quarta-feira, 22 de outubro de 2014

TEMPLOLATRIA, A CRÍTICA DE JEREMIAS E ESTEVÃO


Recentemente foi inaugurado em São Paulo um prédio com o nome fantasia Templo de Salomão. Uma obra magnífica, digna do gênio arquitetônico de Herodes, o Grande, e tão esplendorosa quanto os mais altos sonhos de Nabucodonosor. No melhor dos cenários, este Templo de Salomão é uma bela obra da engenharia moderna, e no pior, uma aberração bíblico-teológica.

Desejo evocar duas vozes existentes na Bíblia para uma análise desta mais nova obra idolátrica de nossos dias. Primeiro o profeta Jeremias, com seu impactante sermão em Jr.7, e Estevão com o discurso não menos chocante de At. 7.

Jeremias viu que as pessoas em número elevado acorriam para o interior do templo (Jr. 7.1,2), estavam sedentas por adoração. O que para nós poderia ser visto como sinal de um possível avivamento, para o profeta Jeremias era uma conduta que mascarava uma triste realidade. Como bem salientou Eugene Peterson, ao afirmar que as pessoas “estavam no lugar certo, diziam as palavras certas, mas elas próprias não estavam certas”. Encontrar-se sedento por adoração, segundo Jeremias, não é o mesmo que se encontrar sedento por Deus.

Por mais que repetissem a verdade de que o local era o templo do SENHOR (v.4), note a tríplice repetição com a finalidade de ênfase, a conduta do povo em seu dia-a-dia anulava o discurso tão bem articulado (vs. 3,5-8). Não havia verdadeira piedade. As pessoas eram injustas, imorais e idólatras (vs. 9-11). O templo havia se tornado um mero fetiche, um amuleto de proteção não contra a vida corrompida, mas para se viver diariamente na corrupção (v.10). Desejavam um encontro com Deus no templo, mas não se dispunham a caminhar com Ele fora do recinto de adoração.

A consequência de tudo isso, lembra Jeremias, é que Deus faria com o templo o mesmo que havia feito com o antigo santuário de adoração em Siló (vs. 12-14). Siló fazia parte de antigas histórias de Josué (Js. 18.1). Era o santuário da época dos juízes (Jz. 21.19). Samuel, o último dos juízes fora criado neste santuário (1Sm. 1.24). Siló fazia parte, com isso, de uma rica tradição cultual, não obstante os antigos problemas já existentes neste antigo lugar de culto (1Sm. 2.12-14). O salmista relata a destruição de Siló no Salmo 78.58-61.

Jeremias alertou o povo que o mesmo aconteceria ao templo, símbolo da presença de Deus entre o povo. O lugar de adoração seria destruído pelo próprio Deus que há muito tempo havia deixado de ser verdadeiramente adorado. Isso aconteceu quando da invasão babilônica no ano 586 a.C. O sermão de Jeremias reverberou a tal ponto que encontramos ecos de sua voz no discurso de Estevão em Atos 7, o que não impediu que este ampliasse a visão negativa do próprio templo como vista em Jeremias.

Estevão recorda toda a história de Israel e como Deus agiu em favor de seu povo (At. 7.1ss). Declara que o tabernáculo, o santuário móvel da época do deserto e da conquista da terra, feito por Moisés foi segundo um modelo recebido diretamente por Deus (vs. 44,45), para depois fazer referência a construção do templo (vs. 46,47). É aqui que o pensamento de Estevão chega a um clímax não existente na pregação de Jeremias.

A originalidade da exposição de Estevão está em entender que a construção do Templo foi algo contrário aos planos de Deus. Quando ele diz: “Mas foi Salomão quem lhe construiu a casa”, é sua forma de dizer que o desejo de Davi, contrário à vontade de Deus, foi concretizado por seu filho e não por ele mesmo. É como se para Estevão, Deus houvesse privado Davi de um erro. Este teria sido o resultado de Davi ter achado graça diante de Deus. Note o contraste entre o v. 47 e o 48. Tudo não passou de uma obra inútil (vs. 49,50). Estevão sabe deixar de lado a crítica ao tabernáculo, pois ele explica que sua confecção foi ordem do próprio Deus (v. 44).

A expressão “feito por mãos humanas” é a chave para compreendermos o entendimento de Estevão da construção do Templo. Veja a relação entre o v. 41 e o 48. Esta era uma expressão que se usava para condenar a prática da idolatria (Lv. 26.1; Is. 31.7; 46.6). Durante o julgamento de Jesus, usaram esta expressão para incriminá-lo (Mc. 14.58).

Podemos dizer que Estevão levou até as últimas consequências a crítica ao templo. Os profetas, por exemplo, denunciaram a conduta errada dentro do templo. Quando muito, que o templo seria destruído por causa da violação da vontade de Deus. Para Estevão o próprio templo é uma violação da vontade de Deus, em outras palavras, só foi construído em decorrência da desobediência do povo. Foi a expressão maior de rebeldia (v. 51). Este templo, reconstruído e ampliado por Herodes, o Grande, veio abaixo no ano 70 d.C., sob o comando do general Tito.
Diante de tudo isso, afirmamos que o atual templo de Salomão na cidade de São Paulo não é outra coisa senão a expressão máxima de desobediência ao plano redentor de Deus. Jesus havia predito a sua destruição quando da admiração dos discípulos por sua imponente arquitetura (Mc. 13.1,2). “Jesus estava desafiando, em nome do Deus de Israel, o próprio lugar onde Deus deveria habitar e se relacionar com seu povo” (N. T. Wright). Logo, esse atual templo de Salomão é a reconstrução de algo que o próprio Jesus afirmou que seria completamente destruído como sinal do juízo divino. Em outras palavras, é um templo que se encontra em rota de colisão com o próprio Deus.

Afirma-se que lá é possível sentir a real presença de Deus. Basta adentrar o templo, segundo alguns, para se confirmar isso. Outro erro gritante. Não nego que as pessoas não possam se emocionar diante de uma estrutura tão colossal. Contudo, interpretar isso como sendo a presença de Deus é que não se pode admitir. Com a encarnação do Filho de Deus, a Glória que antes estava restrita ao templo, se encontra agora na pessoa de Jesus (Jo. 1.14). Ele tabernaculou, ou “estabeleceu seu tabernáculo entre nós” (Oscar Cullmann). É somente em Jesus que os céus encontram-se abertos (Jo. 1.51). “A partir de agora os céus estão sempre abertos, onde quer que Cristo esteja” (Oscar Culmann).

Com a destruição do templo, um novo foi construído por Cristo, que se constitui na comunidade dos discípulos (1Co. 3.16; 6.16; Ef. 2. 21,22; Hb. 3.6; 1Pe. 2.5). Não será esse novo templo que irá substituir àquele já construído pelo Cristo ressurreto.

Como últimas palavras, não podemos permitir que o símbolo que representava a presença de Deus substitua agora a realidade de Sua presença na comunidade dos discípulos onde Cristo habita. Fiquemos com a realidade da presença divina e não como o antigo símbolo que a representava. Que a denúncia do profeta Miquéias não seja esquecida ao combater aquilo que ficou conhecido em teologia do Antigo Testamento como teologia de Sião, que infelizmente vemos aflorar em nossos dias (Mq. 3.9-12).