sexta-feira, 5 de junho de 2009

Gênesis 3


O relato da queda registrado em Gênesis 3 constitui uma das passagens mais fascinantes de toda a Bíblia. O fascínio do texto, entretanto, é acompanhado por uma intrigante pergunta: seria a descrição literal de um fato ocorrido no tempo? A pergunta, por outro lado, não deve ser levada para o âmbito da inspiração bíblica. A narrativa de Gênesis 3 não se torna mais inspirada se for literal, da mesma forma que não perderá sua inspiração divina se for vista como simbólica. A mensagem da Palavra de Deus transcende as amarras de uma única espécie de literatura.
Estaremos propondo nesta breve exposição uma visão do relato da queda em uma perspectiva simbólica. Esta leitura de Gênesis 3 deve ser vista como uma possibilidade de se extrair a verdade do texto, sem a pretensão de ser a única verdade possível. Deve-se ressaltar que acreditamos na queda da humanidade em um momento na história com o primeiro casal, não obstante afirmarmos que o relato seja simbólico. 
O autor tem a preocupação de ressaltar que a tentação foi iniciativa de uma criatura, não de algum deus rival (Gn 3.1). Ele localiza o tentador no espaço e no tempo descrevendo-o como a serpente. Isto é uma figura de linguagem para se referir ao diabo, pois em apocalipse ele é visualizado como “a antiga serpente” (Ap 12.9; 20.2). Nota-se que nestas duas passagens o diabo é visto também como o “dragão”. Até mesmo Deus em sua onisciência (Sl 139) é dramatizado no texto procurando o homem pecador (Gn 3.9).  
A possibilidade de se obter vida eterna e conhecimento ilimitado é representada no texto simbolicamente pelo surgimento de duas árvores (Gn 3.5,6,22). A liberdade é marcada por um angustiante dilema: a vida eterna ou o conhecimento ilimitado sem vida? As árvores representam ausência de movimento, imparcialidade, cabendo ao próprio homem o aproximar-se de uma levando-o necessariamente ao afastamento da outra.
A serpente faz uma pergunta improvável para a mulher: “Foi isto mesmo que Deus disse: ‘Não comam de nenhum fruto das arvores do jardim’?” (Gn 3.2). Como Deus poderia ter dito isto e ao mesmo tempo desejar a sobrevivência do primeiro casal na terra? Logo, o questionamento não visa o entendimento, mas semear a semente da dúvida no coração da mulher. Infelizmente, a resposta dada por Eva não expressa a realidade da ordem divina. Deus não proibiu que se comesse da árvore que estava no meio do jardim (Gn 3.2,3). As duas árvores achavam-se centralizadas, somente uma sendo proibida (Gn 2.9,16). Sem nenhuma explicação óbvia, Eva se esquece da existência da árvore da vida.   
A crença que a mulher nutria pelo mandamento de Deus é anulada pela serpente com: “Certamente não morrerão! [...] seus olhos se abrirão, e vocês, como Deus, serão conhecedores do bem e do mal” (Gn 3.4,5). A certeza enganadora da serpente acompanha a ausência de uma prova concreta para o mandamento divino. A garantia de que não morreriam, junto à possibilidade de ser como Deus, faz da violação da ordem divina um risco aceitável para Eva.  
Ao assimilar o engodo da serpente, a percepção que Eva tem do mundo em sua volta modifica-se. A árvore, agora, é agradável ao paladar, atraente aos olhos e desejável para se obter discernimento (Gn 3.6). Isto pressupõe uma queda antes da queda (Mt 5.21-22,27). A realidade diante dos nossos olhos é o produto da condição interior do nosso ser (Tt 1.15). “Nós não queremos uma coisa porque encontramos motivo para ela, encontramos motivo para ela porque nós a queremos.” (Arthur Schopenhauer).  Para o homem, não foi suficiente ser a imagem e semelhança de Deus (Gn 1.27), ele quer, com um simples ato, ser “como Deus”. Deseja ser divino através de uma atitude demônica. Procura realizar-se, obter poder e conhecer em si mesmo. Ele não quer mais algo derivado, almeja ser a fonte de tudo. Ele “se converte em centro de si mesmo e de seu mundo” (Tillich).
Desejando ser o que não podia, tornou-se aquilo que não queria. 

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