segunda-feira, 6 de maio de 2013

DISCIPLINA NA IGREJA, PARTE III

PROCEDIMENTOS BÍBLICOS PARA O CORRETO EXERCÍCIO DA DISCIPLINA ECLESIÁSTICA

Segundo o teólogo batista A.H.Strong, a Bíblia possui duas recomendações para o exercício da disciplina. Uma para as ofensas particulares e outra para os pecados públicos (STRONG, v.2, p. 689).

OFENSA PARTICULAR

A disciplina do erro particular, que ainda não é do conhecimento de todos deve seguir as recomendações de Mt. 5.23,24; Mt. 18.15-17.

Em Mt. 5.23,24 pode-se confirmar que a reconciliação com o irmão faltoso é o alvo da disciplina bíblica. O excelente livro do teólogo gaulês, Charles H. Dodd, As Parábolas do Reino, diz acertadamente sobre este texto que “a reconciliação com um “irmão” deve preceder inclusive o culto divino” (DODD, p. 117).

Com este exemplo, Jesus nos orienta que diante de um problema entre um irmão e outro, o importante não é saber quem é o ofensor, mas que um dos dois busque a iniciativa da reconciliação. Observe que o texto diz que “se você se lembrar que seu irmão tem algo contra você”, não especifica se aquele que lembrou o fato é inocente ou culpado.

Já em Mt. 18.15-17 temos uma recomendação mais elaborada. Este ensino de Jesus é um indicativo de que Ele já esperava que sua futura comunidade soubesse resolver, sem sua presença física, mas não ausência completa (cf. Mt. 18.20), seus problemas internos. Este dito de Jesus foi pronunciado no início dos anos 30 do séc. I e registrado por Mateus em meados de 80-85 da era cristã. A igreja possuía pouco mais de cinquenta anos de existência.

Alguns podem entender o “contra te” de Mt. 18.15a como uma recomendação que se aplicaria somente quando o erro fosse cometido com outra pessoa da igreja. No entanto, o “contra te” acha-se ausente nos dois dos mais importantes manuscritos do Novo Testamento, o Sinaíticus e o Vaticanus, ambos datados do séc. IV.

Desta forma, a recomendação de Jesus, é que o encontro com o irmão que cometeu o pecado seja de inteira responsabilidade daquele que primeiro tornou-se conhecedor do fato. Esta visita a sós é para que a pessoa seja advertida pelo erro praticado. Se a conversa for positiva, “você ganhou seu irmão” (v. 15b; cf. Tg. 5.19,20). Deve-se buscar esta restauração à luz de Gl. 6.1.

O objetivo desta primeira conversa, como já salientou Grudem, é para que o conhecimento do fato seja “preservado dentro do menor grupo possível” (GRUDEM, p. 753).

Se infelizmente, este primeiro encontro não foi satisfatório, deve-se agora buscar mais um ou dois irmãos para uma segunda conversa (v. 16). O primeiro contato com o irmão deve ser algo informal. Mas o fato de Jesus recomendar mais uma ou duas pessoas “para que qualquer acusação seja confirmada pelo depoimento de duas ou três testemunhas”, citando assim Dt. 19.15, faz com que esse segundo momento da disciplina seja algo bem formal. Isto é para que o irmão em pecado entenda que a situação envolve seriedade. É recomendado, com isto, que neste momento estejam presentes pessoas que estão à frente da liderança da igreja.

Por fim, se a pessoa persistir no erro, a igreja reunida deve ser consultada (v. 17a). Ainda não é momento para exclusão. O objetivo é que o conselho de toda a igreja produza alguma mudança no irmão, levando-o ao arrependimento. Se mesmo assim “ele se recusar a ouvir também a igreja” (v. 17b) só resta considerá-lo “pagão ou publicano” – em outras palavras, ele será excluído do número dos participantes da igreja. Confira a orientação do apóstolo Paulo sobre a pessoa que insiste em permanecer no erro (Tt. 3.10,11)

OFENSA PÚBLICA

A disciplina que envolve pecados que já se tornaram do conhecimento de todos, deve seguir os princípios de 1Co. 5 e 2Ts. 3.6.

Fica evidente no texto de 1Co. 5 que era do conhecimento de todos que havia alguém que mantinha um caso com a madrasta na igreja de Corinto. Paulo diz que por “toda parte se ouve que há imoralidade entre vocês [...] ao ponto de um de vocês possuir a mulher de seu pai” (1Co. 5.1).

Neste caso, não se deve praticar a orientação de Mt. 18.15-17, pois a pessoa já demonstra por sua persistência no erro, que não vive mais segundo os padrões morais das Escrituras. Por que conversar particularmente sobre o erro de alguém que já é do conhecimento de todos? Assim, Paulo faz uma pergunta retórica – que não exige resposta: “Não deviam, porém, estar cheios de tristeza e expulsar da comunhão aquele que fez isso?” (v.2). Strong observa “que Paulo não dá ao incestuoso oportunidade para arrepender-se, confessar, ou reverter a sentença” (STRONG, p. 689). Permitir que alguém neste estado ainda fosse parte da igreja, seria contaminar toda a comunidade de Cristo (v.6; cf. Hb. 12.15,16).

Nos vs. 3-5,13 Paulo pede que assim como ele havia tomado sua decisão sobre o assunto (v. 3), a igreja deveria reunir-se para a exclusão daquele que cometeu tão horrendo pecado (vs. 4,5,13). Desta forma, aprendemos que para as ofensas públicas, a pessoa deve demonstrar verdadeiro arrependimento depois de sua exclusão.

Quando há necessidade do afastamento de uma pessoa, seja seguindo os passos de Mt. 18.15-17 ou a recomendação paulina para um pecado público, a igreja deve demonstrar seu amor pelo antigo integrante. É assim que Paulo orienta a igreja de Tessalônica. Aquele que desobedecesse à recomendação da carta paulina deveria ser disciplinado, mas não considerado inimigo, antes, “chamem a atenção dele como irmão” (2Ts. 3.14,15).

Em 2Co. 2.5-11 Paulo aborda o assunto do afastamento de uma pessoa na igreja de Corinto. Fica implícito pela passagem que a pessoa em questão tenha se arrependido do seu pecado, e por isso a igreja deveria “perdoa-lhe e consolá-lo, para que ele não seja dominado por excessiva tristeza” (v.7). Esse perdão seria demonstrado na sua reintegração amorosa no círculo da igreja (v. 8). É digno de nota, que a conduta de indiferença com o pecado em 1Co. 5, tenha mudado agora na igreja de Corinto. Eles passaram a compreender a necessidade da disciplina, obedecendo assim ao apóstolo (v.10).

CONCLUSÃO

Vivemos hoje em um ambiente repleto de pessoas indisciplinadas. Muitas delas querem que a igreja seja mais um ambiente caracterizado por essa indisciplina. Qual seria a postura correta da igreja de Cristo neste momento? Ela deve ensinar para seus membros que a disciplina é necessária como uma forma de demonstração do amor de Jesus por sua igreja (Ap. 3.19).

Não basta somente saber que a disciplina é um fator indispensável na vida da igreja, faz-se necessário o seu exercício no dia-a-dia da comunidade. Logo após expor as razões do valor da disciplina, o autor aos Hebreus pede aos seus leitores que ela seja posta em prática (Hb. 12.12,13).

DISCIPLINA NA IGREJA, PARTE II


AS DISCIPLINAS EM UMA IGREJA BATISTA

Nós batistas costumamos distinguir a disciplina na igreja de três formas: disciplina formativa, corretiva e cirúrgica.

DISCIPLINA FORMATIVA

Toda instrução que a igreja recebe, seja por meio de pregação ou estudo bíblico pode ser denominada de disciplina formativa. Seu alvo é formar constantemente o caráter de Cristo na vida do discípulo. Como nunca alcançaremos o perfeito caráter de Cristo nesta era, a disciplina formativa perdurará até a vinda de Jesus. Todo ensino (disciplina formativa) de Paulo aos gálatas era a demonstração do seu desejo de ver “Cristo formado em vocês” (Gl. 4.19).

A igreja de Éfeso em Ef. 5.3-7 recebe uma instrução paulina que se enquadra muito bem no nosso conceito de disciplina formativa. Nos vs. 3,4 Paulo diz “o que não deve haver” no meio da comunidade cristã. E se alguém perguntasse o motivo dessa exigência, ele afirmaria “que essas coisas não são próprias para os santos”. O objetivo do conselho, é que os integrantes da igreja de Éfeso não ficassem fora do Reino de Deus (vs.5,6). Por fim, no v. 7, Paulo expressa o desejo que seu ensino seja absorvido na prática diária dos crentes efésios.

A disciplina formativa é, neste sentido, preventiva. Ela alerta o crente sobre o perigo de uma conduta irrefletida da vida cristã (cf. Ef. 5.15-18).

DISCIPLINA CORRETIVA

A Bíblia deixa bem claro que o crente não está isento de possíveis falhas em sua vida cristã. Nem mesmo a simples participação na igreja impede que os crentes não estejam expostos aos perigos das tentações na vida (1Co. 10.1-12).

Quando na igreja alguém erra, é da responsabilidade dos irmãos conhecedores do fato, a aplicação da disciplina corretiva. O objetivo nunca é afastar a pessoa da igreja. A intenção deve sempre ser a restauração do culpado. O teólogo Wayne Grudem diz que “o propósito principal da disciplina eclesiástica é alcançar o duplo alvo da restauração (levar o pecador ao comportamento correto) e de reconciliação (entre cristãos e com Deus)”. (GRUDEM, p. 750).

Em Gl. 2. 11-14 temos um claro exemplo de disciplina corretiva. Em Gl. 2.1-10 Paulo deixa bem claro que com o evangelho de Cristo as exigências judaicas não eram necessárias aos gentios. Pedro tinha assimilado isto, pois o texto diz que “ele comia com os gentios” (v. 12). Era um costume em Antioquia, judeus-cristãos partilharem uma refeição comum com os gentios convertidos. Mas com a chegada de um grupo liderado por Tiago, que era rigoroso no que diz respeito às regras alimentares estabelecidas por Moisés (cf. Lv. 11), Pedro afastou-se e separou-se dos gentios (v. 12). Outros judeus tiveram a mesma conduta (v. 13). Diante disto, Paulo repreendeu Pedro e os outros judeus, pois “não estavam andando de acordo com a verdade do evangelho” (v. 14a). O fato de Paulo falar diretamente para Pedro, é que este desde cedo tinha assumido uma postura de liderança na igreja (Mt. 16.15,16; At. 2. 14). Nos vs. 16-21 Paulo expõe a razão teológica para a repreensão feita com o apóstolo Pedro.

DISCIPLINA CIRÚRGICA

Esta disciplina é o último passo na tentativa de restaurar a pessoa que cometeu determinado pecado. Ela é denominada de cirúrgica porque sua ação se dá no afastamento do integrante da igreja. A disciplina cirúrgica – a exclusão - não quer dizer que a igreja não conseguiu restaurar a vida de um dos seus membros, antes, é uma tentativa de levar o faltoso ao verdadeiro arrependimento. “Assim como, às vezes, é preciso tirar fora parte do corpo físico para que o corpo todo não pereça, da mesma forma também acontece na igreja” (ZACARIAS SEVERA, p. 389).

Em 1Tm. 1.20, Paulo informa que Himeneu e Alexandre foram excluídos da igreja – “entreguei a Satanás” no linguajar paulino – com o intuito de que “aprendam a não blasfemar”. A exclusão deve servir como um tratamento de choque para o crente que demonstra resistência em se arrepender. Mais uma vez queremos enfatizar que seu objetivo é a restauração do impenitente.

A disciplina cirúrgica serve também para ensinar a igreja que não se pode confundir amor com tolerância ao pecado. As igrejas de Pérgamo (Ap. 2.14,15) e Tiatira (Ap. 2.20) estavam tolerando o erro ao permitirem que pessoas que já haviam dado prova de uma vida incompatível com o evangelho, fossem ainda membros de suas comunidades. Jesus advertiu essas igrejas, que devido ao não exercício da disciplina, Ele mesmo faria com que o erro fosse punido (Ap. 2.16; 21-24).

A disciplina cirúrgica protege a pureza da igreja e não permite que o nome de Jesus seja difamado pelas pessoas de fora. A igreja não pode permitir que o nome do Senhor seja desonrado com o erro de alguns de seus membros, da mesma forma que o nome de Deus era “blasfemado” por causa do comportamento de alguns judeus na época de Paulo (cf. Rm. 2.17-24)

quarta-feira, 1 de maio de 2013

DISCIPLINA NA IGREJA, PARTE I

INTRODUÇÃO

Todos nós sabemos que a igreja deve ser uma comunidade identificada pela prática do amor (Jo.13.35). É do nosso conhecimento também que Cristo orientou seus discípulos a perdoarem seus irmãos “setenta vezes sete” (Mt. 18.21,22). Com isto em mente, seria correto afirmar que o amor e a atitude constante do perdão é um empecilho para o exercício da disciplina na igreja de Cristo? Sim ou não?

Poderíamos ainda conciliar as palavras de Jesus em Mt. 7.1,2 que proíbe o ato de julgar com a recomendação paulina em 1Co. 5.12 sobre a prática do julgamento eclesiástico? Seriam declarações auto-contraditórias?

Para você, todos na igreja são disciplinados? Ou a disciplina é somente para aquele que cometeu pecado? Enfim, você sabe realmente o que é a disciplina na igreja?

CRITÉRIOS BÍBLICOS PARA UM CORRETO EXERCÍCIO DA DISCIPLINA NA IGREJA

Os romanos acreditavam que determinados conceitos abstratos, eram na verdade, divindades. Um exemplo disto é a justiça. Venerada como uma deusa, a Justitia (justiça), era representada com uma balança na mão e os olhos vendados – “símbolo da ponderação imparcial” (Quero Saber, Mitologia da Antiguidade, p. 81). Ainda hoje podemos vê-la na entrada dos fóruns em algumas cidades.

Queremos dizer com este exemplo, que a correta disciplina deve ser imparcial. Qualquer tentativa de parcialidade por parte de alguns irmãos da igreja, devido a uma maior aproximação com o irmão faltoso, deve ser veementemente condenada. Leia Tg. 2.1-4 e veja como uma conduta de diferenciação na igreja é criticada.

Em Ex. 23.1-3, Moisés adverte os israelitas sobre o correto procedimento durante um julgamento. Diz também que condição social de uma pessoa não pode determinar o resultado do julgamento (Lv. 19.15). A imparcialidade é uma característica do julgamento divino (Rm. 2.11). Assim, quando uma igreja julga imparcialmente, ela está correspondendo com o ideal de Deus para o exercício da disciplina eclesiástica.

O OBJETIVO DA DISCIPLINA

Muitos na igreja não concordam com a disciplina por não saberem primeiro qual é o seu objetivo. Para se compreender o alvo da disciplina, porém, é necessário saber a origem desta palavra.

Disciplina deriva do latim disciplina – e significa ensinar, ação de instruir, educação. No grego nós temos a palavra paidéia – criação, treinamento, instrução, disciplina (Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, p. 649). Podemos com isto dizer, que a disciplina na igreja tem por objetivo a instrução e formação do discípulo de Cristo.

O autor da carta aos Hebreus lembra que a disciplina é um indicativo que a pessoa é um verdadeiro filho de Deus (Hb. 12.5-7). A ausência de disciplina do Senhor é a prova de que ainda não se pertence à família de Deus (Hb. 12.8-10). Para aqueles que pensam que a disciplina possui somente um lado negativo, depois da tristeza que ela provoca “porém, produz fruto de justiça e paz para aqueles que por ela foram exercitados” (Hb. 12.11; cf. 2Co. 7.9-12).