terça-feira, 27 de junho de 2017

LOGAN E A TEOLOGIA

Minha relação com os X-Men vem de longa data, quando o desenho era apresentado pela Rede Globo nos anos 90, 1994 para ser mais preciso. Tenho, desse mesmo ano, um Hq do Wolverine nº 34. Sempre que assistia aos episódios eu pensava (lembro que comentei isso uma vez com meu primo George): quando farão um filme dos X-Men, ou do Wolverine? Muita coisa se passou desde então, e ontem pude assistir ao último filme do Wolverine, Logan. Sempre que nos encontramos diante de algo grandioso, alguma coisa nos acontece, uma sensação de alegria, somos tomados por um sentimento de grandeza. Foi isso que me ocorreu ao assistir esse épico do cinema. 

Sei muito bem que o filme é violento. Mas em nenhum momento o diretor rompeu os limites entre violência abordada e maldade explorada de forma desmedida. Percebe-se que "existe um convite para a redenção, a esperança de uma humanidade melhor, e não uma negação niilista do tipo: Essa é a vida real. É melhor se acostumar com ela" (Brian Godawa). O filme conseguiu algo difícil em se tratando de longas de super-heróis, a humanização dos personagens. Somos brindados com emoções verdadeiras tanto de Logan quanto do professor Charles, mas nunca sentimentalismo forçado. O primeiro possui um enorme cuidado com o professor nonagenário, e o segundo nos mostra a dor de uma mente cansada que somente deseja ter uma refeição e uma noite de sono em paz – mais humano, impossível. 

Tendo isso por assentado, quero fazer referência a duas frases ditas em momentos distintos do filme. A primeira foi pronunciada por Charles ao próprio Logan: “Eu sempre sei quem você é. É que as vezes não te reconheço”. Ouvimos isso depois de vermos um Wolverine decadente, alcoólatra, tentando negar quem é ao assumir a profissão de motorista. Sabemos quem é Wolverine, mas não estamos reconhecendo-o. Olhando para a Bíblia, vemos um Deus que nos criou, que sabe quem nós somos, “imagem e semelhança de Deus” (Gn. 1.27), mas que infelizmente não nos reconhece. Fomos criados para refletir a vida de Deus nesse mundo, mas o que espalhamos é morte, indiferença, orgulho, egoísmo, imoralidade e destruição. Caímos num momento da história de nosso estado de bondade inicial (Gn. 3). Somos quem não deveríamos ser. 

A outra frase foi dita por Logan a jovem mutante Laura: “Não seja aquilo que eles fizeram de você”. Que frase bíblica! Laura é uma mutante, produto de laboratório, criada sem nenhum afeto, propensa a ser para os outros aquilo que outros foram para ela. Diante das injustiças sofridas, Laura poderia ter sua identidade distorcida, definida somente por sua dor. Ela precisa ser mais que a soma total de seus sofrimentos. Miroslav Volf, teólogo batista, assim se expressa: “Em vez de sermos definidos pelo modo como os seres humanos se relacionam conosco, nós somos definidos pelo modo como Deus se relaciona conosco”. Laura precisa ter sua identidade definida pelo comportamento de Logan com ela. Como cristão, devo ter meu comportamento alterado não pela injustiça que outros praticaram contra mim, mas pelo amor, misericórdia e bondade realizado por Deus em Cristo Jesus na cruz, lugar onde ele carregou toda nossa culpa e dor. 

Após se despedir de Logan, que foi morto sobre um madeiro (1Pe. 2.24) Laura se encontra diante de uma nova possibilidade, um futuro aberto se apresenta. Da mesma forma, Deus em Cristo Jesus nos promete um futuro de redenção, um mundo de vida, paz, justiça e beleza, um novo céu e nova terra (Ap. 21), o que para Laura seria a esperança do lugar chamado Éden.

Enquanto Logan vive uma decadência física e Charles uma fraqueza mental, o nosso herói Jesus, aquele que morreu, ressuscitou, ascendeu ao céu e em breve voltará de mudança para nosso mundo continua sendo “o mesmo ontem, hoje e para sempre” (Hb. 13.8). 

Obrigado por tudo Wolverine.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

O CRISTÃO E O MEIO AMBIENTE

Nesta última segunda (05/06) comemorou-se o dia mundial do meio ambiente. Uma data tão despercebida quanto nossa atenção dada ao cuidado com a natureza. Muitas igrejas adotam em seus calendários litúrgicos datas comemorativas para serem celebradas no espaço do culto: dia da mulher, dia das mães, dia dos pais são alguns exemplos. Mas qual de nossas igrejas alguma vez realizou o culto com sua temática voltada para o meio-ambiente? Qual foi a última vez que ouvimos um sermão onde fomos exortados sobre nossa responsabilidade com a natureza? Que ministério, dentre os vários que uma igreja possui, é voltado para o cuidado com o meio ambiente? A resposta para esses questionamentos revelará a falha do nosso atual cristianismo. 

Faz alguns dias o presidente Donald Trump anunciou a retirada dos Estados Unidos do acordo de Paris – tratado assinado por mais de 130 países que visa a diminuição de emissão de poluentes das fábricas, bem como outras medidas limitadoras para o aumento da temperatura da terra. Ele mesmo se denomina um cristão conservador. Isso deve explicar sua visão equivocada com o meio ambiente. Ele preserva o equívoco conservador que olha a natureza como algo que só deve ser explorada. A verdade que nos envergonha (ao menos deveria) é que não nos importamos com a natureza. 

Por que perdemos o olhar tão fascinante e ambiental da mensagem bíblica? Boa parte da crise ambiental que temos hoje se deve ao cristianismo. Não o cristianismo das páginas da Bíblia, mas ao cristianismo que se esqueceu de olhar com atenção para o texto bíblico. O mundo atual é um mundo pós-cristão, mas a mentalidade sobre a natureza ainda é uma mentalidade cristã equivocada: a natureza existe para ser dominada e esse domínio se dá pela força destrutiva.

Nosso cuidado com a natureza se dará na proporção que prestarmos mais atenção ao texto bíblico. Precisamos mudar o nosso ainda não admitido referencial gnóstico, que desmerece a boa criação material de Deus, por um referencial bíblico judaico-cristão, que reafirma a bondade da criação apesar de sua atual deterioração, bem como o empenho incansável do Criador em consertar a natureza. Mas como se dará isso? Entender que somos salvos como parte de um projeto maior, a salvação de todo o mundo criado em sua total biodiversidade. Esse novo referencial deve estar presente em nossos cânticos, que infelizmente desprestigiam a beleza da ordem material criada em busca de um escape desse mundo e não na busca de sua redenção. 

Dito isso, será que Jesus entendia que sua missão tinha relação com o destino da terra? Ao nascer, Jesus foi colocado num cocho de alimentar animais. Um grande perigo para uma criança. Esse incidente não descreve somente sua humildade, mas sua missão. O Salvador inaugura, ou serve de sinal, de um novo mundo que surgirá, marcado pela harmonia entre homens e animais. Isso foi um maravilhoso sinal para os pastores. Eles viviam a céu aberto, numa rotina cansativa e perigosa, proteger as ovelhas dos lobos (Lc. 2.8). Os pastores houviram o cântico dos anjos que foi muito carregado de significado para eles (Lc. 2.13,14). Como seria, à luz do olhar de um pastor de ovelhas da época, um mundo de paz? Seria um mundo onde não se precisa arriscar a vida para viver. Um lugar de perfeita convivência entre homens e animais. O fascinante disso tudo é que Isaias já antecipou essa verdade em Is. 11.6-9. Um mundo não marcado pela disputa de território, mas pelo compartilhamento conjunto.

O texto de Mt. 9.1-8 nos leva nessa mesma direção. Por que Jesus diz, nesse texto, que tem na terra poder para perdoar pecados? Somente indo para Gênesis 3.17 onde encontramos uma relação entre o pecado humano e desordem natural. A resposta é que Jesus liberta a terra da maldição perdoando os homens dos seus pecados. Os danos que o pecado de Adão trouxe para a terra começam a ser desfeitos quando Jesus perdoa nossos pecados. Não é sem motivos que Paulo chamou Jesus de o segundo Adão (1Co. 15.45). O primeiro Adão aprisionou a terra ao pecado, o segundo, Jesus, a liberta no precesso de redenção da humanidade pecadora (At. 3.21; Rm. 8.18-21; Ef. 1.9,10; Cl. 1.15-19).

Não podemos entoar louvores ao Deus criador ao mesmo tempo que destruimos parte de sua boa criação. Se somos a imagem e semelhança de Deus, nossa vocação é sermos para a natureza o reflexo do cuidado desse Deus criador.