Categoria

segunda-feira, 6 de maio de 2013

DISCIPLINA NA IGREJA, PARTE II


AS DISCIPLINAS EM UMA IGREJA BATISTA

Nós batistas costumamos distinguir a disciplina na igreja de três formas: disciplina formativa, corretiva e cirúrgica.

DISCIPLINA FORMATIVA

Toda instrução que a igreja recebe, seja por meio de pregação ou estudo bíblico pode ser denominada de disciplina formativa. Seu alvo é formar constantemente o caráter de Cristo na vida do discípulo. Como nunca alcançaremos o perfeito caráter de Cristo nesta era, a disciplina formativa perdurará até a vinda de Jesus. Todo ensino (disciplina formativa) de Paulo aos gálatas era a demonstração do seu desejo de ver “Cristo formado em vocês” (Gl. 4.19).

A igreja de Éfeso em Ef. 5.3-7 recebe uma instrução paulina que se enquadra muito bem no nosso conceito de disciplina formativa. Nos vs. 3,4 Paulo diz “o que não deve haver” no meio da comunidade cristã. E se alguém perguntasse o motivo dessa exigência, ele afirmaria “que essas coisas não são próprias para os santos”. O objetivo do conselho, é que os integrantes da igreja de Éfeso não ficassem fora do Reino de Deus (vs.5,6). Por fim, no v. 7, Paulo expressa o desejo que seu ensino seja absorvido na prática diária dos crentes efésios.

A disciplina formativa é, neste sentido, preventiva. Ela alerta o crente sobre o perigo de uma conduta irrefletida da vida cristã (cf. Ef. 5.15-18).

DISCIPLINA CORRETIVA

A Bíblia deixa bem claro que o crente não está isento de possíveis falhas em sua vida cristã. Nem mesmo a simples participação na igreja impede que os crentes não estejam expostos aos perigos das tentações na vida (1Co. 10.1-12).

Quando na igreja alguém erra, é da responsabilidade dos irmãos conhecedores do fato, a aplicação da disciplina corretiva. O objetivo nunca é afastar a pessoa da igreja. A intenção deve sempre ser a restauração do culpado. O teólogo Wayne Grudem diz que “o propósito principal da disciplina eclesiástica é alcançar o duplo alvo da restauração (levar o pecador ao comportamento correto) e de reconciliação (entre cristãos e com Deus)”. (GRUDEM, p. 750).

Em Gl. 2. 11-14 temos um claro exemplo de disciplina corretiva. Em Gl. 2.1-10 Paulo deixa bem claro que com o evangelho de Cristo as exigências judaicas não eram necessárias aos gentios. Pedro tinha assimilado isto, pois o texto diz que “ele comia com os gentios” (v. 12). Era um costume em Antioquia, judeus-cristãos partilharem uma refeição comum com os gentios convertidos. Mas com a chegada de um grupo liderado por Tiago, que era rigoroso no que diz respeito às regras alimentares estabelecidas por Moisés (cf. Lv. 11), Pedro afastou-se e separou-se dos gentios (v. 12). Outros judeus tiveram a mesma conduta (v. 13). Diante disto, Paulo repreendeu Pedro e os outros judeus, pois “não estavam andando de acordo com a verdade do evangelho” (v. 14a). O fato de Paulo falar diretamente para Pedro, é que este desde cedo tinha assumido uma postura de liderança na igreja (Mt. 16.15,16; At. 2. 14). Nos vs. 16-21 Paulo expõe a razão teológica para a repreensão feita com o apóstolo Pedro.

DISCIPLINA CIRÚRGICA

Esta disciplina é o último passo na tentativa de restaurar a pessoa que cometeu determinado pecado. Ela é denominada de cirúrgica porque sua ação se dá no afastamento do integrante da igreja. A disciplina cirúrgica – a exclusão - não quer dizer que a igreja não conseguiu restaurar a vida de um dos seus membros, antes, é uma tentativa de levar o faltoso ao verdadeiro arrependimento. “Assim como, às vezes, é preciso tirar fora parte do corpo físico para que o corpo todo não pereça, da mesma forma também acontece na igreja” (ZACARIAS SEVERA, p. 389).

Em 1Tm. 1.20, Paulo informa que Himeneu e Alexandre foram excluídos da igreja – “entreguei a Satanás” no linguajar paulino – com o intuito de que “aprendam a não blasfemar”. A exclusão deve servir como um tratamento de choque para o crente que demonstra resistência em se arrepender. Mais uma vez queremos enfatizar que seu objetivo é a restauração do impenitente.

A disciplina cirúrgica serve também para ensinar a igreja que não se pode confundir amor com tolerância ao pecado. As igrejas de Pérgamo (Ap. 2.14,15) e Tiatira (Ap. 2.20) estavam tolerando o erro ao permitirem que pessoas que já haviam dado prova de uma vida incompatível com o evangelho, fossem ainda membros de suas comunidades. Jesus advertiu essas igrejas, que devido ao não exercício da disciplina, Ele mesmo faria com que o erro fosse punido (Ap. 2.16; 21-24).

A disciplina cirúrgica protege a pureza da igreja e não permite que o nome de Jesus seja difamado pelas pessoas de fora. A igreja não pode permitir que o nome do Senhor seja desonrado com o erro de alguns de seus membros, da mesma forma que o nome de Deus era “blasfemado” por causa do comportamento de alguns judeus na época de Paulo (cf. Rm. 2.17-24)

quarta-feira, 1 de maio de 2013

DISCIPLINA NA IGREJA, PARTE I

INTRODUÇÃO

Todos nós sabemos que a igreja deve ser uma comunidade identificada pela prática do amor (Jo.13.35). É do nosso conhecimento também que Cristo orientou seus discípulos a perdoarem seus irmãos “setenta vezes sete” (Mt. 18.21,22). Com isto em mente, seria correto afirmar que o amor e a atitude constante do perdão é um empecilho para o exercício da disciplina na igreja de Cristo? Sim ou não?

Poderíamos ainda conciliar as palavras de Jesus em Mt. 7.1,2 que proíbe o ato de julgar com a recomendação paulina em 1Co. 5.12 sobre a prática do julgamento eclesiástico? Seriam declarações auto-contraditórias?

Para você, todos na igreja são disciplinados? Ou a disciplina é somente para aquele que cometeu pecado? Enfim, você sabe realmente o que é a disciplina na igreja?

CRITÉRIOS BÍBLICOS PARA UM CORRETO EXERCÍCIO DA DISCIPLINA NA IGREJA

Os romanos acreditavam que determinados conceitos abstratos, eram na verdade, divindades. Um exemplo disto é a justiça. Venerada como uma deusa, a Justitia (justiça), era representada com uma balança na mão e os olhos vendados – “símbolo da ponderação imparcial” (Quero Saber, Mitologia da Antiguidade, p. 81). Ainda hoje podemos vê-la na entrada dos fóruns em algumas cidades.

Queremos dizer com este exemplo, que a correta disciplina deve ser imparcial. Qualquer tentativa de parcialidade por parte de alguns irmãos da igreja, devido a uma maior aproximação com o irmão faltoso, deve ser veementemente condenada. Leia Tg. 2.1-4 e veja como uma conduta de diferenciação na igreja é criticada.

Em Ex. 23.1-3, Moisés adverte os israelitas sobre o correto procedimento durante um julgamento. Diz também que condição social de uma pessoa não pode determinar o resultado do julgamento (Lv. 19.15). A imparcialidade é uma característica do julgamento divino (Rm. 2.11). Assim, quando uma igreja julga imparcialmente, ela está correspondendo com o ideal de Deus para o exercício da disciplina eclesiástica.

O OBJETIVO DA DISCIPLINA

Muitos na igreja não concordam com a disciplina por não saberem primeiro qual é o seu objetivo. Para se compreender o alvo da disciplina, porém, é necessário saber a origem desta palavra.

Disciplina deriva do latim disciplina – e significa ensinar, ação de instruir, educação. No grego nós temos a palavra paidéia – criação, treinamento, instrução, disciplina (Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, p. 649). Podemos com isto dizer, que a disciplina na igreja tem por objetivo a instrução e formação do discípulo de Cristo.

O autor da carta aos Hebreus lembra que a disciplina é um indicativo que a pessoa é um verdadeiro filho de Deus (Hb. 12.5-7). A ausência de disciplina do Senhor é a prova de que ainda não se pertence à família de Deus (Hb. 12.8-10). Para aqueles que pensam que a disciplina possui somente um lado negativo, depois da tristeza que ela provoca “porém, produz fruto de justiça e paz para aqueles que por ela foram exercitados” (Hb. 12.11; cf. 2Co. 7.9-12).

segunda-feira, 29 de abril de 2013

CARACTERÍSTICAS DE UMA IGREJA VERDADEIRA


Alguns teólogos do período da reforma protestante tentaram estabelecer critérios como sendo essenciais a uma verdadeira igreja. O primeiro foi a pregação bíblica. Se os membros de uma igreja não se reúnem para estudar a Palavra de Deus eles não estão sendo uma igreja verdadeira. A pregação da Bíblia tem o objetivo de fazer “com que a Palavra de Deus ocupe o lugar central do culto, para que, em conseqüência, ela ocupe o lugar central na vida da Igreja” (João Falcão Sobrinho, A Túnica Inconsúltil, Doutrina da Igreja, p. 57). Não se pode encontrar Cristo em uma igreja onde não se acha espaço para a Palavra de Deus.

Outra marca de uma verdadeira igreja é a correta observância das ordenanças de Cristo. Algumas igrejas realizam “ceia da prosperidade”, “ceia da libertação”, propondo com isto uma espécie de poder mágico existente na ceia, ferindo assim, o objetivo de sua celebração, que é anunciar “a morte do Senhor até que ele venha” (1Co. 11.26).

O batismo é outra ordenança não aplicada corretamente em algumas igrejas. Na igreja católica, por exemplo, pratica-se o batismo acreditando-se que ele tenha o poder de realizar o novo nascimento. A Bíblia, por sua vez, nos ensina que o novo nascimento é operado pelo Espírito Santo mediante aceitação da Palavra de Deus (Tg. 1.18; 1Pe. 1.23).

Por fim, a igreja verdadeira deve ser apostólica. Deve se fundamentar nas doutrinas e práticas por eles estabelecidas. Paulo em Efésios diz que a igreja é “edificada sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, tendo Jesus Cristo como pedra angular” (Ef. 2.20). E em 1Co. 3.11 o apóstolo afirma que “ninguém pode colocar outro alicerce além do que já está posto, que é Jesus Cristo”. Ser uma comunidade apostólica é ser a igreja de Cristo.

Pedro, em sua segunda carta, deseja que a cristandade relembre os ensinos transmitidos, um dia, pelos apóstolos (2Pe. 3.1-2). Isto é bem diferente de algumas igrejas que buscam novos ensinos, e não o entendimento do que já foi anunciado.

As igrejas devem adquirir uma postura crítica sobre o teor de suas pregações. Qualquer ensino que se distancie daquilo que foi revelado por meio dos apóstolos deve ser abandonado pela verdadeira igreja de Cristo (Gl. 1.6-9). EMIL BRUNNER possui um pensamento bastante esclarecedor sobre isto. Assim ele se expressa: “a forma básica da palavra apostólica é ainda válida como critério pelo qual cada comunidade cristã deve testar sua própria palavra existente, a fim de estar segura que as duas são idênticas” (BRUNNER, p. 33). Em outras palavras, para que a pregação atual da igreja seja verdadeira, ela precisa ser o eco da antiga pregação apostólica.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

OS APÓSTOLOS E A IGREJA


A importância do estudo da igreja e sua relação com os apóstolos, já foi expressa um dia por EMIL BRUNNER, teólogo suíço, que disse: “A comunidade de Jesus só é concebível, somente eficaz, como uma comunidade apostólica”. (BRUNNER, p. 32). Mas como era essa comunidade apostólica?

A primeira igreja no Novo Testamento que temos conhecimento foi a de Jerusalém. Ela foi formada pelos cristãos que presenciaram as aparições do Cristo ressurreto na Galileia. Note que os que ficaram cheios do Espírito Santo eram galileus, pressupondo que eles se deslocaram da Galileia para Jerusalém (At. 2.7).

Nos primeiros capítulos de Atos podemos visualizar como vivia a igreja de Jerusalém. Em At. 2.42-47 temos um sumário feito por Lucas. Os crentes “se dedicavam ao ensino dos apóstolos”, isto significa que “davam atenção constante ao ensino dos apóstolos” (Novo Comentário Bíblico Contemporâneo, Atos, grifo nosso).

A comunhão, vivenciada no partir do pão era outra característica da igreja de Jerusalém. Estas refeições, provavelmente, traziam à memoria o encontro com Jesus quando ele comeu na presença de todos os discípulos (Lc. 24.41-43; Jo. 21. 12,13). O “partir do pão” (cf. At. 20.7) pode ser também uma forma antiga dos primeiros cristãos se referirem à ceia do Senhor.

A oração era uma prática constante da igreja primitiva. Em At. 4.23-30 vemos um exemplo de como era o teor das orações da cristandade nos primeiros anos de fundação da igreja. É uma oração fundamentada na Bíblia (vs. 25,26; cf. Sl. 2.1,2). Tem a confiança no plano que Deus estabeleceu na eternidade e executado na história (vs. 27,28). Demonstra completa dependência da capacitação dada por Deus para o exercício do ministério (vs. 29,30).

Não podemos deixar de fora os primeiros sermões existentes em Atos, pois estes servem como marca distintiva da verdadeira igreja de Cristo.

Observa-se rapidamente que as pregações iniciais em Atos possuem forte fundamentação bíblica. Veja At. 2.16-21 e compare o texto correspondente em Jl. 2.28-32. Analise também At. 3.18,24,25; 4.11. Os apóstolos usavam o Antigo Testamento aplicando-o corretamente aos eventos da vida de Jesus.

Os sermões eram essencialmente cristocêntricos. Leia At. 2.22-24,31-36; 3.12-16,26; 4.2,10,12 (cf. 1Co. 1.22-25) e veja como os demais temas giram em torno do assunto central, Jesus Cristo o Senhor.

Ao contrário das pregações atuais que afirmam que os crentes devem herdar as riquezas do mundo, ou que nunca passarão por dificuldades, os sermões apostólicos tinham outra proposta: conclamar o povo a um verdadeiro arrependimento (At. 2.37-41; 3.19,20; 17.30; 20.21; 26.20).

JESUS E A IGREJA


Qualquer leitor atento dos evangelhos logo notará, para sua surpresa, como é escasso o uso do termo igreja nos lábios de Jesus. Das mais de 100 vezes em que o Novo Testamento faz uso da palavra igreja, somente duas ocorrências encontram-se nos evangelhos (Mt. 16.18; 18.17).


Aprende-se com estas duas passagens que a igreja do Novo Testamento é uma comunidade cristocêntrica. O próprio contexto nos leva a essa conclusão. Em Mt. 16.16, Pedro tinha terminado de confessar Jesus como o Cristo, para em seguida a esta revelação feita por Deus, surgir a primeira declaração de Jesus sobre a igreja (v. 18) Logo, onde não há confissão de Jesus como o Cristo, ali não poderá existir uma igreja verdadeira.

A igreja também é o resultado da ação do próprio Cristo. Ele é quem a edificaria. Note que em sua declaração, Jesus usa o verbo no tempo futuro, “edificarei” (v. 18). Isto iria ocorrer segundo o renomado teólogo OSCAR CULMANN, “depois de sua morte e ressurreição” (CULMANN, p. 296). Com a morte e ressurreição de Jesus, a promessa da vinda do Espírito Santo (Jo. 14.16,26; 15.26; At. 1.8) pôde ser cumprida no dia de Pentecostes em At. 2, concretizando assim sua declaração que edificaria a igreja.

Já em Mt. 18.17, a fé das primeiras comunidades na real presença de Jesus é expressa no fato de “onde se reunirem dois ou três em meu nome, ali eu estou no meio deles” (v. 20; cf. Mt. 28.20). É a presença de Jesus no meio dos crentes que faz com que eles sejam uma igreja verdadeira.

Embora Jesus tenha feito uso da palavra igreja somente em duas ocasiões, sua reflexão sobre o tema é bastante extenso nos evangelhos. A igreja deve ser uma comunidade com laços afetivos semelhantes aos existentes em uma família (Mc. 3.34,35; Lc. 8.21). Veja como Paulo faz uso do mesmo exemplo em 1Tm. 5.1,2. A igreja é a família de Deus (Ef. 2.19).

A igreja também é vista por Cristo como o rebanho, “pois foi do agrado do Pai dar-lhes o Reino” (Lc. 12.32; cf. Jo. 10.1-16). O próprio Jesus disse para Pedro cuidar de Suas ovelhas (Jo. 21.15,16), o mesmo conselho dado por ele aos presbíteros em 1Pe. 5. 2,3. Os termos “eleitos” (Mc. 13.20,27) e “escolhidos” (Mt. 22.14; 24.22,24,31; Mc. 13.22; Lc. 18.7) são para Cristo a sua igreja, protegida no evento da tribulação e salva no último dia. Estes são termos empregados também nas cartas do Novo Testamento como forma de descrever a igreja (cf. Rm. 8.33; 11.7; Cl. 3.12; Tt. 1.1; 2Pe. 1.2; Ap. 17.14).

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

MENSAGEM: A IGREJA E O ESTADO (Lc. 20.22-25) – 30.09.2012


INTRODUÇÃO

Qual deve ser a relação entre a Igreja e o Estado? Podemos também indagar: como deve ser o envolvimento do cristão na política? Para respondermos estes questionamentos, precisamos entender primeiro o que queremos dizer com as palavras, Estado e política. Estado, de acordo com o dicionário, é uma nação politicamente organizada. Já o termo política, é definido como “arte e a ciência de bem governar os povos e de cuidar dos negócios públicos com sabedoria”. Politicagem, por outro lado, é o extremo oposto da política, pois ela é feita de forma mesquinha e interesseira.

A RELAÇÃO ENTRE A IGREJA E O ESTADO

No início da era apostólica, o estado romano tolerava em certo sentido pacificamente o movimento cristão. Roma entendia que o cristianismo era mais um ramo sectário do próprio judaísmo. No entanto, ao perceber que o cristianismo era um movimento distinto do judaísmo, os cristãos passaram a ser perseguidos. O que fomentava muito essa perseguição era o fato dos cristãos afirmarem que reconheciam somente Jesus como o Senhor e não César. Com a ascensão de Constantino ao poder, o cristianismo passou a ser adotado como religião oficial do império romano. Neste período, embora separados, ao menos em princípio, Igreja e Estado encontravam-se juntos para formarem um povo. Na Idade-Média isto fez com que tanto a Igreja quanto o Estado reivindicassem poder supremo.

Durante o período da reforma Protestante, os anabatistas pregavam uma completa separação extremista entre a Igreja e o Estado. Não deveria haver nenhuma espécie de relação entre os dois poderes. Para os anabatistas, os cristãos deveriam viver suas vidas somente com leis extraídas das Escrituras. 

Os batistas, por sua vez, possuem um conceito bastante definido sobre a relação entre a Igreja e o Estado. Um dos princípios batista diz: “Tanto a igreja como o Estado são ordenados por Deus e responsáveis perante ele. Cada um é distinto; cada um tem um propósito divino; nenhum deve transgredir os direitos do outro. Devem permanecer separados, mas igualmente manter a devida relação entre si e para com Deus. Cabe ao Estado o exercício da autoridade civil, a manutenção da ordem e a promoção do bem-estar público”.

Com base neste princípio batista, entendemos que o cristão é cidadão de duas ordens, uma política e outra celestial. Sobre isto confira o texto de Fp. 3.20. Sobre o dever do cristão como cidadão, assim se expressa o principio batista: “A mordomia cristã da vida inclui tais responsabilidades como o voto, o pagamento de impostos e o apoio à legislação digna. O cristão deve orar pelas autoridades e incentivar outros cristãos a aceitarem a responsabilidade cívica, como um serviço a Deus e à humanidade”.

IMPLICAÇÕES PRÁTICAS

Podemos extrair as seguintes lições sobre o correto entendimento da relação existente entre a Igreja e o Estado:

Todos nós precisamos do Estado. Ele é uma necessidade básica de todo ser humano civilizado. O Estado nada mais é que uma sociedade unida com o objetivo de observar determinadas leis. Sem o Estado viveríamos a lei da selva, onde iria imperar sempre o mais forte.

O Estado provê – como bem lembrou Willian Barclay – uma série de benefícios, que o cidadão isolado não poderia nunca adquirir. Não seria possível cada pessoa sozinha ter sua própria água, luz, rede de esgoto, sistema de transporte etc. Só podemos obter tudo isto vivendo em sociedade, em outras palavras, com o Estado.

A Igreja não deve buscar favores do Estado ou prefeitura. Uma igreja que busca favores deixa de ser a voz profética de Deus na terra, pois não denunciará as injustiças hodiernas porque ela mesma recebe favores provenientes desta própria injustiça. A igreja de Jesus não pode ser vendida, pois já foi comprada com o sangue do Senhor (At. 20.28; 1Pe. 1.18,19; Ap. 1.5,6).

Embora a Igreja não precise de favores do Estado, ela deve conhecer e fazer valer seus direitos concedidos pela Constituição Federal. Como exemplo, podemos citar a imunidade tributária. Isto quer dizer que o poder público não tem o direito em cobrar impostos da Igreja, exemplo o IPTU.

A Igreja tem a obrigação de orar por aqueles que se encontram investidos de autoridade política. O bem-estar social depende do empenho da igreja em orar por uma boa administração pública. Veja 1Tm. 2.1-2.

Paulo recomenda que todos sejam obedientes as autoridades políticas (Tt. 3.1). Não deve ser atitude cristã faltar com respeito a qualquer líder político (cf. 1Pe. 2.13-17). Devemos lembrar que na época dos apóstolos, os imperadores eram tudo, menos pessoas piedosas – exemplos como Nero, Calígula, Domiciano servem como corolário de nossa assertiva.

Aprendemos na Bíblia que o líder político é alguém instituído por Deus para o correto exercício de sua função pública – nenhum feitiço pode colocar alguém no poder público, somente Deus (Rm. 13.1). É Ele quem domina sobre sua criação (Sl. 103.19; 115.3). No entanto, o mesmo Deus que institui alguém para uma função política é o mesmo quem tira. Isto demonstra que Deus é sempre soberano em suas decisões. Nenhum político deve pensar que se encontra acima de Deus (veja Dn. 4.28-37).

O cristão, mais do que ninguém, deve exercer da forma mais sábia possível seu dever cívico – não há nada de errado em participar de eventos do seu candidato, no entanto, devemos sempre lembrar que ainda somos cristãos, com isto quero dizer que nosso comportamento não pode ser como o dos demais em tais acontecimentos. O cristão precisa diferenciar a vontade de Deus das decisões do Estado. Veja At. 4.19; 5.29. Quando as decisões públicas entrarem em choque com a vontade de Deus, nós devemos sempre optar pela vontade divina.

Por fim, se o Estado ultrapassa seu limite de poder, e começa a invadir a área de atuação da Igreja, torna-se uma besta, um poder demoníaco (Ap. 13.1ss). O cristão deve sempre resistir ao Estado quando este deseja sair do domínio do Senhor Jesus.

CONCLUSÃO

Vamos confessar que somente Jesus é o Senhor. Somente ele tem o desenrolar da história em suas mãos. Não obstante, analisemos sabiamente quem será digno de nosso voto. Mas, acima de tudo, exaltemos sempre o nome de Jesus em nossas vidas. Leia Ap. 1.5-8; Jd. 24,25.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

ORAÇÃO

INTRODUÇÃO

A oração era uma prática da piedade judaica que possuía uma regra fixa para ser observada. Era costume o judeu orar durante três vezes ao dia. Pela manhã, ao meio-dia e à tarde eram momentos reservados para a oração. O judeu ao orar voltava-se para Jerusalém, se já se encontrava na cidade, virava-se para o Templo, e se estivesse no Templo, ficava de frente para o Santo dos Santos. A oração da manhã recitava-se o Shema Israel, que é o texto de Dt. 6.4-9. O costume de orar ao meio-dia é atestado pelo texto de At. 10.9. A oração da tarde se dava pelas 15h de acordo com At. 3.1.

JESUS COMO MODELO DA PRÁTICA DE ORAÇÃO

A primeira coisa que precisamos compreender ao estudarmos a vida de oração de Jesus é: diferenciar o que é texto descritivo de prescritivo. Muitos defendem a prática da oração no monte com base em Mc. 6.46. Contudo, Jesus não nos ensinou a orarmos no monte, este era seu comportamento. Quando ele diz que lugar devemos nos dirigir para orar, ensina-nos que devemos entrar em nosso quarto (Mt. 6.6), não subir ao monte.

Jesus, como um judeu fiel às tradições, observou as normas estabelecidas para a prática da oração. Tinha sido criado em uma família piedosa (Lc. 2.41). Ele participava regularmente do culto na sinagoga (Lc. 4.16). Contudo, Jesus não se limita ao comportamento das pessoas de sua época.

  • Para Jesus, Deus não é movido pelo acúmulo de palavras como se entendiam nas religiões pagãs. Confere Mt. 6.7. Veja a prática que Jesus está condenando em 1Rs. 18.26; At. 19.34.
  • Ele orava de madrugada, um horário não estabelecido para a oração Mc. 1.35.
  • Orou durante noites inteiras como podemos ler em Lc. 6.12.
  • Jesus sabe agradecer em oração o aparente insucesso do seu ministério quando alguns não aceitaram sua mensagem, Mt. 11.25,26. Confere o texto de 1Co. 1.26ss.
  • Jesus entende que a oração deve ser praticada até nos nossos priores momentos. Veja isto em Mc. 15.34. Jesus está citando em sua oração o início do Sl. 22.1. É um grito de desespero que se baseia também na esperança da continuidade do salmo. Veja os vs. 19-24. Jesus está pensando no salmo como um todo.
  • Jesus intercede pelos que o crucificaram, Lc. 23.34a. Esta atitude está de acordo com o ensino de Mt. 5.43-45. Orar pelos inimigos é demonstração de perdão já concedido.

JESUS E A ORAÇÃO NO GETSÊMANE

A oração feita por Jesus no Getsêmane (Mc. 14.35,36) nos ensina alguns princípios básicos para uma atitude correta ao orarmos.
  • Aprendemos com Cristo que em nossas orações demonstramos para Deus nossa vontade, para em seguida ouvirmos qual será a vontade de Deus. Ver 1Jo. 5.14.
  • Não há espaço para nenhuma espécie de “eu determino” ou “não aceito isto ou aquilo em minha vida”. Ler Hb. 5.7-10.
  • Com a oração no Getsêmani entendemos que existem dois tipos de oração: aquela que busca alcançar sua própria vontade e a que busca ser alcançada pela vontade de Deus. Ao orar, Jesus buscou ser alcançado pela vontade de Deus. Qual é o seu tipo de oração?