narrativa que explica nosso mundo. Cremos que o mundo pode ser melhor agora não por causa do homem em geral, mas por aquilo que um homem em particular fez ao morrer e ressuscitar. Pela fé no Cristo que morreu e ressuscitou podemos trabalhar por um mundo melhor, pois temos a esperança que um dia Deus tornará essa criação decadente em uma nova criação. Podemos trabalhar localmente por sabermos que Deus aperfeiçoará nossas ações em escala global. A reforma social é possível devido a redenção em Cristo já ter acontecido. Não precisamos ser otimistas utópicos nem pessimistas distópicos, antes, a fé em Cristo “transcende essas realidades, não se refugiando no céu ou na utopia, nem sonhando estar em uma outra realidade. Ela pode passar os limites da vida humana, cercados por sofrimentos, pecados e morte, somente lá onde eles foram realmente derrubados; somente pela aceitação do Cristo ressuscitado do sofrimento...” (MOLTMANN). 

É certo que não ouviremos isso no próximo Rock In Rio. Mas será que poderíamos ouvir nas igrejas?

terça-feira, 27 de junho de 2017

LOGAN E A TEOLOGIA

Minha relação com os X-Men vem de longa data, quando o desenho era apresentado pela Rede Globo nos anos 90, 1994 para ser mais preciso. Tenho, desse mesmo ano, um Hq do Wolverine nº 34. Sempre que assistia aos episódios eu pensava (lembro que comentei isso uma vez com meu primo George): quando farão um filme dos X-Men, ou do Wolverine? Muita coisa se passou desde então, e ontem pude assistir ao último filme do Wolverine, Logan. Sempre que nos encontramos diante de algo grandioso, alguma coisa nos acontece, uma sensação de alegria, somos tomados por um sentimento de grandeza. Foi isso que me ocorreu ao assistir esse épico do cinema. 

Sei muito bem que o filme é violento. Mas em nenhum momento o diretor rompeu os limites entre violência abordada e maldade explorada de forma desmedida. Percebe-se que "existe um convite para a redenção, a esperança de uma humanidade melhor, e não uma negação niilista do tipo: Essa é a vida real. É melhor se acostumar com ela" (Brian Godawa). O filme conseguiu algo difícil em se tratando de longas de super-heróis, a humanização dos personagens. Somos brindados com emoções verdadeiras tanto de Logan quanto do professor Charles, mas nunca sentimentalismo forçado. O primeiro possui um enorme cuidado com o professor nonagenário, e o segundo nos mostra a dor de uma mente cansada que somente deseja ter uma refeição e uma noite de sono em paz – mais humano, impossível. 

Tendo isso por assentado, quero fazer referência a duas frases ditas em momentos distintos do filme. A primeira foi pronunciada por Charles ao próprio Logan: “Eu sempre sei quem você é. É que as vezes não te reconheço”. Ouvimos isso depois de vermos um Wolverine decadente, alcoólatra, tentando negar quem é ao assumir a profissão de motorista. Sabemos quem é Wolverine, mas não estamos reconhecendo-o. Olhando para a Bíblia, vemos um Deus que nos criou, que sabe quem nós somos, “imagem e semelhança de Deus” (Gn. 1.27), mas que infelizmente não nos reconhece. Fomos criados para refletir a vida de Deus nesse mundo, mas o que espalhamos é morte, indiferença, orgulho, egoísmo, imoralidade e destruição. Caímos num momento da história de nosso estado de bondade inicial (Gn. 3). Somos quem não deveríamos ser. 

A outra frase foi dita por Logan a jovem mutante Laura: “Não seja aquilo que eles fizeram de você”. Que frase bíblica! Laura é uma mutante, produto de laboratório, criada sem nenhum afeto, propensa a ser para os outros aquilo que outros foram para ela. Diante das injustiças sofridas, Laura poderia ter sua identidade distorcida, definida somente por sua dor. Ela precisa ser mais que a soma total de seus sofrimentos. Miroslav Volf, teólogo batista, assim se expressa: “Em vez de sermos definidos pelo modo como os seres humanos se relacionam conosco, nós somos definidos pelo modo como Deus se relaciona conosco”. Laura precisa ter sua identidade definida pelo comportamento de Logan com ela. Como cristão, devo ter meu comportamento alterado não pela injustiça que outros praticaram contra mim, mas pelo amor, misericórdia e bondade realizado por Deus em Cristo Jesus na cruz, lugar onde ele carregou toda nossa culpa e dor. 

Após se despedir de Logan, que foi morto sobre um madeiro (1Pe. 2.24) Laura se encontra diante de uma nova possibilidade, um futuro aberto se apresenta. Da mesma forma, Deus em Cristo Jesus nos promete um futuro de redenção, um mundo de vida, paz, justiça e beleza, um novo céu e nova terra (Ap. 21), o que para Laura seria a esperança do lugar chamado Éden.

Enquanto Logan vive uma decadência física e Charles uma fraqueza mental, o nosso herói Jesus, aquele que morreu, ressuscitou, ascendeu ao céu e em breve voltará de mudança para nosso mundo continua sendo “o mesmo ontem, hoje e para sempre” (Hb. 13.8). 

Obrigado por tudo Wolverine.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

O CRISTÃO E O MEIO AMBIENTE

Nesta última segunda (05/06) comemorou-se o dia mundial do meio ambiente. Uma data tão despercebida quanto nossa atenção dada ao cuidado com a natureza. Muitas igrejas adotam em seus calendários litúrgicos datas comemorativas para serem celebradas no espaço do culto: dia da mulher, dia das mães, dia dos pais são alguns exemplos. Mas qual de nossas igrejas alguma vez realizou o culto com sua temática voltada para o meio-ambiente? Qual foi a última vez que ouvimos um sermão onde fomos exortados sobre nossa responsabilidade com a natureza? Que ministério, dentre os vários que uma igreja possui, é voltado para o cuidado com o meio ambiente? A resposta para esses questionamentos revelará a falha do nosso atual cristianismo. 

Faz alguns dias o presidente Donald Trump anunciou a retirada dos Estados Unidos do acordo de Paris – tratado assinado por mais de 130 países que visa a diminuição de emissão de poluentes das fábricas, bem como outras medidas limitadoras para o aumento da temperatura da terra. Ele mesmo se denomina um cristão conservador. Isso deve explicar sua visão equivocada com o meio ambiente. Ele preserva o equívoco conservador que olha a natureza como algo que só deve ser explorada. A verdade que nos envergonha (ao menos deveria) é que não nos importamos com a natureza. 

Por que perdemos o olhar tão fascinante e ambiental da mensagem bíblica? Boa parte da crise ambiental que temos hoje se deve ao cristianismo. Não o cristianismo das páginas da Bíblia, mas ao cristianismo que se esqueceu de olhar com atenção para o texto bíblico. O mundo atual é um mundo pós-cristão, mas a mentalidade sobre a natureza ainda é uma mentalidade cristã equivocada: a natureza existe para ser dominada e esse domínio se dá pela força destrutiva.

Nosso cuidado com a natureza se dará na proporção que prestarmos mais atenção ao texto bíblico. Precisamos mudar o nosso ainda não admitido referencial gnóstico, que desmerece a boa criação material de Deus, por um referencial bíblico judaico-cristão, que reafirma a bondade da criação apesar de sua atual deterioração, bem como o empenho incansável do Criador em consertar a natureza. Mas como se dará isso? Entender que somos salvos como parte de um projeto maior, a salvação de todo o mundo criado em sua total biodiversidade. Esse novo referencial deve estar presente em nossos cânticos, que infelizmente desprestigiam a beleza da ordem material criada em busca de um escape desse mundo e não na busca de sua redenção. 

Dito isso, será que Jesus entendia que sua missão tinha relação com o destino da terra? Ao nascer, Jesus foi colocado num cocho de alimentar animais. Um grande perigo para uma criança. Esse incidente não descreve somente sua humildade, mas sua missão. O Salvador inaugura, ou serve de sinal, de um novo mundo que surgirá, marcado pela harmonia entre homens e animais. Isso foi um maravilhoso sinal para os pastores. Eles viviam a céu aberto, numa rotina cansativa e perigosa, proteger as ovelhas dos lobos (Lc. 2.8). Os pastores houviram o cântico dos anjos que foi muito carregado de significado para eles (Lc. 2.13,14). Como seria, à luz do olhar de um pastor de ovelhas da época, um mundo de paz? Seria um mundo onde não se precisa arriscar a vida para viver. Um lugar de perfeita convivência entre homens e animais. O fascinante disso tudo é que Isaias já antecipou essa verdade em Is. 11.6-9. Um mundo não marcado pela disputa de território, mas pelo compartilhamento conjunto.

O texto de Mt. 9.1-8 nos leva nessa mesma direção. Por que Jesus diz, nesse texto, que tem na terra poder para perdoar pecados? Somente indo para Gênesis 3.17 onde encontramos uma relação entre o pecado humano e desordem natural. A resposta é que Jesus liberta a terra da maldição perdoando os homens dos seus pecados. Os danos que o pecado de Adão trouxe para a terra começam a ser desfeitos quando Jesus perdoa nossos pecados. Não é sem motivos que Paulo chamou Jesus de o segundo Adão (1Co. 15.45). O primeiro Adão aprisionou a terra ao pecado, o segundo, Jesus, a liberta no precesso de redenção da humanidade pecadora (At. 3.21; Rm. 8.18-21; Ef. 1.9,10; Cl. 1.15-19).

Não podemos entoar louvores ao Deus criador ao mesmo tempo que destruimos parte de sua boa criação. Se somos a imagem e semelhança de Deus, nossa vocação é sermos para a natureza o reflexo do cuidado desse Deus criador.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

EVANGELHO MODINHA

Nesta última terça-feira (09/05), o programa Conversa Com Bial, contou com a participação de três jovens evangélicos que são sucesso nas redes sociais. A conversa se deu em tom muito agradável e Bial em nenhum momento se mostrou agressivo. Entre muitos risos, os convidados buscavam explicar termos oriundos do ambiente pentecostal e neo-pentecostal, tais como: manto; varoa, cheio de azeite entre outros. A seriedade da conversa só foi possível com a participação de um professor ateu (a parte mais produtiva do programa). Foi isso que me chamou a atenção.

Os três convidados evangélicos eram bons para a conversa cômica, porém, inapropriados para explicar o que realmente é o protestantismo. Isso foi tarefa do professor ateu. Foi de seus lábios que ouvimos o grande lema da reforma protestante do séc. XVI, a justificação por meio da fé (mais irônico impossível). Bial soube conduzir seus convidados evangélicos na estrada do discurso irrelevante. A única pergunta escorregadia feita por Bial foi sobre o homossexualismo. Sobre isso não foi nenhuma surpresa a resposta politicamente correta, que poderia ser sintetizada da seguinte forma: na minha igreja eles são aceitos, mas cabe ao Espírito Santo dizer se é errado ou não. 

Mas é claro que são aceitos! Assim como o jovem que faz sexo com sua namorada; ou mesmo aquele que não manteve sua fidelidade conjugal; o mentiroso, o corrupto. Todos são aceitos. Mas são aceitos nos termos do evangelho, para uma mudança radical de vida.

Bial não queria saber o que é pecado, salvação, fé, justificação, Deus, Jesus ou o Espírito Santo. E se o quisesse, não sei se seus convidados estariam aptos para lhe responder. Afinal de contas, tudo girou em torno da subjetividade: eu penso, eu acho, para mim. Em nenhum momento foi citado a fé de Jesus. Nada de novo nisso, pois há muito tempo nos esquecemos o papel de uma testemunha: relatar os fatos do que Deus fez em Jesus e através de Jesus e não sua opinião sobre esses eventos. 

Para que ninguém tire conclusões equivocadas sobre esse post, reafirmo minha admiração por Bial, por sua capacidade em articular as palavras. Também vejo alguns vídeos do pastor Jacinto Manto. Me agrada o fato da graça com os estereótipos evangélicos, mas que em nenhum momento desrespeita o Sagrado. 

Enfim, perto de comemorar 500 anos da reforma protestante, os evangélicos são admirados por serem engraçados, mas preteridos nos assuntos urgentes que assolam nosso séc. XXI. Mas parece que não percebemos isso. Queremos ser bem sucedidos em áreas onde o cristianismo primitivo ou Jesus jamais fizeram sucesso.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

FIM DO MUNDO?

Em posts anteriores afirmamos que Deus não descartará sua criação jogando-a num incinerador cósmico, mas que trará cura e restauração para a ordem criada. Mas como mantermos esse posicionamento diante do texto de 2Pe. 3.10-12? 

Em primeiro lugar, devemos concordar que a passagem é no mínimo complicada. Não admitir isso é não prestar atenção ao texto. Mas isso não quer dizer que ele esteja apontando para uma direção contrária ao ensino da Bíblia em geral ou mesmo da fé judaico-cristã do cristianismo nascente. Ainda que numa primeira leitura se tenha a impressão de que a criação aguarda sua aniquilação completa, podemos dizer, por mais estranho que pareça, que não era isso que Pedro tinha em mente. Admitir o contrário seria criar uma contradição com tudo o que Paulo ensinou, em especial Rm. 8.19-22. 

A primeira coisa para se entender esse texto tem a ver com a tradução. Algumas versões trazem no final do v. 10 “será queimada”, “consumida”. A NTLH diz que “a terra e tudo o que existe nela vão sumir”. Essa tradução é atestada por manuscritos do séc. V e VI. A NVI traz no final do v. 10 o termo “desnudada”. De acordo com manuscritos mais antigos, datados do séc. IV, o sinaíticus e o vaticanus a palavra original seria “descoberta”. Isso muda tudo. Na primeira, a ideia é de destruição completa, na segunda, de purificação. 

Levando em consideração os manuscritos mais antigos, Pedro nos diz que a criação e suas obras serão desnudas, descobertas, expostas de acordo com a antiga intenção do seu Criador. O fogo trará a verdade profunda da criação de Deus. A criação e suas obras quando provadas pelo fogo mostrarão sua real natureza. É algo semelhante ao que Pedro disse sobre a fé (1Pe. 1.7). O fogo em 2Pe. 3.10 é o julgamento moral que destruirá todo o mal. O paralelo aqui é com as águas do dilúvio (vs. 6,7). Não foi a terra em si que foi destruída no dilúvio, mas a impiedade e todos que a praticavam, o mundo conhecido da época de Noé. Pedro descreve uma espécie de limpeza moral completa de toda a ordem criada. O dilúvio trouxe uma limpeza parcial, o aparecimento de Jesus, por sua vez, trará uma limpeza completa. Podemos dizer que a linguagem pessoal do julgamento pelo fogo de Ml. 3.2,3, foi transposta para toda a criação. 

A restauração de uma catedral serve de comparação para entendermos o texto de 2Pe. 3.10: sujeira e outras pinturas acumuladas ao longo dos séculos encobrem as verdadeiras cores de uma catedral. Os restauradores removem meticulosamente essas camadas e descobrem a real beleza que estava escondida. A catedral, depois disso, mesmo tendo vários séculos de existência, pode ser vista como inteiramente nova. 

Queremos, com esse exemplo, dizer que não haverá uma abolição da criação, antes, o julgamento retirará as diversas camadas de corrupção acumuladas ao longo de milênios de história humana. Retiradas essas camadas, a beleza, justiça e bondade sem limites inundarão a criação, trazendo com isso, novos céus e nova terra (v. 13). Note que Pedro não espera depois do fogo, o nada, ou um céu etéreo, mas um novo mundo. Noé surgiu, depois do dilúvio, em um aparente mundo novo. Pedro descreve que após o julgamento do fogo, surgirá, verdadeira e definitivamente um novo mundo. Segundo o texto, a nova criação brotará da velha criação. Deus não fará, com isso, um novo ato semelhante ao de Gn. 1.1 – do nada – mas a partir do que ele já fez. Ou seja, do já existente ele trará algo novo. O autor aos Hebreus traz uma imagem diferente quando comparada ao texto de Pedro (Hb. 12.26-28). De um mundo abalado por Deus, sacudido, surgirá um mundo mais sólido.  

A linguagem do julgamento descrita por Pedro não pode ser separada do ensino bíblico de que a criação é fruto das mãos do bondoso Criador. Se a criação não é algo bom, o julgamento a consumirá por completo. Se ela ainda é a boa criação de Deus, mesmo sabendo que se encontra fora dos trilhos, o julgamento a resgatará, punindo somente aquilo que a desfigura.

sábado, 4 de março de 2017

SOBRE A DIFÍCIL DOUTRINA DO INFERNO - Mc. 9.43-48

INTRODUÇÃO

Alguns assuntos são difíceis de serem compreendidos. Temos dificuldade de assimilar um assunto por causa de sua complexidade (a trindade, por exemplo), ou recusamos uma doutrina por causa da aparente repulsa moral que ela nos provoca: como admitir a existência do inferno com a mensagem de um Deus de amor pregada pelo cristianismo? 

Em nossa época pós-moderna, não há espaço para assuntos que inibam o comportamento das pessoas, ou que digam que suas ações têm consequências eternas. Ninguém quer ouvir algo que incomode sua consciência. Queremos ir à igreja e ouvir alguma coisa que nos ponha para cima, que nos traga alegria, que mostre o quanto somos bons ou mesmo valiosos. Como pregar sobre o inferno num cenário desses?

Há outro problema também: alguns falam do inferno de uma forma tão caricata que na imagem popular o inferno se tornou o lugar de reinado do diabo (quem nunca ouviu a expressão, “nem o diabo quer ele no inferno"?), um folclore dos evangélicos. É comum vermos vídeos compartilhados por cristãos onde as pessoas são atormentadas no inferno pelos demônios (como no filme Constatine). Basta uma rápida pesquisa na internet para confirmar o que eu digo.

Por isso não quero ser nessa noite um pregador medieval. Alguém que fala do inferno como se ele fosse uma masmorra que satisfaça o desejo sádico por tortura de um deus maldoso. Ou mesmo alguém que tem o desejo mórbido para ver pessoas sendo punidas eternamente. 

INFERNO, UMA DOUTRINA INTOLERÁVEL

Todos concordam que possa existir um Deus de amor que perdoa, mas um Deus que julga e condena, isso não. É algo ofensivo. Um filósofo holandês (Hermann Dooyeweerd), disse certa vez que a fé natural do homem se torna incredulidade diante da verdade da Palavra de Deus.

A doutrina do inferno é um golpe mortal ao sonho moderno marcado pela busca do poder. Quantos líderes ao longo da história massacraram inocentes somente para que seus ideais de grandeza fossem satisfeitos? Quantos governos comunistas tiveram suas bandeiras tingidas pelo derramamento de sangue? Milhões de pessoas morreram sob o peso de regimes comunistas. A doutrina do inferno diz para esses ditadores: há um preço a pagar. Não ficarão impunes para sempre. 

O desejo por poder não é visto somente na vida de ditadores, mas também no comportamento do cidadão comum. Queremos que tudo seja alterado para se ajustar aos nossos desejos. A única verdade absoluta para o homem moderno é seu próprio desejo. Somos aqueles que determinam o que é certo e o que é errado (Is. 5.20). No programa do GNT, Papo de Segunda, Leo Jaime disse que temos a “liberdade de encontrar o prazer onde ele estiver”. O erro foi abolido da mentalidade moderna. Nos encontramos na época em que os insultos devem ser redefinidos e não abandonados. A mulher da atualidade tem o "direito de ser vadia ou piranha" (isso foi dito por uma mulher num programa de TV). É o chamado direito para se fazer o que bem deseja com o corpo. Todos devem aceitar isso. Só não se aceita que alguém discorde desse comportamento. Estamos numa época em que o mal é glamourizado, é o estilo de vida alternativo em um mundo sem sentido. 

Isso cria um embate com a mensagem do evangelho: ou as pessoas possuem o direito de determinar o que é certo e errado ou aceitam que haverá um julgamento final e condenação para os que adotaram o erro como prática de vida. Por que alguém deveria ser julgado pelo seu adultério se para ela não há nada demais em adulterar? A resposta fica com o apóstolo Paulo (cf. Rm. 2). Pelo fato da Bíblia ser a revelação de Deus, uma hora ou outra ela vai contrariar nossas opiniões. Já foi dito que o verdadeiro ópio do povo é a crença no nada após a morte. A ideia de que nossas traições, ganância, inimizades, imoralidades não serão julgadas. Esse é o melhor dos consolos para aqueles que se acham no direito de fazer o que bem entendem. 

CORRIGINDO A VISÃO POPULAR DO INFERNO

Quando falamos em inferno vem logo a nossa mente Deus lançando pessoas que imploram por piedade às chamas eternas. Essa imagem faz com que fiquemos do lado dos que são condenados e um pouco receosos com a atitude implacável de Deus. Podemos afirmar que isso é uma caricatura e não a imagem real. 

A palavra inferno, é gehenna, que no hebraico é Hinon, Vale de Hinon, um antigo lugar onde se fazia sacrifícios humanos (2Rs. 16.3; 21.6). Por ter sido considerado imundo, se tornou um depósito de lixo com fogo constante e matéria orgânica em decomposição, daí a imagem do bicho que nunca morre e do fogo que nunca se apaga. Logo, a imagem do fogo e do bicho é uma comparação feita por Jesus, não uma descrição literal do inferno. O fogo pode estar relacionado com a desintegração da personalidade humana, e trevas, outra imagem bíblica do inferno (Mt. 25.30), pode significar isolamento. O inferno é o lugar onde as pessoas estarão cada vez mais afastadas de Deus e umas das outras. 

A história do rico e Lázaro contada por Jesus nos dá algum indício da realidade e horror do sofrimento (Lc. 16.19-31). O rico parece ignorar a inversão de situação. Ele encara Lázaro como seu servo, uma pessoa de recado. Ele dá a entender que Deus não deu alerta suficiente sobre a realidade da condenação. Ele mesmo não pede para sair do lugar de sofrimento. É alguém que não possui nome, é somente o homem rico. Sua identidade se perdeu com a perda da riqueza, ao contrário de Lázaro. 

No inferno, o egoísmo e orgulho que marcam todos os pecados, crescerá por toda a eternidade, ao ponto de ninguém desejar nem mesmo sair do lugar de condenação, mesmo diante da dor e sofrimento. Seu orgulho e egoísmo não permitem. É um estado sub-humano, serão pessoas desumanizadas, nem mesmo poderão provocar o sentimento de compaixão nos outros. Cada vez menos refletirão a imagem do Criador. Sméagol, o Gollun de O Senhor dos Anéis, exemplifica muito bem isso. Se tornou uma criatura grotesca ao encontrar o Um Anel, o próprio poder do mal (Um Anel para a todos governar, um Anel para encontrá-los; Um Anel para todos trazer e na escuridão aprisioná-los - não resisti!).

O INFERNO ANTES DA MORTE

É costume relacionarmos o inferno a uma realidade somente depois da morte para os que recusam a mensagem do evangelho. Mas podemos identificar a desumanização do homem, a desintegração de sua personalidade, seu isolamento constante, o orgulho avassalador bem como seu egoísmo crescente na vida daqueles que por não seguirem a Jesus, por não adorarem ao Deus verdadeiro vivenciam a realidade do inferno em estado crescente em suas vidas. Quantos não se encontram assim pelo aprisionamento ao vício, ao sexo, dinheiro, poder, maldade? Um estado verdadeiramente desumano. 

A SOLUÇÃO

Aqui entra a boa notícia do evangelho. Jesus era judeu, um homem de pouco mais de trinta anos. Ele acreditava que Deus por seu intermédio estava cumprindo seu antigo propósito de salvar a criação. Por isso ele morreu na cruz, para que o mau fosse derrotado e o perdão de Deus irradiasse por todo o mundo. Ao ressuscitar dos mortos ele iniciou o projeto da nova criação e aqueles que o seguem passam a fazer parte deste projeto de renovação de todas as coisas. Quem está em Jesus é nova criação (2Co. 5.17) e por causa disso, não há mais condenação para seus seguidores (Rm. 8.1). Essa é a boa notícia que nos livra da condenação do inferno. 

Glória ao Pai, Glória ao Filho, Glória ao Espírito Santo.