segunda-feira, 24 de junho de 2013

CALVINO E AS REVELAÇÕES FORA DA BÍBLIA

Ao descrever o profetismo no Antigo Testamento, Calvino deixa bem claro que a palavra do profeta só seria genuína se esta fosse precedida pela Palavra de Deus. A Palavra do SENHOR deve, necessariamente, anteceder a declaração do profeta. Como exemplo usado pelo reformador no Livro 4, Cap. VIII, Seç. 3, o profeta Ezequiel (Ez. 3.17) deveria antes ouvir da boca do SENHOR o que ele deveria transmitir, não permitindo assim, ao profeta, nenhuma possibilidade de transmitir algo que não fosse antes dado pelo SENHOR.

O mesmo se dá com os apóstolos. Assim como os profetas, não deveriam ensinar nada de seu próprio arbítrio, mas o que antes tinha sido transmitido pelo Senhor Jesus. Como fundamento Calvino usa o texto de Mt. 28.19,20 (livro 4, cap. viii, seç.4).

Quando da necessidade do registro escrito daquilo que se havia falado da parte do SENHOR, a Escritura agora é a norma de todo ensino. Assim como a Palavra de Deus antecedia a palavra do profeta, a Escritura deve preceder toda e qualquer declaração doutrinária. Cabe ao sacerdote, como é citado por Calvino (livro 4, cap. vii, seç. 6) não ensinar nada que seja estanho àquilo que existe na Lei. Como fundamentação ele cita Ml. 2.7. Até mesmo os profetas, salienta Calvino, não trouxeram novidade no que diz respeito ao conteúdo da Lei, antes foram seus interpretes.

Com a encarnação do Filho de Deus, consumou-se toda a revelação dada pelo Senhor. Calvino entende que Hb. 1.1,2 (livro 4, cap. viii, seç. 7) nos ensina que Deus não falará mais pelos lábios de um ou de outro, antes, em Jesus conclui-se todo o ensino da parte de Deus. Com Cristo dá-se início a última hora (1Jo.2.18), últimos tempos (1Tm. 4.1) e últimos dias (At. 2.17; 2Tm. 3.1; 2Pe. 3.3) o que se deve inferir, segundo Calvino, que não se pode admitir nenhuma novidade doutrinária. Não “é função do Espírito” transmitir novas revelações ou um “novo gênero de doutrina”, mas selar na mente do salvo a doutrina existente no evangelho (livro 1, cap. ix, seç. 1). 

Para Calvino, não há mais revelação normativa, somente a Bíblia possui autoridade neste quesito. Ele usa como exemplo 1Co. 14.29,30 para afirmar que a palavra do profeta deve ser julgada pelo crivo da Palavra escrita de Deus (livro 4, cap. viii, seç. 9). Entende-se o profeta aqui como aquele que expõe a vontade de Deus para a igreja com base nas Escrituras e não alguém que comunica novas verdades. Assim se expressa Calvino em seu comentário de 1Coríntios, 2ª ed. p. 392.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

A CEIA "NOSSA" DE CADA MÊS

É impressionante como alguns de nossos sentimentos religiosos ainda são influenciados por uma mentalidade católica. Uso como exemplo a ceia do Senhor. Ninguém em sã consciência pode negar sua importância na celebração durante o culto. Não obstante, não podemos cometer o erro da deificação da cerimônia em si, tornando-a um ídolo. Não é a cerimônia que deve ser reverenciada, mas sim Deus por meio desta celebração.

Precisamos mudar nossa práxis pastoral no que diz respeito às pessoas que não podem participar da ceia por questão de saúde ou coisas afins. Temos o costume de dizer: levaremos a ceia para fulano de tal. No entanto, a ceia não se leva, pois ela é, exclusivamente, celebração em conjunto – em outras palavras, igreja reunida. O mais viável é que alguns irmãos celebrem a ceia do Senhor com aquele que não tem condições de se encontrar com os demais irmãos reunidos na igreja local. Ninguém, após a participação em um aniversário diz: vou levar este aniversário para fulano. Ou diz? Pode-se até levar parte do bolo, mas aquele bolo não é o aniversário em si mesmo. Assim, mesmo que se leve os elementos, pão e suco de uva, estes não constituem a ceia propriamente dita. A ceia no contexto do Novo Testamento sempre foi celebração comunitária (1Co. 11.18ss).

Outro indicativo de natureza supersticiosa em muitos crentes, no que diz respeito ao entendimento da ceia, é a não participação em alguns momentos. Muitos ficam sem participar da ceia em várias ocasiões porque teve alguma desavença com um irmão ou porque cometeu algum outro pecado. O mesmo não acontece em outros cultos onde não se celebra a ceia. Mais uma vez volto a falar: não existe o culto da ceia, mas sim a ceia no culto. Ela é parte de um todo maior, a adoração a Deus.

Com isto, quero dizer que aquele que não se encontra em condições de participar da ceia, não se acha em condições também de participar de qualquer culto (Mt. 5.23,24; cf. Is. 1.11ss). A presença de Cristo no instante da ceia – não nos elementos – é a mesma dos demais momentos de adoração. Ele não se encontra mais presente em um que no outro (Mt. 18.20). A ceia não é um culto à parte, antes, faz parte do culto. Logo, a necessidade de se cumprir os pré-requisitos para a sua participação, entender que a igreja, o corpo de Cristo, só pode existir como uma unidade integral, e não fragmentada, pois este é o significado do “discernir o corpo do Senhor” em 1Co. 11.29 é a mesma para os demais cultos (Mt. 5.23,24). A ceia não produz a unidade da igreja, muito menos a união com Cristo, pelo contrário, ela revela.

Que possamos, por meio desta breve reflexão mudar muitos de nossos comportamentos, que insistimos em denomina-los de “evangélicos".