segunda-feira, 28 de novembro de 2011

ARRENDAMENTO ANGELICAL?

Recentemente fiz a leitura de Daniel 10.13,20 e uma espécie de reminiscência questionável me veio à mente: existem mesmo anjos/demônios territoriais? Rapidamente fui consultar meus livros de teologia, que infelizmente são poucos, e para minha surpresa eminentes teólogos respondiam de forma positiva a minha dúvida. Entre os gigantes da teologia que se pode inferir de seus escritos a ideia de anjos com domínios territoriais estão: Augustus Hopkins Strong, batista, e Charles Hodge, presbiteriano. Deve-se ressaltar quem ambos são teólogos conservadores.

Em Strong, no volume I, página 661 de sua Teologia Sistemática, a ideia de anjos territoriais encontra-se implícita. Já em Hodge o ensino é expressamente admitido. Primeiro ele afirma que muitos comentaristas ao longo da história da igreja adotaram “a opinião de que a certos anjos foi confiada a supervisão especial de determinados reinos”. (HODGE, p. 476). Mesmo concordando que é impróprio afirmar um ensino baseado em um único texto das Escrituras, Hodge faz a seguinte assertiva: “Embora tal coisa deve ser admitida, é não obstante certo que a interpretação ordinária da linguagem do profeta (anjos territoriais) é a mais natural, e nada há na doutrina assim ensinada que fique fora da analogia com os claros ensinos das Escrituras”. (HODGE, p. 477).

No entanto, a postura de Hodge não é correta. Isto por um motivo bastante simples. Se a interpretação de um texto me induz a uma ideia que não pode ser sustentada alhures nas passagens da Bíblia, uma exegese saudável seria admitir a natureza obscura da passagem. Ainda que se usasse o argumento de que não deixamos de acreditar no relato da torre de Babel (Gn. 11.1-9) mesmo aparecendo somente em uma única passagem das Escrituras, seria um verdadeiro sofisma. Pois em hermenêutica não se admite formar doutrina em um único texto da Bíblia, mas não se diz que não devemos acreditar em um relato quando este aparece somente uma vez nas Escrituras. Não há uma doutrina da torre de Babel, antes, o que temos é um relato meramente histórico, não repetível, e por isso crível. Algo bem diferente do texto de Daniel 10.13,20 que não é usado como relato histórico, mas doutrinário, sendo a descrição, sustentada por alguns, da realidade atual de territórios sob o domínio de entes angelícos.

Não obstante, podemos entender o texto à luz do contexto religioso do mundo antigo. Os deuses eram vistos como entidades territoriais (veja 2Crônicas 28.23). O próprio Naamã, entendendo que o Deus de Eliseu era divindade local, desejou levar um pouco da terra de Israel para oferecer sacrifícios ao SENHOR em outro lugar (2Rs. 5.17). O sentimento era que cada nação possuía sua divindade particular. Basta lembrarmos que quando Israel estava avançando em suas conquistas, muitos diziam: “o Deus de Israel...”. Para eles era o Deus local de Israel que estava adquirindo o território para Seu povo. Território este, já de domínio de outra divindade. Leia o Sl. 24.1 e tire suas conclusões se existe algum lugar na terra que pertence a alguém senão o SENHOR (cf. Ex. 9.26).

Com isto em mente, propomos que Daniel 10.13,20,21 estaria simbolizando a invasão de um território que se supõe ser do domínio de outro deus. O SENHOR pode levar Sua mensagem mesmo em terras estrangeiras. Não haveria fronteiras para o Seu agir. Existe sim, no relato, um confronto de poderes, Miguel e o Príncipe da Pérsia. Mas afirmar que havia um anjo encarregado dos negócios da Pérsia, isto o texto não nos diz, tão pouco pode ser biblicamente sustentado.

Do acima exposto, seriam estas as implicações do texto. Ir além disto, é incorrer em ilações não sustentadas pela Escritura.  

quarta-feira, 23 de março de 2011

SILÊNCIO FEMININO NA IGREJA?


Como entender 1Corintios 11.2-16 com 14.33b-36 e sua evidente discrepância em se tratando da participação feminina na liturgia? Existiria alguma possibilidade, por menor que seja, de harmonização entre os dois relatos, sem ferir, contudo, o pensamento paulino?
A explicação mais simplista para o tema é afirmar que se trata de um ensino para a época. No entanto, qual ensino bíblico não foi transmitido com o intuito de orientar um grupo (comunidade) específico do I século? Esta resposta abre precedência para o pressuposto da teologia liberal. Segundo esta, os dogmas da Palavra, tais como encarnação, nascimento virginal, milagres e afins, também deveriam ser abandonados pelo homem moderno, pois serviriam simplesmente para a comunidade cristã primitiva. Com isto, qual seria o princípio limitador para a permanência ou não de um ensino na Bíblia?
Uma proposta de interpretação equilibrada pode ser obtida fazendo-se uso do método da atualização da mensagem cristã, presente na teologia sistemática de Millard Erickson. Na atualização da mensagem cristã, não basta somente asseverar que o texto se referia à época da redação do escrito, mas diferenciar o conteúdo permanente no ensino bíblico de sua expressão temporária. O conteúdo permanente é atemporal, não sendo invalidado por época ou cultura. Já sua expressão temporária, seria a forma de expor o assunto em categorias condicionadas à época da redação do escrito. Neste caso, poderíamos perguntar: qual o conteúdo permanente de 1Co 11 e 14? Seria a mulher falar usando o véu, ou nem mesmo falar com o véu? Será que estamos focando demais nossa atenção na expressão temporária, falar com o véu, não falar no culto, não observando assim, o conteúdo permanente subjacente aos textos?
O estudioso Helmut Koester, em introdução ao novo testamento v. II, e outros, entende os versículos 33b-36 de 1Co 14 como uma interpolação. Interpolação é o termo para se referir a todo conteúdo ou material inserido no texto bíblico, não pertencendo ao autor sacro. Esta proposta evita a possível incoerência no texto paulino, onde no capítulo 11.2-16 ele permite a participação da mulher. Assim, o pensamento do apóstolo continuaria coeso, pois 1Co 14.33b-36 não seria de sua autoria, mas de algum escriba posterior.
Outra possibilidade é entender os versículos 33b-35 como citação feita pelo apóstolo. Ele estaria, na verdade, fazendo referência ao entendimento que os coríntios tinham do culto público. No versículo 36 Paulo criticaria esta atitude ao perguntar se a Palavra de Deus teria surgido somente entre eles? Neste caso, os homens de Corinto.
Na verdade, não estaria Paulo discutindo em 1Co 11.2-16 somente a questão do uso do véu  para as mulheres que estavam profetizando sem contudo emitir sua real opinião sobre a possibilidade ou não da mulher falar na igreja? Se assim for, em 1Co 14.33b-36 ele declara sua postura sobre a mulher no culto, completo silêncio. Desta forma, o apóstolo manteria coerência em dois assuntos: a mulher deve usar o véu e nunca falar na igreja.
Neste caso, qual o valor destes dois textos para a cristandade do século XXI? Eles nos ensinam a importância de mantermos o equilíbrio entre igreja e convenções sociais, desde que estas não firam os princípios éticos e morais da revelação bíblica. Paulo apela para uma norma socialmente estabelecida quando pede que os coríntios “julguem entre vocês mesmos: é apropriado a uma mulher orar a Deus com a cabeça descoberta? A própria natureza das coisas não lhes ensina [...] que o cabelo comprido é uma glória para a mulher?” 1Co. 11.13-14. Observe que para o apóstolo o consenso comunitário serve como corolário de toda sua argumentação teológica.  
No caso de 1Co. 14.33b-36 as observações do erudito alemão, Werner de Boor, são bastante esclarecedoras: “O ponto de vista do apóstolo, quando escreveu o presente trecho em sua carta, é simplesmente o seguinte: a igreja de Jesus não pode nem deve conceder à mulher uma posição que ela já não possua na vida pública e que contradiga o sentimento ético da época. Então, porém, isso significa para nós hoje: a igreja de Jesus não pode nem deve negar à mulher uma posição que ela já possui na vida pública e que corresponde a todo o sentimento óbvio da época! Assim como naquele tempo a mulher que falasse em público representaria uma estranha extrapolação, assim seria hoje com a mulher condenada ao silêncio.”
Desta forma, é compreensível que Paulo fale que em sua época “é vergonhoso uma mulher falar na igreja”. Se vivesse nos dias atuais, poderia afirmar: “é vergonhoso uma mulher não falar na igreja.”