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terça-feira, 14 de abril de 2020

COVID-19

Faz algum tempo que não escrevo em meu blog. Com os últimos acontecimentos relacionados com a atual pandemia do coronavírus e em contato com um de meus antigos alunos do seminário, fui motivado a produzir esse post. Desejo lançar algum feche de luz nessa escura situação que nos encontramos. 

Não é de hoje que as pessoas pensam estar vivendo os últimos momentos da história diante de acontecimentos globais com grande magnitude. Essa não é a primeira pandemia e penso que não será a última. Costumamos, nessa hora, correlacionar acontecimentos à luz de alguns textos bíblicos. Isso aconteceu com a virada do ano 999 para o ano 1000, se repetiu quando a peste negra assolou a Europa medieval, no período da Guerra Fria, com os atentados de 11 de setembro, com o tsunami em 2004, no início do ano com as chuvas em Minas Gerais e agora com o coronavírus. 

Usar o Dilúvio, a destruição das cidades de Sodoma e Gomorra como exemplos de juízo de Deus realizado na história, não serve como salvo para correlacionarmos acontecimentos atuais, como a pandemia do coronavírus e dizer que esta seja também um juízo de Deus. Não temos nenhuma voz que nos autorize tal declaração. Não possuímos nenhuma espécie de revelação que diga isso. Se o texto bíblico não nos disse que o Dilúvio foi mais que uma inundação de proporções inimagináveis, mas sim um juízo de Deus, e que Sodoma e Gomorra não desapareceram do mapa por meio naturais, mas sim pela ira do criador, não teríamos como afirmar que tais acontecimentos foram o que foram pela simples evidência histórica. A revelação não está no acontecimento em si, mas naquilo que Deus diz sobre ele. Assim, a pandemia atual não é outra coisa senão uma pandemia, nada mais nada menos. 

Contudo, temos que enxergar os acontecimentos dos últimos meses à luz da escatologia bíblica do primeiro século. De acordo com o Novo Testamento, o fim será concluído e não iniciado. O fim já foi inaugurado com o aparecimento de Jesus e os acontecimentos que se desdobraram em sua vida, morte, ressurreição, ascensão e derramar do Espírito. Qualquer acontecimento agora está dentro de um fim já inaugurado, mas ainda não concluído. Logo, não deveríamos nos espantar com algo fora do comum como se isso fosse um sinal maior do que os narrados na carreira de Jesus. O mundo deixou de ser o mesmo quando da morte e ressurreição de Jesus. 

Esse isolamento social nos fez perceber como tínhamos algo ao nosso redor que na maioria das vezes não demos a devida atenção, a comunhão com os irmãos no culto público. Diversos líderes ficavam se questionando sobre a melhor estratégia para agregar jovens e adolescentes na igreja. Quanto mais inusitada, melhor. Quantas pessoas não perguntavam se haveria alguma programação diferente na igreja ao longo do mês, para com isso, resolver se participariam ou não. Muitos deixaram de estar nos cultos ao saberem que só haveria pregação, hinos, oração e comunhão. Há, comunhão! Algo que tanto ansiamos nesses últimos dias. Muitos desejariam estar reunidos em suas igrejas somente para orar ao lado do irmão, ouvir um sermão não esperando nada mais que a exposição do texto bíblico. Com a vinda dessa crise nos encontramos tão necessitados que não há espaço para desejos muito sofisticados. 

E o que falar de nossos idosos? Esquecidos e relegados ao simples anonimato. Em uma geração que valoriza unicamente o novo, acordamos para o valor dos velhos. Estamos preocupados com eles por sabermos que são os alvos mais frágeis dessa nova pandemia. Infelizmente, foi necessário um vírus para nos fazer entender que os idosos juntamente com crianças, adolescentes, jovens e adultos constituem uma única geração importante de uma igreja. 

Deus pode usar esse coronavírus como meio para chamar as pessoas a uma prestação de contas? Claro que sim. Teria provocado essa pandemia por meio de causas secundarias? Penso que seja improvável, mas não impossível, pelos motivos já expostos acima. O que pode acontecer, isso sim eu creio, é que Deus pode mobilizar sua igreja para que esta seja para sua geração aquilo que Jesus foi para Israel, um veículo através do qual o Deus criador agiu em meio ao caos trazendo ordem, paz, esperança e justiça. De nada adiantará sabermos se o coronavírus é ou não juízo divino se a igreja continuar letárgica em ser sal e luz do mundo.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

TEMPLOLATRIA, A CRÍTICA DE JEREMIAS E ESTEVÃO


Recentemente foi inaugurado em São Paulo um prédio com o nome fantasia Templo de Salomão. Uma obra magnífica, digna do gênio arquitetônico de Herodes, o Grande, e tão esplendorosa quanto os mais altos sonhos de Nabucodonosor. No melhor dos cenários, este Templo de Salomão é uma bela obra da engenharia moderna, e no pior, uma aberração bíblico-teológica.

Desejo evocar duas vozes existentes na Bíblia para uma análise desta mais nova obra idolátrica de nossos dias. Primeiro o profeta Jeremias, com seu impactante sermão em Jr.7, e Estevão com o discurso não menos chocante de At. 7.

Jeremias viu que as pessoas em número elevado acorriam para o interior do templo (Jr. 7.1,2), estavam sedentas por adoração. O que para nós poderia ser visto como sinal de um possível avivamento, para o profeta Jeremias era uma conduta que mascarava uma triste realidade. Como bem salientou Eugene Peterson, ao afirmar que as pessoas “estavam no lugar certo, diziam as palavras certas, mas elas próprias não estavam certas”. Encontrar-se sedento por adoração, segundo Jeremias, não é o mesmo que se encontrar sedento por Deus.

Por mais que repetissem a verdade de que o local era o templo do SENHOR (v.4), note a tríplice repetição com a finalidade de ênfase, a conduta do povo em seu dia-a-dia anulava o discurso tão bem articulado (vs. 3,5-8). Não havia verdadeira piedade. As pessoas eram injustas, imorais e idólatras (vs. 9-11). O templo havia se tornado um mero fetiche, um amuleto de proteção não contra a vida corrompida, mas para se viver diariamente na corrupção (v.10). Desejavam um encontro com Deus no templo, mas não se dispunham a caminhar com Ele fora do recinto de adoração.

A consequência de tudo isso, lembra Jeremias, é que Deus faria com o templo o mesmo que havia feito com o antigo santuário de adoração em Siló (vs. 12-14). Siló fazia parte de antigas histórias de Josué (Js. 18.1). Era o santuário da época dos juízes (Jz. 21.19). Samuel, o último dos juízes fora criado neste santuário (1Sm. 1.24). Siló fazia parte, com isso, de uma rica tradição cultual, não obstante os antigos problemas já existentes neste antigo lugar de culto (1Sm. 2.12-14). O salmista relata a destruição de Siló no Salmo 78.58-61.

Jeremias alertou o povo que o mesmo aconteceria ao templo, símbolo da presença de Deus entre o povo. O lugar de adoração seria destruído pelo próprio Deus que há muito tempo havia deixado de ser verdadeiramente adorado. Isso aconteceu quando da invasão babilônica no ano 586 a.C. O sermão de Jeremias reverberou a tal ponto que encontramos ecos de sua voz no discurso de Estevão em Atos 7, o que não impediu que este ampliasse a visão negativa do próprio templo como vista em Jeremias.

Estevão recorda toda a história de Israel e como Deus agiu em favor de seu povo (At. 7.1ss). Declara que o tabernáculo, o santuário móvel da época do deserto e da conquista da terra, feito por Moisés foi segundo um modelo recebido diretamente por Deus (vs. 44,45), para depois fazer referência a construção do templo (vs. 46,47). É aqui que o pensamento de Estevão chega a um clímax não existente na pregação de Jeremias.

A originalidade da exposição de Estevão está em entender que a construção do Templo foi algo contrário aos planos de Deus. Quando ele diz: “Mas foi Salomão quem lhe construiu a casa”, é sua forma de dizer que o desejo de Davi, contrário à vontade de Deus, foi concretizado por seu filho e não por ele mesmo. É como se para Estevão, Deus houvesse privado Davi de um erro. Este teria sido o resultado de Davi ter achado graça diante de Deus. Note o contraste entre o v. 47 e o 48. Tudo não passou de uma obra inútil (vs. 49,50). Estevão sabe deixar de lado a crítica ao tabernáculo, pois ele explica que sua confecção foi ordem do próprio Deus (v. 44).

A expressão “feito por mãos humanas” é a chave para compreendermos o entendimento de Estevão da construção do Templo. Veja a relação entre o v. 41 e o 48. Esta era uma expressão que se usava para condenar a prática da idolatria (Lv. 26.1; Is. 31.7; 46.6). Durante o julgamento de Jesus, usaram esta expressão para incriminá-lo (Mc. 14.58).

Podemos dizer que Estevão levou até as últimas consequências a crítica ao templo. Os profetas, por exemplo, denunciaram a conduta errada dentro do templo. Quando muito, que o templo seria destruído por causa da violação da vontade de Deus. Para Estevão o próprio templo é uma violação da vontade de Deus, em outras palavras, só foi construído em decorrência da desobediência do povo. Foi a expressão maior de rebeldia (v. 51). Este templo, reconstruído e ampliado por Herodes, o Grande, veio abaixo no ano 70 d.C., sob o comando do general Tito.
Diante de tudo isso, afirmamos que o atual templo de Salomão na cidade de São Paulo não é outra coisa senão a expressão máxima de desobediência ao plano redentor de Deus. Jesus havia predito a sua destruição quando da admiração dos discípulos por sua imponente arquitetura (Mc. 13.1,2). “Jesus estava desafiando, em nome do Deus de Israel, o próprio lugar onde Deus deveria habitar e se relacionar com seu povo” (N. T. Wright). Logo, esse atual templo de Salomão é a reconstrução de algo que o próprio Jesus afirmou que seria completamente destruído como sinal do juízo divino. Em outras palavras, é um templo que se encontra em rota de colisão com o próprio Deus.

Afirma-se que lá é possível sentir a real presença de Deus. Basta adentrar o templo, segundo alguns, para se confirmar isso. Outro erro gritante. Não nego que as pessoas não possam se emocionar diante de uma estrutura tão colossal. Contudo, interpretar isso como sendo a presença de Deus é que não se pode admitir. Com a encarnação do Filho de Deus, a Glória que antes estava restrita ao templo, se encontra agora na pessoa de Jesus (Jo. 1.14). Ele tabernaculou, ou “estabeleceu seu tabernáculo entre nós” (Oscar Cullmann). É somente em Jesus que os céus encontram-se abertos (Jo. 1.51). “A partir de agora os céus estão sempre abertos, onde quer que Cristo esteja” (Oscar Culmann).

Com a destruição do templo, um novo foi construído por Cristo, que se constitui na comunidade dos discípulos (1Co. 3.16; 6.16; Ef. 2. 21,22; Hb. 3.6; 1Pe. 2.5). Não será esse novo templo que irá substituir àquele já construído pelo Cristo ressurreto.

Como últimas palavras, não podemos permitir que o símbolo que representava a presença de Deus substitua agora a realidade de Sua presença na comunidade dos discípulos onde Cristo habita. Fiquemos com a realidade da presença divina e não como o antigo símbolo que a representava. Que a denúncia do profeta Miquéias não seja esquecida ao combater aquilo que ficou conhecido em teologia do Antigo Testamento como teologia de Sião, que infelizmente vemos aflorar em nossos dias (Mq. 3.9-12).  

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

NÃO SOU BATIZADO MAS QUERO PARTICIPAR DAS DECISÕES DA ASSEMBLEIA DA IGREJA. POSSO?


Por que somente pessoas batizadas podem participar das decisões da igreja local? O simples fato de ser um convertido não seria suficiente para se tornar um partícipe das resoluções da assembleia? O pré-requisito do batismo teria somente fundamentação no estatuto da igreja local, sem nenhuma evidência bíblica? O post de hoje tenta esclarecer as razões bíblicas para estes possíveis questionamento de alguns novos convertidos em igrejas batistas.

Antes de qualquer coisa, deve-se levar em conta que os eruditos do NT são unânimes em afirmar que o batismo era o rito de admissão na comunidade local. Ou como se diz em teologia sistemática: o rito de iniciação do novo crente.

Em Romanos 6.3 Paulo deixa bem claro que os crentes que compunham a igreja em Roma eram batizados. Ele mesmo expõe no texto que havia sido batizado (note o “todos nós”). Isto é significativo pois a igreja em Roma não foi fundada por Paulo. Pressupõe-se com isto, que o batismo era prática de admissão ou incorporação na igreja muito tempo antes de Paulo. Note também que em Cl. 2.13 o apóstolo se dirige aos membros da igreja de Colossos como pessoas batizadas, outra igreja não fundada por Paulo.

Paulo explica em 1Co. 12.13 que o batismo, no que diz respeito a igreja local, nos torna membro do corpo de Cristo. Este batismo é realizado na esfera do Espírito, observe o “em um único Espírito” (NVI). Segundo Bultmann, isto pode ser entendido como fórmula eclesiástica. Assim, podemos falar que alguém passa a fazer parte da igreja invisível, ou universal, quando da aceitação por Cristo. Contudo, a inserção na igreja local, ou visível, se dá somente por meio do Espírito Santo através do rito batismal, logo, neste sentido, algo realmente acontece na vida do salvo (falaremos disto em outro post). Como o erudito do Novo Testamento Oscar Culmann disse sobre esta passagem: “o Espírito atua no próprio ato da incorporação”.

Uma prova bíblica de que o batismo era o rito de admissão na igreja é o texto de At. 2.38,41. Em outras palavras, tornava-se membro da igreja unicamente por meio do batismo. Veja que o texto diz que foram acrescentados à igreja os três mil batizados. O mesmo pode ser dito do acontecimento de At. 2. Nesta passagem fica subentendido que receberam o Espírito Santo aqueles que já haviam sido batizados pelo batismo de João. Ou seja, vivenciaram o cumprimento da declaração de João, o Batista em Mc. 1.8. Observe também que em At. 1.13 a reunião dos apóstolos juntamente com as mulheres, infere-se que eram pessoas batizadas. Se o próprio Jesus havia sido batizado, é impensável que seus discípulos não fossem batizados à exemplo de seu Mestre. A razão disto é que os discípulos de Jesus inicialmente foram discípulos de João, o Batista (cf. Jo. 1.35-40). Este fato serve como corolário de nossa afirmativa.

Tendo isto por assentado, as seguintes passagens se revestirão de toda sua importância. Isto porque o primeiro assunto levado em discussão na igreja – uso este termo aqui em sentido abrangente – foi direcionado à pessoas que já eram batizadas (At. 1.21-23).

Em At. 6.2-6 os Doze se reúnem com os discípulos para resolverem o problema da correta administração da beneficência. Nem é preciso dizer que os Doze eram pessoas batizadas. Mas e os discípulos relatados na passagem? Para esta resposta, basta lembrarmos o que Jesus disse quando da convocação da grande comissão: façam discípulos de toda as nações, BATIZANDO-OS (Mt. 28.19). O discípulo, seria, segundo Jesus, alguém que deveria passar pelo rito do batismo. Com isto, mais uma vez as resoluções da igreja ficaram a cargo de pessoas batizadas. O mesmo pode ser dito em relação ao texto de At. 15.22.

Desta forma fica claro a importância bíblica de se levar assuntos concernentes a igreja somente para a apreciação de crentes batizados. Assim, o assunto ora desenvolvido, antes de ser encarado como questão meramente estatutária, constitui-se na verdade, numa preservação de um costume bíblico neotestamentário. 

segunda-feira, 6 de maio de 2013

DISCIPLINA NA IGREJA, PARTE III

PROCEDIMENTOS BÍBLICOS PARA O CORRETO EXERCÍCIO DA DISCIPLINA ECLESIÁSTICA

Segundo o teólogo batista A.H.Strong, a Bíblia possui duas recomendações para o exercício da disciplina. Uma para as ofensas particulares e outra para os pecados públicos (STRONG, v.2, p. 689).

OFENSA PARTICULAR

A disciplina do erro particular, que ainda não é do conhecimento de todos deve seguir as recomendações de Mt. 5.23,24; Mt. 18.15-17.

Em Mt. 5.23,24 pode-se confirmar que a reconciliação com o irmão faltoso é o alvo da disciplina bíblica. O excelente livro do teólogo gaulês, Charles H. Dodd, As Parábolas do Reino, diz acertadamente sobre este texto que “a reconciliação com um “irmão” deve preceder inclusive o culto divino” (DODD, p. 117).

Com este exemplo, Jesus nos orienta que diante de um problema entre um irmão e outro, o importante não é saber quem é o ofensor, mas que um dos dois busque a iniciativa da reconciliação. Observe que o texto diz que “se você se lembrar que seu irmão tem algo contra você”, não especifica se aquele que lembrou o fato é inocente ou culpado.

Já em Mt. 18.15-17 temos uma recomendação mais elaborada. Este ensino de Jesus é um indicativo de que Ele já esperava que sua futura comunidade soubesse resolver, sem sua presença física, mas não ausência completa (cf. Mt. 18.20), seus problemas internos. Este dito de Jesus foi pronunciado no início dos anos 30 do séc. I e registrado por Mateus em meados de 80-85 da era cristã. A igreja possuía pouco mais de cinquenta anos de existência.

Alguns podem entender o “contra te” de Mt. 18.15a como uma recomendação que se aplicaria somente quando o erro fosse cometido com outra pessoa da igreja. No entanto, o “contra te” acha-se ausente nos dois dos mais importantes manuscritos do Novo Testamento, o Sinaíticus e o Vaticanus, ambos datados do séc. IV.

Desta forma, a recomendação de Jesus, é que o encontro com o irmão que cometeu o pecado seja de inteira responsabilidade daquele que primeiro tornou-se conhecedor do fato. Esta visita a sós é para que a pessoa seja advertida pelo erro praticado. Se a conversa for positiva, “você ganhou seu irmão” (v. 15b; cf. Tg. 5.19,20). Deve-se buscar esta restauração à luz de Gl. 6.1.

O objetivo desta primeira conversa, como já salientou Grudem, é para que o conhecimento do fato seja “preservado dentro do menor grupo possível” (GRUDEM, p. 753).

Se infelizmente, este primeiro encontro não foi satisfatório, deve-se agora buscar mais um ou dois irmãos para uma segunda conversa (v. 16). O primeiro contato com o irmão deve ser algo informal. Mas o fato de Jesus recomendar mais uma ou duas pessoas “para que qualquer acusação seja confirmada pelo depoimento de duas ou três testemunhas”, citando assim Dt. 19.15, faz com que esse segundo momento da disciplina seja algo bem formal. Isto é para que o irmão em pecado entenda que a situação envolve seriedade. É recomendado, com isto, que neste momento estejam presentes pessoas que estão à frente da liderança da igreja.

Por fim, se a pessoa persistir no erro, a igreja reunida deve ser consultada (v. 17a). Ainda não é momento para exclusão. O objetivo é que o conselho de toda a igreja produza alguma mudança no irmão, levando-o ao arrependimento. Se mesmo assim “ele se recusar a ouvir também a igreja” (v. 17b) só resta considerá-lo “pagão ou publicano” – em outras palavras, ele será excluído do número dos participantes da igreja. Confira a orientação do apóstolo Paulo sobre a pessoa que insiste em permanecer no erro (Tt. 3.10,11)

OFENSA PÚBLICA

A disciplina que envolve pecados que já se tornaram do conhecimento de todos, deve seguir os princípios de 1Co. 5 e 2Ts. 3.6.

Fica evidente no texto de 1Co. 5 que era do conhecimento de todos que havia alguém que mantinha um caso com a madrasta na igreja de Corinto. Paulo diz que por “toda parte se ouve que há imoralidade entre vocês [...] ao ponto de um de vocês possuir a mulher de seu pai” (1Co. 5.1).

Neste caso, não se deve praticar a orientação de Mt. 18.15-17, pois a pessoa já demonstra por sua persistência no erro, que não vive mais segundo os padrões morais das Escrituras. Por que conversar particularmente sobre o erro de alguém que já é do conhecimento de todos? Assim, Paulo faz uma pergunta retórica – que não exige resposta: “Não deviam, porém, estar cheios de tristeza e expulsar da comunhão aquele que fez isso?” (v.2). Strong observa “que Paulo não dá ao incestuoso oportunidade para arrepender-se, confessar, ou reverter a sentença” (STRONG, p. 689). Permitir que alguém neste estado ainda fosse parte da igreja, seria contaminar toda a comunidade de Cristo (v.6; cf. Hb. 12.15,16).

Nos vs. 3-5,13 Paulo pede que assim como ele havia tomado sua decisão sobre o assunto (v. 3), a igreja deveria reunir-se para a exclusão daquele que cometeu tão horrendo pecado (vs. 4,5,13). Desta forma, aprendemos que para as ofensas públicas, a pessoa deve demonstrar verdadeiro arrependimento depois de sua exclusão.

Quando há necessidade do afastamento de uma pessoa, seja seguindo os passos de Mt. 18.15-17 ou a recomendação paulina para um pecado público, a igreja deve demonstrar seu amor pelo antigo integrante. É assim que Paulo orienta a igreja de Tessalônica. Aquele que desobedecesse à recomendação da carta paulina deveria ser disciplinado, mas não considerado inimigo, antes, “chamem a atenção dele como irmão” (2Ts. 3.14,15).

Em 2Co. 2.5-11 Paulo aborda o assunto do afastamento de uma pessoa na igreja de Corinto. Fica implícito pela passagem que a pessoa em questão tenha se arrependido do seu pecado, e por isso a igreja deveria “perdoa-lhe e consolá-lo, para que ele não seja dominado por excessiva tristeza” (v.7). Esse perdão seria demonstrado na sua reintegração amorosa no círculo da igreja (v. 8). É digno de nota, que a conduta de indiferença com o pecado em 1Co. 5, tenha mudado agora na igreja de Corinto. Eles passaram a compreender a necessidade da disciplina, obedecendo assim ao apóstolo (v.10).

CONCLUSÃO

Vivemos hoje em um ambiente repleto de pessoas indisciplinadas. Muitas delas querem que a igreja seja mais um ambiente caracterizado por essa indisciplina. Qual seria a postura correta da igreja de Cristo neste momento? Ela deve ensinar para seus membros que a disciplina é necessária como uma forma de demonstração do amor de Jesus por sua igreja (Ap. 3.19).

Não basta somente saber que a disciplina é um fator indispensável na vida da igreja, faz-se necessário o seu exercício no dia-a-dia da comunidade. Logo após expor as razões do valor da disciplina, o autor aos Hebreus pede aos seus leitores que ela seja posta em prática (Hb. 12.12,13).

DISCIPLINA NA IGREJA, PARTE II


AS DISCIPLINAS EM UMA IGREJA BATISTA

Nós batistas costumamos distinguir a disciplina na igreja de três formas: disciplina formativa, corretiva e cirúrgica.

DISCIPLINA FORMATIVA

Toda instrução que a igreja recebe, seja por meio de pregação ou estudo bíblico pode ser denominada de disciplina formativa. Seu alvo é formar constantemente o caráter de Cristo na vida do discípulo. Como nunca alcançaremos o perfeito caráter de Cristo nesta era, a disciplina formativa perdurará até a vinda de Jesus. Todo ensino (disciplina formativa) de Paulo aos gálatas era a demonstração do seu desejo de ver “Cristo formado em vocês” (Gl. 4.19).

A igreja de Éfeso em Ef. 5.3-7 recebe uma instrução paulina que se enquadra muito bem no nosso conceito de disciplina formativa. Nos vs. 3,4 Paulo diz “o que não deve haver” no meio da comunidade cristã. E se alguém perguntasse o motivo dessa exigência, ele afirmaria “que essas coisas não são próprias para os santos”. O objetivo do conselho, é que os integrantes da igreja de Éfeso não ficassem fora do Reino de Deus (vs.5,6). Por fim, no v. 7, Paulo expressa o desejo que seu ensino seja absorvido na prática diária dos crentes efésios.

A disciplina formativa é, neste sentido, preventiva. Ela alerta o crente sobre o perigo de uma conduta irrefletida da vida cristã (cf. Ef. 5.15-18).

DISCIPLINA CORRETIVA

A Bíblia deixa bem claro que o crente não está isento de possíveis falhas em sua vida cristã. Nem mesmo a simples participação na igreja impede que os crentes não estejam expostos aos perigos das tentações na vida (1Co. 10.1-12).

Quando na igreja alguém erra, é da responsabilidade dos irmãos conhecedores do fato, a aplicação da disciplina corretiva. O objetivo nunca é afastar a pessoa da igreja. A intenção deve sempre ser a restauração do culpado. O teólogo Wayne Grudem diz que “o propósito principal da disciplina eclesiástica é alcançar o duplo alvo da restauração (levar o pecador ao comportamento correto) e de reconciliação (entre cristãos e com Deus)”. (GRUDEM, p. 750).

Em Gl. 2. 11-14 temos um claro exemplo de disciplina corretiva. Em Gl. 2.1-10 Paulo deixa bem claro que com o evangelho de Cristo as exigências judaicas não eram necessárias aos gentios. Pedro tinha assimilado isto, pois o texto diz que “ele comia com os gentios” (v. 12). Era um costume em Antioquia, judeus-cristãos partilharem uma refeição comum com os gentios convertidos. Mas com a chegada de um grupo liderado por Tiago, que era rigoroso no que diz respeito às regras alimentares estabelecidas por Moisés (cf. Lv. 11), Pedro afastou-se e separou-se dos gentios (v. 12). Outros judeus tiveram a mesma conduta (v. 13). Diante disto, Paulo repreendeu Pedro e os outros judeus, pois “não estavam andando de acordo com a verdade do evangelho” (v. 14a). O fato de Paulo falar diretamente para Pedro, é que este desde cedo tinha assumido uma postura de liderança na igreja (Mt. 16.15,16; At. 2. 14). Nos vs. 16-21 Paulo expõe a razão teológica para a repreensão feita com o apóstolo Pedro.

DISCIPLINA CIRÚRGICA

Esta disciplina é o último passo na tentativa de restaurar a pessoa que cometeu determinado pecado. Ela é denominada de cirúrgica porque sua ação se dá no afastamento do integrante da igreja. A disciplina cirúrgica – a exclusão - não quer dizer que a igreja não conseguiu restaurar a vida de um dos seus membros, antes, é uma tentativa de levar o faltoso ao verdadeiro arrependimento. “Assim como, às vezes, é preciso tirar fora parte do corpo físico para que o corpo todo não pereça, da mesma forma também acontece na igreja” (ZACARIAS SEVERA, p. 389).

Em 1Tm. 1.20, Paulo informa que Himeneu e Alexandre foram excluídos da igreja – “entreguei a Satanás” no linguajar paulino – com o intuito de que “aprendam a não blasfemar”. A exclusão deve servir como um tratamento de choque para o crente que demonstra resistência em se arrepender. Mais uma vez queremos enfatizar que seu objetivo é a restauração do impenitente.

A disciplina cirúrgica serve também para ensinar a igreja que não se pode confundir amor com tolerância ao pecado. As igrejas de Pérgamo (Ap. 2.14,15) e Tiatira (Ap. 2.20) estavam tolerando o erro ao permitirem que pessoas que já haviam dado prova de uma vida incompatível com o evangelho, fossem ainda membros de suas comunidades. Jesus advertiu essas igrejas, que devido ao não exercício da disciplina, Ele mesmo faria com que o erro fosse punido (Ap. 2.16; 21-24).

A disciplina cirúrgica protege a pureza da igreja e não permite que o nome de Jesus seja difamado pelas pessoas de fora. A igreja não pode permitir que o nome do Senhor seja desonrado com o erro de alguns de seus membros, da mesma forma que o nome de Deus era “blasfemado” por causa do comportamento de alguns judeus na época de Paulo (cf. Rm. 2.17-24)