sexta-feira, 11 de abril de 2014

O MISTÉRIO DA TRINDADE


Como falar sobre a Trindade? A primeira coisa que posso dizer é que é muito fácil falar de maneira difícil sobre a Trindade, mas que é muito difícil falar de forma fácil sobre este assunto. Confuso, né? Isto porque a Trindade é um daqueles assuntos revelados na Bíblia que é mais fácil crer que explicar. Ou como bem disse Santo Agostinho: “se o entendes, então não é Deus”. Em outro lugar, sobre a Trindade disse: “tente entendê-la e perderá a cabeça. Tente negá-la e perderá sua alma”. Só nos resta neste artigo perder a cabeça. Então vamos lá.

A doutrina da Trindade foi a tentativa de conciliar o ensino bíblico de Um Único Deus verdadeiro com as passagens que afirmam a divindade de Jesus e do Espírito Santo.

Acredita-se que o termo Trindade foi usado pela primeira vez por Tertuliano, um dos pais da igreja que viveu entre os anos 160 a 230 da era cristã. O termo vem do latim trinitas, que significa “estado de ser três”. Para Tertuliano o termo Trindade significa que em Deus nós encontramos três eternas distinções pessoais que se relacionam mutuamente. Ou como alguns preferem: três eternos modos de existência. São eles: Pai, Filho e Espírito Santo.

A Bíblia está repleta de textos onde se lê que o pai é Deus. Veja Mt. 6.6,26; 1Co. 1.3;8.4; Ef.1.2;4.5. As citações poderiam ser listadas ad infinitum. Encontramos também, nas Escrituras, passagens que sem sombra de dúvida declaram a divindade do Filho. Por exemplo: Jo.1.1ss; 20.27,28; Rm. 9.5; Tt. 2.11-13; Hb. 1.1ss; 1Jo. 5.20.

O Espírito Santo, da mesma forma que o Pai e o Filho é identificado como Deus. Em At. 5.3,4, Pedro condena Ananias por ter mentido ao Espírito Santo e imediatamente diz que esta mentira foi direcionada a Deus. Para Pedro, mentir ao Espírito é o mesmo que mentir a Deus, pois para ele o Espírito Santo é Deus. Em 1Co. 3.16,17, Paulo afirma que nosso corpo é santuário de Deus e no texto de 1Co. 6.19 repete a mesma ideia dizendo que somos santuário do Espírito Santo. Para o apóstolo, ser santuário do Espírito Santo equivale a ser santuário de Deus.

Devemos ter sempre em mente que o assunto Trindade está além da capacidade humana de compreensão. A única certeza que temos deste tema se encontra na Bíblia. As explicações dos teólogos são tentativas de aproximação, nunca declarações exatas, no sentido de explicá-lo plenamente. No dizer de Rubem Alves, são palavras que buscam construir uma realidade mas que não constituem um cópia da realidade explicada.

Na Trindade temos uma natureza divina, una, indivisível. Não existem três naturezas divinas, pois do contrário, teríamos três deuses, o que seria por sua vez triteísmo (existência de três deuses) e não Trindade. Não temos uma natureza do Pai, uma do Filho e outra do Espírito Santo. O que a doutrina trinitariana nos ensina é que existe a Pessoa do Pai, do Filho e do Espírito Santo em uma única natureza, substância divina.

Não podemos pensar que a Pessoa do Pai, do Filho e do Espírito Santo são meros nomes que não possuem existência real. Não há uma pessoa que em determinado momento é chamada de Pai, em outro de Filho e depois de Espírito Santo. Isto é um erro conhecido na história da igreja como modalismo (ideia de que uma única pessoa divina se revela em tres formas temporais diferentes). Esta tentativa de explicar o mistério da Trindade foi considerada incorreta ao longo da história da igreja. O motivo para se abandonar esta posição é que ela faria de Deus um Ser solitário. O Pai não poderia se relacionar com o Filho na eternidade, pois estes não seriam Pessoas reais, mas nomes distintos aplicados a uma única Pessoa divina. Deus não amaria nem poderia ser amado existindo como uma única Pessoa. Veja porém Jo. 17.24,26. Para que aja amor, faz-se necessário um sujeito que ama e um objeto que é amado.

Penso que outro problema da explicação modalista é que ela constitui um golpe na doutrina da morte substitutiva de Cristo. Se não há em Deus três eternas distinções pessoais, não seria possível o Filho de Deus morrer na cruz com o objetivo de satisfazer as exigências da justiça de Deus Pai. Como seria possível uma única pessoa se tornar culpada na cruz e ao mesmo tempo ser o juiz que condena?

Qualquer exemplo tirado da natureza como tentativa de explicar a Trindade é impróprio, como bem expôs Wayne Grudem em sua Teologia Sistemática, e corre o risco de ensinar algo que não corresponda à doutrina bíblica em si. Por exemplo: alguns usam a analogia do ovo. Ele possui casca, clara e gema, no entanto, concluem, é um ovo só. Esta analogia é falha porque a casca, clara e a gema são partes que constituem o ovo. Não se pode dizer que a casca seja o ovo, ou mesmo a clara ou a gema. Na Trindade, o Pai o Filho e o Espírito Santo não são partes de Deus, antes, cada um é Deus plenamente.

O exemplo da água incorre num erro oposto ao da analogia do ovo. A água existe em estado líquido, sólido e gasoso. Porém a mesma água não existe nestes três estados ao mesmo tempo. Ou ela é uma coisa ou outra. Deus não é em um momento Pai, depois Filho e em seguida Espírito Santo. Ele sempre foi por toda a eternidade simultaneamente Pai, Filho e Espírito Santo. Logo, se a analogia do ovo induz a uma noção triteísta, o exemplo da água incorre no erro modalista.

Finalizo esta singela exposição com um pequeno trecho do credo de Atanásio que diz: “...nós adoramos um Deus em Trindade, e Trindade na Unidade; sem confundir as pessoas, sem dividir a Substância.” Soli Deo Gloria.

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