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quarta-feira, 22 de outubro de 2014

TEMPLOLATRIA, A CRÍTICA DE JEREMIAS E ESTEVÃO


Recentemente foi inaugurado em São Paulo um prédio com o nome fantasia Templo de Salomão. Uma obra magnífica, digna do gênio arquitetônico de Herodes, o Grande, e tão esplendorosa quanto os mais altos sonhos de Nabucodonosor. No melhor dos cenários, este Templo de Salomão é uma bela obra da engenharia moderna, e no pior, uma aberração bíblico-teológica.

Desejo evocar duas vozes existentes na Bíblia para uma análise desta mais nova obra idolátrica de nossos dias. Primeiro o profeta Jeremias, com seu impactante sermão em Jr.7, e Estevão com o discurso não menos chocante de At. 7.

Jeremias viu que as pessoas em número elevado acorriam para o interior do templo (Jr. 7.1,2), estavam sedentas por adoração. O que para nós poderia ser visto como sinal de um possível avivamento, para o profeta Jeremias era uma conduta que mascarava uma triste realidade. Como bem salientou Eugene Peterson, ao afirmar que as pessoas “estavam no lugar certo, diziam as palavras certas, mas elas próprias não estavam certas”. Encontrar-se sedento por adoração, segundo Jeremias, não é o mesmo que se encontrar sedento por Deus.

Por mais que repetissem a verdade de que o local era o templo do SENHOR (v.4), note a tríplice repetição com a finalidade de ênfase, a conduta do povo em seu dia-a-dia anulava o discurso tão bem articulado (vs. 3,5-8). Não havia verdadeira piedade. As pessoas eram injustas, imorais e idólatras (vs. 9-11). O templo havia se tornado um mero fetiche, um amuleto de proteção não contra a vida corrompida, mas para se viver diariamente na corrupção (v.10). Desejavam um encontro com Deus no templo, mas não se dispunham a caminhar com Ele fora do recinto de adoração.

A consequência de tudo isso, lembra Jeremias, é que Deus faria com o templo o mesmo que havia feito com o antigo santuário de adoração em Siló (vs. 12-14). Siló fazia parte de antigas histórias de Josué (Js. 18.1). Era o santuário da época dos juízes (Jz. 21.19). Samuel, o último dos juízes fora criado neste santuário (1Sm. 1.24). Siló fazia parte, com isso, de uma rica tradição cultual, não obstante os antigos problemas já existentes neste antigo lugar de culto (1Sm. 2.12-14). O salmista relata a destruição de Siló no Salmo 78.58-61.

Jeremias alertou o povo que o mesmo aconteceria ao templo, símbolo da presença de Deus entre o povo. O lugar de adoração seria destruído pelo próprio Deus que há muito tempo havia deixado de ser verdadeiramente adorado. Isso aconteceu quando da invasão babilônica no ano 586 a.C. O sermão de Jeremias reverberou a tal ponto que encontramos ecos de sua voz no discurso de Estevão em Atos 7, o que não impediu que este ampliasse a visão negativa do próprio templo como vista em Jeremias.

Estevão recorda toda a história de Israel e como Deus agiu em favor de seu povo (At. 7.1ss). Declara que o tabernáculo, o santuário móvel da época do deserto e da conquista da terra, feito por Moisés foi segundo um modelo recebido diretamente por Deus (vs. 44,45), para depois fazer referência a construção do templo (vs. 46,47). É aqui que o pensamento de Estevão chega a um clímax não existente na pregação de Jeremias.

A originalidade da exposição de Estevão está em entender que a construção do Templo foi algo contrário aos planos de Deus. Quando ele diz: “Mas foi Salomão quem lhe construiu a casa”, é sua forma de dizer que o desejo de Davi, contrário à vontade de Deus, foi concretizado por seu filho e não por ele mesmo. É como se para Estevão, Deus houvesse privado Davi de um erro. Este teria sido o resultado de Davi ter achado graça diante de Deus. Note o contraste entre o v. 47 e o 48. Tudo não passou de uma obra inútil (vs. 49,50). Estevão sabe deixar de lado a crítica ao tabernáculo, pois ele explica que sua confecção foi ordem do próprio Deus (v. 44).

A expressão “feito por mãos humanas” é a chave para compreendermos o entendimento de Estevão da construção do Templo. Veja a relação entre o v. 41 e o 48. Esta era uma expressão que se usava para condenar a prática da idolatria (Lv. 26.1; Is. 31.7; 46.6). Durante o julgamento de Jesus, usaram esta expressão para incriminá-lo (Mc. 14.58).

Podemos dizer que Estevão levou até as últimas consequências a crítica ao templo. Os profetas, por exemplo, denunciaram a conduta errada dentro do templo. Quando muito, que o templo seria destruído por causa da violação da vontade de Deus. Para Estevão o próprio templo é uma violação da vontade de Deus, em outras palavras, só foi construído em decorrência da desobediência do povo. Foi a expressão maior de rebeldia (v. 51). Este templo, reconstruído e ampliado por Herodes, o Grande, veio abaixo no ano 70 d.C., sob o comando do general Tito.
Diante de tudo isso, afirmamos que o atual templo de Salomão na cidade de São Paulo não é outra coisa senão a expressão máxima de desobediência ao plano redentor de Deus. Jesus havia predito a sua destruição quando da admiração dos discípulos por sua imponente arquitetura (Mc. 13.1,2). “Jesus estava desafiando, em nome do Deus de Israel, o próprio lugar onde Deus deveria habitar e se relacionar com seu povo” (N. T. Wright). Logo, esse atual templo de Salomão é a reconstrução de algo que o próprio Jesus afirmou que seria completamente destruído como sinal do juízo divino. Em outras palavras, é um templo que se encontra em rota de colisão com o próprio Deus.

Afirma-se que lá é possível sentir a real presença de Deus. Basta adentrar o templo, segundo alguns, para se confirmar isso. Outro erro gritante. Não nego que as pessoas não possam se emocionar diante de uma estrutura tão colossal. Contudo, interpretar isso como sendo a presença de Deus é que não se pode admitir. Com a encarnação do Filho de Deus, a Glória que antes estava restrita ao templo, se encontra agora na pessoa de Jesus (Jo. 1.14). Ele tabernaculou, ou “estabeleceu seu tabernáculo entre nós” (Oscar Cullmann). É somente em Jesus que os céus encontram-se abertos (Jo. 1.51). “A partir de agora os céus estão sempre abertos, onde quer que Cristo esteja” (Oscar Culmann).

Com a destruição do templo, um novo foi construído por Cristo, que se constitui na comunidade dos discípulos (1Co. 3.16; 6.16; Ef. 2. 21,22; Hb. 3.6; 1Pe. 2.5). Não será esse novo templo que irá substituir àquele já construído pelo Cristo ressurreto.

Como últimas palavras, não podemos permitir que o símbolo que representava a presença de Deus substitua agora a realidade de Sua presença na comunidade dos discípulos onde Cristo habita. Fiquemos com a realidade da presença divina e não como o antigo símbolo que a representava. Que a denúncia do profeta Miquéias não seja esquecida ao combater aquilo que ficou conhecido em teologia do Antigo Testamento como teologia de Sião, que infelizmente vemos aflorar em nossos dias (Mq. 3.9-12).  

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

CRISTIANISMO SEM CRISTO

O que aconteceu com o cristianismo que fez com que ele se tornasse aquilo que é atualmente, uma caricatura distorcida e porque não dizer corrompida do verdadeiro cristianismo do Novo Testamento? A mensagem bíblica encontra-se diluída como uma proposta para o crescimento do número de evangélicos, o que tem fomentado uma grande colheita, mas infelizmente de muitos frutos estragados. Como identificar esse novo cristianismo não cristão? A tarefa é difícil, mas penso que algumas pistas são evidentes.

Essa nova modalidade de cristianismo é facilmente identificada pelo desejo idolátrico por novidades. A igreja, segundo eles, deve sempre inovar, não importa o que seja, exceto que inove. A única constante para estes “cristãos” é a inovação. Neste afã, tornaram a igreja numa espécie de circo, onde os membros deram lugar a plateia, o púlpito cedeu espaço ao palco de apresentações e o pastor desfigurou-se a tal ponto que se tornou um animador de auditório, ou palhaço circense. A igreja passou a ser um lugar de entretenimento e não mais de instrução, um lugar para se assistir um espetáculo, não mais para se ouvir a Palavra de Deus.

Devo confessar que a Bíblia não foi esquecida nestes círculos religiosos, ou igreja segundo eles. No entanto, deixou de ser o livro de estudo por excelência para se tornar num amuleto de superstição, um fetiche evangélico. Usam-se frases da Bíblia fora de seu contexto literário e histórico para imprimir uma cega confiança de que as bênçãos de Deus estão chegando. Não há uma mensagem de compromisso cristão, mas somente de auto realização humana. São ávidos por novidades (não verdade bíblica) trazidas por seus pregadores, mas negligentes em assumir um novo comportamento diante do texto bíblico.

O próprio conceito de espiritualidade foi corrompido. Espiritualizaram até mesmo a espiritualidade, no sentido de que a vida com Deus se resume, agora, no curto espaço de tempo de um efêmero culto. Ela tornou-se uma questão de sentimento, não mais de atitudes concretas fora do ambiente de “adoração”. Isto, contudo, pode ser visto tanto como fraude deliberada, quanto entendimento equivocado daquilo que realmente importa pra Deus. Busca-se, desta forma, a sinceridade das realizações cultuais em detrimento do comportamento obediente à Bíblia Sagrada. Esquece-se com isto, do rei Saul, que embora sincero naquilo que fez (1Sm. 13; 15.1-23), não foi obediente a ordem divina, o que incorreu no desfavor do SENHOR.

Diante desta lúgubre observação, como deixar de fora o modismo dos artistas evangélicos? Eles são mais conhecidos por muitos crentes que alguns dos personagens mais populares da Bíblia. Suas músicas tomaram o lugar dos versículos bíblicos na mente de seus fãs, ou será que somente ocuparam um lugar antes vazio? Não sabemos. Shows são promovidos numa escala endêmica. A preferência pelo show ao invés do culto é facilmente compreendida: no primeiro, o artista é o centro das atenções, no segundo, se verdadeiramente realizado, tudo converge unicamente para o engrandecimento de Deus. No show, o artista é um mero entretenimento para uma massa destituída de identidade. No culto, Jesus é o exemplo de vida que deve ser imitado por seus adoradores. No show, nossa humanidade se desfigura, já no culto ela é restaurada à semelhança do Seu Criador.

Por fim, quero confessar que apesar disso tudo, Cristo não pode ser destronado, pois em sua morte e ressurreição ele é Senhor do mundo. Temos contudo, que renunciar esse humanismo pagão, e confessarmos com uma só voz o que diz uma antiga música: “Jesus, entronizado, declaramos que és Rei”. Que a luz de sua glória irradie por meio de sua igreja, e que esse nefasto show tenha suas luzes apagadas, para que somente Cristo apareça.

terça-feira, 3 de junho de 2014

LEITURA VICIADA, PARTE 2 - LEVADO OU DEIXADO?

Neste post iremos abordar o conhecido texto de Mt. 24.40,41. Este será nosso segundo texto comprobatório de interpretação que precede a leitura no meio protestante. A passagem em questão é bastante conhecida entre os evangélicos. Uniforme também é o entendimento do texto: a pessoa que é levada é o crente e a deixada, o descrente quando do arrebatamento da igreja. Posso afirmar que nove entre dez evangélicos entendem o texto desta forma. Embora este dado não seja fruto de um estudo de caso, é o resultado empírico da surpresa estampada no semblante das pessoas quando expus algumas vezes outro significado alternativo para este texto.

Mateus 24 constitui um relato apocalíptico. É um capítulo com gênero literário próprio. É consenso entre os eruditos do Novo Testamento que Mateus fez uso do texto existente no evangelho de Marcos (Mc. 13) e o ampliou com material novo. Joachim Jeremias em Teologia do Novo Testamento faz um acurado estudo deste fato. Não faz parte do objetivo deste artigo analisar essas semelhanças e dessemelhanças nos dois relatos, mas sim sua tão conhecida interpretação já relatada anteriormente.

Qual o motivo de tantos evangélicos defenderem a mesma interpretação para este versículo? A resposta se acha no século XIX com os escritos de John Nelson Darby. Ele defendia que a volta de Cristo se daria em duas etapas, uma secreta, antes da Grande Tribulação e outra visível, após os eventos da Grande Tribulação. No Brasil a Bíblia de Estudo de Escofield popularizou este ensino de tal forma que muitos o defendem sem ao menos saberem sua origem.

A grande maioria dos cristãos transferiram para esta passagem a doutrina do suposto (isto para mim que não a defendo, mas evidente para os adeptos deste ensino) arrebatamento secreto defendida pela escola iniciada por John N. Darby. Logo, passou-se a interpretar que aquele que é levado seria o crente no momento do arrebatamento ou desaparecimento pouco antes do início da Tribulação, como descrito na série Deixados Para Trás que também virou obra cinematográfica. Isto não quer dizer que a escola iniciada por Darby interprete o texto dessa forma. Basta lermos a obra de J. D. Pentecost, Manual de Escatologia, para confirmarmos isto. Este afirma que o discurso apocalíptico de Jesus diz respeito somente a Israel e não a igreja.

Entretanto, o renomado estudioso do Novo Testamento, Charles Dodd, em seu livro As Parábolas dos Reino, ao observar esta passagem diz que não “está claro quem tem melhor sorte: o que é tomado ou o que é deixado”. (DODD, 2010, p. 76). Qual o valor desta observação para nosso estudo? Esta análise serve como princípio limitador de uma hermenêutica que se ufana em afirmar como sendo evidente a interpretação desta passagem, mantida, infelizmente, pelo imaginário evangélico popular.

Embora Dodd não afirme a situação de quem é deixado ou levado, expõe, por outro lado, a natureza da narrativa. Acertadamente ele diz que “o acontecimento em questão será o dia do Filho do Homem, que trará um juízo seletivo sobre os indivíduos...” (DODD, 2010, p. 76, grifo nosso).

Temos que interpretar os termos um será levado e outro deixado tendo em mente este juízo como contexto modelador de toda a narrativa mateana. Logo, a chave para o entendimento dos versículos 40 e 41 são os versículos 37-39. Jesus faz uso, aqui, do Dilúvio como evento explicativo para o futuro acontecimento condenatório descrito em seu sermão apocalíptico. É dito claramente que como “foi nos dias de Noé, assim também será na vinda do Filho do Homem”. Faz-se necessário agora uma pergunta: quem foi levado pelas águas do Dilúvio? Noé e sua família ou as demais pessoas e animais? Aqueles que conhecem a história bíblica dirão a segunda opção.

Chegamos aqui no limiar de nossa exposição. Se as águas do Dilúvio levaram toda a população da época de Noé, exceto ele e sua família, qual a identidade daquele que será levado nos versículos 41,42? Só poderá ser o descrente quando do juízo condenatório provocado pela segunda vinda de Jesus. Podemos ver com isto que a passagem em questão não aborda o arrebatamento mas sim o juízo do último dia.

É bem verdade que os termos usados nos versículos 39 (levou a todos) e 40 (um será levado) não são os mesmos. Todavia, isto não pode ser usado para se dizer que aquele que é levado em Mt. 24.40 teria um sentido positivo, sendo com isto distinto do significado negativo de Mt. 24.39. O sentido de uma palavra, entretanto, não pode ser obtido somente com o estudo de seu significado etimológico, mas sim pelo contexto da passagem em que o termo se encontra. D. A. Carson, em Falácias da Interpretação Bíblica já explicou o equívoco deste pressuposto metodológico. Logo, mesmo os termos sendo distintos, o contexto da passagem lhes confere o mesmo significado pretendido pelo autor. Ser levado ou tomado, é ser apanhado pelo juízo, assim como no dilúvio, e ser deixado é a forma de se descrever que outros escaparão ilesos desse julgamento, da mesma forma que Noé e sua família. A passagem de Ap. 14.14-20 serve como texto correlato para Mt. 24.40,41. 

Devo admitir que não pretendo trazer a última palavra sobre este texto, encerrando assim qualquer discussão. Contudo, permitamos que a Bíblia nos diga aquilo que o autor pretendia dizer e não aquilo que achamos que ele tenha dito por influência de nossas lentes doutrinárias.                        

sexta-feira, 11 de abril de 2014

O MISTÉRIO DA TRINDADE


Como falar sobre a Trindade? A primeira coisa que posso dizer é que é muito fácil falar de maneira difícil sobre a Trindade, mas que é muito difícil falar de forma fácil sobre este assunto. Confuso, né? Isto porque a Trindade é um daqueles assuntos revelados na Bíblia que é mais fácil crer que explicar. Ou como bem disse Santo Agostinho: “se o entendes, então não é Deus”. Em outro lugar, sobre a Trindade disse: “tente entendê-la e perderá a cabeça. Tente negá-la e perderá sua alma”. Só nos resta neste artigo perder a cabeça. Então vamos lá.

A doutrina da Trindade foi a tentativa de conciliar o ensino bíblico de Um Único Deus verdadeiro com as passagens que afirmam a divindade de Jesus e do Espírito Santo.

Acredita-se que o termo Trindade foi usado pela primeira vez por Tertuliano, um dos pais da igreja que viveu entre os anos 160 a 230 da era cristã. O termo vem do latim trinitas, que significa “estado de ser três”. Para Tertuliano o termo Trindade significa que em Deus nós encontramos três eternas distinções pessoais que se relacionam mutuamente. Ou como alguns preferem: três eternos modos de existência. São eles: Pai, Filho e Espírito Santo.

A Bíblia está repleta de textos onde se lê que o pai é Deus. Veja Mt. 6.6,26; 1Co. 1.3;8.4; Ef.1.2;4.5. As citações poderiam ser listadas ad infinitum. Encontramos também, nas Escrituras, passagens que sem sombra de dúvida declaram a divindade do Filho. Por exemplo: Jo.1.1ss; 20.27,28; Rm. 9.5; Tt. 2.11-13; Hb. 1.1ss; 1Jo. 5.20.

O Espírito Santo, da mesma forma que o Pai e o Filho é identificado como Deus. Em At. 5.3,4, Pedro condena Ananias por ter mentido ao Espírito Santo e imediatamente diz que esta mentira foi direcionada a Deus. Para Pedro, mentir ao Espírito é o mesmo que mentir a Deus, pois para ele o Espírito Santo é Deus. Em 1Co. 3.16,17, Paulo afirma que nosso corpo é santuário de Deus e no texto de 1Co. 6.19 repete a mesma ideia dizendo que somos santuário do Espírito Santo. Para o apóstolo, ser santuário do Espírito Santo equivale a ser santuário de Deus.

Devemos ter sempre em mente que o assunto Trindade está além da capacidade humana de compreensão. A única certeza que temos deste tema se encontra na Bíblia. As explicações dos teólogos são tentativas de aproximação, nunca declarações exatas, no sentido de explicá-lo plenamente. No dizer de Rubem Alves, são palavras que buscam construir uma realidade mas que não constituem um cópia da realidade explicada.

Na Trindade temos uma natureza divina, una, indivisível. Não existem três naturezas divinas, pois do contrário, teríamos três deuses, o que seria por sua vez triteísmo (existência de três deuses) e não Trindade. Não temos uma natureza do Pai, uma do Filho e outra do Espírito Santo. O que a doutrina trinitariana nos ensina é que existe a Pessoa do Pai, do Filho e do Espírito Santo em uma única natureza, substância divina.

Não podemos pensar que a Pessoa do Pai, do Filho e do Espírito Santo são meros nomes que não possuem existência real. Não há uma pessoa que em determinado momento é chamada de Pai, em outro de Filho e depois de Espírito Santo. Isto é um erro conhecido na história da igreja como modalismo (ideia de que uma única pessoa divina se revela em tres formas temporais diferentes). Esta tentativa de explicar o mistério da Trindade foi considerada incorreta ao longo da história da igreja. O motivo para se abandonar esta posição é que ela faria de Deus um Ser solitário. O Pai não poderia se relacionar com o Filho na eternidade, pois estes não seriam Pessoas reais, mas nomes distintos aplicados a uma única Pessoa divina. Deus não amaria nem poderia ser amado existindo como uma única Pessoa. Veja porém Jo. 17.24,26. Para que aja amor, faz-se necessário um sujeito que ama e um objeto que é amado.

Penso que outro problema da explicação modalista é que ela constitui um golpe na doutrina da morte substitutiva de Cristo. Se não há em Deus três eternas distinções pessoais, não seria possível o Filho de Deus morrer na cruz com o objetivo de satisfazer as exigências da justiça de Deus Pai. Como seria possível uma única pessoa se tornar culpada na cruz e ao mesmo tempo ser o juiz que condena?

Qualquer exemplo tirado da natureza como tentativa de explicar a Trindade é impróprio, como bem expôs Wayne Grudem em sua Teologia Sistemática, e corre o risco de ensinar algo que não corresponda à doutrina bíblica em si. Por exemplo: alguns usam a analogia do ovo. Ele possui casca, clara e gema, no entanto, concluem, é um ovo só. Esta analogia é falha porque a casca, clara e a gema são partes que constituem o ovo. Não se pode dizer que a casca seja o ovo, ou mesmo a clara ou a gema. Na Trindade, o Pai o Filho e o Espírito Santo não são partes de Deus, antes, cada um é Deus plenamente.

O exemplo da água incorre num erro oposto ao da analogia do ovo. A água existe em estado líquido, sólido e gasoso. Porém a mesma água não existe nestes três estados ao mesmo tempo. Ou ela é uma coisa ou outra. Deus não é em um momento Pai, depois Filho e em seguida Espírito Santo. Ele sempre foi por toda a eternidade simultaneamente Pai, Filho e Espírito Santo. Logo, se a analogia do ovo induz a uma noção triteísta, o exemplo da água incorre no erro modalista.

Finalizo esta singela exposição com um pequeno trecho do credo de Atanásio que diz: “...nós adoramos um Deus em Trindade, e Trindade na Unidade; sem confundir as pessoas, sem dividir a Substância.” Soli Deo Gloria.

quarta-feira, 12 de março de 2014

DOUTRINA ERRÔNEA?


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Esta frase encontra-se na revista Primeiros Passos Na Fé, Doutrinas Básicas Para Novos Convertidos, A Importância Do Conhecimento, da editora Central Gospel, edição comentada pelo Pr. Jorge Linhares.
A assertiva usada como tema do nosso artigo encontra-se no contexto da revista que trata do novo nascimento. Eis a declaração completa: “Alguns mais radicais acreditam numa doutrina errônea que ensina que a pessoa quando se entrega para Jesus estará salva para sempre.”
Por qual razão os supostos “mais radicais” não são identificados na revista? É completamente injustificável, tanto metodológica quanto bíblico – teologicamente não fazer referência as razões da crença de um determinado grupo quando se tenta desmerecer sua doutrina. Assim, não sabemos quem são os mais radicais nem a razão para acreditarem que o convertido não perde a salvação.
Para aqueles que desejam conhecer os “mais radicais”, passarei então a identificá-los: batistas tradicionais e presbiterianos. Logo, estes grupos são caracterizados como defendendo uma “doutrina errônea”, o que não passa de um eufemismo. O que se quer dizer na verdade é que batistas e presbiterianos defendem uma HERESIA. Não posso admitir que uma revista doutrinária faça uso de sua crença como meio para determinar indiretamente que batistas e presbiterianos estejam errados em sua forma de pensar. Esta atitude não passa de sectarismo exacerbado. Seria admissível o autor informar que existem grupos protestantes que defendem a crença que o convertido não perde a salvação, ao passo que outros, como assembleia de Deus, revista publicada, e essencialmente fundamentada em sua doutrina, não compreende desta forma.
O mais preocupante não se encontra no fato da revista denominar de doutrina errônea a crença de que o convertido não perde a salvação. O absurdo, se me permitem assim falar, acha-se no fato de que batistas estejam usando esta literatura como material para a escola bíblica. Estão desta forma, ensinando a batistas que é um engodo pensar como batista. São batistas aprendendo a doutrina de outra denominação, ao invés de estarem conhecendo a sua. 
Se a doutrina da não possibilidade de o convertido perder a salvação é errônea, eminentes teólogos como: João Calvino (1509-1564), John Gill (1697-1771) Charles Hodge (1797-1878), A.A.Hodge (1823-1886), Charles Spurgeon (1834-1892), A.H.Strong (1836-1921), Millard J. Erickson, Wayne Grudem, Augustos Nicodemos e tantos outros, não são outra coisa senão teólogos enganados.
A declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira nos diz o seguinte com fundamento nas Escrituras Sagradas:
A salvação do crente é eterna. Os salvos perseveram em Cristo e estão guardados pelo poder de Deus. Nenhuma força ou circunstância tem poder para separar o crente do amor de Deus em Cristo Jesus. O novo nascimento, o perdão, a justificação, a adoção como filhos de Deus, a eleição e o dom do Espírito Santo asseguram aos salvos a permanência na graça da salvação. Jo. 3.16,36; 10.28,29; 1Jo. 2.19; Mt. 24.13; Rm. 8.35-39; Jd. 24
            Textos que declaram que somente aqueles que perseverarem serão salvos, não devem ser usados para se dizer que o convertido pode perder a salvação se não perseverar. Só persevera até o fim quem é verdadeiramente convertido (Jo. 8.31). A perseverança final determina quem é o verdadeiro salvo.  
            Se usarmos Hebreus 6.4-8 como recurso para defendermos a perda da salvação, teremos também que admitir a impossibilidade de se restaurar o apóstata. Strong entende esta passagem como nos informando “qual seria o destino dos verdadeiros regenerados, se eles não perseverassem”. Logo, o caso é entendido como hipotético, não como real. No verso 9 Paulo vai dizer que não espera isto dos verdadeiros salvos.
            Aqueles que não admitem a certeza da salvação contestam que se o crente não pode perdê-la então ele poderá viver em pecado, pois está salvo para sempre. Sobre isto, Hodge nos informa que no sistema de Paulo “a salvação em pecado é uma contradição lógica.” O verdadeiro salvo busca constantemente uma vida de santidade. Se for verdade que o salvo pode se separar de Cristo, então é mentira o que Paulo fala em Romanos 8. 35-39.
            A doutrina da certeza da salvação encontra-se fundamentada na doutrina da eleição, seja ela compreendida nos sistemas calvinista ou arminiano. É impossível o eleito perder a salvação, pois isto contrariaria a própria eleição feita por Deus. A doutrina da união com Cristo, pois ela é indissolúvel. A doutrina da regeneração, pois ela é o começo da nova criação de Deus. A doutrina da justificação, pois ela nos garante que não há mais nenhuma condenação para o crente (Rm.8.1). A possibilidade de o verdadeiro convertido perder a salvação seria a anulação completa destas verdades.
            Não devemos pensar que a certeza da salvação induz o convertido ao orgulho. A seguinte declaração de Charles Hodge nos esclarece muito bem isto:
Ver-se-á que o apóstolo não apóia a perseverança dos santos na natureza indestrutível da fé, nem na natureza imperecível do princípio da graça no coração, nem na constância da vontade do crente, mas tão-somente no que está fora de nós. A perseverança, ensina ele, deve-se ao propósito de Deus, à obra de Cristo, à habitação do Espírito Santo e à fonte primária de tudo, ao infinito, misterioso e imutável amor de Deus. Não nos guardamos a nós mesmos: somos guardados pelo poder de Deus, por intermédio da fé, para a salvação (1Pe. 1.5).
            Recomendo a leitura dos seguintes teólogos para uma compreensão aprofundada do assunto: Millard J. Erickson, p. 242-246; Wayne Grudem, p. 659-674; Charles Hodge, p. 732-733, 1108-1110; A.B.Langston, p. 242-246; Augustus H. Strong, p. 624-631; Zacarias Severa, p. 305-309.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

CRENDO EM CRENDICES

Cada dia me surpreendo com a criatividade de alguns líderes evangélicos em promover inúmeras inovações que acorrentam seus súditos. São campanhas, as mais diversas, e os não menos inusitados objetos estimuladores de fé. Este ressurgimento de uma crença medieval ensina que aquilo que desejamos obter deve ser proporcional ao tamanho de nossa fé. Contrariam abertamente o ensino bíblico que diz que uma simples fé do tamanho de um grão de mostarda já é suficiente para grandes feitos (Mt. 17.20).

Qualquer relato existente na Bíblia serve de pretexto para suas campanhas de fé. Se Abraão arregimentou 318 soldados para uma batalha, cria-se um corredor com 318 pastores para abençoar as pessoas. Não entendo qual a relação disto com o texto. Na verdade isto é algo de somenos importância para eles. A mais nova campanha (isto na época da produção deste post) de marketing – desculpem o engano – campanha de fé, é das doze portas abertas. Passa-se por doze portas que simbolizam os doze meses do ano, e com isto a pessoa terá o ano todo com suas portas abertas. Afinal de contas, Jesus mesmo não disse que Ele é a porta e que se deveria entrar por Ele? Em apocalipse não se encontra registrado que a porta que Ele abre ninguém fecha? A única possibilidade de se entender que alguma passagem bíblica serve de apoio para estas absurdas campanhas é uma má interpretação acompanhada de uma péssima aplicação do texto bíblico.

A participação nessas campanhas não é indicativo de fé, mas crendice. São práticas supersticiosas criadas para pessoas que não sabem mais o que é a fé bíblica. Creio que nosso Deus é o Deus dos impossíveis, mas não dos absurdos. Passar por doze portas numa igreja acontece o mesmo que passar debaixo de treze escadas numa sexta-feira treze à meia-noite numa encruzilhada cheia de gatos pretos, ABSOLUTAMENTE NADA. A Bíblia em nenhum lugar nos ensina a participar de algumas dessas campanhas. As bênçãos não são para serem alcançadas, mas sim recebidas como fruto da graça de Deus. Somente Cristo, e aquilo que ele efetuou na cruz do calvário são suficientes para abençoar uma pessoa, independente da participação de qualquer campanha nessas igrejas. O crente já é abençoado em Cristo com todas as bênçãos de acordo com Efésios 1.3 (cf. Fp. 4.19; At. 3.26).

Não posso esquecer da insistência que se faz nestes últimos dias da tão conhecida oferta de fé, ou semente como bem costumam chamar. A mais recente se acha no valor promocional de 8.500 reais. O bom desta oferta é que ela garante todas as bênçãos para o resto da vida da pessoa. Olhando por este lado ela sai até por preço de banana. Ha, ha, ha! Me chama a atenção, todavia, é que a demonstração de fé financeira que eles pedem, deve ser ofertada somente em seus programas, nunca na igreja local que as pessoas pertencem. Estranho né?

Não seria isto uma prática antiga semelhante às vendas de indulgencias do sistema católico romano da Idade Média? Ou seja, aquilo que Martinho Lutero combateu, tem sido a mola propulsora para o avanço de determinados arraias “evangélicos”. Para seus líderes e adeptos não há problema nenhum nisto, pois os resultados obtidos são mais importantes que a veracidade da ação. Eles se esquecem, ou nunca souberam, que resultado não deve ser visto como princípio validador de uma prática. O fato de ser eficaz não quer dizer que seja certo. 

Confesso que esses pregadores endinheirados falam em nome de deus, cujo nome é MAMOM, o deus DINHEIRO (Mt. 6. 24). Este é um deus presente na terra que havia sido expulso do templo por Jesus em Mc. 11.12-19, mas que infelizmente encontrou espaço nos corações de muitos líderes televisivos.

Finalizo minha exposição dizendo que não possuo, segundo eles, prerrogativas que validem minhas palavras. Afinal de contas, tenho somente seis anos de ministério, e a maioria deles mais de vinte de carreira – desculpem o lapso de memória – ministério. Até mesmo Jesus não poderia recrimina-los, pois como sabemos, seu ministério não durou mais que três anos aqui na terra.

Até onde isso nos levará? Que Deus tenha misericórdia de sua igreja. De um simples servo de Cristo, Anderson Queiroz.