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quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

BATISTA AO TELEFONE


Ao assistir televisão no primeiro domingo de 2016, e último de minhas férias, me deparei com o canal que transmitia a programação da igreja plenitude do trono de Deus (ou seria deus?). O programa era ao vivo, e estava sendo apresentado pelo apóstolo (o nome não importa, é mais um apóstolo). Ele atende ao telefone, e para minha surpresa, a pessoa do outro lado da linha era uma crente batista. Como? Isso mesmo, batista.

Ela desejava participar do evento que ocorrerá em fevereiro aqui no Brasil com Benny Hinn. É isso mesmo, Benny Hinn. Logo pensei: “2016 não começou bem para o Brasil”. Imediatamente o apóstolo ficou surpreso. Seus olhos até lacrimejaram, pois para ele, era uma batista que acreditava na “unção do Espírito”. Trechos das performances de Benny Hinn, semelhantes ao hadouken do game Street Fighter foram mostradas, onde ao canalizar as forças do Espírito (ou espírito?) com um leve movimento das mãos, fez as pessoas caírem, trêmulas, ao chão.

Desejo, nesse post, como batista, expor aquilo que acredito sobre o Espírito Santo, diferenciando radicalmente daquilo que tanto o apóstolo em particular, quanto os neopentecostais em geral, julgam ser a minha crença.

A crença no Espírito Santo não se deve aos neopentecostais. O credo apostólico, séculos III e IV, por exemplo diz: “Creio no Espírito Santo...”. O credo de Nicéia, ano 325, temos: “Cremos em um só Deus [...] E no Espírito Santo, Senhor e Vivificador, que procede do pai e do Filho...” Por isso concordo com a afirmação de N. T. Wright que disse: “Sem o Espírito de Deus, a igreja deixa de ser igreja”. 

Nunca é demais afirmar que sendo batista creio no batismo com ou no Espírito Santo. É claro que não defendo a ideia desse batismo como algo que ocorra após a conversão. Entendo, sim, que ele acontece no ato da conversão, momento em que o Espírito faz morada na vida do convertido (1Co. 12.13; 2Co. 1.21,22; G. 3.1-3; Ef. 1.13,14).  

O texto de Atos 2 (tão usado por pentecostais e neopentecostais), tem a finalidade de descrever o cumprimento da Torá (Lei) e a renovação da aliança por meio da descida do Espírito na vida dos discípulos, e não a comprovação da ideia de uma segunda benção na vida dos cristãos atuais. Até hoje, o Pentecostes é celebrado pelos judeus como o momento da entrega da lei. Depois da celebração da Páscoa, os israelitas saíram livres do Egito, caminharam pelo deserto, e após cinquenta dias chegaram ao Monte Sinai, lugar da entrega da lei.

Tendo isso em mente, Atos 2 pode emergir como um fascinante texto acima da superfície de leituras equivocadas. Ao ressuscitar no domingo de Páscoa, Jesus tinha realizado um novo êxodo, o maior de todos os êxodos. Deu fim à escravidão, trouxe liberdade e abriu as portas de um novo mundo. Ficou com os discípulos durante quarenta dias, tendo ido em seguida para a dimensão de Deus, o céu. Dez dias depois, no Pentecostes, o Espírito Santo desce sobre os discípulos, assim como Moisés desceu do monte para entregar a lei. Nesse Pentecostes Deus renova sua aliança, gravando-a não em pedras, mas no coração de seus seguidores, o cumprimento de Jr. 31.31ss; Ez. 36.24-27. Com esse novo modelo de vida, marcado pela dinâmica do Espírito, eles seriam verdadeiramente o povo redefinido de Deus. Deus agiu decisivamente – Lucas teria dito – não no fim, mas no meio da história com esses eventos.

Creio que somos a morada do Espírito Santo, as pessoas onde o céu pode se encontrar com a terra (1Co. 3.16; 6.19; cf. Rm. 8.9-11). De maneira especial, somos guiados por essa presença misteriosa Rm. 8.13-17. Não se surpreenda com mais um paralelo com a história do Êxodo. O Espírito nos conduz da mesma forma que a Nuvem conduziu os israelitas pela peregrinação no deserto em direção à terra prometida. Por meio de Jesus e do Espírito, Deus pôs fim ao exílio iniciado quando Adão e Eva foram expulsos do paraíso, realidade que todos se encontravam. Paulo mesmo disse: “Todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus” (Rm. 3.23).

O Espírito, desta forma, é a garantia de nossa herança (Ef. 1.14). Na estrutura narrativa de toda sua reflexão, Paulo relembra mais uma vez, somente nesse versículo, a história do êxodo, paradigma do agir salvífico de Deus ao longo da história bíblica. A herança prometida a família de Abraão foi um pequeno pedaço de terra, lugar onde Deus habitaria com seu povo. Somos, diria Paulo, o povo multiétnico liderado pelo Espírito em um grande êxodo. Aquilo que aconteceu na morte e ressurreição de Jesus no período da Páscoa, o novo êxodo, continua de maneira surpreendente na vida daqueles que são morada do Espírito, em direção a herança prometida, a renovação e libertação de todo o mundo criado. Leia Rm. 8.12-25 e note como o Espírito nos conduz em direção à libertação de toda a ordem criada.

Por fim, o que tenho a dizer é que o Espírito de Deus torna possível vivermos no mundo presente à luz do novo mundo que ao surgir no domingo de Páscoa com a ressurreição de Jesus, tornou-se visível com o derramamento do Espírito no dia de Pentecostes.

Infelizmente a crente batista ao telefone descrita anteriormente, é um exemplo de uma triste constatação de muitas igrejas de minha denominação. Por desconhecer (tanto por desinteresse quanto por ineficiência do que é anunciado dos púlpitos), muitos descobrem doutrinas equivocadas em detrimento do real ensino da Bíblia. 

 Fim da chamada.

sábado, 2 de janeiro de 2016

ANO NOVO, VELHAS SUPERSTIÇÕES

Todos nós sabemos o quão supersticioso é o nosso Brasil. Herdamos tradições sobre o que não comer em determinado horário, assim como do perigo em juntar determinados alimentos numa combinação fatal. Com o início de um novo ano, essas superstições afloram numa espécie de erupção vulcânica de crendices, lançando cinzas ofuscantes em qualquer mente equilibrada.

Pular ondas, vestir branco, amarelo, vermelho (ainda não entendo porque não usar logo uma combinação de todas essas cores no réveillon), comer lentilhas, guardar uma nota de dinheiro dentro do sapato, pular só com o pé direito (para minha surpresa a razão disso está na Bíblia, pois o que está à direita é sempre bom). Os exemplos poderiam ser multiplicados em 472.000 resultados, que foi o número de páginas encontradas pelo Google.

Nos telejornais, muitas são as matérias que exaltam esse aspecto do povo brasileiro. Os repórteres demonstram ser bem-humorados e afetuosos quando cobrem essas matérias. Até mesmo pessoas são entrevistas como exemplos de comprovação da eficácia (algumas vezes é claro) de todo esse emaranhado de crenças.

O último dia do ano serve para mostrar que a imprensa sabe lidar muito bem com todo tipo de expressão religiosa, exceto com àquela que encontramos nas páginas da Bíblia, a tradição judaico-cristã. Não há problema em expor todas essas superstições, pois elas são o que são, superstições, em outras palavras, produto da mente humana (ou do não uso dessa mente). Se elas forem verdadeiras, não se espera com isso nenhuma mudança no mundo. Elas dependem da fé de alguns, e os demais que descreem em nada serão confrontados.

É aqui que reside todo tipo de resistência com a mensagem cristã. Não me refiro ao que se ouve atualmente pela televisão, mas ao que pode ser lido diretamente na Bíblia. O que nós encontramos? Você não terá, para tristeza de alguns, um novo tipo de superstição para um novo ano, mas sim uma grande história para toda uma vida.

Nos evangelhos vemos Deus, por meio de Jesus reivindicar o mundo como sendo inteiramente seu por direito. Jesus é a resposta de como seria se Deus governasse esse mundo. Como seria seu governo sábio e soberano? Seria um mundo de cura, justiça, relacionamentos verdadeiros, auxílio aos menos favorecidos.

Os evangelhos descrevem a história de como Deus, por meio de Jesus de Nazaré se tornou rei. Nos convocam a participar dessa história. O Reino de Deus, de acordo com essa narrativa, é o confronto com tiranias desumanizadoras, e não a vinda de um tirano (a vinda do Senhor é aclamada em Is. 40.1-5). Existem tiranias que nos desumanizam na área econômica, moral e espiritual: gasta-se uma fortuna em um único jantar, que é mais do que muitos ganham em todo um mês de trabalho. Pagar por algumas refeições chega a ser imoral diante de tanta miséria no mundo. As ideologias homo afetivas, de gênero e afins, nos levam para uma espécie de humanidade deteriorada que não reflete a imagem de Deus no mundo. O tipo de espiritualidade mercantilista que tornou a igreja em escândalo e não testemunho no mundo, nos assombram dia após dia. O Reino de Deus confronta todas essas tiranias (1Co. 6.9-11; 1Tm. 6.6-10).

Não confunda isso como se o reino de Deus fosse algo dentro de nós. Um reino que se faz presente no coração do homem, é algo inofensivo. Um Jesus que reina somente no coração do homem é um Jesus inofensivo. Se esta fosse a linguagem dos primeiros cristãos, o cristianismo não teria criado nenhum problema com o império romano (At. 17.5). Os imperadores não teriam visto nenhum problema com um Jesus que morre e ressuscita para morar no coração dos seus seguidores (embora ele se faça presente em nossos corações). Não. Jesus morreu e ressuscitou na história. Existiu verdadeiramente um túmulo vazio. Ele não se encontra vivo em nossos corações, mas morto no túmulo. Ele morreu para derrotar o mal e ressuscitou para reivindicar o mundo como sendo seu, chamando todos a uma prestação de contas, tanto governantes quanto governados. Ao ascender ao céu, o mundo não visto, tão real e natural como o nosso mundo visível, Jesus governa toda a sua criação. Ele é o verdadeiro Senhor do mundo. Estabeleceu seu governo global, o reino de Deus. Inaugurou o pedido do “venha o teu reino”, e completará seu programa já iniciado, mas ainda não concluído, em seu aparecimento glorioso.

As pessoas não conseguem lidar com o Jesus que morreu e ressuscitou para um novo tipo de vida corporal. Se essa mensagem for verdade, e ela é, todas as superstições, crendices e ideologias estão em sérios apuros, pois todos, um dia, serão chamados a uma prestação de contas.

Não é o ano novo de 2016 que deve ser saudado, mas sim Jesus, o Messias, rei em todo esse mundo que deve ser aclamado em 2016. Rapidamente 2016 será velho, assim como suas superstições. Jesus, por sua vez, é o mesmo ontem, hoje e sempre.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

MINHA VISÃO DE FUTURO


Nunca gostei de filmes musicais. Mesmo pequeno, qualquer desenho da Disney que tivesse música em demasia, me tirava do sério. Não possuo nenhum dom na área da música. Quando tinha uns oito anos, me atrevi a cantar na igreja – até hoje me pergunto como aquilo pôde ter acontecido e porque me deixaram cometer um ato de tamanha insanidade. Cantei o sucesso da época: Toc, Toc, Toc, alguém me bate à porta.... Depois disso, nunca mais cantei um solo.

Por que estou falando isso, se o tema de nosso post é sobre minha visão de futuro? Primeiro, porque sempre me disseram que o objetivo de nossa salvação, quando da vinda de Jesus, seria cantar para sempre no céu – seria isso uma punição por nunca ter assistido um único musical da Disney? Em segundo, a cor desse lugar seria, no melhor dos cenários, mera variação de tons de branco, e no pior, exageradamente monocromática, branco nas roupas e nas nuvens.

Minha visão de futuro é mais dinâmica, possui lugar para os cânticos assim como para o branco, mas não se encerra nisso. Ela é espiritual, mas nem por isso, menos concreta, material. Tem lugar para o céu, mas não exclui, em hipótese alguma, a maravilhosa terra. Engloba a vida humana redimida, e para espanto de alguns, a própria vida animal e vegetal.

Essa minha esperança, não confunda com otimismo, tem seu fundamento na ressurreição de Jesus. Creio, como bem tem destacado alguns recentes teólogos, que Deus fará por sua criação, aquilo que ele fez por Jesus no domingo de Páscoa, uma nova criação. Enquanto alguns esperam a destruição do mundo, aguardo o momento de sua restauração completa. Anseio pelo dia que teremos rios cheios, mas sem enchentes destruidoras; progresso que trará luz ao mundo, sem a sombra da corrupção ou exploração; riqueza e diversidade cultural abençoada, dignificada e redimida, sem nenhum indício de sua degradação atual.

A Bíblia é muito clara sobre tudo isso, mesmo que para visualizarmos esse cenário, tenhamos que atravessar a grossa camada de tradição cristã ocidental enraizada em nossa mente, que descreve uma esperança futura etérea, celestial e não terrenal.

Minha esperança em Deus como Salvador não anula a certeza de que Ele continua sendo o Deus Criador. Salvação e criação andam de mãos dadas na Bíblia. Isso foi notado por Von Rad, em sua Teologia do Antigo Testamento com base nos seguintes textos: Is. 44.24; 54.5; 51.9,10. Podemos dizer que a salvação é sempre em favor da criação, por isso, ao salvar, Deus reafirma o que criou. Agindo salvificamente, reafirmando a criação, Deus a torna nova, produzindo com isso, uma nova criação, não do nada ou do zero, mas da já existente.

Jesus, tanto em sua morte e ressurreição, é a chave para esse entendimento. Numa espécie de semana da criação, ele, na sexta-feira, morre, completa sua obra (está consumado), no sábado, sétimo dia, descansa na sepultura, e de maneira surpreendente, no domingo, primeiro dia da semana, ele ressuscita, iniciando no meio da história e não no final, dentro desse mundo e não fora, uma nova semana da criação, o primeiro dia de um novo mundo. A obra da redenção atinge o seu ápice de correspondência com o relato da criação de Gênesis, quando Jesus sopra o Espírito nos discípulos (Jo. 20.20,21), num claro indício ao ato divino em soprar o fôlego de vida em Adão (Gn. 2.7). Assim como Adão foi chamado a explorar o novo mundo, os discípulos de Jesus, energizados pelo Espírito Santo, são vocacionados a compartilhar as descobertas de um novo mundo e uma nova humanidade que emergiram do túmulo no domingo de Páscoa.

Quando o Filho de Deus se encarnou, houve tanto uma identificação com o ser humano, quanto com o mundo do qual o próprio homem foi criado. A redenção de um implica necessariamente na redenção do outro. Somos salvos como parte do grande plano divino de salvar toda a criação. Se o aprisionamento de Adão ao pecado trouxe maldição em toda a criação (Gn. 3.17,18), a libertação do homem trazida por Cristo se espalhará por toda a ordem criada (Rm. 8.18-23). A cruz possui, com isso, uma dimensão pessoal quanto cósmica (At. 3.19-21; Ef. 1.10; Cl. 1.20).

Dito isso, posso afirmar que minha esperança encontra-se bastante fundamentada nas páginas da Bíblia. Por meio dela vislumbro o seguinte: um novo mundo inundado de vida, encharcado pela presença de Deus, sua justiça, bondade e beleza. Um mundo onde os espinhos que brotaram do Éden serão substituídos pela diversidade de árvores e plantas ornamentais (Is. 55.13; Ez. 47.12); riqueza cultural acumulada ao longo de milênios de história humana (Ap. 21.24-26); exaltação da sabedoria divina e celebração de toda a beleza da nova ordem criada, por meio da música, arte, literatura e afins; harmonia do reino animal, onde as polarizações entre caçador e caça serão completamente abolidas (Is. 11.1-9); integração de todos os povos, marcados pela busca do bem comum (Is. 2.2-4) – um mundo onde a vida venceu a morte, a beleza superou a feiura, o caos deu lugar a ordem.

Bem, essa é a minha esperança. Não poderia ser outra. Afinal de contas, não sei cantar.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

INCOERÊNCIA

Não é preciso observar muito, para vermos o quão incoerente o cristianismo brasileiro tem se tornado. Julgamos ser o grupo que possui a verdade da revelação divina, mas infelizmente temos sacrificado a verdade no altar de um comportamento mentiroso. Somos tão diversos que é quase impossível vermos alguma unidade. Nos polarizamos entre um intelectualismo frio da fé e um emocionalismo anti-intelectual revestido por uma fina camada de algo chamado “mover no Espírito”.

Criticamos, enfaticamente, qualquer natureza de idolatria na vida de uma pessoa, desde que isso esteja relacionado com uma imagem de escultura. Tiramos da igreja, ao longo do tempo, qualquer objeto que pudesse levar alguém a um comportamento semelhante. No entanto, “jogamos a criança fora junto com a água suja da bacia”. Não somos reverentes no ambiente de culto, pois jogamos fora junto com as imagens a atitude de reverência e contemplação que elas evocam – deixem-me antecipar, neste ponto, qualquer grito dos meus possíveis inquisidores. Não quero que imagens sejam inseridas nas igrejas protestantes, mas não penso que a ausência completa de qualquer símbolo ou mesmo elementos estéticos em nossos templos, tenha sido benéfico para nós.

Como pessoas que desejam uma vida saudável, mas que não fazem exercícios ou mesmo uma dieta equilibrada para alcança-la, nós não queremos imagens de escultura, mas inserimos ídolos na igreja, um equivalente evangélico como substituto. N. T. Wright, em uma de suas observações, nos diz o seguinte: “Você pode mandar Deus ou deuses para longe, como um parente idoso desagradável. Todavia, a história mostra várias vezes que outros deuses se infiltram silenciosamente para ocupar o lugar deles”. Foi isso exatamente o que aconteceu.

Em algumas igrejas encontramos tantos símbolos do judaísmo, tais como candelabro, estrela de Davi, arca da aliança, que ainda me pergunto como elas podem ser vistas como cristãs. O que mais me fascina é que não temos a cruz, símbolo tanto da vitória de Deus sobre todo o mal como do seu amor e justiça. A cruz, segundo eles, seria símbolo católico. Se isso fosse verdade (o que não é), desde quando candelabro, estrela de Davi ou arca da aliança são símbolos cristãos?

Não temos, é bem verdade, um altar para imagens, isso porque as nossas não são imóveis, mas dinâmicas, não são ídolos em forma humana, mas humanos que se tornaram ídolos. Eles são artistas musicais ou líderes eclesiásticos. Os primeiros, cantam usando o nome de Jesus, mas recebem a adoração para si mesmos. Por serem exaltados por seus súditos, compõem músicas que exaltam o homem em detrimento da glória de Deus. O segundo grupo, ou panteão de ídolos, criam comunidades que reflitam suas próprias imagens. Esses grupos não possuem a fidelidade irrestrita a Jesus, mas sim aos seus líderes. Alguns deles, por exemplo, tem suas fotos estampadas na entrada de seus templos, mas é claro, ainda assim, condenam imagens de escultura. Eles são unidos pela desunião. Abrem igrejas não pelo crescimento de novos convertidos, mas pela divisão de comunidades já estabelecidas. E num claro indício de incoerência, depois de dividirem a igreja, buscam unir os cristãos em eventos em praça pública.

Não sei qual tipo de ídolo é mais ameaçador para a igreja, se o inanimado, que não fala, não ouve, nem vê, ou o que vê, fala, canta, prega e lidera algumas comunidades religiosas. Mas uma coisa está bem clara: os ídolos de gesso, foram facilmente removidos da igreja, já os de carne e sangue, há muito tempo removeram o próprio Deus de suas comunidades.

Incoerência, incoerência, diz o nosso post, há muita incoerência.

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

O MAL, PARTE II - A DOUTRINA DOS DECRETOS

É comum em livros de teologia sistemática encontrarmos uma parte dedicada à doutrina dos decretos. Ela trata das decisões tomadas por Deus antes mesmo da criação do mundo. Tudo o que acontece na história é o resultado dessas decisões. Millard J. Erickson, teólogo batista, prefere usar o termo plano de Deus e não decretos, propondo uma mudança de conceito, não de conteúdo. Desde já, afirmo que esse post terá declarações difíceis de serem entendidas. Compartilho com vocês, assim, minha dificuldade de compreendê-las.

A Confissão de Fé de Westminster define a doutrina dos decretos em termos claros e chocantes. O capítulo 3.1,2 acha-se registrado: "Desde toda a eternidade e pelo mui sábio e santo conselho de sua própria vontade, Deus ordenou livre e inalteravelmente tudo quanto acontece, porém de modo que nem Deus é o autor do pecado, nem violentada é a vontade da criatura, nem é tirada a liberdade ou contingência das causas secundárias, antes estabelecidas” (grifo nosso). O capítulo 6.1 está escrito: “Nossos primeiros pais seduzidos pela astúcia e tentação de Satanás, pecaram ao comerem o fruto proibido. Segundo o seu sábio e santo conselho, foi Deus servido permitir este pecado deles, havendo determinado ordená-lo para a sua própria glória” (grifo nosso).

O teólogo brasileiro Franklin Ferreira assim se expressa sobre o assunto: “Deus é o princípio ativo e determinante de tudo o que acontece (actio efficax), sem, entretanto, haver nenhum envolvimento ético com o pecado, visto que o homem comete o pecado por sua livre agência” (o substituto calvinista para o livre-arbítrio). Sobre os pecados dos homens, ele afirma que ocorrem “de acordo com a predestinação e o propósito de Deus”, fazendo uso de At. 4.24-30 (falaremos desse texto mais adiante).

Wayne Grudem, teólogo americano, em sua teologia sistemática define a doutrina dos decretos como sendo “os divinos desígnios eternos por meio dos quais, antes da criação do mundo Ele determinou realizar tudo o que acontece” (GRUDEM, 1999, p. 262, grifo nosso). Erickson, nosso primeiro teólogo citado, afirma que o plano de Deus é “sua decisão eterna, tornando certa a concretização de todas as coisas que virão a acontecer” (ERICKSON, 1997, p. 144). “Tudo o que ocorre acontece por escolha de Deus e de acordo com sua vontade” (ERICKSON, 1997, p. 146).

Encontramos um determinado padrão nessas declarações: tudo o que acontece é o que deveria acontecer porque Deus assim o decretou. Isso não impede que Deus diga que o homem deveria agir de outra forma. Deus, em outras palavras, quer que aconteça aquilo que ele desaprova como evento ocorrido. O homem que pratica o mal comete pecado, mas ainda assim, cumpre a vontade divina em praticá-lo. Ou como disse Jhon Piper, em Deus Deseja Que Todos Sejam Salvos?: “Deus não peca em querer que o pecado aconteça” (PIPER, 2014, p. 59).

Minha única impressão diante de uma visão rígida da soberania de Deus como expressa nas declarações acima, é que o mal passa a ser sacralizado, justificado, embora não legalizado. Ou como se diz: “Deus sabe o que faz! ”. Esquece-se, com isso, que o pecado é em si mesmo inexplicável. Ou como bem disse Emil Brunner em O Escândalo do Cristianismo: “Quem quer que busque explicar o pecado, ou creia que o pode fazer, faz do pecado uma sina e abole o ato. O conceito bíblico de pecado é que é um feito irracional” (BRUNNER, 2009, p. 61).

Piper serve muito bem de exemplo daqueles que enxergam a soberania de Deus pela ótica da decisão meticulosa de tudo o que acontece. “Por ordenar todas as coisas, incluindo os atos pecaminosos, Deus não está pecando” (PIPER, 2014, p. 60,61). Ele faz referência, na página 61 de seu livro, a Jonathan Edwards, que um dia afirmou: “Não é uma contradição supor que um ato possa ser mau e que, apesar disso, seja uma coisa boa que tal ato aconteça... Como, por exemplo, crucificar a Cristo foi uma coisa má, porém também foi uma boa coisa que a crucificação de Cristo tenha acontecido”.

Usar a cruz como exemplo de que algum bem pode ser originado de algo mau não faz sentido. A cruz não é um modelo de interpretação para maldades cometidas. Na cruz temos uma revelação bíblica do seu real significado, esse significado, porém, não pode ser transposto para outros acontecimentos. Foi um momento decisivo na história e não um paradigma para eventos maldosos. Atos 4.24-30 nos diz como o evento da cruz deve ser entendido, mas não é uma descrição de como todos os acontecimentos ocorrem. Usaríamos a linguagem de At. 4.24-30 para descrever um assassinato, estupro e outras maldades humanas desmedidas? Penso que não. Mas infelizmente o que ocorre é o contrário.

Certa vez, um cristão que se encontrava em depressão, jogou-se debaixo de uma caçamba. Fui chamado para levar a palavra no culto fúnebre. Mas de última hora trouxeram um pastor de outra cidade. Lembro que ele disse em seu sermão: “Deus levou fulano para que a família viesse a se converter”. Como? Deus o jogou, ou decretou que ele se jogasse debaixo de uma caçamba para converter os familiares? E se os familiares não se converterem? Será que a tragédia de um justifica a felicidades de outros? C. J. H. Wright nos ajuda nesse ponto: “A Bíblia simplesmente não negocia com o mal. A Bíblia não coloca o mal na prateleira das realidades aceitáveis, como muitas visões religiosas fizeram e fazem. O mal não é “simplesmente como as coisas são”. Nunca é “para o bem de todos, no final” (WRIGHT, 2011, p. 69).

Quando lemos Ef. 1.11, temos a impressão que tudo o que acontece faz parte da vontade de Deus, anulando, assim, os questionamentos desse post. Podemos, no entanto, ver o texto de outra forma: Deus faz tudo de acordo com sua vontade, mas nem tudo o que acontece faz parte da vontade de Deus. O texto quer dizer que Deus age por liberdade e não por necessidade. A questão não está em tudo o que acontece, mas em “todas as coisas” que Deus faz.

Dizer que tudo o que acontece ocorre para a glória de Deus, como faz alguns teólogos, é tornar a glória divina numa moeda muito cara de ser negociada. Não há glória oriunda da maldade. A glória de Deus não se sustenta da dor de pessoas arrasadas pelo mal. A luz irradiada dessa glória seria o mesmo que o jogo de luzes que ocultam os truques dos ilusionistas, no caso de Deus (ou desse Deus), serviria, apenas, para ofuscar a imagem aterradora do mal.

REFERÊNCIAS:
 
BRUNNER, Emil. O Escândalo do Cristianismo. São Paulo: Fonte Editorial, 2009.
ERICKSON, Millard J. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1997. 
GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1999.
PIPER, John. Deus Deseja Que Todos Sejam Salvos? São José dos Campos: Editora Fiel, 2014.
WRIGHT, C. J. H. O Deus Que Não Entendo. Viçosa, MG. Ultimato, 2011.