Categoria

terça-feira, 2 de julho de 2013

REVOLUÇÕES NO BRASIL E A HISTÓRIA BÍBLICA


É do conhecimento de todos que nos últimos dias o Brasil vive uma onda de manifestações populares. Podemos dizer que estes manifestos ainda se encontram na crista da onda, e que não sabemos qual será o efeito real do seu impacto na história do país.

Estas reivindicações populares demonstram na prática o princípio que todo o poder emana do povo, como reza o Art. 1, §1 da Constituição federal de 1988. Devemos frisar, todavia, que não apoiamos, muito menos queremos confundir depredação do patrimônio público com reivindicação popular, ambas são diametralmente opostas – ainda que estejam presentes em muitas manifestações, tanto pelo clima tenso da situação ou mesmo por determinação de algumas pessoas infiltradas nos manifestos.

Tendo isso por assentado, nosso objetivo neste presente artigo é visualizar em duas situações registradas na Bíblia o resultado da indignação popular em decorrência de uma má gestão pública, ou condições sociais insustentáveis. Nossa análise vai se basear nos textos de Neemias 5 e 1 Reis 12.

Neemias 5.1-5 trata de um tema bastante atual: reivindicação dos direitos do cidadão. Como cidadãos possuímos direito à vida, trabalho, educação, saúde etc. Muito tempo antes da Revolução Francesa com a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão em 1789 cujo lema era liberdade, igualdade e fraternidade, os judeus aqui querem reivindicar seus direitos civis.

A greve em Jerusalém, durante a reconstrução do muro da cidade, foi provocada por três motivos: 1. pouca comida para uma família grande (v.2). Isto é uma realidade bastante atual. A maior parte dos brasileiros não consegue dar uma alimentação digna aos seus filhos.

João no livro do Apocalipse, descreveu, muito tempo depois, a mesma situação que parece se atualizar insistentemente em algumas partes do mundo, neste caso, o aumento do preço dos produtos alimentícios (Ap. 6.6). O cavalo com a balança na mão é na verdade símbolo de escassez. Pão pesado em balança significa carência (cf. Ez. 4.10-17). Um quilo de trigo por um denário – o denário era o salário de um dia de trabalho – constitui na época o aumento de oito a doze vezes o preço do produto. Sem falar que isto é uma porção capaz de satisfazer somente as necessidades diárias de um trabalhador braçal. Se ele desejasse alimentar sua família teria de comprar cevada, três vezes mais barato que o trigo, no entanto, um grão inferior. Em algumas regiões da Palestina a cevada servia de alimento para animais. O texto de Ap. 6.6 termina dizendo que o vinho e o azeite não seriam danificados. Em outras palavras, os artigos de luxo dos ricos permaneceriam inalterados. Eles continuariam com suas regalias enquanto que a maioria da população estaria lutando para sobreviver. João não poderia ter escrito um texto socioeconômico mais atual que este.

2. Algumas famílias tiveram que dar a terra como garantia para a aquisição de comida (v.3). A terra em Israel era um meio de sobrevivência. Havia, essencialmente, uma agricultura de subsistência. Com isto, a renda familiar vinha da terra. A propriedade não poderia ser definitivamente vendida. Se o fosse, deveria ser devolvida depois de cinquenta anos (Lv. 25.8-28), pois o princípio era que a terra pertencia ao SENHOR (Lv. 25.23,24). É com base nisto que o texto de 1Reis 21.1-4 deve ser entendido. Nabote, na passagem em questão, quer ser fiel ao seu princípio religioso, que era a preservação da terra em seu próprio clã. Acabe, o rei da época, a representação do Estado, não tinha direito de tomar a terra que pertencia a Nabote. A implicação disto, é que o homem não existe para o Estado, não obstante este deva existir para o cidadão.

3. Outras famílias viviam o problema das taxas de juros dos seus empréstimos para pagamento de tributos (v.4). A taxa do imposto prejudicava muito a renda familiar. Quando não se conseguia pagar os empréstimos, o credor tinha o direito de tomar os filhos do devedor como pagamento (ver 2Reis 4.1). Isto havia ocorrido com muitas famílias na época de Neemias (Ne. 5.5). O pior era que as filhas dos israelitas estavam sendo vendidas como escravas para seus próprios compatriotas, violando assim a recomendação expressa de Moisés (Lv. 25.39-43). A prática de se receber os filhos como pagamento de empréstimos ainda perdurava na época de Cristo, o que pode ser visto na parábola do servo impiedoso em Mt. 18.24,25.

Vamos postar, se Deus permitir, o texto de 1Reis 12 para conclusão de nosso assunto. Até lá.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

CALVINO E AS REVELAÇÕES FORA DA BÍBLIA

Ao descrever o profetismo no Antigo Testamento, Calvino deixa bem claro que a palavra do profeta só seria genuína se esta fosse precedida pela Palavra de Deus. A Palavra do SENHOR deve, necessariamente, anteceder a declaração do profeta. Como exemplo usado pelo reformador no Livro 4, Cap. VIII, Seç. 3, o profeta Ezequiel (Ez. 3.17) deveria antes ouvir da boca do SENHOR o que ele deveria transmitir, não permitindo assim, ao profeta, nenhuma possibilidade de transmitir algo que não fosse antes dado pelo SENHOR.

O mesmo se dá com os apóstolos. Assim como os profetas, não deveriam ensinar nada de seu próprio arbítrio, mas o que antes tinha sido transmitido pelo Senhor Jesus. Como fundamento Calvino usa o texto de Mt. 28.19,20 (livro 4, cap. viii, seç.4).

Quando da necessidade do registro escrito daquilo que se havia falado da parte do SENHOR, a Escritura agora é a norma de todo ensino. Assim como a Palavra de Deus antecedia a palavra do profeta, a Escritura deve preceder toda e qualquer declaração doutrinária. Cabe ao sacerdote, como é citado por Calvino (livro 4, cap. vii, seç. 6) não ensinar nada que seja estanho àquilo que existe na Lei. Como fundamentação ele cita Ml. 2.7. Até mesmo os profetas, salienta Calvino, não trouxeram novidade no que diz respeito ao conteúdo da Lei, antes foram seus interpretes.

Com a encarnação do Filho de Deus, consumou-se toda a revelação dada pelo Senhor. Calvino entende que Hb. 1.1,2 (livro 4, cap. viii, seç. 7) nos ensina que Deus não falará mais pelos lábios de um ou de outro, antes, em Jesus conclui-se todo o ensino da parte de Deus. Com Cristo dá-se início a última hora (1Jo.2.18), últimos tempos (1Tm. 4.1) e últimos dias (At. 2.17; 2Tm. 3.1; 2Pe. 3.3) o que se deve inferir, segundo Calvino, que não se pode admitir nenhuma novidade doutrinária. Não “é função do Espírito” transmitir novas revelações ou um “novo gênero de doutrina”, mas selar na mente do salvo a doutrina existente no evangelho (livro 1, cap. ix, seç. 1). 

Para Calvino, não há mais revelação normativa, somente a Bíblia possui autoridade neste quesito. Ele usa como exemplo 1Co. 14.29,30 para afirmar que a palavra do profeta deve ser julgada pelo crivo da Palavra escrita de Deus (livro 4, cap. viii, seç. 9). Entende-se o profeta aqui como aquele que expõe a vontade de Deus para a igreja com base nas Escrituras e não alguém que comunica novas verdades. Assim se expressa Calvino em seu comentário de 1Coríntios, 2ª ed. p. 392.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

A CEIA "NOSSA" DE CADA MÊS

É impressionante como alguns de nossos sentimentos religiosos ainda são influenciados por uma mentalidade católica. Uso como exemplo a ceia do Senhor. Ninguém em sã consciência pode negar sua importância na celebração durante o culto. Não obstante, não podemos cometer o erro da deificação da cerimônia em si, tornando-a um ídolo. Não é a cerimônia que deve ser reverenciada, mas sim Deus por meio desta celebração.

Precisamos mudar nossa práxis pastoral no que diz respeito às pessoas que não podem participar da ceia por questão de saúde ou coisas afins. Temos o costume de dizer: levaremos a ceia para fulano de tal. No entanto, a ceia não se leva, pois ela é, exclusivamente, celebração em conjunto – em outras palavras, igreja reunida. O mais viável é que alguns irmãos celebrem a ceia do Senhor com aquele que não tem condições de se encontrar com os demais irmãos reunidos na igreja local. Ninguém, após a participação em um aniversário diz: vou levar este aniversário para fulano. Ou diz? Pode-se até levar parte do bolo, mas aquele bolo não é o aniversário em si mesmo. Assim, mesmo que se leve os elementos, pão e suco de uva, estes não constituem a ceia propriamente dita. A ceia no contexto do Novo Testamento sempre foi celebração comunitária (1Co. 11.18ss).

Outro indicativo de natureza supersticiosa em muitos crentes, no que diz respeito ao entendimento da ceia, é a não participação em alguns momentos. Muitos ficam sem participar da ceia em várias ocasiões porque teve alguma desavença com um irmão ou porque cometeu algum outro pecado. O mesmo não acontece em outros cultos onde não se celebra a ceia. Mais uma vez volto a falar: não existe o culto da ceia, mas sim a ceia no culto. Ela é parte de um todo maior, a adoração a Deus.

Com isto, quero dizer que aquele que não se encontra em condições de participar da ceia, não se acha em condições também de participar de qualquer culto (Mt. 5.23,24; cf. Is. 1.11ss). A presença de Cristo no instante da ceia – não nos elementos – é a mesma dos demais momentos de adoração. Ele não se encontra mais presente em um que no outro (Mt. 18.20). A ceia não é um culto à parte, antes, faz parte do culto. Logo, a necessidade de se cumprir os pré-requisitos para a sua participação, entender que a igreja, o corpo de Cristo, só pode existir como uma unidade integral, e não fragmentada, pois este é o significado do “discernir o corpo do Senhor” em 1Co. 11.29 é a mesma para os demais cultos (Mt. 5.23,24). A ceia não produz a unidade da igreja, muito menos a união com Cristo, pelo contrário, ela revela.

Que possamos, por meio desta breve reflexão mudar muitos de nossos comportamentos, que insistimos em denomina-los de “evangélicos".

segunda-feira, 6 de maio de 2013

DISCIPLINA NA IGREJA, PARTE III

PROCEDIMENTOS BÍBLICOS PARA O CORRETO EXERCÍCIO DA DISCIPLINA ECLESIÁSTICA

Segundo o teólogo batista A.H.Strong, a Bíblia possui duas recomendações para o exercício da disciplina. Uma para as ofensas particulares e outra para os pecados públicos (STRONG, v.2, p. 689).

OFENSA PARTICULAR

A disciplina do erro particular, que ainda não é do conhecimento de todos deve seguir as recomendações de Mt. 5.23,24; Mt. 18.15-17.

Em Mt. 5.23,24 pode-se confirmar que a reconciliação com o irmão faltoso é o alvo da disciplina bíblica. O excelente livro do teólogo gaulês, Charles H. Dodd, As Parábolas do Reino, diz acertadamente sobre este texto que “a reconciliação com um “irmão” deve preceder inclusive o culto divino” (DODD, p. 117).

Com este exemplo, Jesus nos orienta que diante de um problema entre um irmão e outro, o importante não é saber quem é o ofensor, mas que um dos dois busque a iniciativa da reconciliação. Observe que o texto diz que “se você se lembrar que seu irmão tem algo contra você”, não especifica se aquele que lembrou o fato é inocente ou culpado.

Já em Mt. 18.15-17 temos uma recomendação mais elaborada. Este ensino de Jesus é um indicativo de que Ele já esperava que sua futura comunidade soubesse resolver, sem sua presença física, mas não ausência completa (cf. Mt. 18.20), seus problemas internos. Este dito de Jesus foi pronunciado no início dos anos 30 do séc. I e registrado por Mateus em meados de 80-85 da era cristã. A igreja possuía pouco mais de cinquenta anos de existência.

Alguns podem entender o “contra te” de Mt. 18.15a como uma recomendação que se aplicaria somente quando o erro fosse cometido com outra pessoa da igreja. No entanto, o “contra te” acha-se ausente nos dois dos mais importantes manuscritos do Novo Testamento, o Sinaíticus e o Vaticanus, ambos datados do séc. IV.

Desta forma, a recomendação de Jesus, é que o encontro com o irmão que cometeu o pecado seja de inteira responsabilidade daquele que primeiro tornou-se conhecedor do fato. Esta visita a sós é para que a pessoa seja advertida pelo erro praticado. Se a conversa for positiva, “você ganhou seu irmão” (v. 15b; cf. Tg. 5.19,20). Deve-se buscar esta restauração à luz de Gl. 6.1.

O objetivo desta primeira conversa, como já salientou Grudem, é para que o conhecimento do fato seja “preservado dentro do menor grupo possível” (GRUDEM, p. 753).

Se infelizmente, este primeiro encontro não foi satisfatório, deve-se agora buscar mais um ou dois irmãos para uma segunda conversa (v. 16). O primeiro contato com o irmão deve ser algo informal. Mas o fato de Jesus recomendar mais uma ou duas pessoas “para que qualquer acusação seja confirmada pelo depoimento de duas ou três testemunhas”, citando assim Dt. 19.15, faz com que esse segundo momento da disciplina seja algo bem formal. Isto é para que o irmão em pecado entenda que a situação envolve seriedade. É recomendado, com isto, que neste momento estejam presentes pessoas que estão à frente da liderança da igreja.

Por fim, se a pessoa persistir no erro, a igreja reunida deve ser consultada (v. 17a). Ainda não é momento para exclusão. O objetivo é que o conselho de toda a igreja produza alguma mudança no irmão, levando-o ao arrependimento. Se mesmo assim “ele se recusar a ouvir também a igreja” (v. 17b) só resta considerá-lo “pagão ou publicano” – em outras palavras, ele será excluído do número dos participantes da igreja. Confira a orientação do apóstolo Paulo sobre a pessoa que insiste em permanecer no erro (Tt. 3.10,11)

OFENSA PÚBLICA

A disciplina que envolve pecados que já se tornaram do conhecimento de todos, deve seguir os princípios de 1Co. 5 e 2Ts. 3.6.

Fica evidente no texto de 1Co. 5 que era do conhecimento de todos que havia alguém que mantinha um caso com a madrasta na igreja de Corinto. Paulo diz que por “toda parte se ouve que há imoralidade entre vocês [...] ao ponto de um de vocês possuir a mulher de seu pai” (1Co. 5.1).

Neste caso, não se deve praticar a orientação de Mt. 18.15-17, pois a pessoa já demonstra por sua persistência no erro, que não vive mais segundo os padrões morais das Escrituras. Por que conversar particularmente sobre o erro de alguém que já é do conhecimento de todos? Assim, Paulo faz uma pergunta retórica – que não exige resposta: “Não deviam, porém, estar cheios de tristeza e expulsar da comunhão aquele que fez isso?” (v.2). Strong observa “que Paulo não dá ao incestuoso oportunidade para arrepender-se, confessar, ou reverter a sentença” (STRONG, p. 689). Permitir que alguém neste estado ainda fosse parte da igreja, seria contaminar toda a comunidade de Cristo (v.6; cf. Hb. 12.15,16).

Nos vs. 3-5,13 Paulo pede que assim como ele havia tomado sua decisão sobre o assunto (v. 3), a igreja deveria reunir-se para a exclusão daquele que cometeu tão horrendo pecado (vs. 4,5,13). Desta forma, aprendemos que para as ofensas públicas, a pessoa deve demonstrar verdadeiro arrependimento depois de sua exclusão.

Quando há necessidade do afastamento de uma pessoa, seja seguindo os passos de Mt. 18.15-17 ou a recomendação paulina para um pecado público, a igreja deve demonstrar seu amor pelo antigo integrante. É assim que Paulo orienta a igreja de Tessalônica. Aquele que desobedecesse à recomendação da carta paulina deveria ser disciplinado, mas não considerado inimigo, antes, “chamem a atenção dele como irmão” (2Ts. 3.14,15).

Em 2Co. 2.5-11 Paulo aborda o assunto do afastamento de uma pessoa na igreja de Corinto. Fica implícito pela passagem que a pessoa em questão tenha se arrependido do seu pecado, e por isso a igreja deveria “perdoa-lhe e consolá-lo, para que ele não seja dominado por excessiva tristeza” (v.7). Esse perdão seria demonstrado na sua reintegração amorosa no círculo da igreja (v. 8). É digno de nota, que a conduta de indiferença com o pecado em 1Co. 5, tenha mudado agora na igreja de Corinto. Eles passaram a compreender a necessidade da disciplina, obedecendo assim ao apóstolo (v.10).

CONCLUSÃO

Vivemos hoje em um ambiente repleto de pessoas indisciplinadas. Muitas delas querem que a igreja seja mais um ambiente caracterizado por essa indisciplina. Qual seria a postura correta da igreja de Cristo neste momento? Ela deve ensinar para seus membros que a disciplina é necessária como uma forma de demonstração do amor de Jesus por sua igreja (Ap. 3.19).

Não basta somente saber que a disciplina é um fator indispensável na vida da igreja, faz-se necessário o seu exercício no dia-a-dia da comunidade. Logo após expor as razões do valor da disciplina, o autor aos Hebreus pede aos seus leitores que ela seja posta em prática (Hb. 12.12,13).

DISCIPLINA NA IGREJA, PARTE II


AS DISCIPLINAS EM UMA IGREJA BATISTA

Nós batistas costumamos distinguir a disciplina na igreja de três formas: disciplina formativa, corretiva e cirúrgica.

DISCIPLINA FORMATIVA

Toda instrução que a igreja recebe, seja por meio de pregação ou estudo bíblico pode ser denominada de disciplina formativa. Seu alvo é formar constantemente o caráter de Cristo na vida do discípulo. Como nunca alcançaremos o perfeito caráter de Cristo nesta era, a disciplina formativa perdurará até a vinda de Jesus. Todo ensino (disciplina formativa) de Paulo aos gálatas era a demonstração do seu desejo de ver “Cristo formado em vocês” (Gl. 4.19).

A igreja de Éfeso em Ef. 5.3-7 recebe uma instrução paulina que se enquadra muito bem no nosso conceito de disciplina formativa. Nos vs. 3,4 Paulo diz “o que não deve haver” no meio da comunidade cristã. E se alguém perguntasse o motivo dessa exigência, ele afirmaria “que essas coisas não são próprias para os santos”. O objetivo do conselho, é que os integrantes da igreja de Éfeso não ficassem fora do Reino de Deus (vs.5,6). Por fim, no v. 7, Paulo expressa o desejo que seu ensino seja absorvido na prática diária dos crentes efésios.

A disciplina formativa é, neste sentido, preventiva. Ela alerta o crente sobre o perigo de uma conduta irrefletida da vida cristã (cf. Ef. 5.15-18).

DISCIPLINA CORRETIVA

A Bíblia deixa bem claro que o crente não está isento de possíveis falhas em sua vida cristã. Nem mesmo a simples participação na igreja impede que os crentes não estejam expostos aos perigos das tentações na vida (1Co. 10.1-12).

Quando na igreja alguém erra, é da responsabilidade dos irmãos conhecedores do fato, a aplicação da disciplina corretiva. O objetivo nunca é afastar a pessoa da igreja. A intenção deve sempre ser a restauração do culpado. O teólogo Wayne Grudem diz que “o propósito principal da disciplina eclesiástica é alcançar o duplo alvo da restauração (levar o pecador ao comportamento correto) e de reconciliação (entre cristãos e com Deus)”. (GRUDEM, p. 750).

Em Gl. 2. 11-14 temos um claro exemplo de disciplina corretiva. Em Gl. 2.1-10 Paulo deixa bem claro que com o evangelho de Cristo as exigências judaicas não eram necessárias aos gentios. Pedro tinha assimilado isto, pois o texto diz que “ele comia com os gentios” (v. 12). Era um costume em Antioquia, judeus-cristãos partilharem uma refeição comum com os gentios convertidos. Mas com a chegada de um grupo liderado por Tiago, que era rigoroso no que diz respeito às regras alimentares estabelecidas por Moisés (cf. Lv. 11), Pedro afastou-se e separou-se dos gentios (v. 12). Outros judeus tiveram a mesma conduta (v. 13). Diante disto, Paulo repreendeu Pedro e os outros judeus, pois “não estavam andando de acordo com a verdade do evangelho” (v. 14a). O fato de Paulo falar diretamente para Pedro, é que este desde cedo tinha assumido uma postura de liderança na igreja (Mt. 16.15,16; At. 2. 14). Nos vs. 16-21 Paulo expõe a razão teológica para a repreensão feita com o apóstolo Pedro.

DISCIPLINA CIRÚRGICA

Esta disciplina é o último passo na tentativa de restaurar a pessoa que cometeu determinado pecado. Ela é denominada de cirúrgica porque sua ação se dá no afastamento do integrante da igreja. A disciplina cirúrgica – a exclusão - não quer dizer que a igreja não conseguiu restaurar a vida de um dos seus membros, antes, é uma tentativa de levar o faltoso ao verdadeiro arrependimento. “Assim como, às vezes, é preciso tirar fora parte do corpo físico para que o corpo todo não pereça, da mesma forma também acontece na igreja” (ZACARIAS SEVERA, p. 389).

Em 1Tm. 1.20, Paulo informa que Himeneu e Alexandre foram excluídos da igreja – “entreguei a Satanás” no linguajar paulino – com o intuito de que “aprendam a não blasfemar”. A exclusão deve servir como um tratamento de choque para o crente que demonstra resistência em se arrepender. Mais uma vez queremos enfatizar que seu objetivo é a restauração do impenitente.

A disciplina cirúrgica serve também para ensinar a igreja que não se pode confundir amor com tolerância ao pecado. As igrejas de Pérgamo (Ap. 2.14,15) e Tiatira (Ap. 2.20) estavam tolerando o erro ao permitirem que pessoas que já haviam dado prova de uma vida incompatível com o evangelho, fossem ainda membros de suas comunidades. Jesus advertiu essas igrejas, que devido ao não exercício da disciplina, Ele mesmo faria com que o erro fosse punido (Ap. 2.16; 21-24).

A disciplina cirúrgica protege a pureza da igreja e não permite que o nome de Jesus seja difamado pelas pessoas de fora. A igreja não pode permitir que o nome do Senhor seja desonrado com o erro de alguns de seus membros, da mesma forma que o nome de Deus era “blasfemado” por causa do comportamento de alguns judeus na época de Paulo (cf. Rm. 2.17-24)

quarta-feira, 1 de maio de 2013

DISCIPLINA NA IGREJA, PARTE I

INTRODUÇÃO

Todos nós sabemos que a igreja deve ser uma comunidade identificada pela prática do amor (Jo.13.35). É do nosso conhecimento também que Cristo orientou seus discípulos a perdoarem seus irmãos “setenta vezes sete” (Mt. 18.21,22). Com isto em mente, seria correto afirmar que o amor e a atitude constante do perdão é um empecilho para o exercício da disciplina na igreja de Cristo? Sim ou não?

Poderíamos ainda conciliar as palavras de Jesus em Mt. 7.1,2 que proíbe o ato de julgar com a recomendação paulina em 1Co. 5.12 sobre a prática do julgamento eclesiástico? Seriam declarações auto-contraditórias?

Para você, todos na igreja são disciplinados? Ou a disciplina é somente para aquele que cometeu pecado? Enfim, você sabe realmente o que é a disciplina na igreja?

CRITÉRIOS BÍBLICOS PARA UM CORRETO EXERCÍCIO DA DISCIPLINA NA IGREJA

Os romanos acreditavam que determinados conceitos abstratos, eram na verdade, divindades. Um exemplo disto é a justiça. Venerada como uma deusa, a Justitia (justiça), era representada com uma balança na mão e os olhos vendados – “símbolo da ponderação imparcial” (Quero Saber, Mitologia da Antiguidade, p. 81). Ainda hoje podemos vê-la na entrada dos fóruns em algumas cidades.

Queremos dizer com este exemplo, que a correta disciplina deve ser imparcial. Qualquer tentativa de parcialidade por parte de alguns irmãos da igreja, devido a uma maior aproximação com o irmão faltoso, deve ser veementemente condenada. Leia Tg. 2.1-4 e veja como uma conduta de diferenciação na igreja é criticada.

Em Ex. 23.1-3, Moisés adverte os israelitas sobre o correto procedimento durante um julgamento. Diz também que condição social de uma pessoa não pode determinar o resultado do julgamento (Lv. 19.15). A imparcialidade é uma característica do julgamento divino (Rm. 2.11). Assim, quando uma igreja julga imparcialmente, ela está correspondendo com o ideal de Deus para o exercício da disciplina eclesiástica.

O OBJETIVO DA DISCIPLINA

Muitos na igreja não concordam com a disciplina por não saberem primeiro qual é o seu objetivo. Para se compreender o alvo da disciplina, porém, é necessário saber a origem desta palavra.

Disciplina deriva do latim disciplina – e significa ensinar, ação de instruir, educação. No grego nós temos a palavra paidéia – criação, treinamento, instrução, disciplina (Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, p. 649). Podemos com isto dizer, que a disciplina na igreja tem por objetivo a instrução e formação do discípulo de Cristo.

O autor da carta aos Hebreus lembra que a disciplina é um indicativo que a pessoa é um verdadeiro filho de Deus (Hb. 12.5-7). A ausência de disciplina do Senhor é a prova de que ainda não se pertence à família de Deus (Hb. 12.8-10). Para aqueles que pensam que a disciplina possui somente um lado negativo, depois da tristeza que ela provoca “porém, produz fruto de justiça e paz para aqueles que por ela foram exercitados” (Hb. 12.11; cf. 2Co. 7.9-12).

segunda-feira, 29 de abril de 2013

CARACTERÍSTICAS DE UMA IGREJA VERDADEIRA


Alguns teólogos do período da reforma protestante tentaram estabelecer critérios como sendo essenciais a uma verdadeira igreja. O primeiro foi a pregação bíblica. Se os membros de uma igreja não se reúnem para estudar a Palavra de Deus eles não estão sendo uma igreja verdadeira. A pregação da Bíblia tem o objetivo de fazer “com que a Palavra de Deus ocupe o lugar central do culto, para que, em conseqüência, ela ocupe o lugar central na vida da Igreja” (João Falcão Sobrinho, A Túnica Inconsúltil, Doutrina da Igreja, p. 57). Não se pode encontrar Cristo em uma igreja onde não se acha espaço para a Palavra de Deus.

Outra marca de uma verdadeira igreja é a correta observância das ordenanças de Cristo. Algumas igrejas realizam “ceia da prosperidade”, “ceia da libertação”, propondo com isto uma espécie de poder mágico existente na ceia, ferindo assim, o objetivo de sua celebração, que é anunciar “a morte do Senhor até que ele venha” (1Co. 11.26).

O batismo é outra ordenança não aplicada corretamente em algumas igrejas. Na igreja católica, por exemplo, pratica-se o batismo acreditando-se que ele tenha o poder de realizar o novo nascimento. A Bíblia, por sua vez, nos ensina que o novo nascimento é operado pelo Espírito Santo mediante aceitação da Palavra de Deus (Tg. 1.18; 1Pe. 1.23).

Por fim, a igreja verdadeira deve ser apostólica. Deve se fundamentar nas doutrinas e práticas por eles estabelecidas. Paulo em Efésios diz que a igreja é “edificada sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, tendo Jesus Cristo como pedra angular” (Ef. 2.20). E em 1Co. 3.11 o apóstolo afirma que “ninguém pode colocar outro alicerce além do que já está posto, que é Jesus Cristo”. Ser uma comunidade apostólica é ser a igreja de Cristo.

Pedro, em sua segunda carta, deseja que a cristandade relembre os ensinos transmitidos, um dia, pelos apóstolos (2Pe. 3.1-2). Isto é bem diferente de algumas igrejas que buscam novos ensinos, e não o entendimento do que já foi anunciado.

As igrejas devem adquirir uma postura crítica sobre o teor de suas pregações. Qualquer ensino que se distancie daquilo que foi revelado por meio dos apóstolos deve ser abandonado pela verdadeira igreja de Cristo (Gl. 1.6-9). EMIL BRUNNER possui um pensamento bastante esclarecedor sobre isto. Assim ele se expressa: “a forma básica da palavra apostólica é ainda válida como critério pelo qual cada comunidade cristã deve testar sua própria palavra existente, a fim de estar segura que as duas são idênticas” (BRUNNER, p. 33). Em outras palavras, para que a pregação atual da igreja seja verdadeira, ela precisa ser o eco da antiga pregação apostólica.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

OS APÓSTOLOS E A IGREJA


A importância do estudo da igreja e sua relação com os apóstolos, já foi expressa um dia por EMIL BRUNNER, teólogo suíço, que disse: “A comunidade de Jesus só é concebível, somente eficaz, como uma comunidade apostólica”. (BRUNNER, p. 32). Mas como era essa comunidade apostólica?

A primeira igreja no Novo Testamento que temos conhecimento foi a de Jerusalém. Ela foi formada pelos cristãos que presenciaram as aparições do Cristo ressurreto na Galileia. Note que os que ficaram cheios do Espírito Santo eram galileus, pressupondo que eles se deslocaram da Galileia para Jerusalém (At. 2.7).

Nos primeiros capítulos de Atos podemos visualizar como vivia a igreja de Jerusalém. Em At. 2.42-47 temos um sumário feito por Lucas. Os crentes “se dedicavam ao ensino dos apóstolos”, isto significa que “davam atenção constante ao ensino dos apóstolos” (Novo Comentário Bíblico Contemporâneo, Atos, grifo nosso).

A comunhão, vivenciada no partir do pão era outra característica da igreja de Jerusalém. Estas refeições, provavelmente, traziam à memoria o encontro com Jesus quando ele comeu na presença de todos os discípulos (Lc. 24.41-43; Jo. 21. 12,13). O “partir do pão” (cf. At. 20.7) pode ser também uma forma antiga dos primeiros cristãos se referirem à ceia do Senhor.

A oração era uma prática constante da igreja primitiva. Em At. 4.23-30 vemos um exemplo de como era o teor das orações da cristandade nos primeiros anos de fundação da igreja. É uma oração fundamentada na Bíblia (vs. 25,26; cf. Sl. 2.1,2). Tem a confiança no plano que Deus estabeleceu na eternidade e executado na história (vs. 27,28). Demonstra completa dependência da capacitação dada por Deus para o exercício do ministério (vs. 29,30).

Não podemos deixar de fora os primeiros sermões existentes em Atos, pois estes servem como marca distintiva da verdadeira igreja de Cristo.

Observa-se rapidamente que as pregações iniciais em Atos possuem forte fundamentação bíblica. Veja At. 2.16-21 e compare o texto correspondente em Jl. 2.28-32. Analise também At. 3.18,24,25; 4.11. Os apóstolos usavam o Antigo Testamento aplicando-o corretamente aos eventos da vida de Jesus.

Os sermões eram essencialmente cristocêntricos. Leia At. 2.22-24,31-36; 3.12-16,26; 4.2,10,12 (cf. 1Co. 1.22-25) e veja como os demais temas giram em torno do assunto central, Jesus Cristo o Senhor.

Ao contrário das pregações atuais que afirmam que os crentes devem herdar as riquezas do mundo, ou que nunca passarão por dificuldades, os sermões apostólicos tinham outra proposta: conclamar o povo a um verdadeiro arrependimento (At. 2.37-41; 3.19,20; 17.30; 20.21; 26.20).