quarta-feira, 10 de maio de 2017

EVANGELHO MODINHA

Nesta última terça-feira (09/05), o programa Conversa Com Bial, contou com a participação de três jovens evangélicos que são sucesso nas redes sociais. A conversa se deu em tom muito agradável e Bial em nenhum momento se mostrou agressivo. Entre muitos risos, os convidados buscavam explicar termos oriundos do ambiente pentecostal e neo-pentecostal, tais como: manto; varoa, cheio de azeite entre outros. A seriedade da conversa só foi possível com a participação de um professor ateu (a parte mais produtiva do programa). Foi isso que me chamou a atenção.

Os três convidados evangélicos eram bons para a conversa cômica, porém, inapropriados para explicar o que realmente é o protestantismo. Isso foi tarefa do professor ateu. Foi de seus lábios que ouvimos o grande lema da reforma protestante do séc. XVI, a justificação por meio da fé (mais irônico impossível). Bial soube conduzir seus convidados evangélicos na estrada do discurso irrelevante. A única pergunta escorregadia feita por Bial foi sobre o homossexualismo. Sobre isso não foi nenhuma surpresa a resposta politicamente correta, que poderia ser sintetizada da seguinte forma: na minha igreja eles são aceitos, mas cabe ao Espírito Santo dizer se é errado ou não. 

Mas é claro que são aceitos! Assim como o jovem que faz sexo com sua namorada; ou mesmo aquele que não manteve sua fidelidade conjugal; o mentiroso, o corrupto. Todos são aceitos. Mas são aceitos nos termos do evangelho, para uma mudança radical de vida.

Bial não queria saber o que é pecado, salvação, fé, justificação, Deus, Jesus ou o Espírito Santo. E se o quisesse, não sei se seus convidados estariam aptos para lhe responder. Afinal de contas, tudo girou em torno da subjetividade: eu penso, eu acho, para mim. Em nenhum momento foi citado a fé de Jesus. Nada de novo nisso, pois há muito tempo nos esquecemos o papel de uma testemunha: relatar os fatos do que Deus fez em Jesus e através de Jesus e não sua opinião sobre esses eventos. 

Para que ninguém tire conclusões equivocadas sobre esse post, reafirmo minha admiração por Bial, por sua capacidade em articular as palavras. Também vejo alguns vídeos do pastor Jacinto Manto. Me agrada o fato da graça com os estereótipos evangélicos, mas que em nenhum momento desrespeita o Sagrado. 

Enfim, perto de comemorar 500 anos da reforma protestante, os evangélicos são admirados por serem engraçados, mas preteridos nos assuntos urgentes que assolam nosso séc. XXI. Mas parece que não percebemos isso. Queremos ser bem sucedidos em áreas onde o cristianismo primitivo ou Jesus jamais fizeram sucesso.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

FIM DO MUNDO?

Em posts anteriores afirmamos que Deus não descartará sua criação jogando-a num incinerador cósmico, mas que trará cura e restauração para a ordem criada. Mas como mantermos esse posicionamento diante do texto de 2Pe. 3.10-12? 

Em primeiro lugar, devemos concordar que a passagem é no mínimo complicada. Não admitir isso é não prestar atenção ao texto. Mas isso não quer dizer que ele esteja apontando para uma direção contrária ao ensino da Bíblia em geral ou mesmo da fé judaico-cristã do cristianismo nascente. Ainda que numa primeira leitura se tenha a impressão de que a criação aguarda sua aniquilação completa, podemos dizer, por mais estranho que pareça, que não era isso que Pedro tinha em mente. Admitir o contrário seria criar uma contradição com tudo o que Paulo ensinou, em especial Rm. 8.19-22. 

A primeira coisa para se entender esse texto tem a ver com a tradução. Algumas versões trazem no final do v. 10 “será queimada”, “consumida”. A NTLH diz que “a terra e tudo o que existe nela vão sumir”. Essa tradução é atestada por manuscritos do séc. V e VI. A NVI traz no final do v. 10 o termo “desnudada”. De acordo com manuscritos mais antigos, datados do séc. IV, o sinaíticus e o vaticanus a palavra original seria “descoberta”. Isso muda tudo. Na primeira, a ideia é de destruição completa, na segunda, de purificação. 

Levando em consideração os manuscritos mais antigos, Pedro nos diz que a criação e suas obras serão desnudas, descobertas, expostas de acordo com a antiga intenção do seu Criador. O fogo trará a verdade profunda da criação de Deus. A criação e suas obras quando provadas pelo fogo mostrarão sua real natureza. É algo semelhante ao que Pedro disse sobre a fé (1Pe. 1.7). O fogo em 2Pe. 3.10 é o julgamento moral que destruirá todo o mal. O paralelo aqui é com as águas do dilúvio (vs. 6,7). Não foi a terra em si que foi destruída no dilúvio, mas a impiedade e todos que a praticavam, o mundo conhecido da época de Noé. Pedro descreve uma espécie de limpeza moral completa de toda a ordem criada. O dilúvio trouxe uma limpeza parcial, o aparecimento de Jesus, por sua vez, trará uma limpeza completa. Podemos dizer que a linguagem pessoal do julgamento pelo fogo de Ml. 3.2,3, foi transposta para toda a criação. 

A restauração de uma catedral serve de comparação para entendermos o texto de 2Pe. 3.10: sujeira e outras pinturas acumuladas ao longo dos séculos encobrem as verdadeiras cores de uma catedral. Os restauradores removem meticulosamente essas camadas e descobrem a real beleza que estava escondida. A catedral, depois disso, mesmo tendo vários séculos de existência, pode ser vista como inteiramente nova. 

Queremos, com esse exemplo, dizer que não haverá uma abolição da criação, antes, o julgamento retirará as diversas camadas de corrupção acumuladas ao longo de milênios de história humana. Retiradas essas camadas, a beleza, justiça e bondade sem limites inundarão a criação, trazendo com isso, novos céus e nova terra (v. 13). Note que Pedro não espera depois do fogo, o nada, ou um céu etéreo, mas um novo mundo. Noé surgiu, depois do dilúvio, em um aparente mundo novo. Pedro descreve que após o julgamento do fogo, surgirá, verdadeira e definitivamente um novo mundo. Segundo o texto, a nova criação brotará da velha criação. Deus não fará, com isso, um novo ato semelhante ao de Gn. 1.1 – do nada – mas a partir do que ele já fez. Ou seja, do já existente ele trará algo novo. O autor aos Hebreus traz uma imagem diferente quando comparada ao texto de Pedro (Hb. 12.26-28). De um mundo abalado por Deus, sacudido, surgirá um mundo mais sólido.  

A linguagem do julgamento descrita por Pedro não pode ser separada do ensino bíblico de que a criação é fruto das mãos do bondoso Criador. Se a criação não é algo bom, o julgamento a consumirá por completo. Se ela ainda é a boa criação de Deus, mesmo sabendo que se encontra fora dos trilhos, o julgamento a resgatará, punindo somente aquilo que a desfigura.

sábado, 4 de março de 2017

SOBRE A DIFÍCIL DOUTRINA DO INFERNO - Mc. 9.43-48

INTRODUÇÃO

Alguns assuntos são difíceis de serem compreendidos. Temos dificuldade de assimilar um assunto por causa de sua complexidade (a trindade, por exemplo), ou recusamos uma doutrina por causa da aparente repulsa moral que ela nos provoca: como admitir a existência do inferno com a mensagem de um Deus de amor pregada pelo cristianismo? 

Em nossa época pós-moderna, não há espaço para assuntos que inibam o comportamento das pessoas, ou que digam que suas ações têm consequências eternas. Ninguém quer ouvir algo que incomode sua consciência. Queremos ir à igreja e ouvir alguma coisa que nos ponha para cima, que nos traga alegria, que mostre o quanto somos bons ou mesmo valiosos. Como pregar sobre o inferno num cenário desses?

Há outro problema também: alguns falam do inferno de uma forma tão caricata que na imagem popular o inferno se tornou o lugar de reinado do diabo (quem nunca ouviu a expressão, “nem o diabo quer ele no inferno"?), um folclore dos evangélicos. É comum vermos vídeos compartilhados por cristãos onde as pessoas são atormentadas no inferno pelos demônios (como no filme Constatine). Basta uma rápida pesquisa na internet para confirmar o que eu digo.

Por isso não quero ser nessa noite um pregador medieval. Alguém que fala do inferno como se ele fosse uma masmorra que satisfaça o desejo sádico por tortura de um deus maldoso. Ou mesmo alguém que tem o desejo mórbido para ver pessoas sendo punidas eternamente. 

INFERNO, UMA DOUTRINA INTOLERÁVEL

Todos concordam que possa existir um Deus de amor que perdoa, mas um Deus que julga e condena, isso não. É algo ofensivo. Um filósofo holandês (Hermann Dooyeweerd), disse certa vez que a fé natural do homem se torna incredulidade diante da verdade da Palavra de Deus.

A doutrina do inferno é um golpe mortal ao sonho moderno marcado pela busca do poder. Quantos líderes ao longo da história massacraram inocentes somente para que seus ideais de grandeza fossem satisfeitos? Quantos governos comunistas tiveram suas bandeiras tingidas pelo derramamento de sangue? Milhões de pessoas morreram sob o peso de regimes comunistas. A doutrina do inferno diz para esses ditadores: há um preço a pagar. Não ficarão impunes para sempre. 

O desejo por poder não é visto somente na vida de ditadores, mas também no comportamento do cidadão comum. Queremos que tudo seja alterado para se ajustar aos nossos desejos. A única verdade absoluta para o homem moderno é seu próprio desejo. Somos aqueles que determinam o que é certo e o que é errado (Is. 5.20). No programa do GNT, Papo de Segunda, Leo Jaime disse que temos a “liberdade de encontrar o prazer onde ele estiver”. O erro foi abolido da mentalidade moderna. Nos encontramos na época em que os insultos devem ser redefinidos e não abandonados. A mulher da atualidade tem o "direito de ser vadia ou piranha" (isso foi dito por uma mulher num programa de TV). É o chamado direito para se fazer o que bem deseja com o corpo. Todos devem aceitar isso. Só não se aceita que alguém discorde desse comportamento. Estamos numa época em que o mal é glamourizado, é o estilo de vida alternativo em um mundo sem sentido. 

Isso cria um embate com a mensagem do evangelho: ou as pessoas possuem o direito de determinar o que é certo e errado ou aceitam que haverá um julgamento final e condenação para os que adotaram o erro como prática de vida. Por que alguém deveria ser julgado pelo seu adultério se para ela não há nada demais em adulterar? A resposta fica com o apóstolo Paulo (cf. Rm. 2). Pelo fato da Bíblia ser a revelação de Deus, uma hora ou outra ela vai contrariar nossas opiniões. Já foi dito que o verdadeiro ópio do povo é a crença no nada após a morte. A ideia de que nossas traições, ganância, inimizades, imoralidades não serão julgadas. Esse é o melhor dos consolos para aqueles que se acham no direito de fazer o que bem entendem. 

CORRIGINDO A VISÃO POPULAR DO INFERNO

Quando falamos em inferno vem logo a nossa mente Deus lançando pessoas que imploram por piedade às chamas eternas. Essa imagem faz com que fiquemos do lado dos que são condenados e um pouco receosos com a atitude implacável de Deus. Podemos afirmar que isso é uma caricatura e não a imagem real. 

A palavra inferno, é gehenna, que no hebraico é Hinon, Vale de Hinon, um antigo lugar onde se fazia sacrifícios humanos (2Rs. 16.3; 21.6). Por ter sido considerado imundo, se tornou um depósito de lixo com fogo constante e matéria orgânica em decomposição, daí a imagem do bicho que nunca morre e do fogo que nunca se apaga. Logo, a imagem do fogo e do bicho é uma comparação feita por Jesus, não uma descrição literal do inferno. O fogo pode estar relacionado com a desintegração da personalidade humana, e trevas, outra imagem bíblica do inferno (Mt. 25.30), pode significar isolamento. O inferno é o lugar onde as pessoas estarão cada vez mais afastadas de Deus e umas das outras. 

A história do rico e Lázaro contada por Jesus nos dá algum indício da realidade e horror do sofrimento (Lc. 16.19-31). O rico parece ignorar a inversão de situação. Ele encara Lázaro como seu servo, uma pessoa de recado. Ele dá a entender que Deus não deu alerta suficiente sobre a realidade da condenação. Ele mesmo não pede para sair do lugar de sofrimento. É alguém que não possui nome, é somente o homem rico. Sua identidade se perdeu com a perda da riqueza, ao contrário de Lázaro. 

No inferno, o egoísmo e orgulho que marcam todos os pecados, crescerá por toda a eternidade, ao ponto de ninguém desejar nem mesmo sair do lugar de condenação, mesmo diante da dor e sofrimento. Seu orgulho e egoísmo não permitem. É um estado sub-humano, serão pessoas desumanizadas, nem mesmo poderão provocar o sentimento de compaixão nos outros. Cada vez menos refletirão a imagem do Criador. Sméagol, o Gollun de O Senhor dos Anéis, exemplifica muito bem isso. Se tornou uma criatura grotesca ao encontrar o Um Anel, o próprio poder do mal (Um Anel para a todos governar, um Anel para encontrá-los; Um Anel para todos trazer e na escuridão aprisioná-los - não resisti!).

O INFERNO ANTES DA MORTE

É costume relacionarmos o inferno a uma realidade somente depois da morte para os que recusam a mensagem do evangelho. Mas podemos identificar a desumanização do homem, a desintegração de sua personalidade, seu isolamento constante, o orgulho avassalador bem como seu egoísmo crescente na vida daqueles que por não seguirem a Jesus, por não adorarem ao Deus verdadeiro vivenciam a realidade do inferno em estado crescente em suas vidas. Quantos não se encontram assim pelo aprisionamento ao vício, ao sexo, dinheiro, poder, maldade? Um estado verdadeiramente desumano. 

A SOLUÇÃO

Aqui entra a boa notícia do evangelho. Jesus era judeu, um homem de pouco mais de trinta anos. Ele acreditava que Deus por seu intermédio estava cumprindo seu antigo propósito de salvar a criação. Por isso ele morreu na cruz, para que o mau fosse derrotado e o perdão de Deus irradiasse por todo o mundo. Ao ressuscitar dos mortos ele iniciou o projeto da nova criação e aqueles que o seguem passam a fazer parte deste projeto de renovação de todas as coisas. Quem está em Jesus é nova criação (2Co. 5.17) e por causa disso, não há mais condenação para seus seguidores (Rm. 8.1). Essa é a boa notícia que nos livra da condenação do inferno. 

Glória ao Pai, Glória ao Filho, Glória ao Espírito Santo.

domingo, 22 de janeiro de 2017

GÊNESIS 1-2, UMA RELEITURA

A história de Adão e Eva é do conhecimento de todos os judeus, cristãos e boa parte de não cristãos. É quase um patrimônio religioso-cultural da humanidade. Ouvimos sua narrativa na igreja bem como seu escárnio das vozes do assim chamado novo ateísmo. Nossa intenção com esse post não é reafirmar o que já se diz ao longo do tempo sobre Adão e Eva (que eles foram o primeiro casal da terra), nem tão pouco rebater as críticas ateístas sobre essa parte da Bíblia (que ela seria um mero mito destituído de fundamentação histórica), mas sim, permitir que o texto nos fale de uma nova maneira. 

É preciso dizer, em primeiro lugar, que essa releitura vem sendo feita por teólogos como Derek Kidner, John Walton e N. T. Wright, logo, não há nada de original nesse artigo, exceto o ordenamento das ideias desses estudiosos. Em segundo, continuo acreditando na autoridade da Bíblia bem como na criação da humanidade como ato criativo de Deus, ou nas palavras do renomado teólogo batista do séc. XIX, A. H. Strong: “As Escrituras, por um lado, negam a ideia de que o homem é um simples produto das forças naturais irracionais. Elas ligam a sua existência a uma causa diferente da simples natureza, a saber, é um ato criativo de Deus”. 

A leitura comum (não que seja errada) é vermos Adão e Eva como os primeiros e únicos humanos no início dos capítulos 1-3 de Gênesis. Mas é possível que tenhamos em Gn. 1.26 a criação de pessoas em massa, ou de uma humanidade geral e não de dois indivíduos particulares, Adão e Eva no nosso caso. O hebraico Adan (Adão) significa humanidade, bem como nome próprio. Na estrutura da criação, Deus cria um incontável número de animais e logo os abençoa com a dádiva da procriação (Gn. 1.20-27), o mesmo podendo ter ocorrido com o gênero humano.

Adão e Eva seriam neste caso, possíveis descendentes do grupo humano original de Gênesis 1.26. Em Gênesis 2 eles foram escolhidos como representantes da humanidade formada, ou seja, eles entram na história em um mundo já povoado. Adão e Eva são os únicos colocados no jardim do Éden com uma espécie de função sacerdotal. Uma função sagrada num espaço sagrado. Por meio desse casal os propósitos do Criador irradiariam por toda sua criação, a terra seria levada a sua verdadeira frutificação, se encher do conhecimento do SENHOR como as águas cobrem o mar. Através desse lugar e por meio desse casal a vida do Criador irromperia trazendo ordem, paz e justiça. A desobediência traria a morte, o caos, a desordem, tanto para sua descendência quanto para seus contemporâneos fora do jardim. 

Logo de cara surgem algumas dúvidas: se Adão não foi o primeiro homem criado, então nem todos são descendentes dele. Respondemos dizendo que a única descendência preservada na terra foi a de Adão e Eva. Os demais humanos presentes no grupo inicial criado em Gn. 1.26 teriam chegado ao fim com o dilúvio. Essa seria a razão de Gn. 3.20 falar que Eva seria a mãe de toda a humanidade. Outra objeção seria dizer que se Adão não foi o primeiro homem criado, teríamos que admitir que houve uma classe de pessoas sem pecado. Não necessariamente. O pecado é mais que uma questão de hereditariedade, mas sim de solidariedade. Adão é o representante de todos, desde seus contemporâneos aos seus descendentes. Somos o que somos em decorrência de Adão, da mesma forma que somos quem somos em decorrência de Cristo. Jesus é o arquétipo, aquele que nos representa, alguém que consertou o erro do primeiro arquétipo, Adão. 

Mas se Adão não foi o primeiro homem criado, como entender que Deus o formou do pó da terra (Gn. 2.7)? Não é preciso interpretar literalmente essa passagem. Pode ser uma metáfora para descrever que assim como Adão, todos nós somos formados por Deus, somos frágeis (pó da terra). Uma linguagem semelhante pode ser vista em Jó. 10.8; Sl. 119.73; 139.13. Não se pressupõe dessas passagens que o autor não tenha sido formado por meio de um processo biológico normal, somente porque usam termos como: “tuas mãos me formaram”. Adão foi sim um personagem histórico, mas sua narrativa encontra-se em linguagem mitificada, metafórica.

Sim, tudo bem, mas como entender a formação da mulher segundo essa posição (Gn. 2.21,22)? Podemos afirmar que é o mesmo quando se diz que Deus formou o homem do pó da terra, ou seja, linguagem metafórica. O sono profundo em que Adão se encontrava se enquadra muito com o sono profundo de Abraão em Gn. 15.12s, momento em que o patriarca recebe uma revelação de Deus. O sono profundo de Adão, ou seja, a informação dada por Deus de quem seria Eva, bem como o tomar de uma de suas costelas, seria uma forma de dizer que foi Deus quem preparou, escolheu por esposa uma mulher para Adão.

Essa leitura de Adão e Eva não suscita somente dúvidas, ela esclarece alguns problemas no texto de Gênesis. Muitos perguntam quem teria sido a esposa de Caim (Gn. 4.17)? A resposta, para alguns, está em afirmar que Caim casou com uma de suas irmãs, semelhante a dinastia Targaryen das Crônicas de Gelo e Fogo. É certo que Adão e Eva tiveram filhas (Gn. 5.4) mas o texto de Gn. 4.17 pressupõe que Caim já se encontrava casado, e segundo Gn. 5.4, uma filha de Adão e Eva só foi gerada depois do nascimento de Sete. Outra possibilidade é admitir que Adão e Eva não estavam sozinhos, e que Caim casou com alguma dessas pessoas. Se não havia outras pessoas além de Adão e Eva, qual o motivo de Caim pensar que se alguém o encontrasse poderia vingar o sangue de seu irmão Abel (Gn. 4.14)?

Além do mais, os vestígios de vida humana parecem ser mais antigos que o estilo de vida descrito em Gênesis 4. Há indícios do surgimento de cultura datadas de 30.000 a 40.000 anos, enquanto o estilo de vida de Gn.4, criação de animais e agricultura, pertencem ao período neolítico, 8.000 a 10.000 anos atrás. Temos um lapso de tempo de 20.000 a 30.000 anos, se Adão foi o primeiro homem criado e Caim o primeiro agricultor. A não ser que Adão seja mais próximo a nós que os humanos iniciais de Gn. 1.26. 

Por último, a visão de Adão e Eva como pessoas escolhidas em benefício dos demais faz parte do fio condutor presente no quadro narrativo do Antigo Testamento com a escolha de Abraão. A vocação conferida a Adão e Eva é reafirmada em Abraão (Gn.12) da seguinte forma: Deus escolhe Abraão para ser o veículo por meio do qual a benção de Deus alcançaria todos os povos, da mesma forma que a obediência de Adão e Eva abençoaria toda a criação. Abraão recebe a promessa de que seria pai de uma multidão, da mesma forma que Adão e Eva gerariam sua descendência exercendo a ordem de multiplicar-se. Abraão recebe a promessa de herdar uma terra onde Deus habitaria com seu povo, no caso de Adão e Eva, o paraíso, onde se encontravam desfrutando da presença de Deus. A família de Abraão, em caso de infidelidade à aliança, seria expulsa da terra, indo ao exílio. O mesmo destino de Adão e Eva, que por desobediência foram expulsos do jardim. Abraão e sua família foram chamados para desfazer o erro de Adão, mas eles também incorreram na mesma falha. Deus suscita um israelita fiel, Jesus, descendente de Abraão, ou como disse Paulo, o segundo Adão, que desfez o erro do primeiro, cumprindo a promessa de que todos os povos da terra seriam abençoados.

Essa é uma possibilidade de releitura, um acréscimo ao entendimento comum sobre Adão e Eva, e não o seu substituto, afinal de contas, “teologia se escreve a lápis”.