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terça-feira, 14 de abril de 2020

COVID-19

Faz algum tempo que não escrevo em meu blog. Com os últimos acontecimentos relacionados com a atual pandemia do coronavírus e em contato com um de meus antigos alunos do seminário, fui motivado a produzir esse post. Desejo lançar algum feche de luz nessa escura situação que nos encontramos. 

Não é de hoje que as pessoas pensam estar vivendo os últimos momentos da história diante de acontecimentos globais com grande magnitude. Essa não é a primeira pandemia e penso que não será a última. Costumamos, nessa hora, correlacionar acontecimentos à luz de alguns textos bíblicos. Isso aconteceu com a virada do ano 999 para o ano 1000, se repetiu quando a peste negra assolou a Europa medieval, no período da Guerra Fria, com os atentados de 11 de setembro, com o tsunami em 2004, no início do ano com as chuvas em Minas Gerais e agora com o coronavírus. 

Usar o Dilúvio, a destruição das cidades de Sodoma e Gomorra como exemplos de juízo de Deus realizado na história, não serve como salvo para correlacionarmos acontecimentos atuais, como a pandemia do coronavírus e dizer que esta seja também um juízo de Deus. Não temos nenhuma voz que nos autorize tal declaração. Não possuímos nenhuma espécie de revelação que diga isso. Se o texto bíblico não nos disse que o Dilúvio foi mais que uma inundação de proporções inimagináveis, mas sim um juízo de Deus, e que Sodoma e Gomorra não desapareceram do mapa por meio naturais, mas sim pela ira do criador, não teríamos como afirmar que tais acontecimentos foram o que foram pela simples evidência histórica. A revelação não está no acontecimento em si, mas naquilo que Deus diz sobre ele. Assim, a pandemia atual não é outra coisa senão uma pandemia, nada mais nada menos. 

Contudo, temos que enxergar os acontecimentos dos últimos meses à luz da escatologia bíblica do primeiro século. De acordo com o Novo Testamento, o fim será concluído e não iniciado. O fim já foi inaugurado com o aparecimento de Jesus e os acontecimentos que se desdobraram em sua vida, morte, ressurreição, ascensão e derramar do Espírito. Qualquer acontecimento agora está dentro de um fim já inaugurado, mas ainda não concluído. Logo, não deveríamos nos espantar com algo fora do comum como se isso fosse um sinal maior do que os narrados na carreira de Jesus. O mundo deixou de ser o mesmo quando da morte e ressurreição de Jesus. 

Esse isolamento social nos fez perceber como tínhamos algo ao nosso redor que na maioria das vezes não demos a devida atenção, a comunhão com os irmãos no culto público. Diversos líderes ficavam se questionando sobre a melhor estratégia para agregar jovens e adolescentes na igreja. Quanto mais inusitada, melhor. Quantas pessoas não perguntavam se haveria alguma programação diferente na igreja ao longo do mês, para com isso, resolver se participariam ou não. Muitos deixaram de estar nos cultos ao saberem que só haveria pregação, hinos, oração e comunhão. Há, comunhão! Algo que tanto ansiamos nesses últimos dias. Muitos desejariam estar reunidos em suas igrejas somente para orar ao lado do irmão, ouvir um sermão não esperando nada mais que a exposição do texto bíblico. Com a vinda dessa crise nos encontramos tão necessitados que não há espaço para desejos muito sofisticados. 

E o que falar de nossos idosos? Esquecidos e relegados ao simples anonimato. Em uma geração que valoriza unicamente o novo, acordamos para o valor dos velhos. Estamos preocupados com eles por sabermos que são os alvos mais frágeis dessa nova pandemia. Infelizmente, foi necessário um vírus para nos fazer entender que os idosos juntamente com crianças, adolescentes, jovens e adultos constituem uma única geração importante de uma igreja. 

Deus pode usar esse coronavírus como meio para chamar as pessoas a uma prestação de contas? Claro que sim. Teria provocado essa pandemia por meio de causas secundarias? Penso que seja improvável, mas não impossível, pelos motivos já expostos acima. O que pode acontecer, isso sim eu creio, é que Deus pode mobilizar sua igreja para que esta seja para sua geração aquilo que Jesus foi para Israel, um veículo através do qual o Deus criador agiu em meio ao caos trazendo ordem, paz, esperança e justiça. De nada adiantará sabermos se o coronavírus é ou não juízo divino se a igreja continuar letárgica em ser sal e luz do mundo.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

ABORTO

INTRODUÇÃO 

O partido PSOL protocolou uma ação no Supremo Tribunal Federal pedindo a descriminalização do aborto até o terceiro mês de gestação. Segundo o próprio partido, aproximadamente 500 mil mulheres fizeram aborto no Brasil em 2015. 

Não podemos negar a complexidade do assunto. Envolve questões médicas, legais, teológicas, sociais e pessoais. Contudo, a sua complexidade não pode nos levar para a margem da discussão. Enquanto igreja temos o dever de ser luz do mundo. Levar a mensagem do evangelho mesmo em assuntos onde muitos querem que guardemos nossa opinião para nós mesmos. Como se nossa convicção cristã servisse somente para questões de foro íntimo. Precisamos lembrar sempre que nosso Deus é um Deus de questões públicas. Deus não está preocupado somente com minha vida de oração e leitura da Bíblia. Não podemos manter uma postura religiosa a favor da vida e nos esquecer disso ao votar em candidatos que são a favor do aborto. 

DESENVOLVIMENTO 

O grande médico da antiguidade, Hipócrates (sec. V a.C) fez o seguinte juramento: “Aplicar os tratamentos para ajudar os doentes conforme minha habilidade e minha capacidade, e jamais usá-los para causar dano ou malefício. Não dar veneno a ninguém, embora solicitado a assim fazer, nem aconselhar tal procedimento. Da mesma forma não aplicar substância abortiva em mulher alguma”. A Declaração de Genebra de 1948 atualizou o juramento com a seguinte cláusula: “Manterei o mais alto respeito pela vida humana, desde a sua concepção”. 

Depois das mazelas provocadas pelo nazismo na Alemanha, o Código de Nüremberg, um documento “que destacou que não se deve fazer mal aos seres humanos por meio da pesquisa e de qualquer procedimento médico.” (EULER R. WESTPHAL. 2009). 

O aborto envolve duas doutrinas de acordo com a Bíblia: Deus e a humanidade. Deus como o doador da vida e soberano sobre ela, e a dignidade da vida humana como imagem de Deus. Somente por meio de uma confissão de fé podemos afirmar a dignidade da vida humana. Nós não temos o poder de conferir dignidade à vida humana, simplesmente a reconhecemos como algo dado por Deus. 

Nos EUA desde 1973 quando a Corte Suprema legalizou o aborto, foram realizados 58 milhões de abortos. Menos de 1% era referente a estupro e incesto. A grande maioria era por mera conveniência. Foi descoberto nos EUA o que se chama de aborto pós-parto. Acontece quando o feto nasce por conta dos procedimentos iniciais, e logo em seguida é abortado. Isso é uma ofensa gritante ao Criador. 

Na Inglaterra e no País de Gales até a instituição da reforma da lei do aborto, o número de abortos praticados estava na casa de 6.100 até 1966. Em 68 já estava em 24 mil. Em 73, 167 mil. Em 83, mais de 184 mil. Em 2000, 185.376 abortos. Até 2002, mais de 5 milhões de abortos foram praticados. 98% foram realizados por razões sociais. Foi estimado que em 1968 em todo o mundo o número de abortos era algo em torno de 30 e 35 milhões. Hoje pratica-se 55 milhões de abortos em todo o mundo a cada ano. Isso dá mais de um aborto por segundo. (JOHN STOTT. 2014). 

Essa tolerância em se tratando do número de abortos praticado em todo o mundo, mostra o quanto estamos nos degradando socialmente. Esse foi o caso da Roma antiga. Era comum jogar os filhos indesejados em lixões ou abandoná-los ao relento. Não havia punição para isso. Em Esparta, filhos com alguma deficiência aparente eram simplesmente atirados dos penhascos. John Stott nos alerta para o problema dos eufemismos no caso de abortos. O feto não é um simples material genético, mas uma criança que ainda não nasceu. Aborto, não é a interrupção de uma gravidez, mas da vida de uma criança. Não é sem motivos que já foi dito que nosso mundo pós-moderno é também pós-humano (EULER R. WESTPHAL. 2006). 

O que pensamos sobre o feto vai determinar nossa posição em relação ao aborto. Se o feto é um objeto inanimado, um amontoado de células, ao menos até a décima segunda semana de gestação, como querem os que são pró-aborto, então não há nada demais em interromper seu desenvolvimento. No entanto, já na sexta ou sétima semana de vida, o feto possui função cerebral, e na oitava semana ele já tem todos os membros formados, dedos e digitais. (JOHN STOTT. 2014). Estão querendo tirar a dignidade do feto, torná-lo descartável. Isso para defender o direito das mulheres. O século 20 viu que o nazismo surgiu como a maior e mais eficiente máquina de matar, e isso com o ideal de promover um bem maior (EULER R. WESTPHAL. 2009). 

Mas se entendemos que desde a concepção o feto é dotado de vida humana, mesmo que em desenvolvimento, então a sua interrupção é uma afronta ao Deus que é o criador da vida. Apontar a deficiência do feto como prerrogativa para o aborto não o torna menos ofensivo a Deus. Uma criança com deficiência não é menos criação de Deus que outra que não possui nenhuma deficiência (Ex. 4.11). Por que interromper uma vida que já nasceu com deficiência é errado, mas interromper uma vida com deficiência que ainda não nasceu seria correto? Estamos falando de vida humana. Se o feto equivale a uma criança, o aborto equivale a infanticídio. Timothy Keller diz que na abolição da escravidão não foi dado o direito de escolha se as pessoas queriam ou não ter escravos. A escravidão foi vista como incompatível diante da dignidade do ser humano. O mesmo deveria acontecer com o aborto. 

Em O Senhor dos Anéis, o mago Gandalf disse: “Muitos que vivem merecem a morte. E alguns que morrem merece viver. Você pode dar-lhes a vida? Então não seja tão ávido para julgar e condenar alguém a morte. Pois mesmos os muitos sábios não conseguem ver os dois lados”. Sobre isso, existe a seguinte história de um médico que pergunta ao outro: “Eu gostaria de saber a sua opinião em relação à interrupção de uma gravidez na seguinte situação: o pai tem sífilis e a mãe, tuberculose. Dos quatro filhos deles, o primeiro era cego, o segundo morreu, o terceiro era surdo e mudo e o quarto também tinha tuberculose. O que você teria feito com essa gravidez?”. “Eu a teria interrompido” – respondeu o outro. “Então você teria matado Beethoven”. 

VISÃO BÍBLICA DO FETO 

O salmo 139 serve como uma boa reflexão da dignidade humana do feto. O texto faz uso de linguagem metafórica, do oleiro e tecelão (Jó 10.8). Exalta o trabalho de habilidade criativa de Deus. O salmista já adulto olha para todos os estágios de sua vida e se entende como sendo a mesma pessoa. Note que ele sempre faz uso dos pronomes eu, me. Ele possui a mesma identidade pessoal, seja no estagio pré-natal ou pós-natal. Ele chega a dizer que antes mesmo de ter algum relacionamento consciente com Deus, Deus já tinha com ele. O que nos torna uma pessoa neste caso é o fato que Deus nos conhece (Jó. 31.15; Sl. 22.9,10; 71.6; 119.73), (STOTT. 2014). O mesmo pode ser dito de Jesus. Ele foi o mesmo na concepção, no nascimento, na morte e em sua ressurreição (Mt. 1.21). Nota-se pelo texto que o Jesus que salvará seu povo quando estiver adulto é o mesmo que se encontra no ventre de Maria. 

REFERÊNCIAS 

WESTPHAL, EULER R. Para Entender Bioética. São Leopoldo/RS. Sinodal. 2006. 

____________________ Ciência e Bioética. São Leopoldo/RS. Sinodal. 2009. 

STOTT, JOHN. Os Cristãos e os Desafios Contemporâneos. Viçosa/MG. 2014.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

O CRISTÃO E O MEIO AMBIENTE

Nesta última segunda (05/06) comemorou-se o dia mundial do meio ambiente. Uma data tão despercebida quanto nossa atenção dada ao cuidado com a natureza. Muitas igrejas adotam em seus calendários litúrgicos datas comemorativas para serem celebradas no espaço do culto: dia da mulher, dia das mães, dia dos pais são alguns exemplos. Mas qual de nossas igrejas alguma vez realizou o culto com sua temática voltada para o meio-ambiente? Qual foi a última vez que ouvimos um sermão onde fomos exortados sobre nossa responsabilidade com a natureza? Que ministério, dentre os vários que uma igreja possui, é voltado para o cuidado com o meio ambiente? A resposta para esses questionamentos revelará a falha do nosso atual cristianismo. 

Faz alguns dias o presidente Donald Trump anunciou a retirada dos Estados Unidos do acordo de Paris – tratado assinado por mais de 130 países que visa a diminuição de emissão de poluentes das fábricas, bem como outras medidas limitadoras para o aumento da temperatura da terra. Ele mesmo se denomina um cristão conservador. Isso deve explicar sua visão equivocada com o meio ambiente. Ele preserva o equívoco conservador que olha a natureza como algo que só deve ser explorada. A verdade que nos envergonha (ao menos deveria) é que não nos importamos com a natureza. 

Por que perdemos o olhar tão fascinante e ambiental da mensagem bíblica? Boa parte da crise ambiental que temos hoje se deve ao cristianismo. Não o cristianismo das páginas da Bíblia, mas ao cristianismo que se esqueceu de olhar com atenção para o texto bíblico. O mundo atual é um mundo pós-cristão, mas a mentalidade sobre a natureza ainda é uma mentalidade cristã equivocada: a natureza existe para ser dominada e esse domínio se dá pela força destrutiva.

Nosso cuidado com a natureza se dará na proporção que prestarmos mais atenção ao texto bíblico. Precisamos mudar o nosso ainda não admitido referencial gnóstico, que desmerece a boa criação material de Deus, por um referencial bíblico judaico-cristão, que reafirma a bondade da criação apesar de sua atual deterioração, bem como o empenho incansável do Criador em consertar a natureza. Mas como se dará isso? Entender que somos salvos como parte de um projeto maior, a salvação de todo o mundo criado em sua total biodiversidade. Esse novo referencial deve estar presente em nossos cânticos, que infelizmente desprestigiam a beleza da ordem material criada em busca de um escape desse mundo e não na busca de sua redenção. 

Dito isso, será que Jesus entendia que sua missão tinha relação com o destino da terra? Ao nascer, Jesus foi colocado num cocho de alimentar animais. Um grande perigo para uma criança. Esse incidente não descreve somente sua humildade, mas sua missão. O Salvador inaugura, ou serve de sinal, de um novo mundo que surgirá, marcado pela harmonia entre homens e animais. Isso foi um maravilhoso sinal para os pastores. Eles viviam a céu aberto, numa rotina cansativa e perigosa, proteger as ovelhas dos lobos (Lc. 2.8). Os pastores houviram o cântico dos anjos que foi muito carregado de significado para eles (Lc. 2.13,14). Como seria, à luz do olhar de um pastor de ovelhas da época, um mundo de paz? Seria um mundo onde não se precisa arriscar a vida para viver. Um lugar de perfeita convivência entre homens e animais. O fascinante disso tudo é que Isaias já antecipou essa verdade em Is. 11.6-9. Um mundo não marcado pela disputa de território, mas pelo compartilhamento conjunto.

O texto de Mt. 9.1-8 nos leva nessa mesma direção. Por que Jesus diz, nesse texto, que tem na terra poder para perdoar pecados? Somente indo para Gênesis 3.17 onde encontramos uma relação entre o pecado humano e desordem natural. A resposta é que Jesus liberta a terra da maldição perdoando os homens dos seus pecados. Os danos que o pecado de Adão trouxe para a terra começam a ser desfeitos quando Jesus perdoa nossos pecados. Não é sem motivos que Paulo chamou Jesus de o segundo Adão (1Co. 15.45). O primeiro Adão aprisionou a terra ao pecado, o segundo, Jesus, a liberta no precesso de redenção da humanidade pecadora (At. 3.21; Rm. 8.18-21; Ef. 1.9,10; Cl. 1.15-19).

Não podemos entoar louvores ao Deus criador ao mesmo tempo que destruimos parte de sua boa criação. Se somos a imagem e semelhança de Deus, nossa vocação é sermos para a natureza o reflexo do cuidado desse Deus criador.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

EVANGELHO MODINHA

Nesta última terça-feira (09/05), o programa Conversa Com Bial, contou com a participação de três jovens evangélicos que são sucesso nas redes sociais. A conversa se deu em tom muito agradável e Bial em nenhum momento se mostrou agressivo. Entre muitos risos, os convidados buscavam explicar termos oriundos do ambiente pentecostal e neo-pentecostal, tais como: manto; varoa, cheio de azeite entre outros. A seriedade da conversa só foi possível com a participação de um professor ateu (a parte mais produtiva do programa). Foi isso que me chamou a atenção.

Os três convidados evangélicos eram bons para a conversa cômica, porém, inapropriados para explicar o que realmente é o protestantismo. Isso foi tarefa do professor ateu. Foi de seus lábios que ouvimos o grande lema da reforma protestante do séc. XVI, a justificação por meio da fé (mais irônico impossível). Bial soube conduzir seus convidados evangélicos na estrada do discurso irrelevante. A única pergunta escorregadia feita por Bial foi sobre o homossexualismo. Sobre isso não foi nenhuma surpresa a resposta politicamente correta, que poderia ser sintetizada da seguinte forma: na minha igreja eles são aceitos, mas cabe ao Espírito Santo dizer se é errado ou não. 

Mas é claro que são aceitos! Assim como o jovem que faz sexo com sua namorada; ou mesmo aquele que não manteve sua fidelidade conjugal; o mentiroso, o corrupto. Todos são aceitos. Mas são aceitos nos termos do evangelho, para uma mudança radical de vida.

Bial não queria saber o que é pecado, salvação, fé, justificação, Deus, Jesus ou o Espírito Santo. E se o quisesse, não sei se seus convidados estariam aptos para lhe responder. Afinal de contas, tudo girou em torno da subjetividade: eu penso, eu acho, para mim. Em nenhum momento foi citado a fé de Jesus. Nada de novo nisso, pois há muito tempo nos esquecemos o papel de uma testemunha: relatar os fatos do que Deus fez em Jesus e através de Jesus e não sua opinião sobre esses eventos. 

Para que ninguém tire conclusões equivocadas sobre esse post, reafirmo minha admiração por Bial, por sua capacidade em articular as palavras. Também vejo alguns vídeos do pastor Jacinto Manto. Me agrada o fato da graça com os estereótipos evangélicos, mas que em nenhum momento desrespeita o Sagrado. 

Enfim, perto de comemorar 500 anos da reforma protestante, os evangélicos são admirados por serem engraçados, mas preteridos nos assuntos urgentes que assolam nosso séc. XXI. Mas parece que não percebemos isso. Queremos ser bem sucedidos em áreas onde o cristianismo primitivo ou Jesus jamais fizeram sucesso.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

UM TESTEMUNHO DE QUEM FOI JESUS

Se pudéssemos voltar ao primeiro século e perguntássemos a algum judeu-cristão quem foi Jesus, ele poderia nos responder mais ou menos isso:
Bem, sobre essa pergunta, eu posso lhe dizer que ele foi um homem notável. É claro que seu nome era bastante comum, mas somente ele foi o único que encarnou o seu verdadeiro significado, O SENHOR SALVA. Sua família era pobre. Seu pai, inclusive, era um carpinteiro, profissão esta que ele mesmo herdou. Muito cedo Jesus assumiu a responsabilidade pelo cuidado de sua mãe Maria e de seus demais irmãos. Parece que José morreu ainda quando Jesus era muito jovem.
O que espantou as pessoas em nossa época é que Jesus não teve nenhum treinamento profissional – se teve, não sabemos – que o tornasse aquele grande mestre e pregador que foi. Sua sabedoria e rapidez de raciocínio eram de admirar. Digo isso porque ele veio da cidade de Nazaré, lá da Galileia. Que coisa hein!
Ele realizou feitos que existiam somente em nossa memória, algo que poderíamos comparar às narrativas do Êxodo, em suas vívidas descrições do poder de Deus. Tinha-se a certeza que algo de surpreendente estava acontecendo através dele. Algumas pessoas, não podendo negar seus milagres, tentaram desmerecer seus feitos. Essa tática não deu certo. Isso me chamou a atenção. Se Deus estava realizando todos aqueles milagres por intermédio de Jesus, Deus estava validando seus ensinamentos assim como outras realizações. Em outras palavras, Deus estava com ele e por meio dele conosco – lembra o EMANUEL, DEUS CONOSCO? É isso que quero dizer.
Sim, já ia me esquecendo. Ele gostava muito de contar histórias. Quanta imaginação! Penso que ele seria um ótimo escritor. Atraia a atenção de crianças e adultos, de aliados à inimigos. Ele narrava essas histórias com tanta convicção, que pude perceber algo: ele possuía a consciência de uma vocação especial. Ele sabia que deveria fazer algo que somente Deus poderia fazer, concertar nosso mundo. Peço desculpas, mas isso me emociona. Sempre que recordo esses eventos me vem lágrimas aos olhos. Deixe me recompor. Onde estávamos? Lembrei!
Alguns dias antes do trágico evento, ele se dirigiu para Jerusalém e contou uma história sobre um proprietário de terra que depois de ter partido havia retornado para encontrar com seus empregados. Sabíamos que o proprietário na história era o Deus de Israel. Ele nos deixou durante o exílio, mas tínhamos a promessa de seu retorno. Não sabíamos quando seria, muito menos como isso ocorreria. Mas era certo que quando isso acontecesse Deus retornaria para a cidade de Jerusalém e se faria presente no templo.
O Espírito criativo de Deus nos pegou de surpresa mais uma vez. Como seria a cena do retorno de Deus? Consegue imaginar? Então preste atenção! Quando Jesus entrou na cidade de Jerusalém montado num jumento e logo em seguida se dirigiu ao templo, pude entender: Deus havia retornado ao seu povo na pessoa desse jovem profeta de Nazaré. Quando compreendi isso, fiquei sem palavras. Brotou dentro de mim um estado de alegria tão grande, que na ausência de palavras, o som que se ouvia era de minhas mãos batendo palmas. Foi um grande ato de um fascinante enredo. Mas isso não é tudo.
Quando recebemos a notícia de sua condenação à cruz, foi como se derramassem um balde de água gelada em nossas cabeças. Um tremendo susto!
Pelo alto grau de maturidade de Jesus, é claro que ele sabia que sua situação em Jerusalém não seria das melhores. Mas inda assim ele foi para lá na época da Páscoa. Não evitou ser preso, nem tentou fugir depois de pego. Agora entendo que sua morte não foi um equívoco, uma tragédia.
Na cruz, Deus, por meio de Jesus, lidou com o mal, puniu o pecado, derrotando-o completamente. Carregou o peso de toda a maldade em seus próprios ombros. Ele conduziu ao seu momento decisivo na cruz, o longo plano do Deus criador de resgatar o mundo do mal e endireitar todas as coisas. A cruz foi o centro do mundo naquela sexta-feira. O lugar onde a dor, vergonha e culpa do mundo se concentraram numa única pessoa.
Se Deus havia retornado para seu povo, por que ele morreria? Ele não deveria trazer justiça e salvação? Como entender sua morte? Isso só foi possível depois de três dias. Veja bem: não bastava a personalidade de Jesus impressionar tanto as pessoas? Não foi suficiente Deus nos surpreender com seu retorno em Jesus? Ter nos dado o susto de sua morte na cruz? O que mais poderíamos esperar? Isso que vou lhe falar, com certeza não esperava: ele, depois de três dias de morto... RESSUSCITOU.
E o que poderia falar disso? Alguns dizem que foi algo inventado. Impossível! Ninguém nunca pensou que o Messias haveria de morrer, quanto mais de ressuscitar. Você acha que se tivéssemos inventado isso colocaríamos as mulheres como as primeiras testemunhas desse evento, sabendo que o testemunho feminino não tinha validade em nossa época? Claro que não. Eu sei, você pode estar pensando: “ressurreição é algo que não acontece atualmente”. Concordo. Em nossa época também. As evidências de que pessoas mortas continuam mortas são sempre as mesmas, não importa o tempo. Não precisamos da ciência para nos ensinar isso. Mas acredite, ele ressuscitou. Não para morrer de novo, como Lázaro, lembra? Ele ressuscitou para uma nova espécie de vida corporal. Ele é o Senhor do mundo. Aleluia!     

O MAL DAS TRAGÉDIAS

Isso é algo que me preocupa, sempre que ouço ou leio declarações de cristãos que buscam explicar uma razão para as tragédias. Desde “Deus sabe o que faz” ao “não entendemos os planos de Deus”, percebo que tais asserções fazem parte da própria realidade do mal, revelando assim, sua absoluta maldade. Digo isso porque o mal das tragédias não está restrito somente à dor do evento ocorrido, mas se estende às próprias explicações do acontecimento trágico.

No imaginário evangélico popular, e até mesmo secular, acredita-se que tudo nesse mundo tem alguma explicação, uma razão de ser, um propósito. Para alguns, a origem explicativa de tais tragédias seria o destino cego, para outros, o Deus revelado na Bíblia. Será? Para os que me conhecem já é de se esperar que a resposta será negativa.

Não penso que a história encontra-se sem direção, ou que não tenha sentido. Não vejo, todavia, como sustentar uma visão de mundo fatalista, onde o que acontece deve necessariamente acontecer. Algumas coisas não deveriam acontecer, e ocorrem mesmo contra a vontade de Deus. Deus dirige a história apesar dos eventos contrários. Deus governa todas as coisas, mas nem por isso dirige, conduz cada ação que ocorre no tempo. Ele conhece tudo o que acontecerá, mas isso não quer dizer que determinou tudo o que acontece.

É bem verdade que nenhum dos propósitos de Deus podem ser frustrados (Jó 42.1). Isso é verdade. Não podemos, agora, absolutizar e afirmar que tudo no mundo acontece com algum propósito divino. Algumas coisas não possuem nenhum sentido ou propósito. Posso afirmar que tudo o que acontece no mundo e tenha relação direta com o caráter de Deus revelado em Jesus, possui um propósito. Mas se algo que acontece, destoa, mesmo que aparentemente do caráter de Deus, é necessária uma revelação objetiva (não o uso de algum texto bíblico) que afirme que o evento em questão coadune com a vontade de Deus, e isso não temos.

Diante da tragédia somos chamados a levar a presença de Deus no lugar onde o mundo sofre, e não fornecer explicações para o ocorrido. O Deus que não explica a tragédia é o mesmo que consola. Diante da dor o lamento é que deve ser ouvido e não alguma explicação para o possível sentido do evento trágico. O mal em si mesmo não faz sentido. “Como pés desfigurados, deformados demais para entrar em sapatos, esses acontecimentos opõem resistência a qualquer sentido positivo. Qualquer sentido positivo que possamos lhes emprestar parece privá-los de sua profunda hediondez”. Miroslav Volf.

Pelas razões expostas acima, em situações trágicas, como a morte de um bebê ou criança, por exemplo, ao invés de falarmos que Deus o levou, deveríamos afirmar que Deus o acolheu em seus braços.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

BATISTA AO TELEFONE


Ao assistir televisão no primeiro domingo de 2016, e último de minhas férias, me deparei com o canal que transmitia a programação da igreja plenitude do trono de Deus (ou seria deus?). O programa era ao vivo, e estava sendo apresentado pelo apóstolo (o nome não importa, é mais um apóstolo). Ele atende ao telefone, e para minha surpresa, a pessoa do outro lado da linha era uma crente batista. Como? Isso mesmo, batista.

Ela desejava participar do evento que ocorrerá em fevereiro aqui no Brasil com Benny Hinn. É isso mesmo, Benny Hinn. Logo pensei: “2016 não começou bem para o Brasil”. Imediatamente o apóstolo ficou surpreso. Seus olhos até lacrimejaram, pois para ele, era uma batista que acreditava na “unção do Espírito”. Trechos das performances de Benny Hinn, semelhantes ao hadouken do game Street Fighter foram mostradas, onde ao canalizar as forças do Espírito (ou espírito?) com um leve movimento das mãos, fez as pessoas caírem, trêmulas, ao chão.

Desejo, nesse post, como batista, expor aquilo que acredito sobre o Espírito Santo, diferenciando radicalmente daquilo que tanto o apóstolo em particular, quanto os neopentecostais em geral, julgam ser a minha crença.

A crença no Espírito Santo não se deve aos neopentecostais. O credo apostólico, séculos III e IV, por exemplo diz: “Creio no Espírito Santo...”. O credo de Nicéia, ano 325, temos: “Cremos em um só Deus [...] E no Espírito Santo, Senhor e Vivificador, que procede do pai e do Filho...” Por isso concordo com a afirmação de N. T. Wright que disse: “Sem o Espírito de Deus, a igreja deixa de ser igreja”. 

Nunca é demais afirmar que sendo batista creio no batismo com ou no Espírito Santo. É claro que não defendo a ideia desse batismo como algo que ocorra após a conversão. Entendo, sim, que ele acontece no ato da conversão, momento em que o Espírito faz morada na vida do convertido (1Co. 12.13; 2Co. 1.21,22; G. 3.1-3; Ef. 1.13,14).  

O texto de Atos 2 (tão usado por pentecostais e neopentecostais), tem a finalidade de descrever o cumprimento da Torá (Lei) e a renovação da aliança por meio da descida do Espírito na vida dos discípulos, e não a comprovação da ideia de uma segunda benção na vida dos cristãos atuais. Até hoje, o Pentecostes é celebrado pelos judeus como o momento da entrega da lei. Depois da celebração da Páscoa, os israelitas saíram livres do Egito, caminharam pelo deserto, e após cinquenta dias chegaram ao Monte Sinai, lugar da entrega da lei.

Tendo isso em mente, Atos 2 pode emergir como um fascinante texto acima da superfície de leituras equivocadas. Ao ressuscitar no domingo de Páscoa, Jesus tinha realizado um novo êxodo, o maior de todos os êxodos. Deu fim à escravidão, trouxe liberdade e abriu as portas de um novo mundo. Ficou com os discípulos durante quarenta dias, tendo ido em seguida para a dimensão de Deus, o céu. Dez dias depois, no Pentecostes, o Espírito Santo desce sobre os discípulos, assim como Moisés desceu do monte para entregar a lei. Nesse Pentecostes Deus renova sua aliança, gravando-a não em pedras, mas no coração de seus seguidores, o cumprimento de Jr. 31.31ss; Ez. 36.24-27. Com esse novo modelo de vida, marcado pela dinâmica do Espírito, eles seriam verdadeiramente o povo redefinido de Deus. Deus agiu decisivamente – Lucas teria dito – não no fim, mas no meio da história com esses eventos.

Creio que somos a morada do Espírito Santo, as pessoas onde o céu pode se encontrar com a terra (1Co. 3.16; 6.19; cf. Rm. 8.9-11). De maneira especial, somos guiados por essa presença misteriosa Rm. 8.13-17. Não se surpreenda com mais um paralelo com a história do Êxodo. O Espírito nos conduz da mesma forma que a Nuvem conduziu os israelitas pela peregrinação no deserto em direção à terra prometida. Por meio de Jesus e do Espírito, Deus pôs fim ao exílio iniciado quando Adão e Eva foram expulsos do paraíso, realidade que todos se encontravam. Paulo mesmo disse: “Todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus” (Rm. 3.23).

O Espírito, desta forma, é a garantia de nossa herança (Ef. 1.14). Na estrutura narrativa de toda sua reflexão, Paulo relembra mais uma vez, somente nesse versículo, a história do êxodo, paradigma do agir salvífico de Deus ao longo da história bíblica. A herança prometida a família de Abraão foi um pequeno pedaço de terra, lugar onde Deus habitaria com seu povo. Somos, diria Paulo, o povo multiétnico liderado pelo Espírito em um grande êxodo. Aquilo que aconteceu na morte e ressurreição de Jesus no período da Páscoa, o novo êxodo, continua de maneira surpreendente na vida daqueles que são morada do Espírito, em direção a herança prometida, a renovação e libertação de todo o mundo criado. Leia Rm. 8.12-25 e note como o Espírito nos conduz em direção à libertação de toda a ordem criada.

Por fim, o que tenho a dizer é que o Espírito de Deus torna possível vivermos no mundo presente à luz do novo mundo que ao surgir no domingo de Páscoa com a ressurreição de Jesus, tornou-se visível com o derramamento do Espírito no dia de Pentecostes.

Infelizmente a crente batista ao telefone descrita anteriormente, é um exemplo de uma triste constatação de muitas igrejas de minha denominação. Por desconhecer (tanto por desinteresse quanto por ineficiência do que é anunciado dos púlpitos), muitos descobrem doutrinas equivocadas em detrimento do real ensino da Bíblia. 

 Fim da chamada.

sábado, 2 de janeiro de 2016

ANO NOVO, VELHAS SUPERSTIÇÕES

Todos nós sabemos o quão supersticioso é o nosso Brasil. Herdamos tradições sobre o que não comer em determinado horário, assim como do perigo em juntar determinados alimentos numa combinação fatal. Com o início de um novo ano, essas superstições afloram numa espécie de erupção vulcânica de crendices, lançando cinzas ofuscantes em qualquer mente equilibrada.

Pular ondas, vestir branco, amarelo, vermelho (ainda não entendo porque não usar logo uma combinação de todas essas cores no réveillon), comer lentilhas, guardar uma nota de dinheiro dentro do sapato, pular só com o pé direito (para minha surpresa a razão disso está na Bíblia, pois o que está à direita é sempre bom). Os exemplos poderiam ser multiplicados em 472.000 resultados, que foi o número de páginas encontradas pelo Google.

Nos telejornais, muitas são as matérias que exaltam esse aspecto do povo brasileiro. Os repórteres demonstram ser bem-humorados e afetuosos quando cobrem essas matérias. Até mesmo pessoas são entrevistas como exemplos de comprovação da eficácia (algumas vezes é claro) de todo esse emaranhado de crenças.

O último dia do ano serve para mostrar que a imprensa sabe lidar muito bem com todo tipo de expressão religiosa, exceto com àquela que encontramos nas páginas da Bíblia, a tradição judaico-cristã. Não há problema em expor todas essas superstições, pois elas são o que são, superstições, em outras palavras, produto da mente humana (ou do não uso dessa mente). Se elas forem verdadeiras, não se espera com isso nenhuma mudança no mundo. Elas dependem da fé de alguns, e os demais que descreem em nada serão confrontados.

É aqui que reside todo tipo de resistência com a mensagem cristã. Não me refiro ao que se ouve atualmente pela televisão, mas ao que pode ser lido diretamente na Bíblia. O que nós encontramos? Você não terá, para tristeza de alguns, um novo tipo de superstição para um novo ano, mas sim uma grande história para toda uma vida.

Nos evangelhos vemos Deus, por meio de Jesus reivindicar o mundo como sendo inteiramente seu por direito. Jesus é a resposta de como seria se Deus governasse esse mundo. Como seria seu governo sábio e soberano? Seria um mundo de cura, justiça, relacionamentos verdadeiros, auxílio aos menos favorecidos.

Os evangelhos descrevem a história de como Deus, por meio de Jesus de Nazaré se tornou rei. Nos convocam a participar dessa história. O Reino de Deus, de acordo com essa narrativa, é o confronto com tiranias desumanizadoras, e não a vinda de um tirano (a vinda do Senhor é aclamada em Is. 40.1-5). Existem tiranias que nos desumanizam na área econômica, moral e espiritual: gasta-se uma fortuna em um único jantar, que é mais do que muitos ganham em todo um mês de trabalho. Pagar por algumas refeições chega a ser imoral diante de tanta miséria no mundo. As ideologias homo afetivas, de gênero e afins, nos levam para uma espécie de humanidade deteriorada que não reflete a imagem de Deus no mundo. O tipo de espiritualidade mercantilista que tornou a igreja em escândalo e não testemunho no mundo, nos assombram dia após dia. O Reino de Deus confronta todas essas tiranias (1Co. 6.9-11; 1Tm. 6.6-10).

Não confunda isso como se o reino de Deus fosse algo dentro de nós. Um reino que se faz presente no coração do homem, é algo inofensivo. Um Jesus que reina somente no coração do homem é um Jesus inofensivo. Se esta fosse a linguagem dos primeiros cristãos, o cristianismo não teria criado nenhum problema com o império romano (At. 17.5). Os imperadores não teriam visto nenhum problema com um Jesus que morre e ressuscita para morar no coração dos seus seguidores (embora ele se faça presente em nossos corações). Não. Jesus morreu e ressuscitou na história. Existiu verdadeiramente um túmulo vazio. Ele não se encontra vivo em nossos corações, mas morto no túmulo. Ele morreu para derrotar o mal e ressuscitou para reivindicar o mundo como sendo seu, chamando todos a uma prestação de contas, tanto governantes quanto governados. Ao ascender ao céu, o mundo não visto, tão real e natural como o nosso mundo visível, Jesus governa toda a sua criação. Ele é o verdadeiro Senhor do mundo. Estabeleceu seu governo global, o reino de Deus. Inaugurou o pedido do “venha o teu reino”, e completará seu programa já iniciado, mas ainda não concluído, em seu aparecimento glorioso.

As pessoas não conseguem lidar com o Jesus que morreu e ressuscitou para um novo tipo de vida corporal. Se essa mensagem for verdade, e ela é, todas as superstições, crendices e ideologias estão em sérios apuros, pois todos, um dia, serão chamados a uma prestação de contas.

Não é o ano novo de 2016 que deve ser saudado, mas sim Jesus, o Messias, rei em todo esse mundo que deve ser aclamado em 2016. Rapidamente 2016 será velho, assim como suas superstições. Jesus, por sua vez, é o mesmo ontem, hoje e sempre.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

INCOERÊNCIA

Não é preciso observar muito, para vermos o quão incoerente o cristianismo brasileiro tem se tornado. Julgamos ser o grupo que possui a verdade da revelação divina, mas infelizmente temos sacrificado a verdade no altar de um comportamento mentiroso. Somos tão diversos que é quase impossível vermos alguma unidade. Nos polarizamos entre um intelectualismo frio da fé e um emocionalismo anti-intelectual revestido por uma fina camada de algo chamado “mover no Espírito”.

Criticamos, enfaticamente, qualquer natureza de idolatria na vida de uma pessoa, desde que isso esteja relacionado com uma imagem de escultura. Tiramos da igreja, ao longo do tempo, qualquer objeto que pudesse levar alguém a um comportamento semelhante. No entanto, “jogamos a criança fora junto com a água suja da bacia”. Não somos reverentes no ambiente de culto, pois jogamos fora junto com as imagens a atitude de reverência e contemplação que elas evocam – deixem-me antecipar, neste ponto, qualquer grito dos meus possíveis inquisidores. Não quero que imagens sejam inseridas nas igrejas protestantes, mas não penso que a ausência completa de qualquer símbolo ou mesmo elementos estéticos em nossos templos, tenha sido benéfico para nós.

Como pessoas que desejam uma vida saudável, mas que não fazem exercícios ou mesmo uma dieta equilibrada para alcança-la, nós não queremos imagens de escultura, mas inserimos ídolos na igreja, um equivalente evangélico como substituto. N. T. Wright, em uma de suas observações, nos diz o seguinte: “Você pode mandar Deus ou deuses para longe, como um parente idoso desagradável. Todavia, a história mostra várias vezes que outros deuses se infiltram silenciosamente para ocupar o lugar deles”. Foi isso exatamente o que aconteceu.

Em algumas igrejas encontramos tantos símbolos do judaísmo, tais como candelabro, estrela de Davi, arca da aliança, que ainda me pergunto como elas podem ser vistas como cristãs. O que mais me fascina é que não temos a cruz, símbolo tanto da vitória de Deus sobre todo o mal como do seu amor e justiça. A cruz, segundo eles, seria símbolo católico. Se isso fosse verdade (o que não é), desde quando candelabro, estrela de Davi ou arca da aliança são símbolos cristãos?

Não temos, é bem verdade, um altar para imagens, isso porque as nossas não são imóveis, mas dinâmicas, não são ídolos em forma humana, mas humanos que se tornaram ídolos. Eles são artistas musicais ou líderes eclesiásticos. Os primeiros, cantam usando o nome de Jesus, mas recebem a adoração para si mesmos. Por serem exaltados por seus súditos, compõem músicas que exaltam o homem em detrimento da glória de Deus. O segundo grupo, ou panteão de ídolos, criam comunidades que reflitam suas próprias imagens. Esses grupos não possuem a fidelidade irrestrita a Jesus, mas sim aos seus líderes. Alguns deles, por exemplo, tem suas fotos estampadas na entrada de seus templos, mas é claro, ainda assim, condenam imagens de escultura. Eles são unidos pela desunião. Abrem igrejas não pelo crescimento de novos convertidos, mas pela divisão de comunidades já estabelecidas. E num claro indício de incoerência, depois de dividirem a igreja, buscam unir os cristãos em eventos em praça pública.

Não sei qual tipo de ídolo é mais ameaçador para a igreja, se o inanimado, que não fala, não ouve, nem vê, ou o que vê, fala, canta, prega e lidera algumas comunidades religiosas. Mas uma coisa está bem clara: os ídolos de gesso, foram facilmente removidos da igreja, já os de carne e sangue, há muito tempo removeram o próprio Deus de suas comunidades.

Incoerência, incoerência, diz o nosso post, há muita incoerência.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

O CÉU NÃO É MEU LAR


Faz algum tempo fui convidado para pregar num culto de jovens onde o tema era: O mundo é dos espertos, mas o céu dos escolhidos. Por discordar do slogan acabei pregando outro assunto, pois mesmo que concordasse, não sei como poderia encontrar um texto consistente com tal ideia à luz da narrativa bíblica que descreve claramente o envolvimento de Deus com sua criação. Sem falar, como bem já afirmou o teólogo Timóteo Carriker, “a Bíblia tanto começa quanto termina com criação”. Uma verdade tão evidente e ao mesmo tempo completamente negligenciada.

No artigo Um Cristão Afirma: Não quero ser salvo, escrito anteriormente, abordamos o conceito de salvação como algo que ocorre na criação com o intuito de redimir, recriar todo o universo. Aqui, teremos por objetivo enquadrar o conceito de céu dentro dessa estrutura maior, que é a narrativa da história de Deus com sua criação.

A fé cristã tem suas raízes na tradição judaica. Queremos dizer com isso, que eles acreditavam que o Deus Criador possuía uma história de atuação no mundo, e particularmente em Israel, atuação esta que tinha por objetivo levar a sua criação a atingir o objetivo para o qual foi criada, encher-se da bondade, beleza e justiça do SENHOR. O Novo Testamento encontra-se aliado com o Antigo neste quesito.

Sim, tudo bem. Mas onde entra o céu nessa história? Como resposta inicial, pode-se dizer que o céu faz parte de um capítulo na grande história épica do Deus Criador, um capítulo importante, mas não final. O imaginário evangélico popular tornou o céu no grande clímax da narrativa bíblica, não entendendo, desta forma, que ele é somente um intervalo para um final muito mais grandioso, o novo céu e nova terra, o novo começa de uma mesma história da criação.

Este entendimento equivocado do céu, se deve, também, a negligência da exposição nos púlpitos das igrejas do conteúdo maior da revelação bíblica. Me refiro, neste caso, à doutrina do Estado Intermediário. Isto, porém, não é a causa do problema, antes, é um diagnóstico de um quadro clínico mais grave, o sentimento anti-intelectual nas igrejas. Para muitos, quanto mais espiritual menos teológico ou racional deve ser o sermão, ou mesmo o entendimento da Bíblia, e por consequência do futuro que nos aguarda.

A doutrina do Estado Intermediário (o antídoto para essa confusão), no que diz respeito aos salvos, afirma que estes se encontram já em um lugar de descanso, em estado desincorporado, desfrutando das bênçãos da presença de Deus. Este lugar é céu, paraíso ou seio de Abraão na linguagem bíblica. Mas como a própria doutrina diz, é um estado intermediário, não completo ou final. O céu, neste aspecto, é um lugar de segurança. Uma habitação temporária até o dia da ressurreição do corpo. Não é o destino prometido por Deus, mas o lugar até que o destino prometido seja completamente cumprido.

Se a ressurreição é algo aguardado para o último dia, não aquilo que acontece imediatamente após a morte, o que ocorre com aquele que morre em Cristo antes desse evento? A resposta da Bíblia é que imediatamente após a morte ele habitará o céu. É como se Deus dissesse que a esperança em suas promessas não acaba com a morte, pois aquele que morreu continuará confiando que um dia tudo haverá de ser plenamente cumprido, aguardando isso, agora, no céu. Foi isso o que Jesus declarou para o ladrão em Lc. 23.43. Entrar no reino, na esperança judaica, era algo que se concretizaria no futuro, quando o Messias estabeleceria definitivamente o Reino de Deus na terra. Jesus promete, para surpresa do ladrão na cruz uma antecipação desse encontro no paraíso, mas não anula a esperança da entrada no Reino.

Uma existência eterna no céu para o crente que morre, como pensam muitos cristãos, torna-se uma confirmação da doutrina grega da imortalidade da alma. Não há vitória sobre a morte nesse entendimento, pois encontrar-se eternamente morto é a vitória. Essa existência no céu para o crente que morre, embora seja confirmada por Paulo (veja 2Co. 5.8; Fp. 1.23), é vista por ele como um momento de espera para a ressurreição, tanto do corpo quanto da criação (1Co. 15.52; 1Ts. 4.16; Rm. 8.18-25). Logo, viver para sempre no céu é o mesmo que encontrar-se para sempre morto.

Essa análise não anula a realidade do céu, nem mesmo que não iremos nos encontrar lá – basta morrer em Cristo antes do seu retorno – mas não confere ao céu o nosso destino final. O imaginário de que Jesus virá nos levar ao céu, como muitos pensam que será o arrebatamento (falaremos disso em outra postagem) não faz jus ao ensino bíblico. Mas o que falar de Jo. 14.2,3? O texto não nos diz que Jesus levará o salvo para morar no céu? Sim e não.

Sim, se entendermos que Jesus garantiu uma habitação para o salvo no céu. Não, se queremos com isso afirmar que ele prometeu uma morada eterna no mundo celestial. Note que no texto nos é prometido que estaremos onde Cristo estiver, e não que estaremos sempre no céu. Agora ele se encontra no céu, a dimensão de Deus. Mas, em breve, tanto visível quanto fisicamente ele aparecerá na terra, sua segunda vinda. Assim o quadro fica completo: somos levados ao céu (as moradas) quando morremos e trazidos a terra quando da segunda vinda de Cristo onde ocorrerá a ressurreição dos mortos (1Ts. 4.14,16 – peço que leia o texto sem a ideia, infelizmente tão difundida, que Jesus virá levar seu povo para morar no céu, pois não é o que o texto diz, mas sim que Ele vem habitar com seu povo na terra).

Diante de tudo isso, busquemos visualizar todo o filme da redenção e não simplesmente uma de suas cenas. O capítulo final de todo esse drama, e a surpresa que ele provocará (a cena ainda não ocorreu, mas o roteiro já se encontra feito), não é que subiremos até Deus, mas sim, que Deus descerá para encontrar-se para sempre com seu povo. Deus vem! O Deus EMANUEL não significa “nós com Deus”, mas DEUS CONOSCO. Deus em sua criação, com seu povo, tornando tudo novo (Is. 65.17). O céu, no término da narrativa bíblica, não é o lugar para onde vou (embora possa ir, você já entendeu), mas o lugar de onde Deus vem (Ap. 21.1-3). Como bem se expressou C. J. H. Wright: “Quem quer apenas o céu, quando Deus promete o céu e a terra?”.