segunda-feira, 24 de novembro de 2014

UM CRISTÃO AFIRMA: NÃO QUERO SER SALVO


Recentemente tenho pensado sobre a natureza da nossa mensagem de salvação. Poderíamos dizer que ela se resume numa espécie de salvação escapista de natureza individualista. Deus nos salva do pecado, mundo e do inferno para habitarmos o céu. Embora isso não seja errado, sua ênfase faz com que o centro gravitacional da mensagem bíblica seja drasticamente alterado.

Essa teologia escapista entoada em diversos cânticos evangélicos, pode ser sintetizada na conhecida canção Eu Vou Morar No Céu, do músico Lázaro. Eis uma parte:

O mundo está cheio de horror
Os mentirosos reinam sem pudor
Mentes brilhantes planejando o mal
Mas eu não desanimo pois sou sal
A integridade foi pro além
No mundo ninguém ama mais ninguém
Mas Jesus Cristo disse filhos eu vou voltar pra te buscar

Ainda bem que eu vou morar no céu
Ainda bem que eu vou morar com Deus...

Percebe-se que a mensagem do evangelho não altera a realidade, ela simplesmente serve como passaporte para a morada celestial. Embora o mundo esteja como está, “ainda bem que eu morar no céu”. O que parece ser uma demonstração de confiança na promessa bíblica, não passa de um equívoco da real natureza da mensagem de salvação, assim como da amplitude e efeitos da cruz de Cristo.

A solução para este problema é nos voltarmos para a mensagem de Jesus, o Messias, com sua ênfase na chegada do Reino de Deus, assim como para a proclamação de Paulo com base na existência já desse Reino.

O Reino de Deus era o centro da mensagem de Jesus. Isso pode ser confirmado pelo número de ocorrências nos evangelhos sinóticos, um total de 51 vezes. Reino dos céus (forma reverente de se referir a Deus) que é a expressão equivalente a Reino de Deus ocorre somente em Mateus não menos que 31 vezes. Embora os eruditos em Novo Testamento discordem sobre a natureza desse Reino, concordam, todavia, que era o mitte (centro) da pregação de Jesus. Basta citarmos dois especialistas em Novo Testamento com pressupostos díspares como Joachim Jeremias e Rudolf Bultmann para confirmar isso. Jeremias nos diz que “devemos partir do fato de que o tema central da proclamação pública de Jesus foi o reinado de Deus”. Da mesma forma Bultmann, em sua magistral Teologia do Novo Testamento declara que o “conceito predominante da pregação de Jesus é o do reinado de Deus”.

A mensagem do Reino, se corretamente entendida, nos faz compreender que a salvação trazida por Deus não é para habitarmos o céu, mas sim que a vida do céu se faça presente na terra. Em outras palavras, não é tanto uma salvação da criação, mas uma salvação para a própria criação de Deus. Sobre isso, N. T. Wright nos diz que:

Quando Jesus falou do “reino de Deus”, essa longa tradição (o pensamento ocidental de que o objetivo do cristianismo era levar pessoas para morar no céu) excluiu a possibilidade de ele não estar falando sobre o “céu” que estava preparando para seus seguidores, mas de estar se referindo ao que estava acontecendo na terra e sobre ela, primeiro por meio de sua obra, depois por meio de sua morte e ressurreição, e então a partir da obra do Espírito, para a qual eles seriam chamados”.

Assim, o Reino de Deus é algo que veio para nossa história (Mt. 12.28; Mc. 1.15). Foi o mundo de Deus invadindo o nosso. A era futura de Deus irrompendo na era presente dos homens. Logo, não podemos pensar que o Reino de Deus seja algo que veio para nosso interior, como se o lugar de identificação do Reino fosse o coração do crente. Isso seria uma gritante contradição com toda a tradição do Antigo Testamento que era a base do ensino de Jesus, assim como de Paulo. Veja Is. 11.1ss; Dn. 2.31-35,44; 7.14; Zc. 14.9 onde a linguagem do Reino não pode ser espiritualizada com o objetivo de assumir uma conotação de experiência religiosa sem perder seu real sentido nas Escrituras. 

Quando Paulo diz que o Reino de Deus é alegria, paz e justiça (Rm. 14.17), ele não pensa em uma experiência religiosa privada, mas sim numa realidade comunitária. Note que o contexto era da boa convivência entre fracos e fortes na igreja de Roma (Rm. 14.1ss).

Temos que enxergar os ensinos, as refeições comunitárias, as curas, o milagre da multiplicação como a forma de Jesus demonstrar a presença do Reino Deus já existente na terra. O Reino provoca uma real transformação na estrutura do mundo criado. Com a chegada do Reino na vida e obra de Jesus, estabeleceu-se o início do fim de tudo aquilo que corrompe e desfigura a criação de Deus. Corretamente Oscar Cullmann declarou que as curas realizadas por Jesus não foram “somente contenção da morte, mas irrupção da vida no domínio do pecado”. O Reino dos céus, visto dessa forma, não é outra coisa senão o mundo de Deus sobrepondo-se ao nosso.

O momento decisivo de tudo isso, foi a morte e ressurreição de Jesus. Em sua morte, ele destruiu todo o poder do mal, MUNDO, CARNE ou PECADO na linguagem bíblica (Rm. 8.3; Gl. 6.14). Com a ressurreição de Jesus o novo mundo de Deus surgiu, a nova criação raiou invadindo a criação antiga (2Co. 5.17; Gl. 6.15). Aquilo que aconteceria no último dia, deu-se início no meio da história com a morte e ressurreição de Jesus. A promessa de Ap. 21.5, ainda por realizar-se de forma última, já foi inaugurada com a ressurreição do Filho de Deus segundo o texto de 2Co. 6.16.

O que falar então da música citada anteriormente? Ela descreve uma realidade humana, mas não visualiza a presença da realidade de Deus em nosso mundo. Seria então correto dizer não que iremos morar no céu, numa esperança escapista, mas sim que em breve o céu se unirá por completo com a terra, e teremos um Novo Céu e uma Nova Terra (Is. 65.17; 2Pe. 3.13; Ap. 21.1), tão cheios do “conhecimento do SENHOR como as águas cobrem o mar” (Is. 11.9). 

 Por desfrutar dessa salvação já realizada mas ainda não plenamente concluída, não posso desejar ser salvo do que Deus criou, mas salvo juntamente com aquilo que Ele criou, e que se encontra já em processo de restauração (At. 3.21; Ef. 1.10; Cl. 1.20). Que nossa proclamação, vista desta perspectiva, possa ser uma espécie de orquestra regida pela real mensagem existente nas Escrituras.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

TEMPLOLATRIA, A CRÍTICA DE JEREMIAS E ESTEVÃO


Recentemente foi inaugurado em São Paulo um prédio com o nome fantasia Templo de Salomão. Uma obra magnífica, digna do gênio arquitetônico de Herodes, o Grande, e tão esplendorosa quanto os mais altos sonhos de Nabucodonosor. No melhor dos cenários, este Templo de Salomão é uma bela obra da engenharia moderna, e no pior, uma aberração bíblico-teológica.

Desejo evocar duas vozes existentes na Bíblia para uma análise desta mais nova obra idolátrica de nossos dias. Primeiro o profeta Jeremias, com seu impactante sermão em Jr.7, e Estevão com o discurso não menos chocante de At. 7.

Jeremias viu que as pessoas em número elevado acorriam para o interior do templo (Jr. 7.1,2), estavam sedentas por adoração. O que para nós poderia ser visto como sinal de um possível avivamento, para o profeta Jeremias era uma conduta que mascarava uma triste realidade. Como bem salientou Eugene Peterson, ao afirmar que as pessoas “estavam no lugar certo, diziam as palavras certas, mas elas próprias não estavam certas”. Encontrar-se sedento por adoração, segundo Jeremias, não é o mesmo que se encontrar sedento por Deus.

Por mais que repetissem a verdade de que o local era o templo do SENHOR (v.4), note a tríplice repetição com a finalidade de ênfase, a conduta do povo em seu dia-a-dia anulava o discurso tão bem articulado (vs. 3,5-8). Não havia verdadeira piedade. As pessoas eram injustas, imorais e idólatras (vs. 9-11). O templo havia se tornado um mero fetiche, um amuleto de proteção não contra a vida corrompida, mas para se viver diariamente na corrupção (v.10). Desejavam um encontro com Deus no templo, mas não se dispunham a caminhar com Ele fora do recinto de adoração.

A consequência de tudo isso, lembra Jeremias, é que Deus faria com o templo o mesmo que havia feito com o antigo santuário de adoração em Siló (vs. 12-14). Siló fazia parte de antigas histórias de Josué (Js. 18.1). Era o santuário da época dos juízes (Jz. 21.19). Samuel, o último dos juízes fora criado neste santuário (1Sm. 1.24). Siló fazia parte, com isso, de uma rica tradição cultual, não obstante os antigos problemas já existentes neste antigo lugar de culto (1Sm. 2.12-14). O salmista relata a destruição de Siló no Salmo 78.58-61.

Jeremias alertou o povo que o mesmo aconteceria ao templo, símbolo da presença de Deus entre o povo. O lugar de adoração seria destruído pelo próprio Deus que há muito tempo havia deixado de ser verdadeiramente adorado. Isso aconteceu quando da invasão babilônica no ano 586 a.C. O sermão de Jeremias reverberou a tal ponto que encontramos ecos de sua voz no discurso de Estevão em Atos 7, o que não impediu que este ampliasse a visão negativa do próprio templo como vista em Jeremias.

Estevão recorda toda a história de Israel e como Deus agiu em favor de seu povo (At. 7.1ss). Declara que o tabernáculo, o santuário móvel da época do deserto e da conquista da terra, feito por Moisés foi segundo um modelo recebido diretamente por Deus (vs. 44,45), para depois fazer referência a construção do templo (vs. 46,47). É aqui que o pensamento de Estevão chega a um clímax não existente na pregação de Jeremias.

A originalidade da exposição de Estevão está em entender que a construção do Templo foi algo contrário aos planos de Deus. Quando ele diz: “Mas foi Salomão quem lhe construiu a casa”, é sua forma de dizer que o desejo de Davi, contrário à vontade de Deus, foi concretizado por seu filho e não por ele mesmo. É como se para Estevão, Deus houvesse privado Davi de um erro. Este teria sido o resultado de Davi ter achado graça diante de Deus. Note o contraste entre o v. 47 e o 48. Tudo não passou de uma obra inútil (vs. 49,50). Estevão sabe deixar de lado a crítica ao tabernáculo, pois ele explica que sua confecção foi ordem do próprio Deus (v. 44).

A expressão “feito por mãos humanas” é a chave para compreendermos o entendimento de Estevão da construção do Templo. Veja a relação entre o v. 41 e o 48. Esta era uma expressão que se usava para condenar a prática da idolatria (Lv. 26.1; Is. 31.7; 46.6). Durante o julgamento de Jesus, usaram esta expressão para incriminá-lo (Mc. 14.58).

Podemos dizer que Estevão levou até as últimas consequências a crítica ao templo. Os profetas, por exemplo, denunciaram a conduta errada dentro do templo. Quando muito, que o templo seria destruído por causa da violação da vontade de Deus. Para Estevão o próprio templo é uma violação da vontade de Deus, em outras palavras, só foi construído em decorrência da desobediência do povo. Foi a expressão maior de rebeldia (v. 51). Este templo, reconstruído e ampliado por Herodes, o Grande, veio abaixo no ano 70 d.C., sob o comando do general Tito.
Diante de tudo isso, afirmamos que o atual templo de Salomão na cidade de São Paulo não é outra coisa senão a expressão máxima de desobediência ao plano redentor de Deus. Jesus havia predito a sua destruição quando da admiração dos discípulos por sua imponente arquitetura (Mc. 13.1,2). “Jesus estava desafiando, em nome do Deus de Israel, o próprio lugar onde Deus deveria habitar e se relacionar com seu povo” (N. T. Wright). Logo, esse atual templo de Salomão é a reconstrução de algo que o próprio Jesus afirmou que seria completamente destruído como sinal do juízo divino. Em outras palavras, é um templo que se encontra em rota de colisão com o próprio Deus.

Afirma-se que lá é possível sentir a real presença de Deus. Basta adentrar o templo, segundo alguns, para se confirmar isso. Outro erro gritante. Não nego que as pessoas não possam se emocionar diante de uma estrutura tão colossal. Contudo, interpretar isso como sendo a presença de Deus é que não se pode admitir. Com a encarnação do Filho de Deus, a Glória que antes estava restrita ao templo, se encontra agora na pessoa de Jesus (Jo. 1.14). Ele tabernaculou, ou “estabeleceu seu tabernáculo entre nós” (Oscar Cullmann). É somente em Jesus que os céus encontram-se abertos (Jo. 1.51). “A partir de agora os céus estão sempre abertos, onde quer que Cristo esteja” (Oscar Culmann).

Com a destruição do templo, um novo foi construído por Cristo, que se constitui na comunidade dos discípulos (1Co. 3.16; 6.16; Ef. 2. 21,22; Hb. 3.6; 1Pe. 2.5). Não será esse novo templo que irá substituir àquele já construído pelo Cristo ressurreto.

Como últimas palavras, não podemos permitir que o símbolo que representava a presença de Deus substitua agora a realidade de Sua presença na comunidade dos discípulos onde Cristo habita. Fiquemos com a realidade da presença divina e não como o antigo símbolo que a representava. Que a denúncia do profeta Miquéias não seja esquecida ao combater aquilo que ficou conhecido em teologia do Antigo Testamento como teologia de Sião, que infelizmente vemos aflorar em nossos dias (Mq. 3.9-12).  

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

CRISTIANISMO SEM CRISTO

O que aconteceu com o cristianismo que fez com que ele se tornasse aquilo que é atualmente, uma caricatura distorcida e porque não dizer corrompida do verdadeiro cristianismo do Novo Testamento? A mensagem bíblica encontra-se diluída como uma proposta para o crescimento do número de evangélicos, o que tem fomentado uma grande colheita, mas infelizmente de muitos frutos estragados. Como identificar esse novo cristianismo não cristão? A tarefa é difícil, mas penso que algumas pistas são evidentes.

Essa nova modalidade de cristianismo é facilmente identificada pelo desejo idolátrico por novidades. A igreja, segundo eles, deve sempre inovar, não importa o que seja, exceto que inove. A única constante para estes “cristãos” é a inovação. Neste afã, tornaram a igreja numa espécie de circo, onde os membros deram lugar a plateia, o púlpito cedeu espaço ao palco de apresentações e o pastor desfigurou-se a tal ponto que se tornou um animador de auditório, ou palhaço circense. A igreja passou a ser um lugar de entretenimento e não mais de instrução, um lugar para se assistir um espetáculo, não mais para se ouvir a Palavra de Deus.

Devo confessar que a Bíblia não foi esquecida nestes círculos religiosos, ou igreja segundo eles. No entanto, deixou de ser o livro de estudo por excelência para se tornar num amuleto de superstição, um fetiche evangélico. Usam-se frases da Bíblia fora de seu contexto literário e histórico para imprimir uma cega confiança de que as bênçãos de Deus estão chegando. Não há uma mensagem de compromisso cristão, mas somente de auto realização humana. São ávidos por novidades (não verdade bíblica) trazidas por seus pregadores, mas negligentes em assumir um novo comportamento diante do texto bíblico.

O próprio conceito de espiritualidade foi corrompido. Espiritualizaram até mesmo a espiritualidade, no sentido de que a vida com Deus se resume, agora, no curto espaço de tempo de um efêmero culto. Ela tornou-se uma questão de sentimento, não mais de atitudes concretas fora do ambiente de “adoração”. Isto, contudo, pode ser visto tanto como fraude deliberada, quanto entendimento equivocado daquilo que realmente importa pra Deus. Busca-se, desta forma, a sinceridade das realizações cultuais em detrimento do comportamento obediente à Bíblia Sagrada. Esquece-se com isto, do rei Saul, que embora sincero naquilo que fez (1Sm. 13; 15.1-23), não foi obediente a ordem divina, o que incorreu no desfavor do SENHOR.

Diante desta lúgubre observação, como deixar de fora o modismo dos artistas evangélicos? Eles são mais conhecidos por muitos crentes que alguns dos personagens mais populares da Bíblia. Suas músicas tomaram o lugar dos versículos bíblicos na mente de seus fãs, ou será que somente ocuparam um lugar antes vazio? Não sabemos. Shows são promovidos numa escala endêmica. A preferência pelo show ao invés do culto é facilmente compreendida: no primeiro, o artista é o centro das atenções, no segundo, se verdadeiramente realizado, tudo converge unicamente para o engrandecimento de Deus. No show, o artista é um mero entretenimento para uma massa destituída de identidade. No culto, Jesus é o exemplo de vida que deve ser imitado por seus adoradores. No show, nossa humanidade se desfigura, já no culto ela é restaurada à semelhança do Seu Criador.

Por fim, quero confessar que apesar disso tudo, Cristo não pode ser destronado, pois em sua morte e ressurreição ele é Senhor do mundo. Temos contudo, que renunciar esse humanismo pagão, e confessarmos com uma só voz o que diz uma antiga música: “Jesus, entronizado, declaramos que és Rei”. Que a luz de sua glória irradie por meio de sua igreja, e que esse nefasto show tenha suas luzes apagadas, para que somente Cristo apareça.

terça-feira, 3 de junho de 2014

LEITURA VICIADA, PARTE 2 - LEVADO OU DEIXADO?

Neste post iremos abordar o conhecido texto de Mt. 24.40,41. Este será nosso segundo texto comprobatório de interpretação que precede a leitura no meio protestante. A passagem em questão é bastante conhecida entre os evangélicos. Uniforme também é o entendimento do texto: a pessoa que é levada é o crente e a deixada, o descrente quando do arrebatamento da igreja. Posso afirmar que nove entre dez evangélicos entendem o texto desta forma. Embora este dado não seja fruto de um estudo de caso, é o resultado empírico da surpresa estampada no semblante das pessoas quando expus algumas vezes outro significado alternativo para este texto.

Mateus 24 constitui um relato apocalíptico. É um capítulo com gênero literário próprio. É consenso entre os eruditos do Novo Testamento que Mateus fez uso do texto existente no evangelho de Marcos (Mc. 13) e o ampliou com material novo. Joachim Jeremias em Teologia do Novo Testamento faz um acurado estudo deste fato. Não faz parte do objetivo deste artigo analisar essas semelhanças e dessemelhanças nos dois relatos, mas sim sua tão conhecida interpretação já relatada anteriormente.

Qual o motivo de tantos evangélicos defenderem a mesma interpretação para este versículo? A resposta se acha no século XIX com os escritos de John Nelson Darby. Ele defendia que a volta de Cristo se daria em duas etapas, uma secreta, antes da Grande Tribulação e outra visível, após os eventos da Grande Tribulação. No Brasil a Bíblia de Estudo de Escofield popularizou este ensino de tal forma que muitos o defendem sem ao menos saberem sua origem.

A grande maioria dos cristãos transferiram para esta passagem a doutrina do suposto (isto para mim que não a defendo, mas evidente para os adeptos deste ensino) arrebatamento secreto defendida pela escola iniciada por John N. Darby. Logo, passou-se a interpretar que aquele que é levado seria o crente no momento do arrebatamento ou desaparecimento pouco antes do início da Tribulação, como descrito na série Deixados Para Trás que também virou obra cinematográfica. Isto não quer dizer que a escola iniciada por Darby interprete o texto dessa forma. Basta lermos a obra de J. D. Pentecost, Manual de Escatologia, para confirmarmos isto. Este afirma que o discurso apocalíptico de Jesus diz respeito somente a Israel e não a igreja.

Entretanto, o renomado estudioso do Novo Testamento, Charles Dodd, em seu livro As Parábolas dos Reino, ao observar esta passagem diz que não “está claro quem tem melhor sorte: o que é tomado ou o que é deixado”. (DODD, 2010, p. 76). Qual o valor desta observação para nosso estudo? Esta análise serve como princípio limitador de uma hermenêutica que se ufana em afirmar como sendo evidente a interpretação desta passagem, mantida, infelizmente, pelo imaginário evangélico popular.

Embora Dodd não afirme a situação de quem é deixado ou levado, expõe, por outro lado, a natureza da narrativa. Acertadamente ele diz que “o acontecimento em questão será o dia do Filho do Homem, que trará um juízo seletivo sobre os indivíduos...” (DODD, 2010, p. 76, grifo nosso).

Temos que interpretar os termos um será levado e outro deixado tendo em mente este juízo como contexto modelador de toda a narrativa mateana. Logo, a chave para o entendimento dos versículos 40 e 41 são os versículos 37-39. Jesus faz uso, aqui, do Dilúvio como evento explicativo para o futuro acontecimento condenatório descrito em seu sermão apocalíptico. É dito claramente que como “foi nos dias de Noé, assim também será na vinda do Filho do Homem”. Faz-se necessário agora uma pergunta: quem foi levado pelas águas do Dilúvio? Noé e sua família ou as demais pessoas e animais? Aqueles que conhecem a história bíblica dirão a segunda opção.

Chegamos aqui no limiar de nossa exposição. Se as águas do Dilúvio levaram toda a população da época de Noé, exceto ele e sua família, qual a identidade daquele que será levado nos versículos 41,42? Só poderá ser o descrente quando do juízo condenatório provocado pela segunda vinda de Jesus. Podemos ver com isto que a passagem em questão não aborda o arrebatamento mas sim o juízo do último dia.

É bem verdade que os termos usados nos versículos 39 (levou a todos) e 40 (um será levado) não são os mesmos. Todavia, isto não pode ser usado para se dizer que aquele que é levado em Mt. 24.40 teria um sentido positivo, sendo com isto distinto do significado negativo de Mt. 24.39. O sentido de uma palavra, entretanto, não pode ser obtido somente com o estudo de seu significado etimológico, mas sim pelo contexto da passagem em que o termo se encontra. D. A. Carson, em Falácias da Interpretação Bíblica já explicou o equívoco deste pressuposto metodológico. Logo, mesmo os termos sendo distintos, o contexto da passagem lhes confere o mesmo significado pretendido pelo autor. Ser levado ou tomado, é ser apanhado pelo juízo, assim como no dilúvio, e ser deixado é a forma de se descrever que outros escaparão ilesos desse julgamento, da mesma forma que Noé e sua família. A passagem de Ap. 14.14-20 serve como texto correlato para Mt. 24.40,41. 

Devo admitir que não pretendo trazer a última palavra sobre este texto, encerrando assim qualquer discussão. Contudo, permitamos que a Bíblia nos diga aquilo que o autor pretendia dizer e não aquilo que achamos que ele tenha dito por influência de nossas lentes doutrinárias.