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sexta-feira, 2 de novembro de 2012

BREVE CONTEXTO HISTÓRICO E O DIFÍCIL PROBLEMA DA INTERPRETAÇÃO DE Mc. 12.13-17


O texto de Mc. 12.13-17 aborda um tema de grande incômodo para um judeu do I séc.: o imposto romano. A temática adquire toda sua grandeza quando escrutinamos as revoltas anti-Roma surgidas na palestina em meados do I séc.

Como exemplo podemos citar a denominada segunda onda de resistência que eclodiu em 6 d.C., desta vez liderada por Judas Galileu. Sua oposição à política imperialista romana baseava-se em duas teses: reconhecer exclusivamente o reino de Deus e a nenhum outro governante. Partindo do seu sinergismo, declarava que o ser humano deveria colaborar na implantação do reino de Deus. Para tanto, exigia a recusa do pagamento de impostos a Roma. Sua ideologia surge novamente em 44 d.C. segundo as informações de Atos 5.36-37.

No que diz respeito à intenção da narrativa Marcana, Werner Georg Kümmel, em Síntese Teológica do Novo testamento nos diz o seguinte: “o motivo evidente pelo qual se relatou a manifestação de Jesus sobre o dever de pagar o imposto individual a César foi para se responder com ela à pergunta atual (no que diz respeito à comunidade primitiva) se o imposto devia ou não ser pago.” (KÜMMEL, 2003, p. 152).

A resposta de Jesus em Mc. 12.13-17 nos leva a admitir o seguinte: ele não foi contra o pagamento de imposto a César. Sobre o número de expositores favoráveis a esta interpretação, o teólogo Uwe Wegner diz que “poderiam ser multiplicados à revelia”.

Como interpretação pró-romana da resposta de Jesus, citamos o teólogo J. D. G. Dunn: “... A resposta de Jesus torna claro que, no ponto de vista Dele, era falsa a antítese: não há necessariamente conflito algum entre a autoridade política e a divina. O pagamento do imposto é uma obrigação legítima dentro do complexo de relacionamentos humanos. [...] colocar César e Deus como autoridades mutuamente exclusivas é inventar uma antítese entre todos os relacionamentos humanos e a autoridade divina, porque todos os relacionamentos divinos incluem obrigações e responsabilidades de algum tipo”.

Posição semelhante tem Joachim Jeremias em sua teologia do Novo Testamento. Este afirma o seguinte: “Por exemplo, se atribuirmos a Jesus ter incitado o povo a não pagar os impostos, devemos ter Mc. 12.13-17 par. como inautêntico, visto que aí Jesus rechaça esse tipo de incitação, e explicar o surgimento desta perícope, por exemplo, como resultado do desejo de demonstrar que o cristianismo é politicamente inofensivo.” (JEREMIAS, p. 333). Joachim Jeremias se baseia na ausência de qualquer nacionalismo existente na pregação do Reino de Deus feita por Jesus como prova de sua assertiva.

Leonhard Goppelt, em teologia do Novo testamento, amplia o pensamento de Joachim Jeremias ao afirmar: “Jesus condena esse caminho, (não pagar o imposto a César) ao eliminar as suas premissas. Sua resposta parte da moeda que, na época, possibilita o comércio. Com isso ele ignora a posição teocrática de Israel bem como sua lei e aponta para a vontade de Deus como senhor da história, o qual se manifesta através da situação. Quem tem direito de cunhar moedas, é rei, e Deus é quem, segundo Dn. 2.21, instala e remove reis.” (GOLLPET, p. 140).

Não obstante toda esta unanimidade entre eminentes expositores do NT, o teólogo Uwe Wegner é um daqueles que possui a interpretação de Mc. 12.13-17 anti-romana, ou seja, que Jesus foi contrário ao pagamento de impostos a César. Em sua minuciosa exposição, Wegner, em Economia no mundo bíblico, busca diferenciar a pergunta formulada no versículo 14 e a resposta de Jesus no versículo 17 com a inserção dos dois versículos relacionados ao denário romano nos versículos 15-16. Para ele “Jesus é contrário ao pagamento de tributos aos romanos, mas defende sua tese com o recurso da ambivalência, sobretudo pelo perigo que representava politicamente assumir algo assim como uma “desobediência civil ao pagamento dos tributos”” (Wegner, p. 125).    

Quando Jesus solicita a moeda de César, segundo Wegner Jesus está querendo ressaltar que “uma moeda cunhada a mando de alguém pertence a esse alguém.” Assim, “o que Jesus estaria propondo com o v. 17 não seria um pagamento de tributos, e, sim, uma devolução de moedas ao seu legítimo dono” (p. 126). Isto porque, segundo os vs. 15-16 somente os denários são por direito pertencentes a César. 

Assim se expressa Uwe Wegner: “A inferência é, pois, que, na resposta de Jesus, o genitivo “de César” tenha por objeto não os impostos referidos três versículos antes, e, sim, a pertença da moeda romana, confirmada com o mesmo genitivo pelos próprios adversários no v. 16!” (p. 126). Devolver as coisas de César seria “tirar da Palestina o mais expressivo símbolo da hegemonia do império” (p. 127). O acréscimo feito por Jesus, “Devolvei a Deus as coisas de Deus”, seria, então, segundo muitas passagens bíblicas, devolver a terra da palestina que pertence por direito a Deus e não ao Estado romano.

Fica evidente que a posição de Wegner só é possível com uma manobra exegética muito bem articulada para ser defendida – embora deva ser admitida sua consistência. Por outro lado, a interpretação que diz que Jesus, em sua resposta, sem mais nem menos concordou com a legitimidade do tributo romano, não leva em consideração toda arbitrariedade e injustiça da política romana na cobrança tributária. Se isto realmente ocorreu, tornaria Jesus antipopular, logo, por qual motivo a multidão da Galileia ainda insistia em protegê-lo, se ela era, em sua maioria, contrária ao imposto romano?
      

terça-feira, 16 de outubro de 2012

DESCULPE-ME SENHOR!



Dias passados estive refletindo sobre a real condição de nossos cultos e a única coisa que me veio em mente foi: Deus deve sofrer muito ao observá-los. Afinal de contas, Ele é Onipresente, logo, não pode deixar de estar nestas celebrações. Ele está por uma necessidade de Sua natureza, e não por opção de Sua Vontade. Mesmo se fosse possível Ele não se encontrar em muitos desses cultos, não deixaria de saber o que lá acontece, pois como sabemos, Ele é Onisciente.

Orgulhamo-nos por não termos imagens em nossas igrejas. Mas não nos envergonhamos pelo aumento constante da irreverência de nossos membros. Conversamos constantemente durante o culto. Atendemos o celular com a maior naturalidade. Anda-se de um lado para o outro em um fluxo maior que a cinquentenário em época de natal. Sem falar que adicionamos um novo motivo para orarmos durante o culto: oramos não para falarmos com Deus, mas para impedir que o auditório veja os ajustes no som ou demais aparelhos.

Grupos de coreografia, teatro e ministério de louvor discutem sobre quem têm a prioridade no ensaio. Mas, como sempre, no culto dá-se um show de encenação teatral, com a mesma sinceridade de um ator em cena. Ainda temos a audácia de declararmos: quantos estão sentindo a presença de Deus? E como sempre todos dizem “amém”.

Declara-se em público que Deus é santo ao mesmo tempo em que se anula secretamente Sua santidade com práticas pecaminosas. Em outras palavras, queremos nos aproximar de Deus com nossos lábios em um culto – culto este de domingo à noite – enquanto nos afastamos Dele com nossos corações no decorrer da semana. Os “adoradores”, ou baal-ladores, não querem reconhecer que onde há lugar para o pecado não haverá espaço para Jesus.

Se não houver uma real mudança em nossos padrões de adoração, as celebrações culticas continuarão tendo a consistência de uma bolha de sabão, que existe por um breve momento somente enquanto é vista, mas que se desfaz ao mais leve toque de uma mão. 

Com tudo isto, como não pedir desculpas ao SENHOR, que constantemente tem de suportar isto que chamamos de culto? Veja Isaias 1.11-14.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

QUANDO UMA DOUTRINA SE TORNA UM ÍDOLO

Escrevo este artigo para informar que podemos, em nome de uma falsa ortodoxia, defender uma doutrina denominacional em detrimento da Revelação Bíblica. Como exemplo cito os adventistas, que negam veementemente a sobrevivência da alma no pós-morte e como consequência refutam qualquer possibilidade de uma existência desincorporada do crente ao lado do Senhor no céu no instante de sua morte. 

Eles entendem que se Enoque foi arrebatado (Gn. 5.14), Moisés a tradição diz que o próprio Deus o enterrou (Dt. 34.5,6; veja a disputa pelo corpo de Moisés em Jd. 9) e Elias levado em uma carruagem de fogo (2Rs. 2.9-14) já se encontram no céu, isto se deve ao fato de já terem ressuscitado. Para os adventistas, no céu não entram almas desincorporadas, mas somente pessoas com corpos glorificados.

Embora isto seja uma interpretação justificável somente à luz de uma coerência doutrinária intra-eclesiástica, ela é precária diante dos dados fornecidos pela revelação bíblica. Esta ortodoxia adventista torna-se – se me permitem assim falar - em verdadeira “doxolatria”, uma veneração ilimitada a algum dogma eclesiástico não sustentado pela Bíblia.

Se fosse verdade que os personagens listados acima já ressuscitaram, como isto pode se enquadrar com o texto de Atos 26.23 que diz “que o Cristo haveria de sofrer e, sendo o primeiro a ressuscitar dentre os mortos, proclamaria luz para o seu próprio povo e para os gentios" (grifo nosso). Esta é uma verdade que se acha no próprio Moisés de acordo com Paulo (cf. v.22). A possibilidade de uma ressurreição pessoal só é real tendo a ressurreição de Cristo como fundamento. Mas como seria possível, então, a ressurreição definitiva de Enoque, Moisés e Elias, antes da ressurreição do próprio Cristo? Se Enoque e afins já ressuscitaram, então como Cristo pode ser “o primogênito dentre os mortos” (Cl. 1.18; Ap. 1.5)? Veja que para Paulo a razão de se acreditar numa ressurreição futura se deve ao fato de Deus ter ressuscitado o próprio Cristo (2Co. 4.14), e não que outros já tivessem ressuscitado, neste caso, Enoque, Moisés e Elias – volto a afirmar, como dizem os adventistas.

Pode-se identificar outro problema com esta doutrina. Ela só foi descoberta com o advento – perdoem o trocadilho – do movimento adventista. Nem Jesus, tampouco Paulo tinham ciência deste possível acontecimento. Em Gl. 1.11,12, por exemplo, Paulo diz que o evangelho que ele proclamava tinha sido dado por revelação do próprio Cristo. Logo, fica uma indagação: qual o motivo deste ensino não ter sido revelado? A única resposta é que ele é uma invenção não bíblica.

Ao falar para Marta da realidade da ressurreição, Jesus não se refere a alguma ideia de ressurreição já ocorrida de Enoque, Moisés ou Elias, antes, faz de si mesmo a realidade da crença de que Lázaro poderá ressuscitar (Jo. 11.23,25). Marta, pelo contrário, expressa sim, a fé de todo judeu de sua época em uma ressurreição geral que somente ocorrerá no último dia (Jo. 11.24). Este deveria ser um bom momento para Marta fazer referência a esta possível ressurreição destes três personagens. Será que ela não o fez por falta de fé ou porque tal evento nunca ocorreu? Creio ser a segunda opção a única possível!

Outro texto que se pode evocar como prova da falsidade deste ensino é Lc. 20.37,38. Aqui, Jesus diz que o próprio Moisés confirma a crença na ressurreição ao falar que Deus é o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó. A máxima jesuânica da declaração mosaica é: “Ele não é Deus de mortos, mas de vivos, pois para ele todos vivem”. Logo, se for verdade a impossibilidade que alguém após a morte - exceto por meio da ressurreição - já se encontre com Deus, a conclusão deveria ser: não somente Enoque, Moisés e Elias já ressuscitaram, mas também Abraão, Isaque e Jacó, pois para Jesus estes se encontram vivos com Deus. O impressionante é que os adventistas não chegam a esta conclusão obvia. Se Jesus desejava validar o ensino sobre a ressurreição, por qual motivo não disse que o próprio Moisés já havia ressuscitado, já que o citou no debate? Deve-se levar em conta que os saduceus reconheciam somente os livros de Moisés como inspirados. Jesus perdeu, com isto, uma ótima oportunidade.

Paulo, da mesma forma, em suas declarações sobre a ressurreição, em nenhum momento deixa transparecer a crença na possibilidade de uma ressurreição definitiva já ocorrida em alguém, exceto Jesus. Isto fica bem evidente em Romanos 6.9, onde pelo seu teor verbal, a realidade declarada deva ser admitida somente a Jesus. Veja que somente de Jesus pode ser dito que seu corpo não sofreu decomposição, em outras palavras, ressuscitou (At. 2.27,31;13.34,35,37). A ressurreição no entender paulino sempre é encarada como uma esperança, expectativa, evento futuro (At. 24.15). Esta certeza na ressurreição se deve ao fato de somente Cristo ter ressuscitado (1Co. 6.14). 

Quando, diante do rei Agripa, Paulo é levado a expor os fundamentos de sua pregação, este indaga: “Por que os senhores acham impossível que Deus ressuscite os mortos?” (At. 26.8). O que se segue é que a aparição de Jesus (At. 26.9-23), que antes havia morrido, torna inverossímil qualquer tentativa de se afirmar que fosse “impossível que Deus ressuscite os mortos”. Ora, a aparente impossibilidade de Deus ressuscitar os mortos, julgada por alguns judeus, poderia ser facilmente revertida, nesta ocasião, fazendo-se uso destes três exemplos – se fosse realmente verdade – de pessoas já ressuscitadas, Enoque, Moisés e Elias, antes mesmo de citar a ressurreição do próprio Jesus. Veja também que em 1Co.15.12ss, o problema de se negar a futura ressurreição dos mortos é que isto torna inverídica a única ressurreição definitiva já ocorrida, a de Jesus Cristo, mas nenhuma outra, pois do contrário Paulo a teria citado.

Creio ter sido possível demonstrar que não há nenhuma, nem mesmo uma mínima evidência bíblica que possa sustentar o ensino sobre a ressurreição de Enoque, Moisés e Elias. Lembremos, com isto, a recomendação paulina de não se ultrapassar o que está escrito, não incorrendo, assim, no erro adventista (1Co. 4.6; cf. 2Jo. 9).
        

quarta-feira, 18 de julho de 2012

UMA PERSPECTIVA BIBLICO-TEOLÓGICA SOBRE A MORTE

A morte enquanto realidade universal de todos os homens provocou, ao longo da história, duas perspectivas diametralmente oposta. Os gregos, por exemplo, consideravam a morte uma verdadeira amiga. Ela era responsável – assim entendiam – pela libertação da alma, antes presa ao corpo, ou sepulcro no linguajar platônico.

Os hebreus, por outro lado, possuíam um conceito bem distinto quando comparado com o dos gregos em relação à natureza da morte. No relato bíblico, a morte sempre é vista como uma inimiga do homem. Em Gn. 2.16,17 a morte é visualizada como uma possibilidade que se tornaria real se o homem desobedecesse à ordem divina. A negativa da serpente de que a morte pudesse ser efetivada por um simples ato de Adão (Gn. 3.4), revela todo seu engodo quando da declaração de Deus logo após o homem ter comido do fruto proibido: “porque você é pó e ao pó voltará” (Gn. 3.19c).

A Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira, capítulo XVIII assim se expressa: “Todos os homens são marcados pela finitude, de vez que, em consequência do pecado, a morte se estende a todos”. Pode-se aprender com isto, que a morte não é algo normal. Ela é uma intrusa, uma consequência reveladora de outra realidade, o pecado. Na Bíblia, o homem só morre porque é um pecador. Paulo nos diz que o ato de Adão não somente o tornou pecador destinado à morte, mas que todos morrem porque são pecadores, morte esta trazida por Adão (Rm. 5.12,13). Este ato afetou a humanidade de tal forma que o autor da carta aos hebreus diz que “o homem está destinado a morrer uma só vez...” (Hb. 9.27, grifo nosso).

A morte de acordo com a revelação bíblica é também a cessação da unidade integral do homem. O corpo daquele que morre “volta a terra, de onde veio, e o espírito volta a Deus, que o deu” (Ec. 12.7). Tiago admite a realidade da separação do espírito em um corpo morto quando diz que este não possui aquele (Tg. 2.26). A cessação da unidade integral do homem, corpo e espírito/alma, não é o mesmo que não-existência. Aquele que morre não deixa de existir, antes, passa para outro estado de existência. Millard Erickson, teólogo batista, em sua teologia sistemática declara que a “morte é simplesmente uma transição para um modo diferente de existência; não é, como costumamos imaginar, extinção”.

Chegamos com isto, ao assunto que trata da preservação da consciência no estado pós-morte – verdade esta constantemente negada pelos adventistas. “A Palavra de Deus assegura a continuidade da consciência e da identidade pessoais após a morte...”, assertiva da Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira, capítulo XVIII. O Senhor Jesus deixou isto bem claro com a narrativa do homem rico e o pobre Lázaro em Lucas 16.19-31. Ao ladrão na cruz é declarado: “Eu lhe garanto: Hoje você estará comigo no paraíso” (Lc. 23.43). Paulo confirma esta verdade quando diz: “desejo partir e estar com Cristo, o que é muito melhor” (Fp. 1.23). Ele sabia que no ato de sua morte estaria consciente ao lado de Jesus, pois do contrário como o “partir” poderia ser “muito melhor”? 

Outro aspecto da morte é que ela sela o destino do homem. Aquele que morre sabe da natureza irrevogável da sua existência. Lucas 16.26 diz que é impossível uma mudança de lugar daquele que já morreu fazendo uso da linguagem do abismo intransponível. Voltando ao texto de Hb. 9.27, declara-se que após a morte o homem irá “enfrentar o juízo”. Se ele enfrentará o juízo após a morte, não haverá possibilidade para uma mudança no estado pós-morte. No dia do juízo final serão salvos somente aqueles que tiverem seus nomes escritos no livro da vida (Ap. 20.15). Não se escreve este nome após a morte, antes, na morte, já se sabe se este nome está escrito ou não. Após a morte, o homem já “vive” a realidade da eternidade, seja a bem aventurança do salvo em Jesus ou o horror daquele que não aceitou a Cristo. No inferno o fogo não se apaga (Mc. 9.43-48). Os que não adoraram a Cristo “a fumaça do tormento de tais pessoas sobe para todo o sempre”, pois “não há descanso, dia e noite” (Ap; 14.11). Se os justos desfrutarão da vida eterna, os perdidos “irão para o castigo eterno” (Mt. 25.46; cf. v. 41).

Do acima exposto, a doutrina da reencarnação, conhecida também por transmigração das almas ou metempsicose constitui-se uma contradição teológica. A reencarnação pressupõe mais de uma experiência da morte, haja vista que a alma desencarnada passa a habitar em um novo corpo mortal. Isto é uma violação gritante do texto de Hebreus 9.27 que diz que “o homem está destinado a morrer uma só vez...”. Os relatos de ressurreição na Bíblia são uma exceção desta regra – eles ressuscitaram, embora tenham voltado a morrer. A doutrina da reencarnação, por outro lado, é uma anulação desta lei, pois aquele que morre, morrerá novamente reencarnando em outro corpo mortal.

Por fim, devemos ter em mente que não obstante a morte ser a consequência do pecado (Rm. 6.23), para aquele que aceitou Jesus ela não é uma condenação (Rm. 8.1). A morte de Jesus nos livra da escravidão do medo da morte (Hb. 2.14,15).     

sábado, 10 de março de 2012

A DOUTRINA DA IGREJA

INTRODUÇÃO

Você sabia que o assunto igreja possui uma área específica de estudo na teologia? O campo da teologia que estuda a igreja é conhecido como Eclesiologia. Eclesiologia é a junção de duas palavras gregas: ekklesia – igreja e logos – estudo, tratado. Daí eclesiologia ser o estudo ou doutrina da igreja.

A igreja possui uma história de mais de 2000 anos. Foram muitos os acontecimentos ao longo deste período. De formulações ortodoxas (crença correta) passando por tentativas em se estabelecer heresias entre os fieis. Perseguição e martírio até o estabelecimento do cristianismo como religião oficial do império romano. Reforma protestante no séc. XVI aos movimentos pentecostais e neo-pentecostais dos nossos dias. Isto constitui no mínino, assuntos empolgantes para o nosso crescimento.

Esteja então preparado para começar hoje o estudo sobre a igreja de Jesus o Cristo. Ao aprender mais sobre ela você estará conhecendo um pouco mais sobre quem você é. Afinal de contas, a igreja é o conjunto de pessoas salvas por meio da fé em Jesus. 

A IGREJA NA HISTÓRIA
SURGIMENTO OU DESENVOLVIMENTO?
Quando surgiu a igreja? Essa é uma daquelas perguntas que os teólogos não possuem uma única resposta. Para alguns a igreja sempre existiu desde os tempos do Antigo Testamento. Já outros dizem que ela surgiu quando Jesus formou o grupo dos doze apóstolos. Alguns são de opinião que a igreja só passou a existir no dia de Pentecostes em At. 2. Mas afinal, quem está com a razão? Para respondermos este questionamento, temos que primeiro entender o significado da palavra “igreja”.

A palavra igreja vem do grego ekklesia, palavra formada de ek  e kaleo – tem o sentido de chamar para fora. Ekklesia era a convocação do exército para se reunir. Na antiguidade, desde o séc. V a.C. era a assembleia popular dos cidadãos na Grécia (Dicionário Internacional de Teologia, v. 1, p. 984). 

No Antigo Testamento, a palavra para a convocação ou assembleia do povo de Deus é kahal. A Septuaginta (tradução grega dos livros hebraicos do Antigo Testamento) traduz a palavra hebraica kahal – conclamar, na maioria das vezes por ekklesia – assembleia, congregação. Veja as seguintes referencias em Dt. 9.10; 10.4 18.16; Jz. 20.2; 1Rs. 8.14; Lv. 10.17; Nm. 1.16; Nm. 13.1 A ideia existente nos textos é sempre a mesma: assembleia, congregação, ou reunião, do hebraico kahal constitui o grupo de pessoas que foram chamadas/conclamadas por Deus para juntos ouvirem Sua Palavra. Não é tanto uma simples reunião, mas, pelo contrário, é o agrupamento como resposta ao chamado divino para fazer sua Vontade.

No Novo Testamento, a palavra ekklesia é usada como referência ao conjunto de pessoas que foram salvas e professam sua fé em Jesus Cristo. Neste sentido, ekklesia/igreja pode ter dois significados: um universal e outro local. A igreja em sentido universal é o conjunto de todas as pessoas salvas por Jesus independente de época ou lugar. Mt. 16.18; Ef. 1.22,23; 4.4; 5.23 são exemplos da igreja em sua natureza universal. O sentido local do termo igreja diz respeito aquele grupo de pessoas de determinada localidade que se reúne para confessar Jesus Cristo como Senhor (At. 11.26; 1Co 1.2; Gl. 1.2).

Com isto em mente podemos dizer que todas as respostas relacionadas acima em certo sentido estão certas. Se entendermos que a igreja é o povo de Deus e no Antigo Testamento Israel era este povo, assim Deus sempre teve um povo, logo ele sempre teve uma igreja, ekklesia/assembleia. Por outro lado, se igreja é um grupo de pessoas unidas em torno de Cristo, e os apóstolos foram chamados para estarem com Jesus (cf. Mc. 6.30,31), um dos elementos de uma igreja também ali se fazia presente. Mas se compreendemos que a igreja é o conjunto de pessoas salvas onde o Espírito Santo faz morada e que professam sua fé na ressureição de Jesus, então ela surgiu somente no dia de Pentecostes (cf. At. 2. 29-36).

Podemos assim “dizer que a fundação e o estabelecimento da Igreja foi um processo gradual e progressivo, e não um momento único na história” (Manual do Pastor e da Igreja, p. 15).

FIGURAS BÍBLICAS DA IGREJA
A Bíblia está cheia de figuras que expressam uma realidade particular da igreja. Estaremos analisando, no entanto, três destas figuras. Vejamos: 

CORPO DE CRISTO
Para o apóstolo Paulo, a igreja é o corpo de Cristo aqui na terra. Isto não deve ser entendido como se a igreja fosse fisicamente a extensão de seu corpo no mundo. Pelo fato de Cristo se fazer presente entre os seus discípulos (Mt. 18.20; 28.20) e dentro deles também (Jo. 14.23; Rm. 8.9,10; Gl. 2.20; Cl.1.27) nada mais natural a ideia que a igreja seja o seu corpo. Mesmo assim, não podemos chegar ao ponto de confundir a igreja com Cristo. Ele é o Senhor da igreja (cf. Ef. 5.23b,24a).  

Este conceito de igreja como corpo de Cristo (1Co. 10.17;12.12,13,27; Ef. 4.4,12; Cl.1.24) é uma analogia frequente no pensamento do apóstolo Paulo. Com ela aprendemos que a presença de Cristo não é um privilégio de alguns, mas de todos que estão Nele unidos. Não há variação de valor entre os irmãos na igreja. Cada um constitui um membro no corpo de Cristo, logo, o que importa não é sua posição no corpo (1Co. 12.14-26) mas o fato de que ele está unido ao corpo de Cristo e nele flui a vida do Salvador.

A figura da igreja como o corpo de Cristo também é uma forma de a Bíblia nos ensinar que o ideal de Deus para seu povo não é o isolamento. O fato de Cristo habitar no salvo é o que o impulsiona a viver uma vida em comunidade, a igreja. Assim, somos igreja somente quando estamos unidos. Esta união é mais uma questão de princípio que localidade. Isto porque podemos nos reunir e ainda assim nos encontrarmos divididos. Basta a leitura de 1Co. 1.10-13 para constatarmos que a igreja deve estar unida integralmente e não em facções. Logo, da perspectiva bíblica, não há esta ideia de unidade somente com um grupo específico da igreja. Quando isto ocorre, é caracterizado como tentativa de se dividir o corpo de Cristo (cf. 1Co. 1.13a). 

Outro texto que descreve a igreja como corpo de Cristo, mas com uma diferença em relação ao texto de 1Co. 12 é Ef. 1.22,23;4.15;5.23; Cl. 1.18a; 2.19. Em 1Co. 12 todo o corpo humano é visto como figura para a igreja (cf. 1Co. 12.14-20). Já em Ef. e Cl. Cristo é visto como o cabeça da igreja e esta o seu corpo. Isto serve para ressaltar que o único Senhor da igreja é Jesus Cristo. Ele é o seu dono. Nenhuma outra autoridade pode estar acima de Cristo na igreja. 

Um dos princípios batistas é ter Cristo como Senhor. “A suprema fonte de autoridade é o Senhor Jesus Cristo, e toda a esfera da vida cristã está sujeita a sua soberania”. (Em Que Creem os Batistas, Série Documentos Batistas, JUERP, p. 13.). Da mesma forma, o estatuto de nossa igreja no cap. I, art. 2º diz: “A igreja reconhece a Jesus Cristo como seu único Salvador e Senhor...”. Não há nenhum outro Senhor na igreja senão Jesus.

POVO DE DEUS
A igreja também é vista como sendo o povo de Deus. Em 1Co. 6.16; 1Pe. 2.9,10 encontram-se presente este pensamento. Assim como Israel só se tornou povo de Deus mediante a vontade soberana do SENHOR, a igreja é o povo de Deus por ter sido por Ele escolhida (1Pe. 1.1,2). Deus escolheu a igreja assim como escolheu Israel no Antigo Testamento.


Se Israel tinha a responsabilidade de manter uma conduta diferenciada diante das outras nações ( Dt. 12.30; 18.9-13), não menos exigência se requer da igreja enquanto povo de Deus  (2Co. 6.14-18; Ef. 5.3-7).  

TEMPLO DO ESPÍRITO SANTO
Outra forma de se ver a igreja é encará-la como o Templo do Espírito. Se pelo fato de Cristo habitar no crente a igreja é o seu corpo, o mesmo se dá com O Espírito Santo. Segundo as Escrituras, o responsável pelo novo nascimento é o Espírito Santo (Jo. 3.1-8; Tt. 3.4-6). Quando isto ocorre, a pessoa se torna o templo do Espírito (1Co. 3.16,17; 6.19).

O Espírito Santo é o responsável pela distribuição dos dons na igreja (1Co. 12.7-11). Não há uma única pessoa na igreja com todos os dons, muito menos algum crente que não tenha sequer um dom, pois o Espírito Santo os distribui “individualmente, a cada um, como quer” (1Co. 12.11b, NVI). Cabe ao Espírito Santo o derramamento dos dons na igreja.

Não é somente através do exercício dos dons na igreja que a identificamos como o Templo do Espírito Santo. Faz-se necessário a presença dos frutos do Espírito (Gl. 5.22-25). Enquanto os dons revelam a ação do Espírito Santo na igreja, os frutos, por sua vez, demonstram O Seu caráter presente na vida dos crentes. São estes frutos que devem determinar o exercício dos dons na igreja (1Co. 13.1-3; 14.1).

CONCLUSÃO
Aprendemos com este primeiro estudo que a igreja foi um processo que teve início com o próprio Deus. Embora seja constituída por pessoas, a igreja é na verdade, um milagre. Ela é o corpo de Cristo porque Ele habita nos crentes, sendo esta presença identificada na igreja. 

A igreja também é o povo de Deus. Assim como Deus formou o povo de Israel no Antigo Testamento, Ele é quem tornou realidade a igreja no dia de Pentecostes (At. 2). Sendo a igreja o Templo do Espírito, ela é identificada também em atitudes espirituais (Jo. 4.24; Gl. 5.16,17). Por mais belas que sejam nossas apresentações, se não forem feitas no Espírito Santo, serão realizações da carne – nossa natureza corrompida.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

ARRENDAMENTO ANGELICAL?

Recentemente fiz a leitura de Daniel 10.13,20 e uma espécie de reminiscência questionável me veio à mente: existem mesmo anjos/demônios territoriais? Rapidamente fui consultar meus livros de teologia, que infelizmente são poucos, e para minha surpresa eminentes teólogos respondiam de forma positiva a minha dúvida. Entre os gigantes da teologia que se pode inferir de seus escritos a ideia de anjos com domínios territoriais estão: Augustus Hopkins Strong, batista, e Charles Hodge, presbiteriano. Deve-se ressaltar quem ambos são teólogos conservadores.

Em Strong, no volume I, página 661 de sua Teologia Sistemática, a ideia de anjos territoriais encontra-se implícita. Já em Hodge o ensino é expressamente admitido. Primeiro ele afirma que muitos comentaristas ao longo da história da igreja adotaram “a opinião de que a certos anjos foi confiada a supervisão especial de determinados reinos”. (HODGE, p. 476). Mesmo concordando que é impróprio afirmar um ensino baseado em um único texto das Escrituras, Hodge faz a seguinte assertiva: “Embora tal coisa deve ser admitida, é não obstante certo que a interpretação ordinária da linguagem do profeta (anjos territoriais) é a mais natural, e nada há na doutrina assim ensinada que fique fora da analogia com os claros ensinos das Escrituras”. (HODGE, p. 477).

No entanto, a postura de Hodge não é correta. Isto por um motivo bastante simples. Se a interpretação de um texto me induz a uma ideia que não pode ser sustentada alhures nas passagens da Bíblia, uma exegese saudável seria admitir a natureza obscura da passagem. Ainda que se usasse o argumento de que não deixamos de acreditar no relato da torre de Babel (Gn. 11.1-9) mesmo aparecendo somente em uma única passagem das Escrituras, seria um verdadeiro sofisma. Pois em hermenêutica não se admite formar doutrina em um único texto da Bíblia, mas não se diz que não devemos acreditar em um relato quando este aparece somente uma vez nas Escrituras. Não há uma doutrina da torre de Babel, antes, o que temos é um relato meramente histórico, não repetível, e por isso crível. Algo bem diferente do texto de Daniel 10.13,20 que não é usado como relato histórico, mas doutrinário, sendo a descrição, sustentada por alguns, da realidade atual de territórios sob o domínio de entes angelícos.

Não obstante, podemos entender o texto à luz do contexto religioso do mundo antigo. Os deuses eram vistos como entidades territoriais (veja 2Crônicas 28.23). O próprio Naamã, entendendo que o Deus de Eliseu era divindade local, desejou levar um pouco da terra de Israel para oferecer sacrifícios ao SENHOR em outro lugar (2Rs. 5.17). O sentimento era que cada nação possuía sua divindade particular. Basta lembrarmos que quando Israel estava avançando em suas conquistas, muitos diziam: “o Deus de Israel...”. Para eles era o Deus local de Israel que estava adquirindo o território para Seu povo. Território este, já de domínio de outra divindade. Leia o Sl. 24.1 e tire suas conclusões se existe algum lugar na terra que pertence a alguém senão o SENHOR (cf. Ex. 9.26).

Com isto em mente, propomos que Daniel 10.13,20,21 estaria simbolizando a invasão de um território que se supõe ser do domínio de outro deus. O SENHOR pode levar Sua mensagem mesmo em terras estrangeiras. Não haveria fronteiras para o Seu agir. Existe sim, no relato, um confronto de poderes, Miguel e o Príncipe da Pérsia. Mas afirmar que havia um anjo encarregado dos negócios da Pérsia, isto o texto não nos diz, tão pouco pode ser biblicamente sustentado.

Do acima exposto, seriam estas as implicações do texto. Ir além disto, é incorrer em ilações não sustentadas pela Escritura.  

quarta-feira, 23 de março de 2011

SILÊNCIO FEMININO NA IGREJA?


Como entender 1Corintios 11.2-16 com 14.33b-36 e sua evidente discrepância em se tratando da participação feminina na liturgia? Existiria alguma possibilidade, por menor que seja, de harmonização entre os dois relatos, sem ferir, contudo, o pensamento paulino?
A explicação mais simplista para o tema é afirmar que se trata de um ensino para a época. No entanto, qual ensino bíblico não foi transmitido com o intuito de orientar um grupo (comunidade) específico do I século? Esta resposta abre precedência para o pressuposto da teologia liberal. Segundo esta, os dogmas da Palavra, tais como encarnação, nascimento virginal, milagres e afins, também deveriam ser abandonados pelo homem moderno, pois serviriam simplesmente para a comunidade cristã primitiva. Com isto, qual seria o princípio limitador para a permanência ou não de um ensino na Bíblia?
Uma proposta de interpretação equilibrada pode ser obtida fazendo-se uso do método da atualização da mensagem cristã, presente na teologia sistemática de Millard Erickson. Na atualização da mensagem cristã, não basta somente asseverar que o texto se referia à época da redação do escrito, mas diferenciar o conteúdo permanente no ensino bíblico de sua expressão temporária. O conteúdo permanente é atemporal, não sendo invalidado por época ou cultura. Já sua expressão temporária, seria a forma de expor o assunto em categorias condicionadas à época da redação do escrito. Neste caso, poderíamos perguntar: qual o conteúdo permanente de 1Co 11 e 14? Seria a mulher falar usando o véu, ou nem mesmo falar com o véu? Será que estamos focando demais nossa atenção na expressão temporária, falar com o véu, não falar no culto, não observando assim, o conteúdo permanente subjacente aos textos?
O estudioso Helmut Koester, em introdução ao novo testamento v. II, e outros, entende os versículos 33b-36 de 1Co 14 como uma interpolação. Interpolação é o termo para se referir a todo conteúdo ou material inserido no texto bíblico, não pertencendo ao autor sacro. Esta proposta evita a possível incoerência no texto paulino, onde no capítulo 11.2-16 ele permite a participação da mulher. Assim, o pensamento do apóstolo continuaria coeso, pois 1Co 14.33b-36 não seria de sua autoria, mas de algum escriba posterior.
Outra possibilidade é entender os versículos 33b-35 como citação feita pelo apóstolo. Ele estaria, na verdade, fazendo referência ao entendimento que os coríntios tinham do culto público. No versículo 36 Paulo criticaria esta atitude ao perguntar se a Palavra de Deus teria surgido somente entre eles? Neste caso, os homens de Corinto.
Na verdade, não estaria Paulo discutindo em 1Co 11.2-16 somente a questão do uso do véu  para as mulheres que estavam profetizando sem contudo emitir sua real opinião sobre a possibilidade ou não da mulher falar na igreja? Se assim for, em 1Co 14.33b-36 ele declara sua postura sobre a mulher no culto, completo silêncio. Desta forma, o apóstolo manteria coerência em dois assuntos: a mulher deve usar o véu e nunca falar na igreja.
Neste caso, qual o valor destes dois textos para a cristandade do século XXI? Eles nos ensinam a importância de mantermos o equilíbrio entre igreja e convenções sociais, desde que estas não firam os princípios éticos e morais da revelação bíblica. Paulo apela para uma norma socialmente estabelecida quando pede que os coríntios “julguem entre vocês mesmos: é apropriado a uma mulher orar a Deus com a cabeça descoberta? A própria natureza das coisas não lhes ensina [...] que o cabelo comprido é uma glória para a mulher?” 1Co. 11.13-14. Observe que para o apóstolo o consenso comunitário serve como corolário de toda sua argumentação teológica.  
No caso de 1Co. 14.33b-36 as observações do erudito alemão, Werner de Boor, são bastante esclarecedoras: “O ponto de vista do apóstolo, quando escreveu o presente trecho em sua carta, é simplesmente o seguinte: a igreja de Jesus não pode nem deve conceder à mulher uma posição que ela já não possua na vida pública e que contradiga o sentimento ético da época. Então, porém, isso significa para nós hoje: a igreja de Jesus não pode nem deve negar à mulher uma posição que ela já possui na vida pública e que corresponde a todo o sentimento óbvio da época! Assim como naquele tempo a mulher que falasse em público representaria uma estranha extrapolação, assim seria hoje com a mulher condenada ao silêncio.”
Desta forma, é compreensível que Paulo fale que em sua época “é vergonhoso uma mulher falar na igreja”. Se vivesse nos dias atuais, poderia afirmar: “é vergonhoso uma mulher não falar na igreja.”