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sábado, 21 de julho de 2018

O ANTICRISTO

Se existe uma figura que muitos de nós já ouvimos, mas que pouco compreendemos, é a figura do anticristo. Personagem pregado em muitos púlpitos, mas esquecido ultimamente, o anticristo foi um assunto complexo e ao mesmo tempo importante para os primeiros cristãos. 

Ao longo da história da igreja muitas foram as interpretações para o significado da besta de Apocalipse 13: seria Nero? Havia a história que ele voltaria mesmo depois de morto, o mito do Nero redivivo (note que a besta foi curada de uma ferida mortal). Poderia ser o império romano da época de João? Para os reformadores o anticristo seria o sistema papal do séc. XVI. É comum também ver a besta como algum líder político futuro. Já pensaram até em Barack Obama. Circula também nas redes sociais uma pregação que diz ser o presidente da França, Emmanuel Macron, o verdadeiro anticristo. Já vimos que não faltam candidatos! 

Podemos dizer que João fez uso em sua própria época das histórias do retorno de Nero. Não que ele acreditasse que o imperador pudesse voltar a viver, antes, o faz para ter um referencial comum entre seus leitores e ouvintes. Ao mesmo tempo ele pode afirmar que toda opressão de Roma por meio de seus imperadores não era outra coisa senão o agente de um poder muito antigo, a soma de toda a maldade. Este poder se opõe a Deus e seu povo, tanto no passado, presente e futuro até o dia do aparecimento de Cristo. Essa figura sinistra tem como pano de fundo o texto de Daniel 7. O próprio Jesus faz referência a esse conceito assustador em Mt. 24.15; Mc. 13.14. 

Haveria ainda hoje alguma utilidade em falarmos de tal personagem/influência? A resposta é sim. Isso porque embora todos veem o anticristo como um personagem que surgirá no futuro, a Bíblia nos diz que ele já atua no presente. Podemos identificar o cavaleiro branco como a representação do anticristo (Ap. 6) que atua desde a ascensão de Jesus ao céu. A época da igreja onde temos a atuação do Espírito Santo é também a época do anticristo. Isso concorda com o que Paulo diz em 2Ts. 2.7, sobre a atuação do mistério da iniquidade. Devemos nos lembrar, todavia, de não entrarmos numa espécie de histeria coletiva sobre essas coisas (2Ts. 2.1s) 

O termo anticristo pode ter sido criado pelo próprio João, pois só se encontra em seus escritos e em nenhum outro lugar no NT, embora o personagem apareça em outros lugares na Bíblia. São cinco vezes que o termo aparece em suas cartas (1Jo. 2.18,22; 4.3; 2Jo. 7). Esses textos nos ensinam que vivemos já no tempo final. Para nosso espanto, ele já veio (1Jo. 4.3), essa inclinação, tendência de se opor a Cristo ou qualquer coisa que tenha relação com ele. E se não bastasse, o anticristo dispõe de muitos funcionários (1Jo. 2.18). João nos diz que foram pessoas que estavam expostas à influência cristã, viviam entre o povo de Deus, mas em um determinado momento revelaram que nunca pertenceram ao grupo que eles diziam fazer parte.  

IMPLICAÇÕES DA DOUTRINA DO ANTICRISTO 

  • Podemos ser um funcionário do anticristo sem ao menos sabermos. Quando nos opomos ao ensino da Escritura, somos indiferentes a voz do Espírito Santo ou assumimos um comportamento que sabemos não encontrar amparo na Bíblia, que traz prejuízo tanto individual quanto para a igreja de Cristo, nessas situações nos tornamos anticristãos, agentes do próprio anticristo. 
  • João identificou o espírito do anticristo em sua época no falso ensino que negava a encarnação de Cristo. Ele foi enfático ao falar que negar esse fato não era uma questão de opinião particular, mas da atuação de uma influência anticristã no meio da própria igreja. Temos que estar atentos aos ensinos difundidos por muitos púlpitos, e quando estes não concordarem com a doutrina dos apóstolos, deverão ser denunciados. 
  • Vivemos numa época marcada por grande apostasia, o terreno fértil para qualquer ideologia anticristã. Muitos demonstram uma hostilidade a Cristo mesmo fazendo parte da comunidade cristã. Não podemos nos iludir, não estar com Jesus é se posicionar contra ele (Mt. 12.30; Lc. 11.23). 
  • Quantas igrejas já se encontram tão corrompidas que mesmo pregando Cristo, se tornaram em agência a serviço do anticristo, uma igreja anticristã, com membros anticristãos, com um ensino anticristão, uma liturgia anticristã? Não podemos nos esquecer que de acordo com 1Jo. 2.18 a influência anticristã, o espírito do anticristo, surge também de dentro do cristianismo.  
  • Se notarmos as duas bestas de Ap. 13, veremos que uma representa um poder político perverso enquanto outra, um poder religioso corrompido (levando em consideração que possam ser dois personagens reais a serviço de um poder político e religioso). Isso acontece quando a política e a igreja deixam de estar a serviço de Deus e se unem em torno de uma influência destrutiva de um espírito anticristão. 

terça-feira, 3 de julho de 2018

JESUS, MAIS QUE UM HOMEM

Para muitas pessoas Jesus foi um grande mestre religioso que nos brindou com um conhecimento de Deus ao mesmo tempo desafiador e admirável. Mas ele não foi um grande mestre? As pessoas não o chamavam assim? É claro que Jesus foi um mestre religioso. O problema é vê-lo somente como um mestre. Muitos conseguem lidar com um mestre que morreu, mas não com o Deus que se fez Homem e que governa o mundo criado. Outros até admitem que Jesus era divino, mas não plenamente igual a Deus Pai. 

Recentemente assisti um debate entre jornalistas e um professor de religião com o seguinte tema: Jesus: Vida, Morte e Legado. Um olhar atento logo perceberá que o tema esconde a visão de um Jesus simplesmente humano. Vida, morte e legado é o que falamos de qualquer grande líder após sua morte. Para ser mais correto, o título do debate deveria ser: Jesus: Vida, Morte e Ressurreição. A ressurreição de Jesus prova que ele não foi somente um grande mestre religioso, mas que verdadeiramente era o Filho de Deus, e que ao ressuscitar, tudo o que ele fez e disse era realmente verdade, ou seja, ele era mais que um simples ser humano, era verdadeiramente o Deus que se fez homem. Para aqueles que pensam ser essa conclusão absurda, C. S. Lewis nos ensina que neste quesito ou é tudo ou nada: 

Estou tentando impedir que alguém repita a rematada tolice dita por muitos a seu respeito: “Estou disposto a aceitar Jesus como um grande mestre da moral, mas não aceito a sua afirmação de ser Deus.” Essa é a única coisa que não devemos dizer. Um homem que fosse somente um homem e dissesse as coisas que Jesus disse não seria um grande mestre da moral. Seria um lunático – no mesmo grau de alguém que pretendesse ser um ovo cozido – ou então o diabo em pessoa. Faça sua escolha. Ou esse homem era, e é, o Filho de Deus, ou não passa de um louco ou coisa pior. 

Somos confrontados, então, com uma alternativa assustadora. Ou esse homem de quem estamos falando era (e é) o que dizia ser, ou era um lunático ou coisa pior. Ora, parece-me óbvio que ele não era nem um lunático nem um demônio; consequentemente, por mais estranho, assustador ou insólito que pareça, tenho de aceitar a ideia de que ele era, e é, Deus. Deus chegou sob forma humana no território ocupado pelo inimigo. (Cristianismo Puro e Simples, p. 69-71). 

Se Jesus estava errado em se comportar como se fosse o Deus encarnado, por qual razão deveríamos acreditar em seus ensinamentos? Se estava errado no mais importante e decisivo sobre si mesmo, porque deveria ter acertado no mais importante e decisivo sobre nós? Bono Vox, da banda U2, percebeu essas mesmas implicações em uma conversa com um jornalista: 

Não, para mim não é mirabolante. Veja, a resposta secular para a história de Cristo é sempre a mesma: ele foi um grande profeta, sem dúvida um sujeito interessante, que tinha muito a dizer seguindo alinha de outros grandes profetas, como Elias, Maomé, Buda ou Confúcio. Na verdade, porém, Cristo não permite isso. Ele não deixa você se safar tão fácil. Cristo diz: “Não estou dizendo que sou um profeta, mas que ‘sou o Messias’. Estou dizendo que ‘sou Deus encarnado’”. E o pessoal responde: “Não, por favor, seja apenas um profeta. De um profeta damos conta. [...] Não é piada. Para mim, mirabolante é a ideia de que todo o curso da civilização de mais da metade do mundo teve seu destino transformado e virado pelo avesso por causa de um maluco... (Citado por Timothy Keller em A Fé na Era do Ceticismo, p. 259). 

Mas, e aqueles que veem Jesus como alguém divino, mas não como Deus plenamente? Lidaremos agora com a opinião de alguns religiosos e não de secularistas. Neste quesito os Testemunhas de Jeová surgem como representantes desse tipo de fé. Pode-se dizer que afirmar que Jesus é divino embora não plenamente Deus, como fazem as Testemunhas de Jeová, é o mesmo que tentar fazer uma omelete sem desejar quebrar os ovos. Esse Jesus se aproxima mais dos heróis semideuses dos mitos antigos que o Jesus retratado nas páginas do Novo Testamento. 

Em Biblioteca on-line da Torre de Vigia, acha-se o estudo Quem é Jesus Cristo? que serve muito bem como síntese desse pensamento. Como negação da doutrina da Trindade, lemos que “houve um tempo em que Deus estava sozinho”. Essa solidão teria chegado ao fim com a primeira criação de Deus, neste caso, Jesus. A base para isso seria os textos de Cl. 1.15 que fala de Jesus como “o primogênito da criação de Deus” e Ap. 3.14 “o princípio da criação de Deus”. Colossenses 1.15, no entanto, não quer dizer que Jesus foi o primeiro ser criado por Deus. No mundo antigo o primogênito era aquele que tinha o direito à herança do pai. Jesus como o primogênito quer dizer que ele tem direito legal sobre toda a criação de Deus. Tudo pertence a Jesus. Ele tem domínio sobre toda a criação. Esse é o sentido do texto. 

Apocalipse 3.14, por sua vez, não significa que Jesus foi criado no princípio. A palavra princípio usada é o grego arché, que significa fonte, origem. João quer dizer que Jesus é a fonte, a origem de todo o mundo criado. Ou seja, se diz no texto que tudo foi criado por meio dele, como bem atesta o evangelho de Jo. 1.3 e Cl. 1.16. As coisas existem por meio dele e para ele. Jo. 1.1 deixa bem claro que desde a eternidade o Verbo, Jesus, sempre esteve ao lado de Deus Pai, e isso por um motivo obvio que o próprio texto responde: ele mesmo era Deus. Se houve um tempo em que Deus Pai esteve sozinho, como afirma o estudo da Torre de Vigia, então não se pode dizer que sua natureza é amor (1Jo. 4.8). Para que haja amor é necessário no mínio a existência de duas pessoas, pois não se pode amar estando sozinho. 

Não se pode pensar que Jesus seja inferior a Deus Pai pelo simples fato ser denominado Filho de Deus. O estudioso em Novo Testamento Oscar Cullmann, diz que se alguém pergunta “se o Novo Testamento ensina a “divindade” de Cristo, deve-se pois, em princípio, responder afirmativamente...” (CULLMANN, 2008, p. 399). Sobre o conceito de Jesus como Filho de Deus, Cullmann de forma muito acertada diz que “... os adversários de Jesus perceberam, no emprego do título “Filho de Deus”, uma pretensão à igualdade com Deus, e que Jesus não os contradisse.” (CULLMANN, 2008, p. 392). 

Ao perguntar quem seria Jesus hoje, o estudo em questão diz: “Atualmente, Jesus não é nem homem nem Deus Todo-Poderoso. Ele é uma poderosa criatura espiritual, um Rei reinante.” No melhor dos cenários essa é uma declaração corajosa, e no pior, absurda. Se Jesus não é mais homem, então ele não pode ser o único mediador das pessoas. Se também não é Deus, tão pouco pode salvá-las ou mesmo ser adorado. Paulo diz claramente em 2Tm. 2.4 que o nosso mediador é o Jesus homem. Se ele não é Deus, textos como Jo. 1.1; 1.18; 20.28; Rm. 9.5; Tt. 2.13; 1Jo. 5.20, perdem o completo sentido. Deus não poderia conferir seu próprio Nome a Jesus se ele mesmo não fosse Deus, o Filho de Deus. É isso que Paulo diz que Deus fez em Fp. 2.10. “Por que este nome não pode ser sobrepujado por nenhum outro? Porque é o nome do próprio Deus...” (CULLMANN, 2008, p. 285). 

Negar que Jesus seja Deus é afirmar que sua adoração é ilegítima, uma idolatria. Contudo, encontramos no Novo Testamento que Jesus não criticou aqueles que o adoraram após sua ressurreição (Mt. 28,9,17. Jo. 20.28). Não se pode negar aquilo que o próprio Cristo permitiu. O escritor da carta aos Hebreus diz que todos os anjos devem adorar a Jesus por ser o Filho de Deus, o que implica sua igualdade com Deus Pai (Hb.1.6-10). No livro do Apocalipse, Jesus é retratado como o cordeiro que foi morto e ressuscitou, e em decorrência disso é adorado tanto no céu quanto na terra (Ap. 5.11-14). 

Levantar a hipótese de que Jesus era Deus foi o resultado das decisões e influência do imperador Constantino, bem como o uso do poder por parte da igreja em ascensão, não encontra o mínimo de comprovação histórica. Timothy Keller, em A Fé na Era do Ceticismo diz: 

Quanto a O Código Da Vince, todos sabem que a trama do livro e do filme é fictícia, mas muitos consideram plausível o cenário histórico que o autor, Dan Brown, afirma ser verídico. O livro mostra Constantino em 325 d.C. decretando a divindade de Jesus e suprimindo todas as provas de que ele era apenas um mestre humano. No entanto, mesmo um documento como a Epístola de Paulo aos Filipenses, que todos os historiadores garantem não datar de mais de vinte anos após a morte de Cristo, vemos que os cristãos adoravam Jesus como Deus (Fp. 2.10). A crença na divindade de Cristo fez parte desde o início da dinâmica do crescimento da igreja primitiva. (KELLER, 2015, p. 135).

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Homem-Aranha: De Volta Ao Lar e a Escolha Dos Doze Discípulos

O Homem-Aranha é um daqueles super-heróis que dificilmente alguém não consegue apreciar. Ele é um jovem estudante, possui obrigações em casa, na escola e mais, deseja salvar o mundo. Só sendo Peter Parker para alcançar êxito em tantas tarefas. 

Apesar de ser um filme de herói de quadrinhos, o longa é muito real ao abordar nosso “maravilhoso mundo novo”. Pode-se identificar facilmente pessoas de diversas nacionalidades, a marca de uma era globalizada. A vida e dilemas de um estudante são pontuados na mediada do possível, tais como o amigo nerd, a paixão por uma garota e afins. Até mesmo o preconceito com os latinos é abordado, mesmo que em uma cena cômica. 

O espanto que temos em descobrir quem é o vilão em sua “vida normal” foi uma experiência pouco vista em muitos filmes dessa natureza. Sempre imaginei o problema que seria para o Homem-Aranha viver numa cidade pequena ou mesmo numa área onde não predomina os grandes edifícios. Como lançar sua teia para se locomover? Não é que até isso nós encontramos no filme. Minha curiosidade foi atendida. 

Mas o que isso tem a ver com a escolha dos doze discípulos? Bem, Parker é um estudante qualquer, ao menos é o que as pessoas imaginam. O mesmo se dá com a escolha de simples pescadores feita por Jesus. Embora Parker possua uma força e habilidades incomuns a qualquer ser humano, o que justifica a escolha feita por Tony Stark, no caso de Jesus não havia nada nos discípulos que justificasse a sua seleção. Enquanto o primeiro escolhe seu “discípulo” porque viu algo, o segundo escolhe porque deseja que algo no futuro seja visto na vida de seus discípulos. Tony Stark atuou por mérito, Jesus por pura graça. 

Logo no início do filme vemos Parker entusiasmado em saber ter sido alistado para sua grande tarefa. Sua alegria é maior que sua responsabilidade, ao menos no início. Ao tentar impedir o roubo em um banco, por pouco não provoca uma tragédia maior. Quando perseguiu o vilão da história - mais uma vez as coisas não saem como imaginava – se não fosse o próprio Stark para socorre-lo, teria sido o Homem-Aranha o vilão por quase provocar a morte de dezenas de pessoas. Ele parece não acreditar que Tony Stark é mais sabedor dos perigos de ser um super-herói do que ele. Parker possui o desejo de fazer, embora lhe falte um pouco a disposição em aprender. 

Temos aqui uma teia que liga o Homem-Aranha aos doze apóstolos. Os discípulos aceitam o convite de Jesus para segui-lo, mas ao longo da caminhada parecem não entender o que isso implicaria. Estão alegres por fazerem parte do movimento liderado pelo messias prometido, o rei ungido que traria o reino de Deus ao mundo. No entanto... 

Jesus os chama para assumir o caminho do sofrimento e amor doador, mas o que dois deles desejam é a morte de uma comunidade de samaritanos (Lc. 9.51-56). O que significa poder é redefinido por Jesus ao demonstrar força na fraqueza e serviço humilde ao outro, enquanto os discípulos estão preocupados em saber quem será o maior entre eles. Ao tentarem agradar seu mestre os discípulos o decepcionam pois tentam impedir que crianças o encontrem, quando o mesmo deixou bem claro que receberia em seus braços todos que viessem até ele. Embora Jesus tenha enfatizado a necessidade de sua morte na cruz, um de seus seguidores tenta corrigi-lo contra tal pensamento. Mesmo tendo demonstrado tanto em ações quanto em palavras a necessidade de seus seguidores se manterem unidos em torno dele, antes de ir para a cruz todos os abandonaram, enquanto ele os amou até o fim. 

Em um de seus diálogos Parker é indagado sobre a seguinte questão: “Como é ser famoso quando ninguém sabe que é você?” Neste caso, o que o motiva a arriscar sua vida em favor dos outros, se quando ele é visto em ação o que se vê é a figura do Homem-Aranha e não a face do Peter Parker? Mas não foi isso o que Jesus ensinou em Mt. 6.1-6 sobre o ajudar sem a necessidade de ser visto? Assim como Parker, somos nós, seguidores de Jesus. Nossa função não é tornar nosso nome conhecido, mas tornar conhecido o nome de Cristo por aquilo que fazemos. Não precisamos de selfies quando nos dispomos a ajudar os outros. 

Ao saber que perderá seu traje, algo que não poderia imaginar, Stark lhe diz: “Se você não é nada sem o traje, então você não deveria tê-lo.” Onde está minha identidade? Quem é o Homem-Aranha? Quem são os discípulos? Aqui, Bíblia e Hollywood nunca estiveram tão próximos. Peter Parker aprenderá que pode ser o herói independente do traje. Não é o traje quem salva, mas aquele que o veste. Não foi o mesmo que aconteceu com os discípulos de Jesus? Ele disse que para fazerem o que foram vocacionados a fazer não precisariam de traje algum: “Não levem ouro, nem prata, nem cobre em seus cintos; não levem nenhum saco de viagem, nem túnica extra, nem sandálias...” (Mt. 10.9,10). A identidade deles estava atrelada à missão e não a alguma espécie de posse. 

Peter Parker terá em sua vida muitas missões para realizar, muitos riscos a correr, suor a derramar. Ele não saberia viver de outra forma. Conosco, deve ser o mesmo. Temos uma missão. Fomos alistados num grande exército, que ao contrario dos Vingadores, é formado por um único herói, Jesus. Ele nos envia a esse mundo. Pede que escalemos montanhas, derramemos nosso suor, nos arrisquemos. Foi o que ele disse: “Assim como o Pai me enviou, eu os envio.” (Jo. 20.21). 

Parker foi convidado a lançar sua teia, os discípulos suas redes. E nós?

sábado, 3 de março de 2018

CRISTIANISMO VIKING

Não é preciso dizer muito sobre a atração que a série Vikings produz em seus fãs. Quem nunca ficou fascinado ao assistir na TV soldados destemidos, de semblantes ameaçadores, com escudos e machados em punho durante uma batalha? Qual amante de uma boa série não gosta de uma trama envolvente? Que leitor de mitologia não se encanta em ver mitos entretecidos na vida de seus personagens? Tudo isso nós encontramos na série da Netflix.

Levantando as velas de nosso barco viking, desejo entrar em águas não navegadas, ao menos por parte de alguns fãs da série. A brutalidade existente nos mitos nórdicos pode ser vista no estilo de vida viking, o que faz deles um povo coerente, ou seja, a vida dos deuses refletida em comportamento terreno. Deuses ávidos por sangue produziu um povo sangrento.

Nesse lugar coberto de neve, a morte faz parte do tear que compõe o tecido da vida. Basta assistir um episódio para se comprovar isso. Seu horror pode ser visto embora sua realidade brutal não seja temida. Isso se deve a uma visão de mundo fatalista. A morte de um inimigo ou mesmo do guerreiro viking em batalha não é outra coisa senão o resultado inevitável de algo que não poderia ser alterado.

O que me chama atenção na série é como cristianismo e mitologia viking se confundem. Penso que isso é tanto intenção do autor quanto constatação de um dado histórico pontual. Vemos, com isso, tanto traição, ganância e brutalidade em ambos os lados. Presenciamos ocorrências místicas tanto no terreno da cruz quanto no território do martelo de Thor. A fé do padre Athelsten é contrastada com a fidelidade de Floki aos seus deuses. Se os vikings matam em nome de Odin, o lado cristão diz matar em nome de Cristo. Nada mais autocontraditório. Um cristianismo brutal se torna, assim, um cristianismo pagão. Não dá pra fazer uso da força em nome daquele que morreu para acabar com toda forma de comportamento brutal. O cristianismo da série Vikings se auto-anula, destrói sua própria Mensagem ao deixar rastros de morte. A vitória dos que matam se torna a derrota dos próprios vencedores. Claro que não podemos confundir esse cristianismo medieval com a fé judaico-cristã das páginas da Bíblia.

Se os vikings aguardam o dia do Ragnarok (o crepúsculo dos deuses), o fim de acordo com sua cosmovisão, quando deuses, gigantes e guerreiros lutarão até não existir mais nada, e toda criação afundará num mar escuro, a mensagem cristã pode dizer em termos vikings que o Ragnarok já aconteceu, ao menos não na forma como eles imaginavam nem no lugar ou tempo em que eles esperavam.

A batalha decisiva foi travada por um homem, Jesus, o Messias, não por um exército de guerreiros. O mal em todas as suas formas foi decisivamente derrotado. Sua dimensão oculta, semi-pessoal, foi vencida lá na cruz, lugar onde o amor e a justiça de Deus se revelaram. Um mundo de injustiça, maldade e traição afundou em si mesmo no dia em que o mal fez o pior com o Filho de Deus. O fim foi inaugurado no meio da história. Um novo começo iniciou.

Se fosse possível um duelo entre Jesus e Thor, posso dizer que Cristo morreria, mas é certo que o deus do martelo perderia. Pois enquanto na mitologia nórdica Thor vence pela força bruta, a mensagem do evangelho diz que Cristo venceu a força bruta pelo amor que se doa. A força bruta vence no mito, o amor, por sua vez, venceu na história. 

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

ENTÃO FOI NATAL, UM SERMÃO

INTRODUÇÃO

Nunca falei isso para a igreja, mas gostaria de dizer que não gosto do Natal. Não o suporto. Não gosto do Natal promovido por Mamon (deus dinheiro) e seu desejo insaciável em nos ver gastar, gastar e gastar. Não gosto do Natal que somente enche os supermercados e shopping centers das grandes cidades. Não gosto do Natal que tem como única finalidade enfeitar as cidades de luzes enquanto a vida de muitos se encontra em trevas. Não gosto do Natal que se resume a uma ceia e troca de presentes. Não gosto do Natal que abandona a Mensagem poderosa do Evangelho por meras felicitações vazias de “feliz natal”. Não gosto do Natal que retira Jesus do centro para colocar em seu lugar a figura de um senhor barbudo que serve somente para atender o desejo de pessoas egoístas. 

Mas qual Natal que eu gosto? Gosto do Natal onde Jesus é o centro. Sua vontade é absoluta, seu querer, inquestionável. Gosto do Natal repleto de pessoas que reconhecem seu pecado diante de um Jesus que é santo, santo, santo. Gosto do Natal proclamado por pessoas que ao seguirem Jesus se tornaram não pisca-pisca, mas sim estrelas numa época de trevas. Gosto do Natal que proclama a boa notícia de que Deus veio ao nosso mundo para nunca mais nos deixar. 

A SECULARIZAÇÃO DO NATAL

Muitos dizem que o natal é uma festa pagã. Nada disso. O natal foi a substituição de uma festa pagã. No entanto, a natureza religiosa dessa festa foi aos poucos sendo substituída por elementos de uma sociedade secularizada, avessa a qualquer coisa que tem relação com a tradição judaico-cristã. Não se iludam, o natal só é uma festa popular porque se tornou uma celebração secular. Não se conta a história da encarnação de Deus, antes, fala-se de um velhinho que viaja em um trenó e que entra pela chaminé das casas para entregar presentes. Não se diz que Deus ouve nossas orações, dizem que o bom velhinho lê as cartas das crianças. Não se ouve o anúncio de que Jesus ao cumprir sua missão voltou à dimensão de Deus, o céu. Fala-se que após o Natal o papai Noel volta para sua terra, o Polo Norte. Muitos sabem lidar com a figura do bom velhinho, mas ficam desconcertados com a realidade do Jesus que é Senhor sobre tudo. Que esse não seja a realidade de nosso Natal.

MAS AFINAL DE CONTAS, O QUE É O NATAL?

O Natal foi o dia da invasão de Deus, o momento em que ele desembarcou em nosso mundo (Gl.4.4; Jo.1.14). O dia que Deus armou sua tenda entre nós. Como diria C. S. Lewis, Deus invadiu nosso território já ocupado por muitos inimigos. O Natal celebra a arriscada operação de resgate que Deus elaborou. O profeta Isaias previu que um dia Deus arregaçaria as mangas mostrando seu forte braço de salvação (Is.52.10). No entanto, Deus é alguém que sempre pensa fora da caixa. Como seria seu forte braço? Nada melhor que o braço nu de uma criança (Lc. 2.6,7). Para nosso espanto, Deus se tornou um menino, aquele que sempre existiu antes de todas as coisas. Maria segurou em seus braços esse Deus que se fez menino.

O que poderíamos dizer num momento desses? Não há o que dizer. Só há espaço para celebração, e foi isso o que os anjos fizeram (Lc. 2.10-14). O renomado teólogo Leonardo Boff capitou muito bem esse fato quando disse: “Todo menino quer ser homem. Todo homem quer ser rei. Todo rei quer ser Deus. Só Deus quis ser menino. Humano assim como Jesus, só Deus mesmo”. Deus pede para que nos tornemos como uma criança, porque um dia ele mesmo se tornou um menino. 

O Natal celebra a festa da grande inversão, do dia em que Deus começou a colocar nosso mundo de cabeça para baixo. Deus está transformando esse mundo. O Natal nos leva a acreditar nisso. Deus está redefinindo esse mundo. Como ele faz isso? Ele começou com um menino na manjedoura. O braço daquela criança criou músculos e começou a curar muitas pessoas, a alimentar multidões, a estender a mão para muitos oprimidos e marginalizados e por fim seu braço ficou pregado em uma cruz. Lá, naquele momento, aparentemente sem poder fazer nada, Deus estava salvando sua criação. 

O Natal celebra a continuidade do agir dos braços desse Deus que se fez menino. Agora a grande revolução não ocorre com uma criança na manjedoura, mas através do pobre de espírito, dos que choram, dos humildes, dos que têm fome e sede de justiça, dos misericordiosos, dos puro de coração, dos pacificadores. Faz parte de sua estratégia subversiva mudar o mundo por meio do insignificante. Enquanto o filósofo Nietzsche falou do super-homem que devemos nos tornar, o Natal pede para anunciarmos a vinda do Deus que se fez menino. 

E nunca se esqueçam, Aslam está voltando. Em breve ele aparecerá. Ele está de mudança. A porta do guarda-roupa será aberta e em breve o veremos. O Deus que se fez menino. O menino que se tornou homem. O homem que foi exaltado à direita de Deus. 

Feliz Natal.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

JESUS DE NAZARÉ

DEVO ACREDITAR EM TUDO?

Jesus é um personagem histórico muito bem documentado. Pode-se até duvidar de seu ensino, mas não que ele realmente tenha existido na Palestina nos primeiros trinta anos do primeiro século. Nenhum historiador de credibilidade jamais negou, de forma que fosse reconhecido pela comunidade científica, a figura histórica de Jesus de Nazaré. 

Dizer, como alguns, que as pessoas acreditaram que Jesus existiu e fez o que os evangelhos afirmam ter feito deve-se a ingenuidade crédula de uma era pré-científica, não se sustenta. Diante de um fato incomum a descrença era o comportamento natural dos personagens bíblicos, algo nada diferente do homem moderno. José, por exemplo, não acreditou que Maria poderia estar grávida e virgem ao mesmo tempo (Mt. 1.18-15). Até mesmo a jovem Maria, ao saber da notícia de sua gravidez, questionou como isso seria possível diante do fato de sua virgindade (Lc. 1.34). Por um momento João ficou com dúvidas se Jesus era ou não o Messias (Mt. 11.1-3). Os discípulos não acreditaram que Jesus ressuscitaria até o momento em que o viram ressurreto. A explicação mais plausível para a ausência do seu corpo era que o tinham levado e não que havia ressuscitado (Jo. 20.1-15). 

Queremos dizer com esses exemplos que não há como admitir a existência de Jesus e negar ao mesmo tempo os fatos incomuns em sua vida. Como se a única verdade histórica a seu respeito foi que além de ser carpinteiro, terminou seus últimos momentos numa cruz. Os contemporâneos de Jesus não entenderam no primeiro momento muitos eventos estranhos de sua vida. Duvidaram inicialmente tanto da concepção virginal quanto da ressurreição, pois sabiam, tão bem quanto qualquer pessoa, que virgens não engravidam e que mortos não ressuscitam. Os evangelistas foram forçados a admitir, por mais difícil que fosse, o peso da veracidade de tais acontecimentos, mesmo diante de todas as evidências contrárias. Negar tais eventos alegando que eles não ocorrem hoje, é ingenuamente achar que os mesmos facilmente ocorriam no primeiro século.

Se Jesus é o Filho de Deus, precisamos levar a sério seus ensinamentos, incluindo a confiança que ele depositava na Bíblia como um todo. Se ele não é quem afirma, por que iríamos nos importar com o que a Bíblia diz a respeito de qualquer outro assunto? (KELLER, 2015, p. 145) 

UM JESUS HUMANO, MAS NÃO QUALQUER HUMANO.

O que podemos aprender da humanidade de Jesus nas páginas dos evangelhos? Desconsiderar os evangelhos nesta questão é incorrer no erro de criarmos um Jesus à nossa imagem. O livro o Código Da Vince, assim como o filme criaram uma certa comoção entre as pessoas pois apresentava uma figura alternativa de Jesus que não condiz com os quatro evangelhos. O fascínio pelo novo que existe em um mundo pós-cristão, aliado a possível descoberta de documentos que retratam o verdadeiro Jesus oculto pela igreja ao longo do tempo, é a receita perfeita para atrair a atenção do público.

Jesus foi um homem igual a qualquer outra pessoa, com exceção da concepção – foi concebido milagrosamente, bem como por sua natureza santa – ele não tinha pecado. Logo de cara, podemos ouvir alguns protestos: “então ele não foi tão humano quantos as outras pessoas?” “Se não tinha pecado, como ele poderia ser tentado pelo mal?” Vamos por parte!

A concepção virginal acha-se registrado em Mt. 1.18-25; Lc. 1.26-38. Esse milagre nos diz somente que um homem não participou do processo para a geração da criança. Depois da concepção milagrosa, a gestação se deu naturalmente, respeitando todo o processo de desenvolvimento do bebê (Lc. 2.6). Jesus era sem pecado não porque nasceu de Maria sem a participação de José, mas por causa da ação poderosa do Espírito Santo (Lc. 1.35). Ele era santo não por ser filho de Maria, mas por ser Filho de Deus Pai. 

Embora não tivesse pecado (Jo. 8.46; Hb. 4.15), as tentações que passou foram tão reais quanto a de qualquer pessoa, até mesmo mais real (Mt. 4.1-11). Sobre isso, o escritor C. S. Lewis nos esclarece com as seguintes palavras: 

Nenhum homem sabe realmente o quanto é mau até se esforçar muito para ser bom. Circula por aí a ideia tola de que as pessoas virtuosas não conhecem as tentações. Trata-se de uma mentira deslavada. Só os que tentam resistir às tentações sabem quão fortes elas são. Afinal de contas, para conhecer a força do exército alemão, temos de enfrentá-lo, e não entregar as armas. Para conhecer a intensidade do vento, temos que andar contra ele, e não deitar no chão. Um homem que cede à tentação em cinco minutos não tem a menor ideia de como ela seria uma hora depois. [...] Cristo, por ter sido o único homem que nunca caiu em tentação, é também o único que conhece a tentação em sua plenitude – o mais realista de todos os homens. (Cristianismo Puro e Simples, p. 189). 

A pergunta que devemos fazer não é se Jesus foi tão humano quanto nós somos, mas se nós somos tão humanos quanto ele foi. O pecado é uma espécie de vírus que infectou todas as pessoas. Ele não fazia parte do que é ser humano. É comum as pessoas falarem que “errar é humano”, como se o erro mostrasse nossa humanidade. O erro mostra somente que somos pecadores. O pecado nos torna menos do que deveríamos ser. Jesus é o não infectado. Aquele que tem e ao mesmo tempo é a cura. Ele é o que deveríamos ser, a imagem de Deus sem pecado. E é isso que ele faz na vida dos que o seguem, restaura a humanidade distorcida e adoecida mortalmente pelo pecado. Com certeza Jesus não foi humano como nós somos, ele foi mais humano.

sábado, 4 de novembro de 2017

MULHER MARAVILHA E O JESUS MARAVILHOSO

Mais uma vez pude agradecer a Deus pelo dom da cultura. É libertador compreender que o Deus revelado na Bíblia é maior do que a nossa compreensão sobre ele. Saber que ele está tão interessado em religião quanto em política, se entusiasma tanto com um belo culto quanto com um filme bem feito. É gratificante entender que o verdadeiro e único Deus não é um religioso alienado. Como seria bom apreciar um filme e perguntar a Jesus o que ele achou do que assistiu. Com sua capacidade de reflexão demonstrada nos evangelhos, não podemos imaginar que ele só tenha opinião sobre textos da Bíblia. “Penso que Deus pode ficar ofendido ou encantado com a arte, mas nunca surpreso” (Steve Turner). 

Pois bem, o filme que assisti foi Mulher Maravilha. Vemos uma Diana, diga-se de passagem, filha de Zeus, (alerta vermelho para spoiler) com um olhar mais humano sobre a vida que os próprios humanos. Ela se encanta com um bebê nos braços de sua mãe e se deslumbra até mesmo com um simples sorvete (qual criança nunca fez isso?). Sente, ao mesmo tempo, o horror que uma guerra pode provocar, sendo humana o bastante para sentir compaixão dos animais tratado com tanta indiferença pelas pessoas. 

No cenário em que vivemos, o da efervescência feminista, pensei que o filme teria a intenção de unir voz ao coro contra tudo que tem relação ao universo masculino. Ao menos não foi isso que vi. Ela é a única mulher num grupo composto de homens com a missão de salvar o mundo, mas que não despreza o gênero masculino, pois agrega até mesmo aquele que não se sente útil para a missão (quem viu ao filme sabe do que estou falando). 

A composição da obra é bem estruturada em três atos, naquilo que se convencionou chamar de a Jornada do Herói, muito bem desenvolvida no livro A Jornada do Escritor de Christopher Vogler. Primeiro vemos Diana em seu mundo comum, um lugar protegido dos perigos do mundo, uma espécie de Éden na terra. Vemos que há uma perturbação da ordem natural quando um avião cai no oceano e logo é seguido por uma invasão de navios alemães. O segundo ato é marcado por desafios iniciais, encontro com aliados e novos inimigos. O terceiro é marcado pela luta decisiva seguida pelo retorno da heroína com o resultado alcançado para o mundo.

Uma coisa que me chamou a atenção foi o destaque para o elemento da fé. Próximo do fim, Diana olha para seus amigos na batalha com o rifle sem munição, e logo em seguida os veem dar as mãos em atitude de oração na busca por livramento. A própria Diana acredita que pode haver paz no mundo, desde que o deus Ares seja completamente destruído. Em um diálogo com Ares, ela é tentada a assumir uma missão que não era a sua para ter como recompensa o mundo restaurado. Nem é preciso dizer que isso faz um paralelo com a tentação de Jesus no deserto (Mt. 4), momento em que ele é induzido a ser um outro tipo de salvador. 

Steve Trevor, o espião inglês não acredita na existência de Ares. Para ele isso não passa de um mito. Steve deve levar em consideração que se Diana pôde fazer o que fez na batalha inicial tudo indicaria que ela estava certa a respeito da existência do deus da guerra. Isso tem uma forte relação com os evangelhos. Se Jesus fez o que os evangelhos dizem que ele fez, temos que levar em consideração seu ensino, em fim, tudo o que ele acreditava. Não podemos ficar com suas ações e desconsiderar seu ensino e sua crença. 

Steve afirma que homens são os únicos responsáveis pelo horror da guerra. Diane está convicta que Ares é o único responsável. Ambos estão equivocados. Vemos que Ares existe e que os homens são seres cruéis e não merecedores de ajuda. Ares simplesmente incentiva o uso da maldade, mas não faz o mal por eles. Nisso há uma relação com o que a Bíblia diz a respeito da existência do diabo assim como constata a maldade do coração das pessoas. 

No confronto final, Diana, antes de desferir o último e decisivo golpe que destruirá Ares, faz um gesto que se assemelha a Cristo na cruz. Logo em seguida o sol começa a nascer no horizonte, uma correlação com a ressurreição de Jesus, que marcou as primeiras horas de um novo dia. Mas para nossa surpresa Diana diz que sua luta contra o mal nunca acabará, o homem sempre terá a escuridão dentro de si. 

É aqui que entra em cena nosso Jesus Maravilhoso (Is. 9.6). Ele desferiu um golpe decisivo no mal que desfigura a criação de Deus. O mal foi derrotado, mas aguarda a sua completa destruição quando de seu aparecimento em glória. Jesus destruiu o mal não pela força bruta (algo que Diana quase realiza) mas pelo poder do amor, o protesto de Deus contra toda maldade e indiferença entre os homens. Não teremos para sempre a mesma humanidade deteriorada, pois na cruz uma humanidade e um mundo caído chegam ao fim e em sua ressurreição uma nova humanidade e o início de um novo mundo emergem da sepultura.

Por fim, quero falar de algo que acontece no início do filme, quando percebemos que a ilha em que Diana mora é separada do mundo dos homens por uma fina película. Penso que o mundo de Deus e o nosso, céu e terra estejam da mesma forma separados. Ao mesmo tempo juntos e oculto um do outro. Em breve essa película será tirada, quando veremos do nosso mundo o próprio mundo de Deus, e teremos com isso um novo céu e nova terra (Is. 11; Ap. 21). 

terça-feira, 19 de setembro de 2017

ROCK IN RIO E A UTOPIA

O Rock In Rio começou nessa última sexta-feira (15/09). A surpresa aguardada para a abertura se deu com a participação da modelo Gisele Bündchen e seu discurso sobre a necessidade de construirmos um mundo melhor, igualitário e com a devida atenção ao meio ambiente. Suas palavras – ao menos para mim – soaram muito verdadeiras. Mas não é sobre a sinceridade do discurso proferido que desejamos analisar. O que nos propomos nesse post é averiguar o que não foi dito, mas que era a base subjacente de toda a mensagem proferida.

Não precisamos discutir o mérito do anseio por um mundo melhor. Quem não deseja? Com exceção de Dark Side, Lex Luthor, Apocalipse e Coringa, creio que a resposta seja positiva. O otimismo por um mundo melhor e o idealismo do progresso humano, as bases do discurso feito no Rock In Rio, esbarram em tudo aquilo que insistentemente nos leva a pensar o contrário: duas guerras mundiais; Auschwitz; opressão, miséria, injustiça e morte como frutos das ideologias comunistas no afã de uma sociedade justa; violência em escala endêmica; terrorismo que parece não conhecer nenhum tipo de fronteira; degradação irrefletida do meio ambiente; insensibilidade, orgulho, imoralidade e alienação apesar dos avanços da tecnologia e da ciência. A utopia da construção de um mundo melhor colide na aridez de um mundo distópico à semelhança de Mad Max. 

Deveríamos então ser pessimistas? Largar a ponta da corda do otimismo para ficar com a outra extremidade, o pessimismo? Parece que é isso que muitos cristãos vêm adotando como fruto de sua leitura bíblica. “O mundo só vai piorar com o passar do tempo”, assim afirmam muitos pregadores e entusiastas das “últimas revelações proféticas”. Se tudo vai se degradar de qualquer jeito, porque alguém deveria se preocupar com esse mundo? Temos que lutar para que pessoas sejam salvas desse mundo, - diriam alguns – pois dessa criação não se pode esperar mais nada. Quem consertaria um computador que seria levado ao lixo no outro dia? Ou melhoraria a casa que foi condenada à demolição pela Defesa Civil? Se por um lado o espírito secularista de nosso tempo proclama um otimismo ingênuo no progresso humano, os cristãos de vertente alienadora exaltam uma espécie de pessimismo sombrio incompatível com a fé judaico-cristã. 

O que propomos é uma visão de mundo realista, sustentada pela meta-narrativa das Escrituras. A Grande História que explica as diversas histórias do nosso mundo. O abandono do otimismo ingênuo e do pessimismo sombrio que dá lugar a realidade da esperança bíblica. A resposta para nossas angustiantes perguntas: Por que o mundo está assim? O que nos impede de colocá-lo nos trilhos, se é que existe algum? O que há de errado com o ser humano? Há algum fundamento para esperança? Nossa resposta está contida não em pequenas sentenças que devem ser recitadas, mas numa grande história que deve ser contada, narrada em um “box com quatro discos blu-ray” – Criação, Queda, Redenção e Consumação.

PRIMEIRO ATO – CRIAÇÃO (Gênesis 1-2)

Esse mundo é o resultado da ação livre das mãos de um bondoso criador. Deus criou um mundo repleto de beleza, justiça, bondade e que foi em certo sentido arrendado ao ser humano para ser compartilhado em igualde de condições. O homem deveria cuidar e levar o mundo a sua verdadeira frutificação. Mas... 

SEGUNDO ATO – QUEDA (Gênesis 3)

Alguma coisa parecia estar errada. Uma serpente falando demonstrava que algo estava fora do lugar. O homem dá um salto de autonomia. Deseja um conhecimento e poder ilimitados. Desconfiaram da bondade de Deus e se rebelaram contra sua autoridade. O jardim que deveria florescer em toda a terra cedeu espaço a um deserto e no lugar de árvores, espinhos. A terra foi amaldiçoada e a morte se espalhou entre as pessoas. O homem fez tudo dar errado. Será que o criador abandonará sua criação? O que ele poderia fazer num cenário desses? 

TERCEIRO ATO – REDENÇÃO, PLANO DE RESGATE (Gênesis 12 – João 21)

É o ato mais longo de todo esse drama. Deus escolhe o desconhecido Abraão e diz que por meio dele reverteria toda a confusão e consertaria tudo o que Adão fez de errado. Mas o que se vê é mais confusão, imoralidade, idolatria, opressão, ganância e por fim, exílio. Nada parece funcionar. Teria o criador perdido as amarras da história? É nesse momento que ele tira uma carta decisiva e a lança na mesa. Deus mesmo vai entrar em cena. Vai desafiar o monstro indomável do mal na fragilidade de uma criança. É ele, Jesus de Nazaré. Vemos sua proclamação de que o reino de Deus estava próximo e suas ações que demonstravam como é o mundo quando governado por Deus. Ele morre de forma brutal, mas não trágica, pois na cruz ele derrotou o mal que tentava impedir os propósitos de Deus para sua criação. Ele ressuscita e antes de ir para o mundo de Deus, a dimensão do Criador, convoca seus seguidores a proclamar que o mal foi vencido e que um novo começo se iniciou, que o projeto abortado no Éden foi reiniciado em sua vida, morte e ressurreição e que um mundo melhor é possível. O que esperar agora?

QUARTO ATO – CONSUMAÇÃO (1Coríntios 15; Apocalipse 21-22)

O que Jesus fez e continua fazendo por meio da vida de seus seguidores no poder do Espírito Santo será completado no dia do seu retorno. O mal foi vencido na cruz e será aniquilado com o aparecimento do Filho de Deus quando a dimensão invisível do Criador ficar visível em toda essa terra. Nesse dia haverá cura completa para o meio ambiente em geral e para o nosso corpo em particular.

Essa é a narrativa que explica nosso mundo. Cremos que o mundo pode ser melhor agora não por causa do homem em geral, mas por aquilo que um homem em particular fez ao morrer e ressuscitar. Pela fé no Cristo que morreu e ressuscitou podemos trabalhar por um mundo melhor, pois temos a esperança que um dia Deus tornará essa criação decadente em uma nova criação. Podemos trabalhar localmente por sabermos que Deus aperfeiçoará nossas ações em escala global. A reforma social é possível devido a redenção em Cristo já ter acontecido. Não precisamos ser otimistas utópicos nem pessimistas distópicos, antes, a fé em Cristo “transcende essas realidades, não se refugiando no céu ou na utopia, nem sonhando estar em uma outra realidade. Ela pode passar os limites da vida humana, cercados por sofrimentos, pecados e morte, somente lá onde eles foram realmente derrubados; somente pela aceitação do Cristo ressuscitado do sofrimento...” (MOLTMANN). 

É certo que não ouviremos isso no próximo Rock In Rio. Mas será que poderíamos ouvir nas igrejas?

terça-feira, 27 de junho de 2017

LOGAN E A TEOLOGIA

Minha relação com os X-Men vem de longa data, quando o desenho era apresentado pela Rede Globo nos anos 90, 1994 para ser mais preciso. Tenho, desse mesmo ano, um Hq do Wolverine nº 34. Sempre que assistia aos episódios eu pensava (lembro que comentei isso uma vez com meu primo George): quando farão um filme dos X-Men, ou do Wolverine? Muita coisa se passou desde então, e ontem pude assistir ao último filme do Wolverine, Logan. Sempre que nos encontramos diante de algo grandioso, alguma coisa nos acontece, uma sensação de alegria, somos tomados por um sentimento de grandeza. Foi isso que me ocorreu ao assistir esse épico do cinema. 

Sei muito bem que o filme é violento. Mas em nenhum momento o diretor rompeu os limites entre violência abordada e maldade explorada de forma desmedida. Percebe-se que "existe um convite para a redenção, a esperança de uma humanidade melhor, e não uma negação niilista do tipo: Essa é a vida real. É melhor se acostumar com ela" (Brian Godawa). O filme conseguiu algo difícil em se tratando de longas de super-heróis, a humanização dos personagens. Somos brindados com emoções verdadeiras tanto de Logan quanto do professor Charles, mas nunca sentimentalismo forçado. O primeiro possui um enorme cuidado com o professor nonagenário, e o segundo nos mostra a dor de uma mente cansada que somente deseja ter uma refeição e uma noite de sono em paz – mais humano, impossível. 

Tendo isso por assentado, quero fazer referência a duas frases ditas em momentos distintos do filme. A primeira foi pronunciada por Charles ao próprio Logan: “Eu sempre sei quem você é. É que as vezes não te reconheço”. Ouvimos isso depois de vermos um Wolverine decadente, alcoólatra, tentando negar quem é ao assumir a profissão de motorista. Sabemos quem é Wolverine, mas não estamos reconhecendo-o. Olhando para a Bíblia, vemos um Deus que nos criou, que sabe quem nós somos, “imagem e semelhança de Deus” (Gn. 1.27), mas que infelizmente não nos reconhece. Fomos criados para refletir a vida de Deus nesse mundo, mas o que espalhamos é morte, indiferença, orgulho, egoísmo, imoralidade e destruição. Caímos num momento da história de nosso estado de bondade inicial (Gn. 3). Somos quem não deveríamos ser. 

A outra frase foi dita por Logan a jovem mutante Laura: “Não seja aquilo que eles fizeram de você”. Que frase bíblica! Laura é uma mutante, produto de laboratório, criada sem nenhum afeto, propensa a ser para os outros aquilo que outros foram para ela. Diante das injustiças sofridas, Laura poderia ter sua identidade distorcida, definida somente por sua dor. Ela precisa ser mais que a soma total de seus sofrimentos. Miroslav Volf, teólogo batista, assim se expressa: “Em vez de sermos definidos pelo modo como os seres humanos se relacionam conosco, nós somos definidos pelo modo como Deus se relaciona conosco”. Laura precisa ter sua identidade definida pelo comportamento de Logan com ela. Como cristão, devo ter meu comportamento alterado não pela injustiça que outros praticaram contra mim, mas pelo amor, misericórdia e bondade realizado por Deus em Cristo Jesus na cruz, lugar onde ele carregou toda nossa culpa e dor. 

Após se despedir de Logan, que foi morto sobre um madeiro (1Pe. 2.24) Laura se encontra diante de uma nova possibilidade, um futuro aberto se apresenta. Da mesma forma, Deus em Cristo Jesus nos promete um futuro de redenção, um mundo de vida, paz, justiça e beleza, um novo céu e nova terra (Ap. 21), o que para Laura seria a esperança do lugar chamado Éden.

Enquanto Logan vive uma decadência física e Charles uma fraqueza mental, o nosso herói Jesus, aquele que morreu, ressuscitou, ascendeu ao céu e em breve voltará de mudança para nosso mundo continua sendo “o mesmo ontem, hoje e para sempre” (Hb. 13.8). 

Obrigado por tudo Wolverine.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

O CRISTÃO E O MEIO AMBIENTE

Nesta última segunda (05/06) comemorou-se o dia mundial do meio ambiente. Uma data tão despercebida quanto nossa atenção dada ao cuidado com a natureza. Muitas igrejas adotam em seus calendários litúrgicos datas comemorativas para serem celebradas no espaço do culto: dia da mulher, dia das mães, dia dos pais são alguns exemplos. Mas qual de nossas igrejas alguma vez realizou o culto com sua temática voltada para o meio-ambiente? Qual foi a última vez que ouvimos um sermão onde fomos exortados sobre nossa responsabilidade com a natureza? Que ministério, dentre os vários que uma igreja possui, é voltado para o cuidado com o meio ambiente? A resposta para esses questionamentos revelará a falha do nosso atual cristianismo. 

Faz alguns dias o presidente Donald Trump anunciou a retirada dos Estados Unidos do acordo de Paris – tratado assinado por mais de 130 países que visa a diminuição de emissão de poluentes das fábricas, bem como outras medidas limitadoras para o aumento da temperatura da terra. Ele mesmo se denomina um cristão conservador. Isso deve explicar sua visão equivocada com o meio ambiente. Ele preserva o equívoco conservador que olha a natureza como algo que só deve ser explorada. A verdade que nos envergonha (ao menos deveria) é que não nos importamos com a natureza. 

Por que perdemos o olhar tão fascinante e ambiental da mensagem bíblica? Boa parte da crise ambiental que temos hoje se deve ao cristianismo. Não o cristianismo das páginas da Bíblia, mas ao cristianismo que se esqueceu de olhar com atenção para o texto bíblico. O mundo atual é um mundo pós-cristão, mas a mentalidade sobre a natureza ainda é uma mentalidade cristã equivocada: a natureza existe para ser dominada e esse domínio se dá pela força destrutiva.

Nosso cuidado com a natureza se dará na proporção que prestarmos mais atenção ao texto bíblico. Precisamos mudar o nosso ainda não admitido referencial gnóstico, que desmerece a boa criação material de Deus, por um referencial bíblico judaico-cristão, que reafirma a bondade da criação apesar de sua atual deterioração, bem como o empenho incansável do Criador em consertar a natureza. Mas como se dará isso? Entender que somos salvos como parte de um projeto maior, a salvação de todo o mundo criado em sua total biodiversidade. Esse novo referencial deve estar presente em nossos cânticos, que infelizmente desprestigiam a beleza da ordem material criada em busca de um escape desse mundo e não na busca de sua redenção. 

Dito isso, será que Jesus entendia que sua missão tinha relação com o destino da terra? Ao nascer, Jesus foi colocado num cocho de alimentar animais. Um grande perigo para uma criança. Esse incidente não descreve somente sua humildade, mas sua missão. O Salvador inaugura, ou serve de sinal, de um novo mundo que surgirá, marcado pela harmonia entre homens e animais. Isso foi um maravilhoso sinal para os pastores. Eles viviam a céu aberto, numa rotina cansativa e perigosa, proteger as ovelhas dos lobos (Lc. 2.8). Os pastores houviram o cântico dos anjos que foi muito carregado de significado para eles (Lc. 2.13,14). Como seria, à luz do olhar de um pastor de ovelhas da época, um mundo de paz? Seria um mundo onde não se precisa arriscar a vida para viver. Um lugar de perfeita convivência entre homens e animais. O fascinante disso tudo é que Isaias já antecipou essa verdade em Is. 11.6-9. Um mundo não marcado pela disputa de território, mas pelo compartilhamento conjunto.

O texto de Mt. 9.1-8 nos leva nessa mesma direção. Por que Jesus diz, nesse texto, que tem na terra poder para perdoar pecados? Somente indo para Gênesis 3.17 onde encontramos uma relação entre o pecado humano e desordem natural. A resposta é que Jesus liberta a terra da maldição perdoando os homens dos seus pecados. Os danos que o pecado de Adão trouxe para a terra começam a ser desfeitos quando Jesus perdoa nossos pecados. Não é sem motivos que Paulo chamou Jesus de o segundo Adão (1Co. 15.45). O primeiro Adão aprisionou a terra ao pecado, o segundo, Jesus, a liberta no precesso de redenção da humanidade pecadora (At. 3.21; Rm. 8.18-21; Ef. 1.9,10; Cl. 1.15-19).

Não podemos entoar louvores ao Deus criador ao mesmo tempo que destruimos parte de sua boa criação. Se somos a imagem e semelhança de Deus, nossa vocação é sermos para a natureza o reflexo do cuidado desse Deus criador.