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sexta-feira, 11 de abril de 2014

O MISTÉRIO DA TRINDADE


Como falar sobre a Trindade? A primeira coisa que posso dizer é que é muito fácil falar de maneira difícil sobre a Trindade, mas que é muito difícil falar de forma fácil sobre este assunto. Confuso, né? Isto porque a Trindade é um daqueles assuntos revelados na Bíblia que é mais fácil crer que explicar. Ou como bem disse Santo Agostinho: “se o entendes, então não é Deus”. Em outro lugar, sobre a Trindade disse: “tente entendê-la e perderá a cabeça. Tente negá-la e perderá sua alma”. Só nos resta neste artigo perder a cabeça. Então vamos lá.

A doutrina da Trindade foi a tentativa de conciliar o ensino bíblico de Um Único Deus verdadeiro com as passagens que afirmam a divindade de Jesus e do Espírito Santo.

Acredita-se que o termo Trindade foi usado pela primeira vez por Tertuliano, um dos pais da igreja que viveu entre os anos 160 a 230 da era cristã. O termo vem do latim trinitas, que significa “estado de ser três”. Para Tertuliano o termo Trindade significa que em Deus nós encontramos três eternas distinções pessoais que se relacionam mutuamente. Ou como alguns preferem: três eternos modos de existência. São eles: Pai, Filho e Espírito Santo.

A Bíblia está repleta de textos onde se lê que o pai é Deus. Veja Mt. 6.6,26; 1Co. 1.3;8.4; Ef.1.2;4.5. As citações poderiam ser listadas ad infinitum. Encontramos também, nas Escrituras, passagens que sem sombra de dúvida declaram a divindade do Filho. Por exemplo: Jo.1.1ss; 20.27,28; Rm. 9.5; Tt. 2.11-13; Hb. 1.1ss; 1Jo. 5.20.

O Espírito Santo, da mesma forma que o Pai e o Filho é identificado como Deus. Em At. 5.3,4, Pedro condena Ananias por ter mentido ao Espírito Santo e imediatamente diz que esta mentira foi direcionada a Deus. Para Pedro, mentir ao Espírito é o mesmo que mentir a Deus, pois para ele o Espírito Santo é Deus. Em 1Co. 3.16,17, Paulo afirma que nosso corpo é santuário de Deus e no texto de 1Co. 6.19 repete a mesma ideia dizendo que somos santuário do Espírito Santo. Para o apóstolo, ser santuário do Espírito Santo equivale a ser santuário de Deus.

Devemos ter sempre em mente que o assunto Trindade está além da capacidade humana de compreensão. A única certeza que temos deste tema se encontra na Bíblia. As explicações dos teólogos são tentativas de aproximação, nunca declarações exatas, no sentido de explicá-lo plenamente. No dizer de Rubem Alves, são palavras que buscam construir uma realidade mas que não constituem um cópia da realidade explicada.

Na Trindade temos uma natureza divina, una, indivisível. Não existem três naturezas divinas, pois do contrário, teríamos três deuses, o que seria por sua vez triteísmo (existência de três deuses) e não Trindade. Não temos uma natureza do Pai, uma do Filho e outra do Espírito Santo. O que a doutrina trinitariana nos ensina é que existe a Pessoa do Pai, do Filho e do Espírito Santo em uma única natureza, substância divina.

Não podemos pensar que a Pessoa do Pai, do Filho e do Espírito Santo são meros nomes que não possuem existência real. Não há uma pessoa que em determinado momento é chamada de Pai, em outro de Filho e depois de Espírito Santo. Isto é um erro conhecido na história da igreja como modalismo (ideia de que uma única pessoa divina se revela em tres formas temporais diferentes). Esta tentativa de explicar o mistério da Trindade foi considerada incorreta ao longo da história da igreja. O motivo para se abandonar esta posição é que ela faria de Deus um Ser solitário. O Pai não poderia se relacionar com o Filho na eternidade, pois estes não seriam Pessoas reais, mas nomes distintos aplicados a uma única Pessoa divina. Deus não amaria nem poderia ser amado existindo como uma única Pessoa. Veja porém Jo. 17.24,26. Para que aja amor, faz-se necessário um sujeito que ama e um objeto que é amado.

Penso que outro problema da explicação modalista é que ela constitui um golpe na doutrina da morte substitutiva de Cristo. Se não há em Deus três eternas distinções pessoais, não seria possível o Filho de Deus morrer na cruz com o objetivo de satisfazer as exigências da justiça de Deus Pai. Como seria possível uma única pessoa se tornar culpada na cruz e ao mesmo tempo ser o juiz que condena?

Qualquer exemplo tirado da natureza como tentativa de explicar a Trindade é impróprio, como bem expôs Wayne Grudem em sua Teologia Sistemática, e corre o risco de ensinar algo que não corresponda à doutrina bíblica em si. Por exemplo: alguns usam a analogia do ovo. Ele possui casca, clara e gema, no entanto, concluem, é um ovo só. Esta analogia é falha porque a casca, clara e a gema são partes que constituem o ovo. Não se pode dizer que a casca seja o ovo, ou mesmo a clara ou a gema. Na Trindade, o Pai o Filho e o Espírito Santo não são partes de Deus, antes, cada um é Deus plenamente.

O exemplo da água incorre num erro oposto ao da analogia do ovo. A água existe em estado líquido, sólido e gasoso. Porém a mesma água não existe nestes três estados ao mesmo tempo. Ou ela é uma coisa ou outra. Deus não é em um momento Pai, depois Filho e em seguida Espírito Santo. Ele sempre foi por toda a eternidade simultaneamente Pai, Filho e Espírito Santo. Logo, se a analogia do ovo induz a uma noção triteísta, o exemplo da água incorre no erro modalista.

Finalizo esta singela exposição com um pequeno trecho do credo de Atanásio que diz: “...nós adoramos um Deus em Trindade, e Trindade na Unidade; sem confundir as pessoas, sem dividir a Substância.” Soli Deo Gloria.

quarta-feira, 12 de março de 2014

DOUTRINA ERRÔNEA?


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Esta frase encontra-se na revista Primeiros Passos Na Fé, Doutrinas Básicas Para Novos Convertidos, A Importância Do Conhecimento, da editora Central Gospel, edição comentada pelo Pr. Jorge Linhares.
A assertiva usada como tema do nosso artigo encontra-se no contexto da revista que trata do novo nascimento. Eis a declaração completa: “Alguns mais radicais acreditam numa doutrina errônea que ensina que a pessoa quando se entrega para Jesus estará salva para sempre.”
Por qual razão os supostos “mais radicais” não são identificados na revista? É completamente injustificável, tanto metodológica quanto bíblico – teologicamente não fazer referência as razões da crença de um determinado grupo quando se tenta desmerecer sua doutrina. Assim, não sabemos quem são os mais radicais nem a razão para acreditarem que o convertido não perde a salvação.
Para aqueles que desejam conhecer os “mais radicais”, passarei então a identificá-los: batistas tradicionais e presbiterianos. Logo, estes grupos são caracterizados como defendendo uma “doutrina errônea”, o que não passa de um eufemismo. O que se quer dizer na verdade é que batistas e presbiterianos defendem uma HERESIA. Não posso admitir que uma revista doutrinária faça uso de sua crença como meio para determinar indiretamente que batistas e presbiterianos estejam errados em sua forma de pensar. Esta atitude não passa de sectarismo exacerbado. Seria admissível o autor informar que existem grupos protestantes que defendem a crença que o convertido não perde a salvação, ao passo que outros, como assembleia de Deus, revista publicada, e essencialmente fundamentada em sua doutrina, não compreende desta forma.
O mais preocupante não se encontra no fato da revista denominar de doutrina errônea a crença de que o convertido não perde a salvação. O absurdo, se me permitem assim falar, acha-se no fato de que batistas estejam usando esta literatura como material para a escola bíblica. Estão desta forma, ensinando a batistas que é um engodo pensar como batista. São batistas aprendendo a doutrina de outra denominação, ao invés de estarem conhecendo a sua. 
Se a doutrina da não possibilidade de o convertido perder a salvação é errônea, eminentes teólogos como: João Calvino (1509-1564), John Gill (1697-1771) Charles Hodge (1797-1878), A.A.Hodge (1823-1886), Charles Spurgeon (1834-1892), A.H.Strong (1836-1921), Millard J. Erickson, Wayne Grudem, Augustos Nicodemos e tantos outros, não são outra coisa senão teólogos enganados.
A declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira nos diz o seguinte com fundamento nas Escrituras Sagradas:
A salvação do crente é eterna. Os salvos perseveram em Cristo e estão guardados pelo poder de Deus. Nenhuma força ou circunstância tem poder para separar o crente do amor de Deus em Cristo Jesus. O novo nascimento, o perdão, a justificação, a adoção como filhos de Deus, a eleição e o dom do Espírito Santo asseguram aos salvos a permanência na graça da salvação. Jo. 3.16,36; 10.28,29; 1Jo. 2.19; Mt. 24.13; Rm. 8.35-39; Jd. 24
            Textos que declaram que somente aqueles que perseverarem serão salvos, não devem ser usados para se dizer que o convertido pode perder a salvação se não perseverar. Só persevera até o fim quem é verdadeiramente convertido (Jo. 8.31). A perseverança final determina quem é o verdadeiro salvo.  
            Se usarmos Hebreus 6.4-8 como recurso para defendermos a perda da salvação, teremos também que admitir a impossibilidade de se restaurar o apóstata. Strong entende esta passagem como nos informando “qual seria o destino dos verdadeiros regenerados, se eles não perseverassem”. Logo, o caso é entendido como hipotético, não como real. No verso 9 Paulo vai dizer que não espera isto dos verdadeiros salvos.
            Aqueles que não admitem a certeza da salvação contestam que se o crente não pode perdê-la então ele poderá viver em pecado, pois está salvo para sempre. Sobre isto, Hodge nos informa que no sistema de Paulo “a salvação em pecado é uma contradição lógica.” O verdadeiro salvo busca constantemente uma vida de santidade. Se for verdade que o salvo pode se separar de Cristo, então é mentira o que Paulo fala em Romanos 8. 35-39.
            A doutrina da certeza da salvação encontra-se fundamentada na doutrina da eleição, seja ela compreendida nos sistemas calvinista ou arminiano. É impossível o eleito perder a salvação, pois isto contrariaria a própria eleição feita por Deus. A doutrina da união com Cristo, pois ela é indissolúvel. A doutrina da regeneração, pois ela é o começo da nova criação de Deus. A doutrina da justificação, pois ela nos garante que não há mais nenhuma condenação para o crente (Rm.8.1). A possibilidade de o verdadeiro convertido perder a salvação seria a anulação completa destas verdades.
            Não devemos pensar que a certeza da salvação induz o convertido ao orgulho. A seguinte declaração de Charles Hodge nos esclarece muito bem isto:
Ver-se-á que o apóstolo não apóia a perseverança dos santos na natureza indestrutível da fé, nem na natureza imperecível do princípio da graça no coração, nem na constância da vontade do crente, mas tão-somente no que está fora de nós. A perseverança, ensina ele, deve-se ao propósito de Deus, à obra de Cristo, à habitação do Espírito Santo e à fonte primária de tudo, ao infinito, misterioso e imutável amor de Deus. Não nos guardamos a nós mesmos: somos guardados pelo poder de Deus, por intermédio da fé, para a salvação (1Pe. 1.5).
            Recomendo a leitura dos seguintes teólogos para uma compreensão aprofundada do assunto: Millard J. Erickson, p. 242-246; Wayne Grudem, p. 659-674; Charles Hodge, p. 732-733, 1108-1110; A.B.Langston, p. 242-246; Augustus H. Strong, p. 624-631; Zacarias Severa, p. 305-309.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

CRENDO EM CRENDICES

Cada dia me surpreendo com a criatividade de alguns líderes evangélicos em promover inúmeras inovações que acorrentam seus súditos. São campanhas, as mais diversas, e os não menos inusitados objetos estimuladores de fé. Este ressurgimento de uma crença medieval ensina que aquilo que desejamos obter deve ser proporcional ao tamanho de nossa fé. Contrariam abertamente o ensino bíblico que diz que uma simples fé do tamanho de um grão de mostarda já é suficiente para grandes feitos (Mt. 17.20).

Qualquer relato existente na Bíblia serve de pretexto para suas campanhas de fé. Se Abraão arregimentou 318 soldados para uma batalha, cria-se um corredor com 318 pastores para abençoar as pessoas. Não entendo qual a relação disto com o texto. Na verdade isto é algo de somenos importância para eles. A mais nova campanha (isto na época da produção deste post) de marketing – desculpem o engano – campanha de fé, é das doze portas abertas. Passa-se por doze portas que simbolizam os doze meses do ano, e com isto a pessoa terá o ano todo com suas portas abertas. Afinal de contas, Jesus mesmo não disse que Ele é a porta e que se deveria entrar por Ele? Em apocalipse não se encontra registrado que a porta que Ele abre ninguém fecha? A única possibilidade de se entender que alguma passagem bíblica serve de apoio para estas absurdas campanhas é uma má interpretação acompanhada de uma péssima aplicação do texto bíblico.

A participação nessas campanhas não é indicativo de fé, mas crendice. São práticas supersticiosas criadas para pessoas que não sabem mais o que é a fé bíblica. Creio que nosso Deus é o Deus dos impossíveis, mas não dos absurdos. Passar por doze portas numa igreja acontece o mesmo que passar debaixo de treze escadas numa sexta-feira treze à meia-noite numa encruzilhada cheia de gatos pretos, ABSOLUTAMENTE NADA. A Bíblia em nenhum lugar nos ensina a participar de algumas dessas campanhas. As bênçãos não são para serem alcançadas, mas sim recebidas como fruto da graça de Deus. Somente Cristo, e aquilo que ele efetuou na cruz do calvário são suficientes para abençoar uma pessoa, independente da participação de qualquer campanha nessas igrejas. O crente já é abençoado em Cristo com todas as bênçãos de acordo com Efésios 1.3 (cf. Fp. 4.19; At. 3.26).

Não posso esquecer da insistência que se faz nestes últimos dias da tão conhecida oferta de fé, ou semente como bem costumam chamar. A mais recente se acha no valor promocional de 8.500 reais. O bom desta oferta é que ela garante todas as bênçãos para o resto da vida da pessoa. Olhando por este lado ela sai até por preço de banana. Ha, ha, ha! Me chama a atenção, todavia, é que a demonstração de fé financeira que eles pedem, deve ser ofertada somente em seus programas, nunca na igreja local que as pessoas pertencem. Estranho né?

Não seria isto uma prática antiga semelhante às vendas de indulgencias do sistema católico romano da Idade Média? Ou seja, aquilo que Martinho Lutero combateu, tem sido a mola propulsora para o avanço de determinados arraias “evangélicos”. Para seus líderes e adeptos não há problema nenhum nisto, pois os resultados obtidos são mais importantes que a veracidade da ação. Eles se esquecem, ou nunca souberam, que resultado não deve ser visto como princípio validador de uma prática. O fato de ser eficaz não quer dizer que seja certo. 

Confesso que esses pregadores endinheirados falam em nome de deus, cujo nome é MAMOM, o deus DINHEIRO (Mt. 6. 24). Este é um deus presente na terra que havia sido expulso do templo por Jesus em Mc. 11.12-19, mas que infelizmente encontrou espaço nos corações de muitos líderes televisivos.

Finalizo minha exposição dizendo que não possuo, segundo eles, prerrogativas que validem minhas palavras. Afinal de contas, tenho somente seis anos de ministério, e a maioria deles mais de vinte de carreira – desculpem o lapso de memória – ministério. Até mesmo Jesus não poderia recrimina-los, pois como sabemos, seu ministério não durou mais que três anos aqui na terra.

Até onde isso nos levará? Que Deus tenha misericórdia de sua igreja. De um simples servo de Cristo, Anderson Queiroz.

sábado, 9 de novembro de 2013

LEITURA VICIADA


Já parou para pensar que muitas vezes temos a interpretação de um texto bíblico antes mesmo de iniciarmos a leitura? Quer um exemplo como prova? Então, aí vai um: quem aclamou “Hosana ao Filho de Davi” em Mt. 21.1ss e logo depois em Mt. 27.20-23 exigiu que Jesus fosse crucificado? A resposta para isto, seria, a mesma multidão. Não é mesmo?

Sempre ouvi isso, e eu mesmo, várias vezes, já afirmei que a multidão que aclamou Jesus foi a mesma que alguns dias depois gritou enfurecidamente, CRUCIFICA-O. Usa-se como sustentação para isto o fato de que a maior parte da população seja facilmente influenciada por uma minoria detentora de poder. No caso em questão, a minoria seria “os chefes dos sacerdotes e os líderes religiosos” (Mt. 27.20).

Contudo, seria esta explicação uma realidade contida no texto? A resposta é não. Na verdade, os evangelistas falam de duas multidões. Uma que aclamou “hosana”, e outra que gritou crucifica-o”. Como fundamentação para nossa resposta faremos uso dos evangelhos sinóticos, Mateus, Marcos e Lucas.

Em sua narrativa da vida de Jesus, Marcos faz muitas referências a multidão que acompanhava Jesus. Ao todo são trinta e quatro vezes. Já no início de seu evangelho, Mc. 3.7, é dito que uma multidão se deslocou da Galileia e seguia Jesus. Em Mc. 12.12 é relatado que a multidão foi o elemento inibidor para que os líderes religiosos não concretizassem imediatamente seu plano de acabar com a vida de Jesus. Em outras palavras, esta multidão o protegia. Somente em Mc. 15.8,11,15 a multidão é descrita como sendo hostil a Jesus. Com isto surge a pergunta: seria o mesmo grupo de pessoas que protegia Jesus, mas que agora vocifera por sua morte? Entendemos que não.

O episódio da entrada triunfal é a chave para a devida compreensão de que houve duas multidões, uma a favor de Cristo e outra contra. Lemos em Mt. 20.29 que “uma grande multidão” seguia Jesus (cf. Mc. 10.46). É uma narrativa imediatamente anterior ao relato de sua entrada triunfal. Em Mt. 21.1 o texto diz: “Quando se aproximaram de Jerusalém...”. Quem são esses que se aproximaram de Jerusalém? Só pode ser Jesus, seus doze discípulos e a multidão relatada em Mt. 20.29. Logo, foi esta multidão que estendeu tanto os mantos quanto os ramos de árvores para a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, e não os habitantes desta cidade (Mt. 21.8). O texto de Mt. 21.10 deixa bem claro que a cidade de Jerusalém desconhece quem seja Jesus, o que confirma sua não participando no evento. Somente a multidão que o acompanhava desde a Galileia pôde responder a indagação de seus moradores (v. 11). Em At. 13.31 fica evidente que uma multidão vinda da Galileia havia se deslocado para a cidade de Jerusalém. Esta multidão, afirmamos, não participou do pedido pela crucificação de Cristo.

Tendo isto por assentado, podemos dizer que o texto de Mc. 15.8,11,15 descreve a multidão de moradores da cidade de Jerusalém. Não teria nenhuma relação com a multidão que aclamou Jesus na entrada triunfal. Eles, sim, exigiram a crucificação de Jesus. Foram facilmente incitados pelos líderes religiosos quando da possível soltura de Barrabás (Mc. 15.9-15), porque não tinham real conhecimento de quem era Jesus. Barrabás, por sua vez, era alguém conhecido dos moradores de Jerusalém. Isso fica subentendido quando Lucas diz que foi solto realmente quem eles pediram, o prisioneiro Barrabás (Lc. 23.18,25). Ele havia sido preso por causa de uma insurreição na cidade (Lc. 23.17-25). Assim, foi mais fácil concordar que soltasse alguém conhecido por sua luta pelos ideais de libertação judaica, pois Barrabás era um nacionalista, que um Messias que em nada lutou por libertação da opressão romana. 

Com isto chegamos a seguinte conclusão: a multidão existente na entrada triunfal em Jerusalém era constituída por pessoas oriundas da Galileia. A multidão que pediu a crucificação de Jesus foi formada pelos habitantes de Jerusalém. O grupo que acompanhava a Cristo deve ter se desfeito facilmente com o maior número de pessoas que pediram pela crucificação de Jesus.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

NÃO SOU BATIZADO MAS QUERO PARTICIPAR DAS DECISÕES DA ASSEMBLEIA DA IGREJA. POSSO?


Por que somente pessoas batizadas podem participar das decisões da igreja local? O simples fato de ser um convertido não seria suficiente para se tornar um partícipe das resoluções da assembleia? O pré-requisito do batismo teria somente fundamentação no estatuto da igreja local, sem nenhuma evidência bíblica? O post de hoje tenta esclarecer as razões bíblicas para estes possíveis questionamento de alguns novos convertidos em igrejas batistas.

Antes de qualquer coisa, deve-se levar em conta que os eruditos do NT são unânimes em afirmar que o batismo era o rito de admissão na comunidade local. Ou como se diz em teologia sistemática: o rito de iniciação do novo crente.

Em Romanos 6.3 Paulo deixa bem claro que os crentes que compunham a igreja em Roma eram batizados. Ele mesmo expõe no texto que havia sido batizado (note o “todos nós”). Isto é significativo pois a igreja em Roma não foi fundada por Paulo. Pressupõe-se com isto, que o batismo era prática de admissão ou incorporação na igreja muito tempo antes de Paulo. Note também que em Cl. 2.13 o apóstolo se dirige aos membros da igreja de Colossos como pessoas batizadas, outra igreja não fundada por Paulo.

Paulo explica em 1Co. 12.13 que o batismo, no que diz respeito a igreja local, nos torna membro do corpo de Cristo. Este batismo é realizado na esfera do Espírito, observe o “em um único Espírito” (NVI). Segundo Bultmann, isto pode ser entendido como fórmula eclesiástica. Assim, podemos falar que alguém passa a fazer parte da igreja invisível, ou universal, quando da aceitação por Cristo. Contudo, a inserção na igreja local, ou visível, se dá somente por meio do Espírito Santo através do rito batismal, logo, neste sentido, algo realmente acontece na vida do salvo (falaremos disto em outro post). Como o erudito do Novo Testamento Oscar Culmann disse sobre esta passagem: “o Espírito atua no próprio ato da incorporação”.

Uma prova bíblica de que o batismo era o rito de admissão na igreja é o texto de At. 2.38,41. Em outras palavras, tornava-se membro da igreja unicamente por meio do batismo. Veja que o texto diz que foram acrescentados à igreja os três mil batizados. O mesmo pode ser dito do acontecimento de At. 2. Nesta passagem fica subentendido que receberam o Espírito Santo aqueles que já haviam sido batizados pelo batismo de João. Ou seja, vivenciaram o cumprimento da declaração de João, o Batista em Mc. 1.8. Observe também que em At. 1.13 a reunião dos apóstolos juntamente com as mulheres, infere-se que eram pessoas batizadas. Se o próprio Jesus havia sido batizado, é impensável que seus discípulos não fossem batizados à exemplo de seu Mestre. A razão disto é que os discípulos de Jesus inicialmente foram discípulos de João, o Batista (cf. Jo. 1.35-40). Este fato serve como corolário de nossa afirmativa.

Tendo isto por assentado, as seguintes passagens se revestirão de toda sua importância. Isto porque o primeiro assunto levado em discussão na igreja – uso este termo aqui em sentido abrangente – foi direcionado à pessoas que já eram batizadas (At. 1.21-23).

Em At. 6.2-6 os Doze se reúnem com os discípulos para resolverem o problema da correta administração da beneficência. Nem é preciso dizer que os Doze eram pessoas batizadas. Mas e os discípulos relatados na passagem? Para esta resposta, basta lembrarmos o que Jesus disse quando da convocação da grande comissão: façam discípulos de toda as nações, BATIZANDO-OS (Mt. 28.19). O discípulo, seria, segundo Jesus, alguém que deveria passar pelo rito do batismo. Com isto, mais uma vez as resoluções da igreja ficaram a cargo de pessoas batizadas. O mesmo pode ser dito em relação ao texto de At. 15.22.

Desta forma fica claro a importância bíblica de se levar assuntos concernentes a igreja somente para a apreciação de crentes batizados. Assim, o assunto ora desenvolvido, antes de ser encarado como questão meramente estatutária, constitui-se na verdade, numa preservação de um costume bíblico neotestamentário. 

terça-feira, 15 de outubro de 2013

"AQUI DEUS SE FAZ PRESENTE"?

Escrevo este artigo como um manifesto em decorrência de alguns crentes que pensam ser a presença de Deus uma espécie de monopólio de suas congregações. É costume nós ouvirmos, ou lermos – o que foi o meu caso – que o fato de ocorrerem algumas manifestações sobrenaturais em seus locais de culto, isto serve como indicativo da atuação divina. Estas pessoas confundem eventos sobrenaturais, e porque não dizer impessoais, com o Deus pessoal revelado na Bíblia.

Quando eles dizem que Deus está aqui – entendam que o “aqui” é na verdade lá – transmitem tanto uma ideia de um deus local – me recuso a usar o termo com d maiúsculo – quanto confundem a presença de um determinado líder como prova da presença divina. Esta teologia não é nada nova. É na verdade a teologia de Naamã. Este pensava que Deus se fazia presente somente no território israelita, daí a necessidade dele levar um pouco de terra para adorar ao SENHOR em outro território (2Rs. 5.15-17).

Outro equívoco é pensar que a realização de eventos miraculosos promovidos por seus líderes servem como demonstração do agir de Deus. Esta mentalidade moderna teria facilmente aprovado com sendo divino os feitos dos magos do Egito, quando do embate com Moisés (Ex. 7.10-12,20-22a). A Bíblia, por sua vez, nunca confunde realizações sobrenaturais com aprovação de conduta. Pode existir um sem o outro. Veja Mt. 7.21-23.

Este seguimento “evangélico” que parece ter o domínio da presença divina deveria buscar compreender a antiga verdade de que Deus embora não seja descontrolado, Ele é INCONTROLÁVEL. Esta é uma característica essencial de sua natureza insondável. Não são poucos os exemplos que temos de cultos que são realizados com propósitos pré-determinados, o que anula a incontrolabilidade de JAVÉ, nome de Deus no Antigo Testamento: culto de milagres, alguns com doenças específicas, celebrações onde se afirmam que ocorrerá uma espécie de novo pentecostes com pessoas batizadas com, no ou sob o Espírito Santo, cultos de libertação, restituição e afins. 

O exemplo maior da natureza incontrolável de Deus se acha no episódio de Ex. 19. Nesta teofania (manifestação de Deus), cujos elementos existentes se caracterizam muito bem com uma erupção vulcânica, serve como demonstração da natureza incontrolável de Javé. Como salientou Antonius Gunneweg, teólogo europeu que possui uma aguçada percepção das verdades bíblicas do Antigo Testamento, sobre a aparição de Deus no Sinai: “Não por último é também um Deus terrível, inacessível e perigoso, como o vulcão sobre o qual se manifesta”. [...] “Nenhum ser humano, porém, pode torná-lo controlável, nenhum mortal é capaz de domar um vulcão ou causar sua erupção, e muito menos dispor sobre um Deus que escolhe soberanamente esse monte como lugar de sua aparição”.

O culto que agrada a Deus não deve ser movido por nenhum propósito pré-determinado exceto o de que Seu Nome seja glorificado. Seu mover será sempre uma possibilidade, seja em cura ou conversão, mas nunca uma necessidade. O essencial não é saber que Deus está aqui, mas se eu estou Nele, pois Deus se faz presente em todos os lugares.

domingo, 21 de julho de 2013

DÍZIMO, SEGREDO DO SUCESSO?



Recentemente tenho visto algumas pessoas postando na internet um vídeo que diz ser o jogador Neymar dizimista desde criança. O vídeo se encontra no youtube. A conclusão é que isto seria o segredo de todo seu sucesso como jogador de futebol. Tá bom!

Antes de qualquer coisa, quero dizer que Neymar é abençoado por uma habilidade futebolística diferenciada. Isto se chama Graça Comum, que nada mais é que a bondade de Deus distribuída para todas as pessoas podendo ser identificada na realização de alguma admirável atividade. Por exemplo: quando ouvimos belas canções, como a 9ª Sinfonia de Beethoven, Tom Jobim e outros, ou mesmo ao assistirmos uma apresentação da bailarina Ana Botafogo, ou presenciamos grandes feitos da humanidade temos que enxergar em tudo isto o agir do nosso grande e Todo Poderoso Deus.

Na verdade, a conclusão que muitos estão tirando do vídeo constitui um grotesco erro tanto bíblico quanto teológico. Por uma falta de entendimento da natureza de Deus e do real sentindo de seus mandamentos, muitos inferem que a declaração de Malaquias 3.10 se aplica como uma verdade independente dos demais versículos bíblicos. Logo, quem dizima, independentemente de sua conduta moral, seria abençoado por Deus.

No entanto, em nenhum lugar da Bíblia encontraremos o ensino – hoje tão difundido – de que a simples entrega do dízimo acarretará em bênçãos para a pessoa. Deus, antes de exigir a entrega de parte do que Ele nós dá, nos ordena a entregarmos por completo as nossas vidas ao Seu inteiro cuidado. Precisamos primeiro ser aceitos por Deus, para em seguida Ele aceitar aquilo que nós ofertamos. Em Gn. 4.5 a Bíblia diz que Deus, por não ter aceitado a conduta de Caim, recusou também sua oferta. Veja que no versículo 4 Deus primeiro aceitou Abel e logo em seguida diz que sua oferta foi aceita. Davi, no Sl. 51.16,17 diz que Deus não se agrada de sacrifícios, mas de um coração arrependido dos seus pecados. Quando isto se faz presente na vida de uma pessoa, o salmista diz que Deus aceitará suas ofertas (Sl. 51.19).

Em relação ao texto de Ml. 3.10, precisamos entender esta declaração com o todo do livro. Assim como as palavras só podem ter sentido em uma frase, um versículo da Bíblia só terá significado em seu próprio contexto literário.

Deus não somente exigiu no livro de Malaquias a entrega do dízimo. Em Ml. 1.6-14 o povo oferecia constantemente sacrifícios impuros durante o culto, o que constituía numa afronta a santidade de Deus. Deus ordena, com isto, que o culto ao Seu nome deveria ser santo. Em Ml. 2.1-9 os sacerdotes passaram a ser negligentes em suas funções durante o culto. Como resposta, Deus exige mudança e um retorno ao correto ensino de Sua Palavra.

Já em Ml. 2.10-16 havia se tornado normal a infidelidade conjugal diante da prática costumeira do divórcio. Encontramos aqui Deus exigindo uma vida conjugal moldada pelos padrões da Escritura Sagrada. Ml. 2.17-3.5 é dito que o povo acusou Deus de ser imoral ao afirmar que Ele se agradava com os que praticavam o mal. Neste ponto, Deus informa que purificaria Seu povo e traria juízo aos que não mudassem de conduta. Somente depois te todas essas exigências é que Deus fala em Ml. 3.10 que o povo deveria entregar os dízimos, pois estavam demonstrando infidelidade também, e não somente, no aspecto financeiro. A fidelidade na entrega dos dízimos fazia parte de um todo maior, neste caso, fidelidade a Deus em todas as áreas da vida.

A máxima de tudo isto é: Deus se relaciona com o ofertante e não com ofertas ou dízimos. Logo, se não estamos dispostos a entregar nossas vidas, não terá nenhum sentido dedicarmos parte de nossa renda.