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terça-feira, 21 de agosto de 2018

THANOS E SUA VISÃO DE MUNDO PAGÃ

O que falar de um filme como Vingadores, Guerra Infinita? Não me vem outra resposta senão THANOS. Que vilão tão bem construído! Nada daquelas caricaturas ultrapassadas, tais como risada estrondosa, voz grave ou rouca demais como Mumm Ra de Thundercats, ou discursos de destruição total do mundo semelhante ao encontrado em X-Men, Apocalipse. Não é atoa que “uma boa história é boa quando o vilão é bom, pois um inimigo poderoso força o herói a crescer para enfrentar o desafio” (Voegler). 

O titã louco foi magistralmente humanizado, seja pela serenidade de sua voz, ou mesmo expressões faciais. Thanos é bastante pragmático em sua visão de mundo. Sua “nobre” intenção é manter o equilíbrio do universo, dessa forma ele deseja realizar um controle demográfico em escala cósmica com o genocídio da metade da população de todo o universo, isso fará com que a balança dos recursos naturais se estabilize com seu consumo. O fim da fome só virá com o fim dos famintos, e ele está irredutivelmente certo de sua missão. “Um tipo perigoso de vilão é “o homem determinado”, a pessoa tão convencida de que sua causa é justa que nada o impedirá de alcançá-la” (Voegler). 

É nesse cenário que encontramos duas visões de mundo que se colidem. Se Thanos está disposto a arriscar tudo para dizimar metade da vida do universo, os Vingadores se arriscam para salvar uma única pessoa. “Não negociamos vidas!”, disse Steve Rogers. Descartar metade da vida do universo para que a outra sobreviva, como quer Thanos, é uma visão de mundo pagã. Já a defesa da vida, mesmo sob o risco de morte defendida pelo Capitão América é essencialmente cristã. Enquanto todos buscavam se salvar das epidemias que assolavam os dois primeiros séculos da era cristã, os seguidores de Jesus decidiram ficar para cuidar dos doentes, mesmo sob o risco de morte. Se era comum o alto número de infanticídio de meninas no mundo greco-romano, foram os cristãos que levantaram suas vozes em protesto. O respeito a dignidade do outro, não importando sua classe social ou etnia, mesmo que defendido em um mundo secular como o nosso, não é outra coisa senão um valor cristão. 

Thanos deseja promover uma roleta russa para inibir o aumento do controle populacional. Com um simples estalar de dedos, o gatilho da aleatoriedade seria acionado para dizimar metade da vida do universo, sem saber, todavia, quem seria o sorteado. Essa é a sua justiça, não escolher quem deverá morrer. Claro que o titã não estará entre os “felizardos” com a possibilidade de ser escolhido. Como muitos ditadores ao longo do tempo, Thanos, sob a justificativa do bem comum, está disposto a promover o sacrifício de muitos. 

"Não é justo. Não devia ser você, mas é. Não tem problema. Você nunca poderia me machucar”. Nesse diálogo entre Visão e Feiticeira Escarlate – que para alguns soou meio piegas – ao menos para mim foi muito revelador. Uma coisa seria o Visão ser morto por alguém que lhe fosse indiferente, já ser morto pela pessoa que nunca lhe faria mal, é muito assustador. É aqui mais uma vez que vemos a visão de mundo cristã superando a cosmovisão pagã. A autodoação, o coração da mensagem do evangelho, que Deus Pai abriu mão de seu único Filho, e este abriu mão de toda sua glória para morrer numa cruz. Claro que Deus Pai nunca faria mal algum ao seu Filho, mas cabia a Ele a árdua tarefa de ferir seu Filho na cruz em benefício daqueles que na cruz deveriam morrer. 

Para Thanos alcançar seu objetivo bastava fechar o punho e estalar os dedos. Deus em Cristo, por sua vez, fez o que fez não fechando seu punho nem estalando os dedos, mas abrindo suas mãos ao conceder perdão e ajuda aos mais fracos e ao abrir seus braços na cruz, não em demonstração de fraqueza, mas do poder do amor divino que destrói qualquer manopla do infinito.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Homem-Aranha: De Volta Ao Lar e a Escolha Dos Doze Discípulos

O Homem-Aranha é um daqueles super-heróis que dificilmente alguém não consegue apreciar. Ele é um jovem estudante, possui obrigações em casa, na escola e mais, deseja salvar o mundo. Só sendo Peter Parker para alcançar êxito em tantas tarefas. 

Apesar de ser um filme de herói de quadrinhos, o longa é muito real ao abordar nosso “maravilhoso mundo novo”. Pode-se identificar facilmente pessoas de diversas nacionalidades, a marca de uma era globalizada. A vida e dilemas de um estudante são pontuados na mediada do possível, tais como o amigo nerd, a paixão por uma garota e afins. Até mesmo o preconceito com os latinos é abordado, mesmo que em uma cena cômica. 

O espanto que temos em descobrir quem é o vilão em sua “vida normal” foi uma experiência pouco vista em muitos filmes dessa natureza. Sempre imaginei o problema que seria para o Homem-Aranha viver numa cidade pequena ou mesmo numa área onde não predomina os grandes edifícios. Como lançar sua teia para se locomover? Não é que até isso nós encontramos no filme. Minha curiosidade foi atendida. 

Mas o que isso tem a ver com a escolha dos doze discípulos? Bem, Parker é um estudante qualquer, ao menos é o que as pessoas imaginam. O mesmo se dá com a escolha de simples pescadores feita por Jesus. Embora Parker possua uma força e habilidades incomuns a qualquer ser humano, o que justifica a escolha feita por Tony Stark, no caso de Jesus não havia nada nos discípulos que justificasse a sua seleção. Enquanto o primeiro escolhe seu “discípulo” porque viu algo, o segundo escolhe porque deseja que algo no futuro seja visto na vida de seus discípulos. Tony Stark atuou por mérito, Jesus por pura graça. 

Logo no início do filme vemos Parker entusiasmado em saber ter sido alistado para sua grande tarefa. Sua alegria é maior que sua responsabilidade, ao menos no início. Ao tentar impedir o roubo em um banco, por pouco não provoca uma tragédia maior. Quando perseguiu o vilão da história - mais uma vez as coisas não saem como imaginava – se não fosse o próprio Stark para socorre-lo, teria sido o Homem-Aranha o vilão por quase provocar a morte de dezenas de pessoas. Ele parece não acreditar que Tony Stark é mais sabedor dos perigos de ser um super-herói do que ele. Parker possui o desejo de fazer, embora lhe falte um pouco a disposição em aprender. 

Temos aqui uma teia que liga o Homem-Aranha aos doze apóstolos. Os discípulos aceitam o convite de Jesus para segui-lo, mas ao longo da caminhada parecem não entender o que isso implicaria. Estão alegres por fazerem parte do movimento liderado pelo messias prometido, o rei ungido que traria o reino de Deus ao mundo. No entanto... 

Jesus os chama para assumir o caminho do sofrimento e amor doador, mas o que dois deles desejam é a morte de uma comunidade de samaritanos (Lc. 9.51-56). O que significa poder é redefinido por Jesus ao demonstrar força na fraqueza e serviço humilde ao outro, enquanto os discípulos estão preocupados em saber quem será o maior entre eles. Ao tentarem agradar seu mestre os discípulos o decepcionam pois tentam impedir que crianças o encontrem, quando o mesmo deixou bem claro que receberia em seus braços todos que viessem até ele. Embora Jesus tenha enfatizado a necessidade de sua morte na cruz, um de seus seguidores tenta corrigi-lo contra tal pensamento. Mesmo tendo demonstrado tanto em ações quanto em palavras a necessidade de seus seguidores se manterem unidos em torno dele, antes de ir para a cruz todos os abandonaram, enquanto ele os amou até o fim. 

Em um de seus diálogos Parker é indagado sobre a seguinte questão: “Como é ser famoso quando ninguém sabe que é você?” Neste caso, o que o motiva a arriscar sua vida em favor dos outros, se quando ele é visto em ação o que se vê é a figura do Homem-Aranha e não a face do Peter Parker? Mas não foi isso o que Jesus ensinou em Mt. 6.1-6 sobre o ajudar sem a necessidade de ser visto? Assim como Parker, somos nós, seguidores de Jesus. Nossa função não é tornar nosso nome conhecido, mas tornar conhecido o nome de Cristo por aquilo que fazemos. Não precisamos de selfies quando nos dispomos a ajudar os outros. 

Ao saber que perderá seu traje, algo que não poderia imaginar, Stark lhe diz: “Se você não é nada sem o traje, então você não deveria tê-lo.” Onde está minha identidade? Quem é o Homem-Aranha? Quem são os discípulos? Aqui, Bíblia e Hollywood nunca estiveram tão próximos. Peter Parker aprenderá que pode ser o herói independente do traje. Não é o traje quem salva, mas aquele que o veste. Não foi o mesmo que aconteceu com os discípulos de Jesus? Ele disse que para fazerem o que foram vocacionados a fazer não precisariam de traje algum: “Não levem ouro, nem prata, nem cobre em seus cintos; não levem nenhum saco de viagem, nem túnica extra, nem sandálias...” (Mt. 10.9,10). A identidade deles estava atrelada à missão e não a alguma espécie de posse. 

Peter Parker terá em sua vida muitas missões para realizar, muitos riscos a correr, suor a derramar. Ele não saberia viver de outra forma. Conosco, deve ser o mesmo. Temos uma missão. Fomos alistados num grande exército, que ao contrario dos Vingadores, é formado por um único herói, Jesus. Ele nos envia a esse mundo. Pede que escalemos montanhas, derramemos nosso suor, nos arrisquemos. Foi o que ele disse: “Assim como o Pai me enviou, eu os envio.” (Jo. 20.21). 

Parker foi convidado a lançar sua teia, os discípulos suas redes. E nós?

sábado, 3 de março de 2018

CRISTIANISMO VIKING

Não é preciso dizer muito sobre a atração que a série Vikings produz em seus fãs. Quem nunca ficou fascinado ao assistir na TV soldados destemidos, de semblantes ameaçadores, com escudos e machados em punho durante uma batalha? Qual amante de uma boa série não gosta de uma trama envolvente? Que leitor de mitologia não se encanta em ver mitos entretecidos na vida de seus personagens? Tudo isso nós encontramos na série da Netflix.

Levantando as velas de nosso barco viking, desejo entrar em águas não navegadas, ao menos por parte de alguns fãs da série. A brutalidade existente nos mitos nórdicos pode ser vista no estilo de vida viking, o que faz deles um povo coerente, ou seja, a vida dos deuses refletida em comportamento terreno. Deuses ávidos por sangue produziu um povo sangrento.

Nesse lugar coberto de neve, a morte faz parte do tear que compõe o tecido da vida. Basta assistir um episódio para se comprovar isso. Seu horror pode ser visto embora sua realidade brutal não seja temida. Isso se deve a uma visão de mundo fatalista. A morte de um inimigo ou mesmo do guerreiro viking em batalha não é outra coisa senão o resultado inevitável de algo que não poderia ser alterado.

O que me chama atenção na série é como cristianismo e mitologia viking se confundem. Penso que isso é tanto intenção do autor quanto constatação de um dado histórico pontual. Vemos, com isso, tanto traição, ganância e brutalidade em ambos os lados. Presenciamos ocorrências místicas tanto no terreno da cruz quanto no território do martelo de Thor. A fé do padre Athelsten é contrastada com a fidelidade de Floki aos seus deuses. Se os vikings matam em nome de Odin, o lado cristão diz matar em nome de Cristo. Nada mais autocontraditório. Um cristianismo brutal se torna, assim, um cristianismo pagão. Não dá pra fazer uso da força em nome daquele que morreu para acabar com toda forma de comportamento brutal. O cristianismo da série Vikings se auto-anula, destrói sua própria Mensagem ao deixar rastros de morte. A vitória dos que matam se torna a derrota dos próprios vencedores. Claro que não podemos confundir esse cristianismo medieval com a fé judaico-cristã das páginas da Bíblia.

Se os vikings aguardam o dia do Ragnarok (o crepúsculo dos deuses), o fim de acordo com sua cosmovisão, quando deuses, gigantes e guerreiros lutarão até não existir mais nada, e toda criação afundará num mar escuro, a mensagem cristã pode dizer em termos vikings que o Ragnarok já aconteceu, ao menos não na forma como eles imaginavam nem no lugar ou tempo em que eles esperavam.

A batalha decisiva foi travada por um homem, Jesus, o Messias, não por um exército de guerreiros. O mal em todas as suas formas foi decisivamente derrotado. Sua dimensão oculta, semi-pessoal, foi vencida lá na cruz, lugar onde o amor e a justiça de Deus se revelaram. Um mundo de injustiça, maldade e traição afundou em si mesmo no dia em que o mal fez o pior com o Filho de Deus. O fim foi inaugurado no meio da história. Um novo começo iniciou.

Se fosse possível um duelo entre Jesus e Thor, posso dizer que Cristo morreria, mas é certo que o deus do martelo perderia. Pois enquanto na mitologia nórdica Thor vence pela força bruta, a mensagem do evangelho diz que Cristo venceu a força bruta pelo amor que se doa. A força bruta vence no mito, o amor, por sua vez, venceu na história. 

sábado, 4 de novembro de 2017

MULHER MARAVILHA E O JESUS MARAVILHOSO

Mais uma vez pude agradecer a Deus pelo dom da cultura. É libertador compreender que o Deus revelado na Bíblia é maior do que a nossa compreensão sobre ele. Saber que ele está tão interessado em religião quanto em política, se entusiasma tanto com um belo culto quanto com um filme bem feito. É gratificante entender que o verdadeiro e único Deus não é um religioso alienado. Como seria bom apreciar um filme e perguntar a Jesus o que ele achou do que assistiu. Com sua capacidade de reflexão demonstrada nos evangelhos, não podemos imaginar que ele só tenha opinião sobre textos da Bíblia. “Penso que Deus pode ficar ofendido ou encantado com a arte, mas nunca surpreso” (Steve Turner). 

Pois bem, o filme que assisti foi Mulher Maravilha. Vemos uma Diana, diga-se de passagem, filha de Zeus, (alerta vermelho para spoiler) com um olhar mais humano sobre a vida que os próprios humanos. Ela se encanta com um bebê nos braços de sua mãe e se deslumbra até mesmo com um simples sorvete (qual criança nunca fez isso?). Sente, ao mesmo tempo, o horror que uma guerra pode provocar, sendo humana o bastante para sentir compaixão dos animais tratado com tanta indiferença pelas pessoas. 

No cenário em que vivemos, o da efervescência feminista, pensei que o filme teria a intenção de unir voz ao coro contra tudo que tem relação ao universo masculino. Ao menos não foi isso que vi. Ela é a única mulher num grupo composto de homens com a missão de salvar o mundo, mas que não despreza o gênero masculino, pois agrega até mesmo aquele que não se sente útil para a missão (quem viu ao filme sabe do que estou falando). 

A composição da obra é bem estruturada em três atos, naquilo que se convencionou chamar de a Jornada do Herói, muito bem desenvolvida no livro A Jornada do Escritor de Christopher Vogler. Primeiro vemos Diana em seu mundo comum, um lugar protegido dos perigos do mundo, uma espécie de Éden na terra. Vemos que há uma perturbação da ordem natural quando um avião cai no oceano e logo é seguido por uma invasão de navios alemães. O segundo ato é marcado por desafios iniciais, encontro com aliados e novos inimigos. O terceiro é marcado pela luta decisiva seguida pelo retorno da heroína com o resultado alcançado para o mundo.

Uma coisa que me chamou a atenção foi o destaque para o elemento da fé. Próximo do fim, Diana olha para seus amigos na batalha com o rifle sem munição, e logo em seguida os veem dar as mãos em atitude de oração na busca por livramento. A própria Diana acredita que pode haver paz no mundo, desde que o deus Ares seja completamente destruído. Em um diálogo com Ares, ela é tentada a assumir uma missão que não era a sua para ter como recompensa o mundo restaurado. Nem é preciso dizer que isso faz um paralelo com a tentação de Jesus no deserto (Mt. 4), momento em que ele é induzido a ser um outro tipo de salvador. 

Steve Trevor, o espião inglês não acredita na existência de Ares. Para ele isso não passa de um mito. Steve deve levar em consideração que se Diana pôde fazer o que fez na batalha inicial tudo indicaria que ela estava certa a respeito da existência do deus da guerra. Isso tem uma forte relação com os evangelhos. Se Jesus fez o que os evangelhos dizem que ele fez, temos que levar em consideração seu ensino, em fim, tudo o que ele acreditava. Não podemos ficar com suas ações e desconsiderar seu ensino e sua crença. 

Steve afirma que homens são os únicos responsáveis pelo horror da guerra. Diane está convicta que Ares é o único responsável. Ambos estão equivocados. Vemos que Ares existe e que os homens são seres cruéis e não merecedores de ajuda. Ares simplesmente incentiva o uso da maldade, mas não faz o mal por eles. Nisso há uma relação com o que a Bíblia diz a respeito da existência do diabo assim como constata a maldade do coração das pessoas. 

No confronto final, Diana, antes de desferir o último e decisivo golpe que destruirá Ares, faz um gesto que se assemelha a Cristo na cruz. Logo em seguida o sol começa a nascer no horizonte, uma correlação com a ressurreição de Jesus, que marcou as primeiras horas de um novo dia. Mas para nossa surpresa Diana diz que sua luta contra o mal nunca acabará, o homem sempre terá a escuridão dentro de si. 

É aqui que entra em cena nosso Jesus Maravilhoso (Is. 9.6). Ele desferiu um golpe decisivo no mal que desfigura a criação de Deus. O mal foi derrotado, mas aguarda a sua completa destruição quando de seu aparecimento em glória. Jesus destruiu o mal não pela força bruta (algo que Diana quase realiza) mas pelo poder do amor, o protesto de Deus contra toda maldade e indiferença entre os homens. Não teremos para sempre a mesma humanidade deteriorada, pois na cruz uma humanidade e um mundo caído chegam ao fim e em sua ressurreição uma nova humanidade e o início de um novo mundo emergem da sepultura.

Por fim, quero falar de algo que acontece no início do filme, quando percebemos que a ilha em que Diana mora é separada do mundo dos homens por uma fina película. Penso que o mundo de Deus e o nosso, céu e terra estejam da mesma forma separados. Ao mesmo tempo juntos e oculto um do outro. Em breve essa película será tirada, quando veremos do nosso mundo o próprio mundo de Deus, e teremos com isso um novo céu e nova terra (Is. 11; Ap. 21). 

terça-feira, 19 de setembro de 2017

ROCK IN RIO E A UTOPIA

O Rock In Rio começou nessa última sexta-feira (15/09). A surpresa aguardada para a abertura se deu com a participação da modelo Gisele Bündchen e seu discurso sobre a necessidade de construirmos um mundo melhor, igualitário e com a devida atenção ao meio ambiente. Suas palavras – ao menos para mim – soaram muito verdadeiras. Mas não é sobre a sinceridade do discurso proferido que desejamos analisar. O que nos propomos nesse post é averiguar o que não foi dito, mas que era a base subjacente de toda a mensagem proferida.

Não precisamos discutir o mérito do anseio por um mundo melhor. Quem não deseja? Com exceção de Dark Side, Lex Luthor, Apocalipse e Coringa, creio que a resposta seja positiva. O otimismo por um mundo melhor e o idealismo do progresso humano, as bases do discurso feito no Rock In Rio, esbarram em tudo aquilo que insistentemente nos leva a pensar o contrário: duas guerras mundiais; Auschwitz; opressão, miséria, injustiça e morte como frutos das ideologias comunistas no afã de uma sociedade justa; violência em escala endêmica; terrorismo que parece não conhecer nenhum tipo de fronteira; degradação irrefletida do meio ambiente; insensibilidade, orgulho, imoralidade e alienação apesar dos avanços da tecnologia e da ciência. A utopia da construção de um mundo melhor colide na aridez de um mundo distópico à semelhança de Mad Max. 

Deveríamos então ser pessimistas? Largar a ponta da corda do otimismo para ficar com a outra extremidade, o pessimismo? Parece que é isso que muitos cristãos vêm adotando como fruto de sua leitura bíblica. “O mundo só vai piorar com o passar do tempo”, assim afirmam muitos pregadores e entusiastas das “últimas revelações proféticas”. Se tudo vai se degradar de qualquer jeito, porque alguém deveria se preocupar com esse mundo? Temos que lutar para que pessoas sejam salvas desse mundo, - diriam alguns – pois dessa criação não se pode esperar mais nada. Quem consertaria um computador que seria levado ao lixo no outro dia? Ou melhoraria a casa que foi condenada à demolição pela Defesa Civil? Se por um lado o espírito secularista de nosso tempo proclama um otimismo ingênuo no progresso humano, os cristãos de vertente alienadora exaltam uma espécie de pessimismo sombrio incompatível com a fé judaico-cristã. 

O que propomos é uma visão de mundo realista, sustentada pela meta-narrativa das Escrituras. A Grande História que explica as diversas histórias do nosso mundo. O abandono do otimismo ingênuo e do pessimismo sombrio que dá lugar a realidade da esperança bíblica. A resposta para nossas angustiantes perguntas: Por que o mundo está assim? O que nos impede de colocá-lo nos trilhos, se é que existe algum? O que há de errado com o ser humano? Há algum fundamento para esperança? Nossa resposta está contida não em pequenas sentenças que devem ser recitadas, mas numa grande história que deve ser contada, narrada em um “box com quatro discos blu-ray” – Criação, Queda, Redenção e Consumação.

PRIMEIRO ATO – CRIAÇÃO (Gênesis 1-2)

Esse mundo é o resultado da ação livre das mãos de um bondoso criador. Deus criou um mundo repleto de beleza, justiça, bondade e que foi em certo sentido arrendado ao ser humano para ser compartilhado em igualde de condições. O homem deveria cuidar e levar o mundo a sua verdadeira frutificação. Mas... 

SEGUNDO ATO – QUEDA (Gênesis 3)

Alguma coisa parecia estar errada. Uma serpente falando demonstrava que algo estava fora do lugar. O homem dá um salto de autonomia. Deseja um conhecimento e poder ilimitados. Desconfiaram da bondade de Deus e se rebelaram contra sua autoridade. O jardim que deveria florescer em toda a terra cedeu espaço a um deserto e no lugar de árvores, espinhos. A terra foi amaldiçoada e a morte se espalhou entre as pessoas. O homem fez tudo dar errado. Será que o criador abandonará sua criação? O que ele poderia fazer num cenário desses? 

TERCEIRO ATO – REDENÇÃO, PLANO DE RESGATE (Gênesis 12 – João 21)

É o ato mais longo de todo esse drama. Deus escolhe o desconhecido Abraão e diz que por meio dele reverteria toda a confusão e consertaria tudo o que Adão fez de errado. Mas o que se vê é mais confusão, imoralidade, idolatria, opressão, ganância e por fim, exílio. Nada parece funcionar. Teria o criador perdido as amarras da história? É nesse momento que ele tira uma carta decisiva e a lança na mesa. Deus mesmo vai entrar em cena. Vai desafiar o monstro indomável do mal na fragilidade de uma criança. É ele, Jesus de Nazaré. Vemos sua proclamação de que o reino de Deus estava próximo e suas ações que demonstravam como é o mundo quando governado por Deus. Ele morre de forma brutal, mas não trágica, pois na cruz ele derrotou o mal que tentava impedir os propósitos de Deus para sua criação. Ele ressuscita e antes de ir para o mundo de Deus, a dimensão do Criador, convoca seus seguidores a proclamar que o mal foi vencido e que um novo começo se iniciou, que o projeto abortado no Éden foi reiniciado em sua vida, morte e ressurreição e que um mundo melhor é possível. O que esperar agora?

QUARTO ATO – CONSUMAÇÃO (1Coríntios 15; Apocalipse 21-22)

O que Jesus fez e continua fazendo por meio da vida de seus seguidores no poder do Espírito Santo será completado no dia do seu retorno. O mal foi vencido na cruz e será aniquilado com o aparecimento do Filho de Deus quando a dimensão invisível do Criador ficar visível em toda essa terra. Nesse dia haverá cura completa para o meio ambiente em geral e para o nosso corpo em particular.

Essa é a narrativa que explica nosso mundo. Cremos que o mundo pode ser melhor agora não por causa do homem em geral, mas por aquilo que um homem em particular fez ao morrer e ressuscitar. Pela fé no Cristo que morreu e ressuscitou podemos trabalhar por um mundo melhor, pois temos a esperança que um dia Deus tornará essa criação decadente em uma nova criação. Podemos trabalhar localmente por sabermos que Deus aperfeiçoará nossas ações em escala global. A reforma social é possível devido a redenção em Cristo já ter acontecido. Não precisamos ser otimistas utópicos nem pessimistas distópicos, antes, a fé em Cristo “transcende essas realidades, não se refugiando no céu ou na utopia, nem sonhando estar em uma outra realidade. Ela pode passar os limites da vida humana, cercados por sofrimentos, pecados e morte, somente lá onde eles foram realmente derrubados; somente pela aceitação do Cristo ressuscitado do sofrimento...” (MOLTMANN). 

É certo que não ouviremos isso no próximo Rock In Rio. Mas será que poderíamos ouvir nas igrejas?

terça-feira, 27 de junho de 2017

LOGAN E A TEOLOGIA

Minha relação com os X-Men vem de longa data, quando o desenho era apresentado pela Rede Globo nos anos 90, 1994 para ser mais preciso. Tenho, desse mesmo ano, um Hq do Wolverine nº 34. Sempre que assistia aos episódios eu pensava (lembro que comentei isso uma vez com meu primo George): quando farão um filme dos X-Men, ou do Wolverine? Muita coisa se passou desde então, e ontem pude assistir ao último filme do Wolverine, Logan. Sempre que nos encontramos diante de algo grandioso, alguma coisa nos acontece, uma sensação de alegria, somos tomados por um sentimento de grandeza. Foi isso que me ocorreu ao assistir esse épico do cinema. 

Sei muito bem que o filme é violento. Mas em nenhum momento o diretor rompeu os limites entre violência abordada e maldade explorada de forma desmedida. Percebe-se que "existe um convite para a redenção, a esperança de uma humanidade melhor, e não uma negação niilista do tipo: Essa é a vida real. É melhor se acostumar com ela" (Brian Godawa). O filme conseguiu algo difícil em se tratando de longas de super-heróis, a humanização dos personagens. Somos brindados com emoções verdadeiras tanto de Logan quanto do professor Charles, mas nunca sentimentalismo forçado. O primeiro possui um enorme cuidado com o professor nonagenário, e o segundo nos mostra a dor de uma mente cansada que somente deseja ter uma refeição e uma noite de sono em paz – mais humano, impossível. 

Tendo isso por assentado, quero fazer referência a duas frases ditas em momentos distintos do filme. A primeira foi pronunciada por Charles ao próprio Logan: “Eu sempre sei quem você é. É que as vezes não te reconheço”. Ouvimos isso depois de vermos um Wolverine decadente, alcoólatra, tentando negar quem é ao assumir a profissão de motorista. Sabemos quem é Wolverine, mas não estamos reconhecendo-o. Olhando para a Bíblia, vemos um Deus que nos criou, que sabe quem nós somos, “imagem e semelhança de Deus” (Gn. 1.27), mas que infelizmente não nos reconhece. Fomos criados para refletir a vida de Deus nesse mundo, mas o que espalhamos é morte, indiferença, orgulho, egoísmo, imoralidade e destruição. Caímos num momento da história de nosso estado de bondade inicial (Gn. 3). Somos quem não deveríamos ser. 

A outra frase foi dita por Logan a jovem mutante Laura: “Não seja aquilo que eles fizeram de você”. Que frase bíblica! Laura é uma mutante, produto de laboratório, criada sem nenhum afeto, propensa a ser para os outros aquilo que outros foram para ela. Diante das injustiças sofridas, Laura poderia ter sua identidade distorcida, definida somente por sua dor. Ela precisa ser mais que a soma total de seus sofrimentos. Miroslav Volf, teólogo batista, assim se expressa: “Em vez de sermos definidos pelo modo como os seres humanos se relacionam conosco, nós somos definidos pelo modo como Deus se relaciona conosco”. Laura precisa ter sua identidade definida pelo comportamento de Logan com ela. Como cristão, devo ter meu comportamento alterado não pela injustiça que outros praticaram contra mim, mas pelo amor, misericórdia e bondade realizado por Deus em Cristo Jesus na cruz, lugar onde ele carregou toda nossa culpa e dor. 

Após se despedir de Logan, que foi morto sobre um madeiro (1Pe. 2.24) Laura se encontra diante de uma nova possibilidade, um futuro aberto se apresenta. Da mesma forma, Deus em Cristo Jesus nos promete um futuro de redenção, um mundo de vida, paz, justiça e beleza, um novo céu e nova terra (Ap. 21), o que para Laura seria a esperança do lugar chamado Éden.

Enquanto Logan vive uma decadência física e Charles uma fraqueza mental, o nosso herói Jesus, aquele que morreu, ressuscitou, ascendeu ao céu e em breve voltará de mudança para nosso mundo continua sendo “o mesmo ontem, hoje e para sempre” (Hb. 13.8). 

Obrigado por tudo Wolverine.