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quinta-feira, 7 de março de 2019

CASAMENTO DE CAIM

Quem foi a esposa de Caim? Afinal de contas ele se casa logo depois que assassinou seu irmão Abel. Mas como isso poderia ser possível se não havia mais ninguém para casar? Bem, essa é uma das questões intrigantes da antiga narrativa bíblica dos primórdios. 

Para início de conversa, o texto (Gn.4) parece descrever uma época que se aproxima muito do período neolítico, 8.000 a 10.000 a.C., caracterizado pela domesticação de animais e desenvolvimento das técnicas de agricultura. Note que Abel é pastor de ovelhas e Caim agricultor. Outra coisa que precisa ser notada é que o texto não nos diz que Caim e Abel eram solteiros. Como assim? Publicamos um texto sobre a releitura de Gênesis 1 e 2, onde vimos a possibilidade de haver uma lacuna de tempo entre a criação do homem inicial em Gênesis 1, e o personagem histórico Adão que foi escolhido juntamente com Eva para entrarem no jardim como representante dos demais seres humanos. Se isso for certo, fora do jardim já havia pessoas. Calma, não pare a leitura com medo de ser uma heresia. Vá em frente!

Pois bem, Caim e Abel nascem fora do Éden. Mas porque deveríamos admitir que eles já fossem casados? Pelo questionamento de Caim logo após o assassinato de seu irmão: “... qualquer que me encontrar me matará.” (Gn. 4.14). Isso pressupõe um núcleo familiar maior além de Adão e Eva. Algum membro da família de Abel poderia buscar vingar-se, preservando com isso a honra da família, algo comum no mundo antigo. Sobre isso indico a consulta do Comentário Histórico Cultural do Antigo Testamento. Isso contraria nosso imaginário em ver Caim e Abel como muito jovens ou mesmo solteiros. Não se pode esquecer que o nascimento de Sete, após o assassinato de Abel, se deu quando Adão contava com 130 anos (Gn. 5.3). Isso quer dizer que Caim quando do assassinato do seu irmão deveria ter mais de cem anos de idade. 

Quando alguns leitores perguntam como Caim encontrou sua esposa quando fugiu, na tentativa de desmerecer o texto bíblico (Gn. 4.17), isso não passa de desatenção. Quando se lê que Caim conheceu sua mulher, não quer dizer que ele encontrou alguém que se tornou sua esposa. O mesmo se acha em Gênesis 4.1,25 sobre Adão conhecer Eva. É obvio que Adão já sabia quem era Eva. O texto afirma que Caim teve relações sexuais com sua esposa. O termo conhecer em hebraico é usado para expressar relação sexual. Logo, Caim não encontra uma esposa, o que seria possível, desde que se admita a existência de pessoas além do seu núcleo familiar, mas sim que já tinha uma esposa. Se as únicas pessoas que existiam era o núcleo familiar de Adão e Eva, então Caim já era casado com uma de suas irmãs, algo semelhante a dinastia Targaryen de As Crônicas de Gelo e Fogo. Lembre que Adão teve filhos e filhas (Gn. 5.4).

Quando se tenta responder esses questionamentos algumas pontas são amarradas e outras desatadas, levando, necessariamente, a mais indagações. O certo é que Gênesis não tem a intenção de ser um relato histórico moderno, muito menos um texto científico, mas sim religioso. Sua intenção é teológica, logo, determinados detalhes que podem parecer uteis ao leitor de hoje, foram considerados irrelevante para o que se desejava comunicar.

sábado, 21 de julho de 2018

O ANTICRISTO

Se existe uma figura que muitos de nós já ouvimos, mas que pouco compreendemos, é a figura do anticristo. Personagem pregado em muitos púlpitos, mas esquecido ultimamente, o anticristo foi um assunto complexo e ao mesmo tempo importante para os primeiros cristãos. 

Ao longo da história da igreja muitas foram as interpretações para o significado da besta de Apocalipse 13: seria Nero? Havia a história que ele voltaria mesmo depois de morto, o mito do Nero redivivo (note que a besta foi curada de uma ferida mortal). Poderia ser o império romano da época de João? Para os reformadores o anticristo seria o sistema papal do séc. XVI. É comum também ver a besta como algum líder político futuro. Já pensaram até em Barack Obama. Circula também nas redes sociais uma pregação que diz ser o presidente da França, Emmanuel Macron, o verdadeiro anticristo. Já vimos que não faltam candidatos! 

Podemos dizer que João fez uso em sua própria época das histórias do retorno de Nero. Não que ele acreditasse que o imperador pudesse voltar a viver, antes, o faz para ter um referencial comum entre seus leitores e ouvintes. Ao mesmo tempo ele pode afirmar que toda opressão de Roma por meio de seus imperadores não era outra coisa senão o agente de um poder muito antigo, a soma de toda a maldade. Este poder se opõe a Deus e seu povo, tanto no passado, presente e futuro até o dia do aparecimento de Cristo. Essa figura sinistra tem como pano de fundo o texto de Daniel 7. O próprio Jesus faz referência a esse conceito assustador em Mt. 24.15; Mc. 13.14. 

Haveria ainda hoje alguma utilidade em falarmos de tal personagem/influência? A resposta é sim. Isso porque embora todos veem o anticristo como um personagem que surgirá no futuro, a Bíblia nos diz que ele já atua no presente. Podemos identificar o cavaleiro branco como a representação do anticristo (Ap. 6) que atua desde a ascensão de Jesus ao céu. A época da igreja onde temos a atuação do Espírito Santo é também a época do anticristo. Isso concorda com o que Paulo diz em 2Ts. 2.7, sobre a atuação do mistério da iniquidade. Devemos nos lembrar, todavia, de não entrarmos numa espécie de histeria coletiva sobre essas coisas (2Ts. 2.1s) 

O termo anticristo pode ter sido criado pelo próprio João, pois só se encontra em seus escritos e em nenhum outro lugar no NT, embora o personagem apareça em outros lugares na Bíblia. São cinco vezes que o termo aparece em suas cartas (1Jo. 2.18,22; 4.3; 2Jo. 7). Esses textos nos ensinam que vivemos já no tempo final. Para nosso espanto, ele já veio (1Jo. 4.3), essa inclinação, tendência de se opor a Cristo ou qualquer coisa que tenha relação com ele. E se não bastasse, o anticristo dispõe de muitos funcionários (1Jo. 2.18). João nos diz que foram pessoas que estavam expostas à influência cristã, viviam entre o povo de Deus, mas em um determinado momento revelaram que nunca pertenceram ao grupo que eles diziam fazer parte.  

IMPLICAÇÕES DA DOUTRINA DO ANTICRISTO 

  • Podemos ser um funcionário do anticristo sem ao menos sabermos. Quando nos opomos ao ensino da Escritura, somos indiferentes a voz do Espírito Santo ou assumimos um comportamento que sabemos não encontrar amparo na Bíblia, que traz prejuízo tanto individual quanto para a igreja de Cristo, nessas situações nos tornamos anticristãos, agentes do próprio anticristo. 
  • João identificou o espírito do anticristo em sua época no falso ensino que negava a encarnação de Cristo. Ele foi enfático ao falar que negar esse fato não era uma questão de opinião particular, mas da atuação de uma influência anticristã no meio da própria igreja. Temos que estar atentos aos ensinos difundidos por muitos púlpitos, e quando estes não concordarem com a doutrina dos apóstolos, deverão ser denunciados. 
  • Vivemos numa época marcada por grande apostasia, o terreno fértil para qualquer ideologia anticristã. Muitos demonstram uma hostilidade a Cristo mesmo fazendo parte da comunidade cristã. Não podemos nos iludir, não estar com Jesus é se posicionar contra ele (Mt. 12.30; Lc. 11.23). 
  • Quantas igrejas já se encontram tão corrompidas que mesmo pregando Cristo, se tornaram em agência a serviço do anticristo, uma igreja anticristã, com membros anticristãos, com um ensino anticristão, uma liturgia anticristã? Não podemos nos esquecer que de acordo com 1Jo. 2.18 a influência anticristã, o espírito do anticristo, surge também de dentro do cristianismo.  
  • Se notarmos as duas bestas de Ap. 13, veremos que uma representa um poder político perverso enquanto outra, um poder religioso corrompido (levando em consideração que possam ser dois personagens reais a serviço de um poder político e religioso). Isso acontece quando a política e a igreja deixam de estar a serviço de Deus e se unem em torno de uma influência destrutiva de um espírito anticristão. 

sexta-feira, 5 de maio de 2017

FIM DO MUNDO?

Em posts anteriores afirmamos que Deus não descartará sua criação jogando-a num incinerador cósmico, mas que trará cura e restauração para a ordem criada. Mas como mantermos esse posicionamento diante do texto de 2Pe. 3.10-12? 

Em primeiro lugar, devemos concordar que a passagem é no mínimo complicada. Não admitir isso é não prestar atenção ao texto. Mas isso não quer dizer que ele esteja apontando para uma direção contrária ao ensino da Bíblia em geral ou mesmo da fé judaico-cristã do cristianismo nascente. Ainda que numa primeira leitura se tenha a impressão de que a criação aguarda sua aniquilação completa, podemos dizer, por mais estranho que pareça, que não era isso que Pedro tinha em mente. Admitir o contrário seria criar uma contradição com tudo o que Paulo ensinou, em especial Rm. 8.19-22. 

A primeira coisa para se entender esse texto tem a ver com a tradução. Algumas versões trazem no final do v. 10 “será queimada”, “consumida”. A NTLH diz que “a terra e tudo o que existe nela vão sumir”. Essa tradução é atestada por manuscritos do séc. V e VI. A NVI traz no final do v. 10 o termo “desnudada”. De acordo com manuscritos mais antigos, datados do séc. IV, o sinaíticus e o vaticanus a palavra original seria “descoberta”. Isso muda tudo. Na primeira, a ideia é de destruição completa, na segunda, de purificação. 

Levando em consideração os manuscritos mais antigos, Pedro nos diz que a criação e suas obras serão desnudas, descobertas, expostas de acordo com a antiga intenção do seu Criador. O fogo trará a verdade profunda da criação de Deus. A criação e suas obras quando provadas pelo fogo mostrarão sua real natureza. É algo semelhante ao que Pedro disse sobre a fé (1Pe. 1.7). O fogo em 2Pe. 3.10 é o julgamento moral que destruirá todo o mal. O paralelo aqui é com as águas do dilúvio (vs. 6,7). Não foi a terra em si que foi destruída no dilúvio, mas a impiedade e todos que a praticavam, o mundo conhecido da época de Noé. Pedro descreve uma espécie de limpeza moral completa de toda a ordem criada. O dilúvio trouxe uma limpeza parcial, o aparecimento de Jesus, por sua vez, trará uma limpeza completa. Podemos dizer que a linguagem pessoal do julgamento pelo fogo de Ml. 3.2,3, foi transposta para toda a criação. 

A restauração de uma catedral serve de comparação para entendermos o texto de 2Pe. 3.10: sujeira e outras pinturas acumuladas ao longo dos séculos encobrem as verdadeiras cores de uma catedral. Os restauradores removem meticulosamente essas camadas e descobrem a real beleza que estava escondida. A catedral, depois disso, mesmo tendo vários séculos de existência, pode ser vista como inteiramente nova. 

Queremos, com esse exemplo, dizer que não haverá uma abolição da criação, antes, o julgamento retirará as diversas camadas de corrupção acumuladas ao longo de milênios de história humana. Retiradas essas camadas, a beleza, justiça e bondade sem limites inundarão a criação, trazendo com isso, novos céus e nova terra (v. 13). Note que Pedro não espera depois do fogo, o nada, ou um céu etéreo, mas um novo mundo. Noé surgiu, depois do dilúvio, em um aparente mundo novo. Pedro descreve que após o julgamento do fogo, surgirá, verdadeira e definitivamente um novo mundo. Segundo o texto, a nova criação brotará da velha criação. Deus não fará, com isso, um novo ato semelhante ao de Gn. 1.1 – do nada – mas a partir do que ele já fez. Ou seja, do já existente ele trará algo novo. O autor aos Hebreus traz uma imagem diferente quando comparada ao texto de Pedro (Hb. 12.26-28). De um mundo abalado por Deus, sacudido, surgirá um mundo mais sólido.  

A linguagem do julgamento descrita por Pedro não pode ser separada do ensino bíblico de que a criação é fruto das mãos do bondoso Criador. Se a criação não é algo bom, o julgamento a consumirá por completo. Se ela ainda é a boa criação de Deus, mesmo sabendo que se encontra fora dos trilhos, o julgamento a resgatará, punindo somente aquilo que a desfigura.

domingo, 22 de janeiro de 2017

GÊNESIS 1-2, UMA RELEITURA

A história de Adão e Eva é do conhecimento de todos os judeus, cristãos e boa parte de não cristãos. É quase um patrimônio religioso-cultural da humanidade. Ouvimos sua narrativa na igreja bem como seu escárnio das vozes do assim chamado novo ateísmo. Nossa intenção com esse post não é reafirmar o que já se diz ao longo do tempo sobre Adão e Eva (que eles foram o primeiro casal da terra), nem tão pouco rebater as críticas ateístas sobre essa parte da Bíblia (que ela seria um mero mito destituído de fundamentação histórica), mas sim, permitir que o texto nos fale de uma nova maneira. 

É preciso dizer, em primeiro lugar, que essa releitura vem sendo feita por teólogos como Derek Kidner, John Walton e N. T. Wright, logo, não há nada de original nesse artigo, exceto o ordenamento das ideias desses estudiosos. Em segundo, continuo acreditando na autoridade da Bíblia bem como na criação da humanidade como ato criativo de Deus, ou nas palavras do renomado teólogo batista do séc. XIX, A. H. Strong: “As Escrituras, por um lado, negam a ideia de que o homem é um simples produto das forças naturais irracionais. Elas ligam a sua existência a uma causa diferente da simples natureza, a saber, é um ato criativo de Deus”. 

A leitura comum (não que seja errada) é vermos Adão e Eva como os primeiros e únicos humanos no início dos capítulos 1-3 de Gênesis. Mas é possível que tenhamos em Gn. 1.26 a criação de pessoas em massa, ou de uma humanidade geral e não de dois indivíduos particulares, Adão e Eva no nosso caso. O hebraico Adan (Adão) significa humanidade, bem como nome próprio. Na estrutura da criação, Deus cria um incontável número de animais e logo os abençoa com a dádiva da procriação (Gn. 1.20-27), o mesmo podendo ter ocorrido com o gênero humano.

Adão e Eva seriam neste caso, possíveis descendentes do grupo humano original de Gênesis 1.26. Em Gênesis 2 eles foram escolhidos como representantes da humanidade formada, ou seja, eles entram na história em um mundo já povoado. Adão e Eva são os únicos colocados no jardim do Éden com uma espécie de função sacerdotal. Uma função sagrada num espaço sagrado. Por meio desse casal os propósitos do Criador irradiariam por toda sua criação, a terra seria levada a sua verdadeira frutificação, se encher do conhecimento do SENHOR como as águas cobrem o mar. Através desse lugar e por meio desse casal a vida do Criador irromperia trazendo ordem, paz e justiça. A desobediência traria a morte, o caos, a desordem, tanto para sua descendência quanto para seus contemporâneos fora do jardim. 

Logo de cara surgem algumas dúvidas: se Adão não foi o primeiro homem criado, então nem todos são descendentes dele. Respondemos dizendo que a única descendência preservada na terra foi a de Adão e Eva. Os demais humanos presentes no grupo inicial criado em Gn. 1.26 teriam chegado ao fim com o dilúvio. Essa seria a razão de Gn. 3.20 falar que Eva seria a mãe de toda a humanidade. Outra objeção seria dizer que se Adão não foi o primeiro homem criado, teríamos que admitir que houve uma classe de pessoas sem pecado. Não necessariamente. O pecado é mais que uma questão de hereditariedade, mas sim de solidariedade. Adão é o representante de todos, desde seus contemporâneos aos seus descendentes. Somos o que somos em decorrência de Adão, da mesma forma que somos quem somos em decorrência de Cristo. Jesus é o arquétipo, aquele que nos representa, alguém que consertou o erro do primeiro arquétipo, Adão. 

Mas se Adão não foi o primeiro homem criado, como entender que Deus o formou do pó da terra (Gn. 2.7)? Não é preciso interpretar literalmente essa passagem. Pode ser uma metáfora para descrever que assim como Adão, todos nós somos formados por Deus, somos frágeis (pó da terra). Uma linguagem semelhante pode ser vista em Jó. 10.8; Sl. 119.73; 139.13. Não se pressupõe dessas passagens que o autor não tenha sido formado por meio de um processo biológico normal, somente porque usam termos como: “tuas mãos me formaram”. Adão foi sim um personagem histórico, mas sua narrativa encontra-se em linguagem mitificada, metafórica.

Sim, tudo bem, mas como entender a formação da mulher segundo essa posição (Gn. 2.21,22)? Podemos afirmar que é o mesmo quando se diz que Deus formou o homem do pó da terra, ou seja, linguagem metafórica. O sono profundo em que Adão se encontrava se enquadra muito com o sono profundo de Abraão em Gn. 15.12s, momento em que o patriarca recebe uma revelação de Deus. O sono profundo de Adão, ou seja, a informação dada por Deus de quem seria Eva, bem como o tomar de uma de suas costelas, seria uma forma de dizer que foi Deus quem preparou, escolheu por esposa uma mulher para Adão.

Essa leitura de Adão e Eva não suscita somente dúvidas, ela esclarece alguns problemas no texto de Gênesis. Muitos perguntam quem teria sido a esposa de Caim (Gn. 4.17)? A resposta, para alguns, está em afirmar que Caim casou com uma de suas irmãs, semelhante a dinastia Targaryen das Crônicas de Gelo e Fogo. É certo que Adão e Eva tiveram filhas (Gn. 5.4) mas o texto de Gn. 4.17 pressupõe que Caim já se encontrava casado, e segundo Gn. 5.4, uma filha de Adão e Eva só foi gerada depois do nascimento de Sete. Outra possibilidade é admitir que Adão e Eva não estavam sozinhos, e que Caim casou com alguma dessas pessoas. Se não havia outras pessoas além de Adão e Eva, qual o motivo de Caim pensar que se alguém o encontrasse poderia vingar o sangue de seu irmão Abel (Gn. 4.14)?

Além do mais, os vestígios de vida humana parecem ser mais antigos que o estilo de vida descrito em Gênesis 4. Há indícios do surgimento de cultura datadas de 30.000 a 40.000 anos, enquanto o estilo de vida de Gn.4, criação de animais e agricultura, pertencem ao período neolítico, 8.000 a 10.000 anos atrás. Temos um lapso de tempo de 20.000 a 30.000 anos, se Adão foi o primeiro homem criado e Caim o primeiro agricultor. A não ser que Adão seja mais próximo a nós que os humanos iniciais de Gn. 1.26. 

Por último, a visão de Adão e Eva como pessoas escolhidas em benefício dos demais faz parte do fio condutor presente no quadro narrativo do Antigo Testamento com a escolha de Abraão. A vocação conferida a Adão e Eva é reafirmada em Abraão (Gn.12) da seguinte forma: Deus escolhe Abraão para ser o veículo por meio do qual a benção de Deus alcançaria todos os povos, da mesma forma que a obediência de Adão e Eva abençoaria toda a criação. Abraão recebe a promessa de que seria pai de uma multidão, da mesma forma que Adão e Eva gerariam sua descendência exercendo a ordem de multiplicar-se. Abraão recebe a promessa de herdar uma terra onde Deus habitaria com seu povo, no caso de Adão e Eva, o paraíso, onde se encontravam desfrutando da presença de Deus. A família de Abraão, em caso de infidelidade à aliança, seria expulsa da terra, indo ao exílio. O mesmo destino de Adão e Eva, que por desobediência foram expulsos do jardim. Abraão e sua família foram chamados para desfazer o erro de Adão, mas eles também incorreram na mesma falha. Deus suscita um israelita fiel, Jesus, descendente de Abraão, ou como disse Paulo, o segundo Adão, que desfez o erro do primeiro, cumprindo a promessa de que todos os povos da terra seriam abençoados.

Essa é uma possibilidade de releitura, um acréscimo ao entendimento comum sobre Adão e Eva, e não o seu substituto, afinal de contas, “teologia se escreve a lápis”.

domingo, 27 de novembro de 2016

O EX-REGENTE DO CORAL NO CÉU?

Quem nunca ouviu falar que antes da queda o diabo era regente do coral no céu que atire o texto de Ezequiel 28.13. Não posso precisar em qual momento esse pensamento viralizou no inconsciente coletivo dos cristãos evangélicos, mas é inquestionável a sua influência na vida de muitos deles. Ellen G. White afirma essa ideia em algum de seus escritos, sendo possível encontrar aí o epicentro responsável pelos tremores dessa ideia que derrubou os muros do bom senso teológico da mente de vários evangélicos. 

Para alguns comentadores, encontra-se no capítulo 28 de Ezequiel duas personalidades. Dos versículos 1-10 teríamos o governante de Tiro, mas a partir de Ez. 28.12-19 o profeta estaria descrevendo a carreira do diabo, pois, segundo esses expositores, os termos usados não poderiam se aplicar a nenhum rei humano. 

Sobre ter sido o diabo antes da queda o regente do coral no céu, o versículo usado seria o 13b, onde se diz que os tambores e pífaros foram feitos quando da criação desse querubim. Aí já deu para perceber a associação. Sim eu sei, os anjos cantam (e como cantam no céu), mas dizer que o diabo antes da queda regia o coral lá, é ir além da mensagem bíblica. Outras versões preferem traduzir tambores e pífaros por engastes e guarnições (NVI) pois o termo faria mais sentido à descrição desse querubim revestido de pedras preciosas (v.13a), semelhantes ao do peitoral do sumo sacerdote (Ex. 28.17-30). O que se pensa ser um tamborim (Versão Revista e Corrigida), na verdade seria o suporte para fixar essas pedras em sua roupa.

Mas ainda que não exista base para se afirmar essa suposta regência no céu, o texto faz referência ao diabo? Novamente a resposta é negativa. Não faz sentido dizer que porque Ezequiel chama o líder de Tiro de príncipe (v. 1) e depois de rei (v. 12) teríamos dois personagens distintos, o primeiro homem e o segundo um ser angelical. Podemos ver que o rei Zedequias podia ser chamado de príncipe comparando o texto de Jr. 21.1 com Ez. 12.10, o que prova serem termos intercambiáveis. 

Faz mais sentido ao texto entender que do início ao fim do capítulo 28 Ezequiel esteja falando somente do rei e da cidade de Tiro. O rei é confrontado com sua própria autodeificação ilusória. O profeta já tinha feito isso com a própria cidade de Tiro no capítulo 27. A cidade era uma potência marítima, cuja glória durou do 12º ao 6º a.C. Em seu porto circulava as mercadorias de todas as nações. Por isso Ezequiel compara a imponente cidade a uma grande embarcação (Ez. 27.1ss), mas que em breve naufragaria (vs. 25-36). 

Para o rei de Tiro, tanto sua riqueza acumulada quanto sua sabedoria diferenciada eram vistos como seu marcador de identidade divina (Ez. 28.1-5). Sentia-se um deus sentado num trono invencível. Por causa disso, o verdadeiro Deus traria estrangeiros inimigos pondo à prova sua divindade (vs. 6-10). Diante de sua própria mortalidade sua humanidade seria exposta e sua divindade desmascarada (v.9). 

A partir do versículo 12, a linguagem de Ezequiel muda drasticamente. Assim como para se fazer uma curva um veículo deve diminuir sua velocidade, senão ele continuará em linha reta, o mesmo se dá nesse ponto do texto. Temos que desacelerar nossa leitura, pois do contrário bateremos no muro que interpreta esses versículos como uma referência ao diabo. O texto de Gênesis 3 não nos diz que no Éden havia um querubim, mas que foram colocados querubins como medida de proteção para a árvore da vida (Gn. 3.24). Da mesma forma, lemos que o tentador foi uma serpente, um animal criado, e não um ser angelical (Gn. 3.1). É claro que hoje sabemos que o diabo estava envolvido, mas não podemos pensar que Ezequiel tivesse essa leitura do texto de Gênesis. Além do mais, em Gênesis vemos a presença do tentador no Éden, um ser já corrompido, mas nunca nos diz, nem em nenhum outro lugar das Escrituras, que esse tentador foi algum dia um querubim (cf. Ap. 12.9). 

O que nos resta dizer então é que Ezequiel passa a descrever o rei nos termos de sua própria divindade, descrito em linguagem celeste, não porque era divino, mas porque se imaginava assim. Penso que Ezequiel faz isso usando termos de sua própria tradição judaica bem como de alguma fábula conhecida entre os seus contemporâneos: Éden é o termo acadiano edinu, que significa planície; querubim ungido pode lembrar os querubins acima da arca; monte santo é o lugar da habitação de Deus como atestam os textos de Sl. 43.3; 48.1,2; Ez. 20.40, havendo até mesmo uma associação com o monte Zafom, montanha mítica para os fenícios (Sl. 48.2), lugar da habitação dos deuses. Temos então uma história mítica, ambientada na narrativa de Gn. 2 e 3, que fala de um ser celeste primitivo, ideal, belo, sábio, rico, mas que por seu orgulho foi expulso do jardim de Deus, ou monte santo (qualquer semelhança é mera coincidência com o imaginário popular da queda do diabo). 

O que Ezequiel diz para o rei de Tiro nos versículos 12-19 é o que já havia alertado nos versos 1-10. Ao confrontar o homem que julgava ser deus (vs. 1-10), Ezequiel diz que inimigos o enfrentariam, agora, falando com o rei como se ele mesmo fosse divino (vs. 12-19), é o próprio Deus quem o enfrentará (v. 16). O lamento que Ezequiel deveria entoar (v. 12) torna-se, na verdade, um cântico irônico.

sábado, 22 de outubro de 2016

A GRANDE HISTÓRIA, PARTE II

Já assistiu aquele filme que a trama é tão complexa que na ausência de um personagem a história ficaria completamente sem sentido? Costumamos chamá-lo de herói. Alguém que é o centro gravitacional de todos os acontecimentos. Sua função é convidar o público a enxergar “o mundo da história através de seus olhos” (Christopher Vogler). 

Na Grande História, Jesus é esse herói. Ele mesmo afirmou isso ao dizer que não veio para ser servido, mas para servir. Mais do que uma demonstração de humildade, essa afirmação descreve alguém convicto de uma vocação, agir em favor dos outros. Aliás, a palavra herói no grego significa proteger e servir. Desta forma entendemos melhor o dito de Jesus. Sendo herói, ele nos convida a enxergar a longa história do Deus Criador narrada no Antigo Testamento através de seu próprio olhar. Mas de que forma? Preste atenção para não perder nada desse longa-metragem.

Jesus é o quarto ato de um longo drama. O primeiro ato foi a criação (Gn. 1-2), o segundo ato foi a Queda (Gn. 3) e o terceiro o chamado de Abraão e seus desdobramentos (Gn. 12 até Malaquias). Deus prometeu grandes coisas para o mundo através de Abraão e sua descendência. Percebemos, porém, que a grande vocação dada a família de Abraão, de ser o estranho veículo através do qual a benção de Deus alcançaria todos os povos, não se sustenta. Israel foi infiel ao chamado de refletir Deus para o mundo, e assim como Adão e Eva, absorveu a realidade da morte para si. Nesse momento surgem flashes de um antigo casal que foi levado ao exílio (Gn. 3). A história desse casal (Adão e Eva) se repete na vida da família de Abraão (Israel).

Mas se Israel não cumprir sua vocação, o propósito do Criador de abençoar todas as nações e libertar sua criação será abortado. Deveria ele escolher outro povo e recomeçar seu plano? Sua fidelidade a aliança será anulada? Surge aqui um personagem vindo do futuro, como flash em Batman vs Superman (perdoem o spoiler), que responde essas indagações e diz: Certamente que não. Seja Deus verdadeiro e todo homem mentiroso (Rm. 3.3,4).

Deus levantará um israelita fiel, alguém capaz de levar a história de Israel ao seu verdadeiro cumprimento. Esta pessoa será para Israel o que Israel deveria ser para o mundo, o veículo da benção que alcançará todos os povos.

Surge enfim Jesus. De uma forma muito arriscada ele incorpora em sua própria vida a antiga esperança da vinda de um grande e definitivo rei, da restauração do templo, lugar da glória do SENHOR bem como do tão aguardado retorno de Deus ao seu povo. Mas como ele poderia fazer isso? Proclamando em alto e bom som: O tempo é chegado e o reino de Deus está próximo (Mc. 1.15). 

O tom revolucionário da linguagem do reino unido à esperança de sua vinda, junto às frustrações de vários movimentos messiânicos, iria romper o dique represado das águas do longo plano de Deus, varrendo o mal concretado no mundo, surgindo em seu lugar uma nova humanidade e um mundo novo.

Se a notícia da proximidade do reino foi como um raio no céu, as ações de Jesus foram o estrondo desse raio que caiu na palestina do século I. Ele curou, realizou milagres, perdoou pecados, participou de refeições, contou histórias, tudo isso para demonstrar, de todas as formas possíveis, que o reino de Deus estava sendo inaugurado na terra como no céu. Uma nova ordem estava irrompendo no mundo de espaço, tempo e matéria. O que Jesus fazia não era simplesmente curar e salvar as pessoas, mas por meio de pessoas curadas e salvas, levar os propósitos do Criador para sua boa criação.

Não entender isso é o mesmo que apreciar uma paisagem de uma janela sem antes ter retirado suas persianas. Muitas pessoas por não entenderem a vocação de Jesus, confundem, com isso, a persiana com a paisagem por detrás dela. Por exemplo: sabemos que ele veio para Israel, seu povo, mas como este não o aceitou, ele se voltou para as demais pessoas. Costumava ouvir, com base nisso, que a nossa salvação se deve ao fato de Israel ter recusado Jesus, o Messias. Os dados históricos estão certos, mas a interpretação está errada. Deus não escolheu Israel em detrimento das demais nações, mas em favor delas. O amor de Deus por Israel irradiaria para todos os povos alcançando toda a criação. O amor exclusivo se tornaria expansivo. Jesus, com isso, salva seu povo de seus pecados (Mt. 1.21) em benefício da salvação de todos os povos, não como base de alguma expiação limitada. Ele se volta para as ovelhas perdidas da casa de Israel (Mt. 10.5,6) para que Israel se volte para o mundo (Mt. 28.19,20). 

Jesus disse certar vez: O Filho do homem tem na terra autoridade para perdoar pecados (Mc. 2.10). Ao pecar, Adão perdeu sua autoridade na terra, e como consequência a maldição invadiu o mundo criado (Gn. 3.17). Ao perdoar pecados, Jesus inicia o processo de libertação da criação, pois se o pecado de Adão aprisionou o mundo, o perdão dado por Jesus o liberta. Ele assumiu a responsabilidade em seus ombros de levar ao seu verdadeiro cumprimento o que a benção de Abraão prometia e deveria lidar, mas que parecia ser incapaz de realizar. É isso o que vemos em cada página dos evangelhos. 

Ele entendia, com seu apurado conhecimento das Escrituras do Antigo Testamento, que deveria levar a história de Deus com Israel ao seu momento decisivo. Com isso em mente, se dirige para Jerusalém (Mt. 21) com a estranha missão de cumprir o tão aguardado retorno de Deus ao seu povo. Alguns profetas disseram que um dia Deus voltaria para Jerusalém e entraria no templo (Is. 40.3-5; 42.7-10; Ez. 43.1-9; Zc. 2.10-12; Ml. 3.1-4). Jesus sabe que se estiver errado, no melhor dos cenários estaria equivocado, e no pior, seria encarado como um lunático. Ele estava disposto a correr esse risco. Em Jerusalém ele conta a história de um antigo dono de terras que depois de uma longa viajem um dia retornaria (Mt. 21.40; 25.19). O proprietário em questão era Deus. Ele havia deixado seu povo durante o exílio, esse é o referencial da história. Jesus estava dizendo: a espera pelo retorno acabou, chegou o momento de Deus revisitar seu povo. Mas quem tinha entrado em Jerusalém e no templo era o próprio Jesus. A conclusão não poderia ser outra: Deus revisitou seu povo na pessoa desse jovem profeta da Galileia. A esperança se cumpriu, mas de uma forma nunca esperada. 

Ele liderou a decisiva batalha de Deus contra o mal e venceu. Mas isso será uma outra história. 

Esse é o olhar do nosso herói. Não um olhar de filósofo, mas nem por isso menos complexo, nem de um teólogo, mas nem por isso menos religioso, ou mesmo de um cientista, mas nem por isso menos objetivo. É simplesmente o olhar de Jesus.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

A GRANDE HISTÓRIA, PARTE I

INTRODUÇÃO

Todos nós gostamos de uma boa história. Somos envolvidos por um bom drama, aventura, ação ou mesmo terror. Já assistimos, ou lemos a jornada épica de três amigos rumo a terra de Mordor em O Senhor dos Anéis. Nos surpreendemos com todo um mundo contido em um único guarda-roupa, no filme O Leão a Feiticeira e o Guarda-Roupa, na aclamada obra As Crônicas de Narnia de C. S. Lewis.

Atualmente, muitos se tornaram ávidos leitores e telespectadores daquela que é considerada por muitos a maior série de todos os tempos, e a melhor obra de fantasia desde O Senhor dos Anéis. Me refiro, neste caso, a Game Of Thrones. Somos impactados com a trama, não linear, e com o fim inesperado de alguns personagens.

Contudo, posso afirmar, sem sombra de dúvidas, que o maior drama e enredo jamais inventado se encontram na Bíblia. Como assim? Não seria a Bíblia um mero livro composto por um conglomerado de ensinos que muitos não entendem, ou mesmo que devem praticar, mesmo sabendo que seja impossível em nosso mundo pós-moderno? Isso não passa de uma caricatura imposta neste fascinante livro.

A Bíblia narra a história de Deus. De um Deus gracioso, que em amor criou um mundo repleto de vida, beleza e justiça, mas que infelizmente saiu dos trilhos em decorrência de suas próprias criaturas. Narra o seu envolvimento dentro desse mundo, num empenho incansável de concerta-lo, trazendo sua antiga beleza, justiça e bondade, resgatando em suas criaturas, a vocação que Ele mesmo nos deu, refletir sua imagem nesse mundo. Todo esse propósito grandioso (não poderíamos esperar nada menor Dele) seria alcançado por um acontecimento chocante, para espanto de todos, trazendo fim a tudo o que desfigurava sua criação resgatando-a por completo.

DEUS, AUTOR E PRINCIPAL PERSONAGEM 

O lugar onde Deus habita é chamado de céu na Bíblia (Ec. 5.2; Sl. 115.16). O céu é o espaço de Deus. A dimensão do Criador. Ele habita no céu, sem deixar de estar presente na terra. Não é um lugar dentro do nosso universo de espaço-tempo. Na verdade é outra dimensão. Outro mundo. Tão real e concreto como o nosso. 

O céu e a terra são dois mundos distintos, mas não opostos. Podemos dizer que o céu e a terra, o mundo de Deus e o nosso encontram-se separados por uma porta de um guarda-roupa, como na já citada obra de C. S. Lewis.  

A Bíblia relata que esse Deus é alguém completamente envolvido com sua criação. Ele cuida dela como um pai amoroso cuida de seu filho. Envia chuva, sol, faz crescer a vegetação, alimenta os animais do campo. Tudo isso porque faz parte de sua natureza envolver-se com o que Ele criou. Em outras palavras, Ele é AMOR. Em alguns momentos Ele nos surpreende, chamando nossa atenção de maneira inesperada, um presente fora de época, semelhante a alguém que faz uma inimaginável declaração de amor. Queremos dizer com isso que Deus realiza milagres.

O CHAMADO A AVENTURA

O chamado de Abraão é o centro gravitacional de toda a história do Antigo Testamento. É o plano arriscado de Deus para endireitar toda sua criação. O Criador livremente estaria se comprometendo em colocar todas as coisas em ordem. Por meio de Abraão e sua descendência, Deus abençoaria o mundo (Gn. 12.1-3). O chamado de Abraão é na verdade o projeto divino que resolveria tudo aquilo que aconteceu entre Gn. 3-11. Um novo ato dentro de um mundo que se tornava cada vez mais velho. O pecado demonstrou todo seu poder devastador em escala global, do jardim para o mundo todo, do primeiro casal para toda a humanidade. Deus não entregaria o mundo a sua própria sorte. 

Em Gn. 3 somos transportados para um momento confuso do mundo criado por Deus, que precisamos sempre lembrar, era muito bom. Algo tinha saído do lugar. Alguma coisa não estava certa. Uma serpente conversando com uma mulher parecia indicar que as coisas estavam ficando fora de ordem. O homem, de maneira infundada, desconfiou da bondade de Deus, recusou sua autoridade e por fim desobedeceu ao seu mandamento: não comer do fruto proibido. 

Tudo isso fez com que o mundo ficasse de cabeça para baixo. A maldição invadiu o mundo de benção. A feiura corrompeu toda a beleza criada. A morte como sentença pela desobediência irrompeu na estrutura do mundo criado. O homem é expulso de seu lar. As coisas se tornaram difíceis. Mas ainda assim, Deus demonstrou sua fidelidade apesar do comportamento errado do homem. A benção dada por Deus à sua criação não foi revogada. O homem e a mulher ainda teriam filhos. O trabalho continuaria existindo, mas com certa dificuldade. A vida resistiria a inevitabilidade da morte (Gn.5). 

Em Gn. 6 nos espantamos com o avanço do pecado. Tornou-se uma verdadeira pandemia. A humanidade vai de mal a pior. Em uma triste decisão, Deus resolve pôr fim a quase tudo que Ele um dia criou. Parece que o bondoso Criador vai abrir mão de sua criação. Mas não é isso que acontece. Ele salva uma família como demonstração de sua graça bem como uma porção de animais. Ele sabe que está preservando a parte de uma humanidade já deteriorada. Noé, pouco tempo depois de sair da arca, embriagasse.

Por fim, chegamos a Gn. 11. O retrato de um povo orgulhoso, cuja construção, outra coisa não é, senão a exteriorização do seu próprio ego, a torre de Babel. Desejam subir ao céu, mas o que fazem é projetar uma terrível sombra na terra. A primeira rebelião unificada contra Deus. Em juízo, Deus espalha os construtores, impedindo o seu projeto, não por sentir-se ameaçado, mas como medida de proteção para uma humanidade que não sabe o poder destrutivo do mal que tanto usa.

Nesse contexto é que se encontra o chamado de Abraão. O projeto onde a benção substituiria a maldição, o caos daria lugar a ordem e o bem venceria o mal. Mas será que isso daria certo? Diante de um cenário de desesperança o que Deus poderia ter feito? Destruir o homem e abandonar todo seu projeto para com o mundo criado. Não foi isso que ele fez, embora seja isso que alguns pensem que ele fará um dia. Deus assumiu a responsabilidade de consertar, redimir, restaurar o homem em particular e a criação em geral. Mas como? Pondo em andamento um longo, complexo e perigoso projeto de resgate. Ele escolheria, criaria e formaria uma nação especial, tudo isso em favor desse mundo. A maldição entre as nações (Gn. 11) seria superada pela benção que alcançará todos os povos (Gn. 12).

A promessa da terra faz parte dessa grande estrutura narrativa. O projeto de resgate iniciado com a escolha de Abraão possui um elemento fundamental, um fio condutor: a promessa de uma terra. Esse é um tema presente em todo o Pentateuco, Josué, Juízes até a extensão do território da terra com as ações políticas e militares do rei Davi. 

No Pentateuco a promessa é feita, mas não encontramos o seu cumprimento. Veja Gn. 12.1 com Dt. 34.4. Em Josué, ficamos sabendo da invasão, conquista e distribuição da terra. A promessa enfim foi cumprida. Mas, para aqueles que achavam que tudo seriam flores, logo em seguida nos deparamos com o livro de Juízes. Encontramos uma conquista incompleta. A luz da promessa parece projetar uma enorme sombra de incerteza. A terra se torna um lugar de lutas, de sobrevivência. Os filisteus surgem como um grande empecilho para a posse da terra. Samuel, o último dos juízes consegue uma importante vitória sobre os filisteus. Mas foi uma vitória parcial (1Sm. 7). Saul surge como esperança para o caos que ameaçava o povo. Infelizmente os filisteus conseguem uma considerável vitória sobre os israelitas (1Sm. 31). Somente com as campanhas militares de Davi, e com seu inigualável gênio político, os filisteus foram derrotados e as fronteiras da terra prometida puderam ser expandidas (2Sm. 8 e 10).

O progresso proporcionado com a morada na terra da promessa, ao invés de trazer prosperidade em larga escala, trouxe opressão para a maioria dos cidadãos desprotegidos. As grandes construções promovidas por Salomão trouxeram um peso insuportável para (1Rs. 12.4). Nesse caldeirão de acontecimentos surge uma mensagem de ameaça, promovida pelos profetas, ao estabelecimento da terra. Algo novo e impensado. Um dos mais antigo desses profetas literários foi Amós. Veja o que ele disse em Am. 5.2. O tom ameaçador de suas palavras sobe uma nota não escutada ainda pelo povo de Israel. Confira em Am. 5.21-27. A coisa foi tão assustadora e aparentemente herética, que Amós foi obrigado a se calar. Mas veja o que aconteceu (Am. 7.10-17). 

As palavras de Amós se cumpriram em duas etapas. Primeiro com a queda do reino do Norte, com sua capital em Samaria, sob o poder dos Assírios, no ano 721 a.C. Depois com a queda do reino do Sul, a região de Judá, com sua capital em Jerusalém, no ano 587 a.C, sob o poderio da grande Babilônia. O texto de Lv. 26 e Dt. 28, já do conhecimento do povo, se tornou uma triste realidade. Foram banidos da terra. 

Setenta anos depois a Babilônia caiu sob o domínio da Pérsia. Nesse tempo ocorreu o retorno ao lar (Sl. 126). Todavia, o povo se encontrava escravo em sua própria terra natal. Seria essa a restauração, o resgate? Entre os profetas surgiu, assim, a promessa do retorno da presença de Deus (Ez. 37.27 e Ml. 3.1), ou do retorno do SENHOR a Sião. Essa presença renovada de Deus estaria ligada a esperança de um templo restaurado (Is. 2.2,3; Mq. 4.1,2), estabelecimento da justiça e do começo da reordenação do mundo criado. Mas como se daria isso? Não sabemos ainda.

De que forma essa complexa história chegaria a um clímax e resolução? Como saber se o começo promissor de Gn. 1 e 2, mas que foi abortado em Gn.3 seria reiniciado uma vez por todas? Assunto para nosso próximo post. Até lá.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

MINHA VISÃO DE FUTURO


Nunca gostei de filmes musicais. Mesmo pequeno, qualquer desenho da Disney que tivesse música em demasia, me tirava do sério. Não possuo nenhum dom na área da música. Quando tinha uns oito anos, me atrevi a cantar na igreja – até hoje me pergunto como aquilo pôde ter acontecido e porque me deixaram cometer um ato de tamanha insanidade. Cantei o sucesso da época: Toc, Toc, Toc, alguém me bate à porta.... Depois disso, nunca mais cantei um solo.

Por que estou falando isso, se o tema de nosso post é sobre minha visão de futuro? Primeiro, porque sempre me disseram que o objetivo de nossa salvação, quando da vinda de Jesus, seria cantar para sempre no céu – seria isso uma punição por nunca ter assistido um único musical da Disney? Em segundo, a cor desse lugar seria, no melhor dos cenários, mera variação de tons de branco, e no pior, exageradamente monocromática, branco nas roupas e nas nuvens.

Minha visão de futuro é mais dinâmica, possui lugar para os cânticos assim como para o branco, mas não se encerra nisso. Ela é espiritual, mas nem por isso, menos concreta, material. Tem lugar para o céu, mas não exclui, em hipótese alguma, a maravilhosa terra. Engloba a vida humana redimida, e para espanto de alguns, a própria vida animal e vegetal.

Essa minha esperança, não confunda com otimismo, tem seu fundamento na ressurreição de Jesus. Creio, como bem tem destacado alguns recentes teólogos, que Deus fará por sua criação, aquilo que ele fez por Jesus no domingo de Páscoa, uma nova criação. Enquanto alguns esperam a destruição do mundo, aguardo o momento de sua restauração completa. Anseio pelo dia que teremos rios cheios, mas sem enchentes destruidoras; progresso que trará luz ao mundo, sem a sombra da corrupção ou exploração; riqueza e diversidade cultural abençoada, dignificada e redimida, sem nenhum indício de sua degradação atual.

A Bíblia é muito clara sobre tudo isso, mesmo que para visualizarmos esse cenário, tenhamos que atravessar a grossa camada de tradição cristã ocidental enraizada em nossa mente, que descreve uma esperança futura etérea, celestial e não terrenal.

Minha esperança em Deus como Salvador não anula a certeza de que Ele continua sendo o Deus Criador. Salvação e criação andam de mãos dadas na Bíblia. Isso foi notado por Von Rad, em sua Teologia do Antigo Testamento com base nos seguintes textos: Is. 44.24; 54.5; 51.9,10. Podemos dizer que a salvação é sempre em favor da criação, por isso, ao salvar, Deus reafirma o que criou. Agindo salvificamente, reafirmando a criação, Deus a torna nova, produzindo com isso, uma nova criação, não do nada ou do zero, mas da já existente.

Jesus, tanto em sua morte e ressurreição, é a chave para esse entendimento. Numa espécie de semana da criação, ele, na sexta-feira, morre, completa sua obra (está consumado), no sábado, sétimo dia, descansa na sepultura, e de maneira surpreendente, no domingo, primeiro dia da semana, ele ressuscita, iniciando no meio da história e não no final, dentro desse mundo e não fora, uma nova semana da criação, o primeiro dia de um novo mundo. A obra da redenção atinge o seu ápice de correspondência com o relato da criação de Gênesis, quando Jesus sopra o Espírito nos discípulos (Jo. 20.20,21), num claro indício ao ato divino em soprar o fôlego de vida em Adão (Gn. 2.7). Assim como Adão foi chamado a explorar o novo mundo, os discípulos de Jesus, energizados pelo Espírito Santo, são vocacionados a compartilhar as descobertas de um novo mundo e uma nova humanidade que emergiram do túmulo no domingo de Páscoa.

Quando o Filho de Deus se encarnou, houve tanto uma identificação com o ser humano, quanto com o mundo do qual o próprio homem foi criado. A redenção de um implica necessariamente na redenção do outro. Somos salvos como parte do grande plano divino de salvar toda a criação. Se o aprisionamento de Adão ao pecado trouxe maldição em toda a criação (Gn. 3.17,18), a libertação do homem trazida por Cristo se espalhará por toda a ordem criada (Rm. 8.18-23). A cruz possui, com isso, uma dimensão pessoal quanto cósmica (At. 3.19-21; Ef. 1.10; Cl. 1.20).

Dito isso, posso afirmar que minha esperança encontra-se bastante fundamentada nas páginas da Bíblia. Por meio dela vislumbro o seguinte: um novo mundo inundado de vida, encharcado pela presença de Deus, sua justiça, bondade e beleza. Um mundo onde os espinhos que brotaram do Éden serão substituídos pela diversidade de árvores e plantas ornamentais (Is. 55.13; Ez. 47.12); riqueza cultural acumulada ao longo de milênios de história humana (Ap. 21.24-26); exaltação da sabedoria divina e celebração de toda a beleza da nova ordem criada, por meio da música, arte, literatura e afins; harmonia do reino animal, onde as polarizações entre caçador e caça serão completamente abolidas (Is. 11.1-9); integração de todos os povos, marcados pela busca do bem comum (Is. 2.2-4) – um mundo onde a vida venceu a morte, a beleza superou a feiura, o caos deu lugar a ordem.

Bem, essa é a minha esperança. Não poderia ser outra. Afinal de contas, não sei cantar.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

GERAÇÃO DO ARREBATAMENTO?


“Somos a geração do arrebatamento”. É com esta frase que inicio o post de hoje. Essa assertiva descreve muito bem o entendimento bíblico de muitos cristãos referentes às últimas coisas. Infelizmente, trata-se de um entendimento equivocado que faz com que se confunda crença evangélica popular com a fé do cristianismo tradicional do primeiro século registrada nas páginas do Novo Testamento. Ou dito de outra forma, trocamos a música do evangelho do cristianismo nascente por paródias entoadas por evangélicos do século XXI.

Não farei referência ao texto de Mt. 24.40,41, pois essa passagem recebeu uma análise própria no artigo intitulado Leitura Viciada, Deixado ou Tomado? Peço aos interessados que leiam esse post publicado em 2014. Nossa análise se aterá ao tão conhecido e ao mesmo tempo mal-entendido texto de 1Ts. 4.13-18, em especial os versos 16 e 17.

A leitura que se faz dessa passagem de Paulo segue o traço da importação que fizemos do fundamentalismo norte americano. Este desenvolveu um exagerado fascínio pelos acontecimentos relacionados às últimas coisas, ou escatologia. O elaborado plano desenvolvido, ou mapa estrutural de como se dará cada um dos eventos futuros, conhecido por dispensacionalismo, cuja origem remonta a J. N. Darby e aos irmãos de Plymouth, século XIX, espalhou-se rapidamente como interpretação normativa das Escrituras. Entre os livros que poderíamos destacar, citamos o Manual de Escatologia de J. D. Pentecost, da editora vida. A Bíblia de estudo de Scofield (que popularizou o conceito no Brasil) e a Bíblia de Estudo Pentecostal são baseadas nessa corrente interpretativa.

O dispensacionalismo entende que estamos vivendo no fim dos tempos, e em breve todas as profecias referentes a Israel irão se cumprir. Pelo fato de a igreja ser um intervalo no plano que Deus elaborou para Israel, Jesus voltará secretamente para leva-la (o arrebatamento), iniciando assim a Grande Tribulação e a batalha do Armagedon (mais Hollyoodiano seria impossível), para depois retornar visivelmente para a terra.

A essa altura você pode estar perguntando: “Mas quando Paulo diz que seremos arrebatados para encontrar com Jesus nos ares, não está dizendo que ele virá levar sua igreja, como pensa o dispensacionalismo?” A resposta é não.

O dispensacionalismo fez com que a palavra arrebatamento evocasse na mente de muitos crentes a seguinte imagem: em um determinado dia, quando tudo parecer transcorrer na mais perfeita normalidade, alguns cristãos simplesmente desaparecerão, literalmente levados ao céu, numa vinda secreta de Jesus, deixando roupas e tudo o mais que estiverem usando no momento. Isso provocará um caos sem precedentes, com carros desgovernados e aviões em queda livre, pois seus condutores foram levados (arrebatados) da terra.

Antes de qualquer coisa, temos que ter em mente que o imaginário que envolve o conceito do arrebatamento não faz parte de 1Ts. 4.16,17 nem em nenhum outro escrito do Novo Testamento, mesmo diante do entendimento vigente em contrário. Mas se não é isso que Paulo queria afirmar, então o que ele tinha em mente ao escrever 1Ts. 4.16,17?

Paulo busca, nesta passagem, encorajar os cristãos de Tessalônica diante do aparente problema que envolvia a espera pelo retorno de Jesus em face da morte de alguns crentes. Somente os vivos seriam beneficiados nesse dia? A resposta de Paulo é que os mortos ressuscitarão para que juntamente com os demais cristãos vivos, quando do aparecimento de Jesus, possam recepcionar seu Senhor que vem.

Como alguém que oferece um copo com água para um viajante no deserto com a intenção de que este adquira forças até ser conduzido a um oásis, Paulo faz com que seu argumento inicial atinja um clímax com o uso de metáforas oriundas tanto de seu mundo judaico quanto romano.

Em sua teologia, Paulo possui algumas histórias controladoras que servem de terreno para a construção de seu pensamento. Ao citar o “ressoar da trombeta” seguido de “o próprio Senhor descerá dos céus” (v.16), Paulo utiliza a história do aparecimento de Deus (teofania) no Monte Sinai em Ex. 19.9-19, quando Deus desceu em uma montanha para encontra-se com seu povo. Paulo diz que isso novamente vai acontecer, pois Deus descerá, não em uma montanha, mas em toda a terra, seu lugar por direito, para encontrar-se com seu povo renovado.

Outra história utilizada por Paulo é a de Daniel 7 sobre o Filho do Homem vindo nas nuvens do céu. O Filho do Homem que surge nas nuvens, é a descrição que a vinda se dará diante da glória de Deus (note 1Ts. 4.17), pois nuvens na linguagem bíblica simbolizam a presença de Deus.

Com esse imaginário em mente, Paulo acrescenta a metáfora da visita do imperador a uma província ou colônia. O termo comumente traduzido por vinda no v. 15 é parousia, que significa presença. Esse é um termo oriundo de textos helenistas e romano. Quando o imperador fazia uma visita a cidade que lhe pertencia, os cidadãos deveriam sair da cidade para encontrar com o imperador que ainda estava a caminho. Feito essa recepção inicial, todos, juntamente com o imperador entravam oficialmente na cidade. Desta forma, o rei se tornava presente depois de um período de ausência.

Temos com isso o quadro completo descrito por Paulo. Jesus aparecerá em manifestação gloriosa, assim como a ocorrida em Ex. 19.9ss. Neste dia, ele vindicará seu povo, virá em seu auxílio, na descrição de Dn. 7. Aparecerá como rei, o verdadeiro Senhor de toda a terra. É melhor pensarmos na manifestação visível (cf. Cl. 3.4; 1Jo.2.28; 3.2) da presença daquele que nunca havia nos deixado, mas que de uma forma que nos embaraça, encontra-se ausente de nós (perdoem-me a confusão), que imaginarmos Jesus como alguém que voltou de um lugar muito distante, como numa espécie de Super-Homem. Falamos “a vinda de Jesus”, assim como dizemos que o sol está se pondo ou nascendo, mesmos sabendo que é a terra quem gira.

“O encontro com Senhor nos ares”, que faz parte da metáfora da visita do imperador empregada por Paulo, não quer dizer que seremos levados para a atmosfera, mas sim, que recepcionaremos a presença do verdadeiro Senhor do mundo (da mesma forma como se fazia com a vinda do imperador antes deste chegar a cidade) e o acompanharemos para o lugar onde ele está se dirigindo, neste caso a terra, o lugar de seu reino. O encontro não é para sermos levados ao céu, mas para virmos juntos com Cristo para a terra.

Retornando a analogia da música no primeiro parágrafo, entendemos que existe uma linda orquestra diante de nossos olhos. Somos convidados a ouvir sua linda sinfonia. De nada adiantará encontrar-se diante desse majestoso som se não retirarmos nossos fones de ouvido.