sábado, 4 de novembro de 2017

MULHER MARAVILHA E O JESUS MARAVILHOSO

Mais uma vez pude agradecer a Deus pelo dom da cultura. É libertador compreender que o Deus revelado na Bíblia é maior do que a nossa compreensão sobre ele. Saber que ele está tão interessado em religião quanto em política, se entusiasma tanto com um belo culto quanto com um filme bem feito. É gratificante entender que o verdadeiro e único Deus não é um religioso alienado. Como seria bom apreciar um filme e perguntar a Jesus o que ele achou do que assistiu. Com sua capacidade de reflexão demonstrada nos evangelhos, não podemos imaginar que ele só tenha opinião sobre textos da Bíblia. “Penso que Deus pode ficar ofendido ou encantado com a arte, mas nunca surpreso” (Steve Turner). 

Pois bem, o filme que assisti foi Mulher Maravilha. Vemos uma Diana, diga-se de passagem, filha de Zeus, (alerta vermelho para spoiler) com um olhar mais humano sobre a vida que os próprios humanos. Ela se encanta com um bebê nos braços de sua mãe e se deslumbra até mesmo com um simples sorvete (qual criança nunca fez isso?). Sente, ao mesmo tempo, o horror que uma guerra pode provocar, sendo humana o bastante para sentir compaixão dos animais tratado com tanta indiferença pelas pessoas. 

No cenário em que vivemos, o da efervescência feminista, pensei que o filme teria a intenção de unir voz ao coro contra tudo que tem relação ao universo masculino. Ao menos não foi isso que vi. Ela é a única mulher num grupo composto de homens com a missão de salvar o mundo, mas que não despreza o gênero masculino, pois agrega até mesmo aquele que não se sente útil para a missão (quem viu ao filme sabe do que estou falando). 

A composição da obra é bem estruturada em três atos, naquilo que se convencionou chamar de a Jornada do Herói, muito bem desenvolvida no livro A Jornada do Escritor de Christopher Vogler. Primeiro vemos Diana em seu mundo comum, um lugar protegido dos perigos do mundo, uma espécie de Éden na terra. Vemos que há uma perturbação da ordem natural quando um avião cai no oceano e logo é seguido por uma invasão de navios alemães. O segundo ato é marcado por desafios iniciais, encontro com aliados e novos inimigos. O terceiro é marcado pela luta decisiva seguida pelo retorno da heroína com o resultado alcançado para o mundo.

Uma coisa que me chamou a atenção foi o destaque para o elemento da fé. Próximo do fim, Diana olha para seus amigos na batalha com o rifle sem munição, e logo em seguida os veem dar as mãos em atitude de oração na busca por livramento. A própria Diana acredita que pode haver paz no mundo, desde que o deus Ares seja completamente destruído. Em um diálogo com Ares, ela é tentada a assumir uma missão que não era a sua para ter como recompensa o mundo restaurado. Nem é preciso dizer que isso faz um paralelo com a tentação de Jesus no deserto (Mt. 4), momento em que ele é induzido a ser um outro tipo de salvador. 

Steve Trevor, o espião inglês não acredita na existência de Ares. Para ele isso não passa de um mito. Steve deve levar em consideração que se Diana pôde fazer o que fez na batalha inicial tudo indicaria que ela estava certa a respeito da existência do deus da guerra. Isso tem uma forte relação com os evangelhos. Se Jesus fez o que os evangelhos dizem que ele fez, temos que levar em consideração seu ensino, em fim, tudo o que ele acreditava. Não podemos ficar com suas ações e desconsiderar seu ensino e sua crença. 

Steve afirma que homens são os únicos responsáveis pelo horror da guerra. Diane está convicta que Ares é o único responsável. Ambos estão equivocados. Vemos que Ares existe e que os homens são seres cruéis e não merecedores de ajuda. Ares simplesmente incentiva o uso da maldade, mas não faz o mal por eles. Nisso há uma relação com o que a Bíblia diz a respeito da existência do diabo assim como constata a maldade do coração das pessoas. 

No confronto final, Diana, antes de desferir o último e decisivo golpe que destruirá Ares, faz um gesto que se assemelha a Cristo na cruz. Logo em seguida o sol começa a nascer no horizonte, uma correlação com a ressurreição de Jesus, que marcou as primeiras horas de um novo dia. Mas para nossa surpresa Diana diz que sua luta contra o mal nunca acabará, o homem sempre terá a escuridão dentro de si. 

É aqui que entra em cena nosso Jesus Maravilhoso (Is. 9.6). Ele desferiu um golpe decisivo no mal que desfigura a criação de Deus. O mal foi derrotado, mas aguarda a sua completa destruição quando de seu aparecimento em glória. Jesus destruiu o mal não pela força bruta (algo que Diana quase realiza) mas pelo poder do amor, o protesto de Deus contra toda maldade e indiferença entre os homens. Não teremos para sempre a mesma humanidade deteriorada, pois na cruz uma humanidade e um mundo caído chegam ao fim e em sua ressurreição uma nova humanidade e o início de um novo mundo emergem da sepultura.

Por fim, quero falar de algo que acontece no início do filme, quando percebemos que a ilha em que Diana mora é separada do mundo dos homens por uma fina película. Penso que o mundo de Deus e o nosso, céu e terra estejam da mesma forma separados. Ao mesmo tempo juntos e oculto um do outro. Em breve essa película será tirada, quando veremos do nosso mundo o próprio mundo de Deus, e teremos com isso um novo céu e nova terra (Is. 11; Ap. 21). 

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