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quarta-feira, 3 de outubro de 2012

QUANDO UMA DOUTRINA SE TORNA UM ÍDOLO

Escrevo este artigo para informar que podemos, em nome de uma falsa ortodoxia, defender uma doutrina denominacional em detrimento da Revelação Bíblica. Como exemplo cito os adventistas, que negam veementemente a sobrevivência da alma no pós-morte e como consequência refutam qualquer possibilidade de uma existência desincorporada do crente ao lado do Senhor no céu no instante de sua morte. 

Eles entendem que se Enoque foi arrebatado (Gn. 5.14), Moisés a tradição diz que o próprio Deus o enterrou (Dt. 34.5,6; veja a disputa pelo corpo de Moisés em Jd. 9) e Elias levado em uma carruagem de fogo (2Rs. 2.9-14) já se encontram no céu, isto se deve ao fato de já terem ressuscitado. Para os adventistas, no céu não entram almas desincorporadas, mas somente pessoas com corpos glorificados.

Embora isto seja uma interpretação justificável somente à luz de uma coerência doutrinária intra-eclesiástica, ela é precária diante dos dados fornecidos pela revelação bíblica. Esta ortodoxia adventista torna-se – se me permitem assim falar - em verdadeira “doxolatria”, uma veneração ilimitada a algum dogma eclesiástico não sustentado pela Bíblia.

Se fosse verdade que os personagens listados acima já ressuscitaram, como isto pode se enquadrar com o texto de Atos 26.23 que diz “que o Cristo haveria de sofrer e, sendo o primeiro a ressuscitar dentre os mortos, proclamaria luz para o seu próprio povo e para os gentios" (grifo nosso). Esta é uma verdade que se acha no próprio Moisés de acordo com Paulo (cf. v.22). A possibilidade de uma ressurreição pessoal só é real tendo a ressurreição de Cristo como fundamento. Mas como seria possível, então, a ressurreição definitiva de Enoque, Moisés e Elias, antes da ressurreição do próprio Cristo? Se Enoque e afins já ressuscitaram, então como Cristo pode ser “o primogênito dentre os mortos” (Cl. 1.18; Ap. 1.5)? Veja que para Paulo a razão de se acreditar numa ressurreição futura se deve ao fato de Deus ter ressuscitado o próprio Cristo (2Co. 4.14), e não que outros já tivessem ressuscitado, neste caso, Enoque, Moisés e Elias – volto a afirmar, como dizem os adventistas.

Pode-se identificar outro problema com esta doutrina. Ela só foi descoberta com o advento – perdoem o trocadilho – do movimento adventista. Nem Jesus, tampouco Paulo tinham ciência deste possível acontecimento. Em Gl. 1.11,12, por exemplo, Paulo diz que o evangelho que ele proclamava tinha sido dado por revelação do próprio Cristo. Logo, fica uma indagação: qual o motivo deste ensino não ter sido revelado? A única resposta é que ele é uma invenção não bíblica.

Ao falar para Marta da realidade da ressurreição, Jesus não se refere a alguma ideia de ressurreição já ocorrida de Enoque, Moisés ou Elias, antes, faz de si mesmo a realidade da crença de que Lázaro poderá ressuscitar (Jo. 11.23,25). Marta, pelo contrário, expressa sim, a fé de todo judeu de sua época em uma ressurreição geral que somente ocorrerá no último dia (Jo. 11.24). Este deveria ser um bom momento para Marta fazer referência a esta possível ressurreição destes três personagens. Será que ela não o fez por falta de fé ou porque tal evento nunca ocorreu? Creio ser a segunda opção a única possível!

Outro texto que se pode evocar como prova da falsidade deste ensino é Lc. 20.37,38. Aqui, Jesus diz que o próprio Moisés confirma a crença na ressurreição ao falar que Deus é o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó. A máxima jesuânica da declaração mosaica é: “Ele não é Deus de mortos, mas de vivos, pois para ele todos vivem”. Logo, se for verdade a impossibilidade que alguém após a morte - exceto por meio da ressurreição - já se encontre com Deus, a conclusão deveria ser: não somente Enoque, Moisés e Elias já ressuscitaram, mas também Abraão, Isaque e Jacó, pois para Jesus estes se encontram vivos com Deus. O impressionante é que os adventistas não chegam a esta conclusão obvia. Se Jesus desejava validar o ensino sobre a ressurreição, por qual motivo não disse que o próprio Moisés já havia ressuscitado, já que o citou no debate? Deve-se levar em conta que os saduceus reconheciam somente os livros de Moisés como inspirados. Jesus perdeu, com isto, uma ótima oportunidade.

Paulo, da mesma forma, em suas declarações sobre a ressurreição, em nenhum momento deixa transparecer a crença na possibilidade de uma ressurreição definitiva já ocorrida em alguém, exceto Jesus. Isto fica bem evidente em Romanos 6.9, onde pelo seu teor verbal, a realidade declarada deva ser admitida somente a Jesus. Veja que somente de Jesus pode ser dito que seu corpo não sofreu decomposição, em outras palavras, ressuscitou (At. 2.27,31;13.34,35,37). A ressurreição no entender paulino sempre é encarada como uma esperança, expectativa, evento futuro (At. 24.15). Esta certeza na ressurreição se deve ao fato de somente Cristo ter ressuscitado (1Co. 6.14). 

Quando, diante do rei Agripa, Paulo é levado a expor os fundamentos de sua pregação, este indaga: “Por que os senhores acham impossível que Deus ressuscite os mortos?” (At. 26.8). O que se segue é que a aparição de Jesus (At. 26.9-23), que antes havia morrido, torna inverossímil qualquer tentativa de se afirmar que fosse “impossível que Deus ressuscite os mortos”. Ora, a aparente impossibilidade de Deus ressuscitar os mortos, julgada por alguns judeus, poderia ser facilmente revertida, nesta ocasião, fazendo-se uso destes três exemplos – se fosse realmente verdade – de pessoas já ressuscitadas, Enoque, Moisés e Elias, antes mesmo de citar a ressurreição do próprio Jesus. Veja também que em 1Co.15.12ss, o problema de se negar a futura ressurreição dos mortos é que isto torna inverídica a única ressurreição definitiva já ocorrida, a de Jesus Cristo, mas nenhuma outra, pois do contrário Paulo a teria citado.

Creio ter sido possível demonstrar que não há nenhuma, nem mesmo uma mínima evidência bíblica que possa sustentar o ensino sobre a ressurreição de Enoque, Moisés e Elias. Lembremos, com isto, a recomendação paulina de não se ultrapassar o que está escrito, não incorrendo, assim, no erro adventista (1Co. 4.6; cf. 2Jo. 9).
        

quarta-feira, 18 de julho de 2012

UMA PERSPECTIVA BIBLICO-TEOLÓGICA SOBRE A MORTE

A morte enquanto realidade universal de todos os homens provocou, ao longo da história, duas perspectivas diametralmente oposta. Os gregos, por exemplo, consideravam a morte uma verdadeira amiga. Ela era responsável – assim entendiam – pela libertação da alma, antes presa ao corpo, ou sepulcro no linguajar platônico.

Os hebreus, por outro lado, possuíam um conceito bem distinto quando comparado com o dos gregos em relação à natureza da morte. No relato bíblico, a morte sempre é vista como uma inimiga do homem. Em Gn. 2.16,17 a morte é visualizada como uma possibilidade que se tornaria real se o homem desobedecesse à ordem divina. A negativa da serpente de que a morte pudesse ser efetivada por um simples ato de Adão (Gn. 3.4), revela todo seu engodo quando da declaração de Deus logo após o homem ter comido do fruto proibido: “porque você é pó e ao pó voltará” (Gn. 3.19c).

A Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira, capítulo XVIII assim se expressa: “Todos os homens são marcados pela finitude, de vez que, em consequência do pecado, a morte se estende a todos”. Pode-se aprender com isto, que a morte não é algo normal. Ela é uma intrusa, uma consequência reveladora de outra realidade, o pecado. Na Bíblia, o homem só morre porque é um pecador. Paulo nos diz que o ato de Adão não somente o tornou pecador destinado à morte, mas que todos morrem porque são pecadores, morte esta trazida por Adão (Rm. 5.12,13). Este ato afetou a humanidade de tal forma que o autor da carta aos hebreus diz que “o homem está destinado a morrer uma só vez...” (Hb. 9.27, grifo nosso).

A morte de acordo com a revelação bíblica é também a cessação da unidade integral do homem. O corpo daquele que morre “volta a terra, de onde veio, e o espírito volta a Deus, que o deu” (Ec. 12.7). Tiago admite a realidade da separação do espírito em um corpo morto quando diz que este não possui aquele (Tg. 2.26). A cessação da unidade integral do homem, corpo e espírito/alma, não é o mesmo que não-existência. Aquele que morre não deixa de existir, antes, passa para outro estado de existência. Millard Erickson, teólogo batista, em sua teologia sistemática declara que a “morte é simplesmente uma transição para um modo diferente de existência; não é, como costumamos imaginar, extinção”.

Chegamos com isto, ao assunto que trata da preservação da consciência no estado pós-morte – verdade esta constantemente negada pelos adventistas. “A Palavra de Deus assegura a continuidade da consciência e da identidade pessoais após a morte...”, assertiva da Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira, capítulo XVIII. O Senhor Jesus deixou isto bem claro com a narrativa do homem rico e o pobre Lázaro em Lucas 16.19-31. Ao ladrão na cruz é declarado: “Eu lhe garanto: Hoje você estará comigo no paraíso” (Lc. 23.43). Paulo confirma esta verdade quando diz: “desejo partir e estar com Cristo, o que é muito melhor” (Fp. 1.23). Ele sabia que no ato de sua morte estaria consciente ao lado de Jesus, pois do contrário como o “partir” poderia ser “muito melhor”? 

Outro aspecto da morte é que ela sela o destino do homem. Aquele que morre sabe da natureza irrevogável da sua existência. Lucas 16.26 diz que é impossível uma mudança de lugar daquele que já morreu fazendo uso da linguagem do abismo intransponível. Voltando ao texto de Hb. 9.27, declara-se que após a morte o homem irá “enfrentar o juízo”. Se ele enfrentará o juízo após a morte, não haverá possibilidade para uma mudança no estado pós-morte. No dia do juízo final serão salvos somente aqueles que tiverem seus nomes escritos no livro da vida (Ap. 20.15). Não se escreve este nome após a morte, antes, na morte, já se sabe se este nome está escrito ou não. Após a morte, o homem já “vive” a realidade da eternidade, seja a bem aventurança do salvo em Jesus ou o horror daquele que não aceitou a Cristo. No inferno o fogo não se apaga (Mc. 9.43-48). Os que não adoraram a Cristo “a fumaça do tormento de tais pessoas sobe para todo o sempre”, pois “não há descanso, dia e noite” (Ap; 14.11). Se os justos desfrutarão da vida eterna, os perdidos “irão para o castigo eterno” (Mt. 25.46; cf. v. 41).

Do acima exposto, a doutrina da reencarnação, conhecida também por transmigração das almas ou metempsicose constitui-se uma contradição teológica. A reencarnação pressupõe mais de uma experiência da morte, haja vista que a alma desencarnada passa a habitar em um novo corpo mortal. Isto é uma violação gritante do texto de Hebreus 9.27 que diz que “o homem está destinado a morrer uma só vez...”. Os relatos de ressurreição na Bíblia são uma exceção desta regra – eles ressuscitaram, embora tenham voltado a morrer. A doutrina da reencarnação, por outro lado, é uma anulação desta lei, pois aquele que morre, morrerá novamente reencarnando em outro corpo mortal.

Por fim, devemos ter em mente que não obstante a morte ser a consequência do pecado (Rm. 6.23), para aquele que aceitou Jesus ela não é uma condenação (Rm. 8.1). A morte de Jesus nos livra da escravidão do medo da morte (Hb. 2.14,15).     

sábado, 10 de março de 2012

A DOUTRINA DA IGREJA

INTRODUÇÃO

Você sabia que o assunto igreja possui uma área específica de estudo na teologia? O campo da teologia que estuda a igreja é conhecido como Eclesiologia. Eclesiologia é a junção de duas palavras gregas: ekklesia – igreja e logos – estudo, tratado. Daí eclesiologia ser o estudo ou doutrina da igreja.

A igreja possui uma história de mais de 2000 anos. Foram muitos os acontecimentos ao longo deste período. De formulações ortodoxas (crença correta) passando por tentativas em se estabelecer heresias entre os fieis. Perseguição e martírio até o estabelecimento do cristianismo como religião oficial do império romano. Reforma protestante no séc. XVI aos movimentos pentecostais e neo-pentecostais dos nossos dias. Isto constitui no mínino, assuntos empolgantes para o nosso crescimento.

Esteja então preparado para começar hoje o estudo sobre a igreja de Jesus o Cristo. Ao aprender mais sobre ela você estará conhecendo um pouco mais sobre quem você é. Afinal de contas, a igreja é o conjunto de pessoas salvas por meio da fé em Jesus. 

A IGREJA NA HISTÓRIA
SURGIMENTO OU DESENVOLVIMENTO?
Quando surgiu a igreja? Essa é uma daquelas perguntas que os teólogos não possuem uma única resposta. Para alguns a igreja sempre existiu desde os tempos do Antigo Testamento. Já outros dizem que ela surgiu quando Jesus formou o grupo dos doze apóstolos. Alguns são de opinião que a igreja só passou a existir no dia de Pentecostes em At. 2. Mas afinal, quem está com a razão? Para respondermos este questionamento, temos que primeiro entender o significado da palavra “igreja”.

A palavra igreja vem do grego ekklesia, palavra formada de ek  e kaleo – tem o sentido de chamar para fora. Ekklesia era a convocação do exército para se reunir. Na antiguidade, desde o séc. V a.C. era a assembleia popular dos cidadãos na Grécia (Dicionário Internacional de Teologia, v. 1, p. 984). 

No Antigo Testamento, a palavra para a convocação ou assembleia do povo de Deus é kahal. A Septuaginta (tradução grega dos livros hebraicos do Antigo Testamento) traduz a palavra hebraica kahal – conclamar, na maioria das vezes por ekklesia – assembleia, congregação. Veja as seguintes referencias em Dt. 9.10; 10.4 18.16; Jz. 20.2; 1Rs. 8.14; Lv. 10.17; Nm. 1.16; Nm. 13.1 A ideia existente nos textos é sempre a mesma: assembleia, congregação, ou reunião, do hebraico kahal constitui o grupo de pessoas que foram chamadas/conclamadas por Deus para juntos ouvirem Sua Palavra. Não é tanto uma simples reunião, mas, pelo contrário, é o agrupamento como resposta ao chamado divino para fazer sua Vontade.

No Novo Testamento, a palavra ekklesia é usada como referência ao conjunto de pessoas que foram salvas e professam sua fé em Jesus Cristo. Neste sentido, ekklesia/igreja pode ter dois significados: um universal e outro local. A igreja em sentido universal é o conjunto de todas as pessoas salvas por Jesus independente de época ou lugar. Mt. 16.18; Ef. 1.22,23; 4.4; 5.23 são exemplos da igreja em sua natureza universal. O sentido local do termo igreja diz respeito aquele grupo de pessoas de determinada localidade que se reúne para confessar Jesus Cristo como Senhor (At. 11.26; 1Co 1.2; Gl. 1.2).

Com isto em mente podemos dizer que todas as respostas relacionadas acima em certo sentido estão certas. Se entendermos que a igreja é o povo de Deus e no Antigo Testamento Israel era este povo, assim Deus sempre teve um povo, logo ele sempre teve uma igreja, ekklesia/assembleia. Por outro lado, se igreja é um grupo de pessoas unidas em torno de Cristo, e os apóstolos foram chamados para estarem com Jesus (cf. Mc. 6.30,31), um dos elementos de uma igreja também ali se fazia presente. Mas se compreendemos que a igreja é o conjunto de pessoas salvas onde o Espírito Santo faz morada e que professam sua fé na ressureição de Jesus, então ela surgiu somente no dia de Pentecostes (cf. At. 2. 29-36).

Podemos assim “dizer que a fundação e o estabelecimento da Igreja foi um processo gradual e progressivo, e não um momento único na história” (Manual do Pastor e da Igreja, p. 15).

FIGURAS BÍBLICAS DA IGREJA
A Bíblia está cheia de figuras que expressam uma realidade particular da igreja. Estaremos analisando, no entanto, três destas figuras. Vejamos: 

CORPO DE CRISTO
Para o apóstolo Paulo, a igreja é o corpo de Cristo aqui na terra. Isto não deve ser entendido como se a igreja fosse fisicamente a extensão de seu corpo no mundo. Pelo fato de Cristo se fazer presente entre os seus discípulos (Mt. 18.20; 28.20) e dentro deles também (Jo. 14.23; Rm. 8.9,10; Gl. 2.20; Cl.1.27) nada mais natural a ideia que a igreja seja o seu corpo. Mesmo assim, não podemos chegar ao ponto de confundir a igreja com Cristo. Ele é o Senhor da igreja (cf. Ef. 5.23b,24a).  

Este conceito de igreja como corpo de Cristo (1Co. 10.17;12.12,13,27; Ef. 4.4,12; Cl.1.24) é uma analogia frequente no pensamento do apóstolo Paulo. Com ela aprendemos que a presença de Cristo não é um privilégio de alguns, mas de todos que estão Nele unidos. Não há variação de valor entre os irmãos na igreja. Cada um constitui um membro no corpo de Cristo, logo, o que importa não é sua posição no corpo (1Co. 12.14-26) mas o fato de que ele está unido ao corpo de Cristo e nele flui a vida do Salvador.

A figura da igreja como o corpo de Cristo também é uma forma de a Bíblia nos ensinar que o ideal de Deus para seu povo não é o isolamento. O fato de Cristo habitar no salvo é o que o impulsiona a viver uma vida em comunidade, a igreja. Assim, somos igreja somente quando estamos unidos. Esta união é mais uma questão de princípio que localidade. Isto porque podemos nos reunir e ainda assim nos encontrarmos divididos. Basta a leitura de 1Co. 1.10-13 para constatarmos que a igreja deve estar unida integralmente e não em facções. Logo, da perspectiva bíblica, não há esta ideia de unidade somente com um grupo específico da igreja. Quando isto ocorre, é caracterizado como tentativa de se dividir o corpo de Cristo (cf. 1Co. 1.13a). 

Outro texto que descreve a igreja como corpo de Cristo, mas com uma diferença em relação ao texto de 1Co. 12 é Ef. 1.22,23;4.15;5.23; Cl. 1.18a; 2.19. Em 1Co. 12 todo o corpo humano é visto como figura para a igreja (cf. 1Co. 12.14-20). Já em Ef. e Cl. Cristo é visto como o cabeça da igreja e esta o seu corpo. Isto serve para ressaltar que o único Senhor da igreja é Jesus Cristo. Ele é o seu dono. Nenhuma outra autoridade pode estar acima de Cristo na igreja. 

Um dos princípios batistas é ter Cristo como Senhor. “A suprema fonte de autoridade é o Senhor Jesus Cristo, e toda a esfera da vida cristã está sujeita a sua soberania”. (Em Que Creem os Batistas, Série Documentos Batistas, JUERP, p. 13.). Da mesma forma, o estatuto de nossa igreja no cap. I, art. 2º diz: “A igreja reconhece a Jesus Cristo como seu único Salvador e Senhor...”. Não há nenhum outro Senhor na igreja senão Jesus.

POVO DE DEUS
A igreja também é vista como sendo o povo de Deus. Em 1Co. 6.16; 1Pe. 2.9,10 encontram-se presente este pensamento. Assim como Israel só se tornou povo de Deus mediante a vontade soberana do SENHOR, a igreja é o povo de Deus por ter sido por Ele escolhida (1Pe. 1.1,2). Deus escolheu a igreja assim como escolheu Israel no Antigo Testamento.


Se Israel tinha a responsabilidade de manter uma conduta diferenciada diante das outras nações ( Dt. 12.30; 18.9-13), não menos exigência se requer da igreja enquanto povo de Deus  (2Co. 6.14-18; Ef. 5.3-7).  

TEMPLO DO ESPÍRITO SANTO
Outra forma de se ver a igreja é encará-la como o Templo do Espírito. Se pelo fato de Cristo habitar no crente a igreja é o seu corpo, o mesmo se dá com O Espírito Santo. Segundo as Escrituras, o responsável pelo novo nascimento é o Espírito Santo (Jo. 3.1-8; Tt. 3.4-6). Quando isto ocorre, a pessoa se torna o templo do Espírito (1Co. 3.16,17; 6.19).

O Espírito Santo é o responsável pela distribuição dos dons na igreja (1Co. 12.7-11). Não há uma única pessoa na igreja com todos os dons, muito menos algum crente que não tenha sequer um dom, pois o Espírito Santo os distribui “individualmente, a cada um, como quer” (1Co. 12.11b, NVI). Cabe ao Espírito Santo o derramamento dos dons na igreja.

Não é somente através do exercício dos dons na igreja que a identificamos como o Templo do Espírito Santo. Faz-se necessário a presença dos frutos do Espírito (Gl. 5.22-25). Enquanto os dons revelam a ação do Espírito Santo na igreja, os frutos, por sua vez, demonstram O Seu caráter presente na vida dos crentes. São estes frutos que devem determinar o exercício dos dons na igreja (1Co. 13.1-3; 14.1).

CONCLUSÃO
Aprendemos com este primeiro estudo que a igreja foi um processo que teve início com o próprio Deus. Embora seja constituída por pessoas, a igreja é na verdade, um milagre. Ela é o corpo de Cristo porque Ele habita nos crentes, sendo esta presença identificada na igreja. 

A igreja também é o povo de Deus. Assim como Deus formou o povo de Israel no Antigo Testamento, Ele é quem tornou realidade a igreja no dia de Pentecostes (At. 2). Sendo a igreja o Templo do Espírito, ela é identificada também em atitudes espirituais (Jo. 4.24; Gl. 5.16,17). Por mais belas que sejam nossas apresentações, se não forem feitas no Espírito Santo, serão realizações da carne – nossa natureza corrompida.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

ARRENDAMENTO ANGELICAL?

Recentemente fiz a leitura de Daniel 10.13,20 e uma espécie de reminiscência questionável me veio à mente: existem mesmo anjos/demônios territoriais? Rapidamente fui consultar meus livros de teologia, que infelizmente são poucos, e para minha surpresa eminentes teólogos respondiam de forma positiva a minha dúvida. Entre os gigantes da teologia que se pode inferir de seus escritos a ideia de anjos com domínios territoriais estão: Augustus Hopkins Strong, batista, e Charles Hodge, presbiteriano. Deve-se ressaltar quem ambos são teólogos conservadores.

Em Strong, no volume I, página 661 de sua Teologia Sistemática, a ideia de anjos territoriais encontra-se implícita. Já em Hodge o ensino é expressamente admitido. Primeiro ele afirma que muitos comentaristas ao longo da história da igreja adotaram “a opinião de que a certos anjos foi confiada a supervisão especial de determinados reinos”. (HODGE, p. 476). Mesmo concordando que é impróprio afirmar um ensino baseado em um único texto das Escrituras, Hodge faz a seguinte assertiva: “Embora tal coisa deve ser admitida, é não obstante certo que a interpretação ordinária da linguagem do profeta (anjos territoriais) é a mais natural, e nada há na doutrina assim ensinada que fique fora da analogia com os claros ensinos das Escrituras”. (HODGE, p. 477).

No entanto, a postura de Hodge não é correta. Isto por um motivo bastante simples. Se a interpretação de um texto me induz a uma ideia que não pode ser sustentada alhures nas passagens da Bíblia, uma exegese saudável seria admitir a natureza obscura da passagem. Ainda que se usasse o argumento de que não deixamos de acreditar no relato da torre de Babel (Gn. 11.1-9) mesmo aparecendo somente em uma única passagem das Escrituras, seria um verdadeiro sofisma. Pois em hermenêutica não se admite formar doutrina em um único texto da Bíblia, mas não se diz que não devemos acreditar em um relato quando este aparece somente uma vez nas Escrituras. Não há uma doutrina da torre de Babel, antes, o que temos é um relato meramente histórico, não repetível, e por isso crível. Algo bem diferente do texto de Daniel 10.13,20 que não é usado como relato histórico, mas doutrinário, sendo a descrição, sustentada por alguns, da realidade atual de territórios sob o domínio de entes angelícos.

Não obstante, podemos entender o texto à luz do contexto religioso do mundo antigo. Os deuses eram vistos como entidades territoriais (veja 2Crônicas 28.23). O próprio Naamã, entendendo que o Deus de Eliseu era divindade local, desejou levar um pouco da terra de Israel para oferecer sacrifícios ao SENHOR em outro lugar (2Rs. 5.17). O sentimento era que cada nação possuía sua divindade particular. Basta lembrarmos que quando Israel estava avançando em suas conquistas, muitos diziam: “o Deus de Israel...”. Para eles era o Deus local de Israel que estava adquirindo o território para Seu povo. Território este, já de domínio de outra divindade. Leia o Sl. 24.1 e tire suas conclusões se existe algum lugar na terra que pertence a alguém senão o SENHOR (cf. Ex. 9.26).

Com isto em mente, propomos que Daniel 10.13,20,21 estaria simbolizando a invasão de um território que se supõe ser do domínio de outro deus. O SENHOR pode levar Sua mensagem mesmo em terras estrangeiras. Não haveria fronteiras para o Seu agir. Existe sim, no relato, um confronto de poderes, Miguel e o Príncipe da Pérsia. Mas afirmar que havia um anjo encarregado dos negócios da Pérsia, isto o texto não nos diz, tão pouco pode ser biblicamente sustentado.

Do acima exposto, seriam estas as implicações do texto. Ir além disto, é incorrer em ilações não sustentadas pela Escritura.  

quarta-feira, 23 de março de 2011

SILÊNCIO FEMININO NA IGREJA?


Como entender 1Corintios 11.2-16 com 14.33b-36 e sua evidente discrepância em se tratando da participação feminina na liturgia? Existiria alguma possibilidade, por menor que seja, de harmonização entre os dois relatos, sem ferir, contudo, o pensamento paulino?
A explicação mais simplista para o tema é afirmar que se trata de um ensino para a época. No entanto, qual ensino bíblico não foi transmitido com o intuito de orientar um grupo (comunidade) específico do I século? Esta resposta abre precedência para o pressuposto da teologia liberal. Segundo esta, os dogmas da Palavra, tais como encarnação, nascimento virginal, milagres e afins, também deveriam ser abandonados pelo homem moderno, pois serviriam simplesmente para a comunidade cristã primitiva. Com isto, qual seria o princípio limitador para a permanência ou não de um ensino na Bíblia?
Uma proposta de interpretação equilibrada pode ser obtida fazendo-se uso do método da atualização da mensagem cristã, presente na teologia sistemática de Millard Erickson. Na atualização da mensagem cristã, não basta somente asseverar que o texto se referia à época da redação do escrito, mas diferenciar o conteúdo permanente no ensino bíblico de sua expressão temporária. O conteúdo permanente é atemporal, não sendo invalidado por época ou cultura. Já sua expressão temporária, seria a forma de expor o assunto em categorias condicionadas à época da redação do escrito. Neste caso, poderíamos perguntar: qual o conteúdo permanente de 1Co 11 e 14? Seria a mulher falar usando o véu, ou nem mesmo falar com o véu? Será que estamos focando demais nossa atenção na expressão temporária, falar com o véu, não falar no culto, não observando assim, o conteúdo permanente subjacente aos textos?
O estudioso Helmut Koester, em introdução ao novo testamento v. II, e outros, entende os versículos 33b-36 de 1Co 14 como uma interpolação. Interpolação é o termo para se referir a todo conteúdo ou material inserido no texto bíblico, não pertencendo ao autor sacro. Esta proposta evita a possível incoerência no texto paulino, onde no capítulo 11.2-16 ele permite a participação da mulher. Assim, o pensamento do apóstolo continuaria coeso, pois 1Co 14.33b-36 não seria de sua autoria, mas de algum escriba posterior.
Outra possibilidade é entender os versículos 33b-35 como citação feita pelo apóstolo. Ele estaria, na verdade, fazendo referência ao entendimento que os coríntios tinham do culto público. No versículo 36 Paulo criticaria esta atitude ao perguntar se a Palavra de Deus teria surgido somente entre eles? Neste caso, os homens de Corinto.
Na verdade, não estaria Paulo discutindo em 1Co 11.2-16 somente a questão do uso do véu  para as mulheres que estavam profetizando sem contudo emitir sua real opinião sobre a possibilidade ou não da mulher falar na igreja? Se assim for, em 1Co 14.33b-36 ele declara sua postura sobre a mulher no culto, completo silêncio. Desta forma, o apóstolo manteria coerência em dois assuntos: a mulher deve usar o véu e nunca falar na igreja.
Neste caso, qual o valor destes dois textos para a cristandade do século XXI? Eles nos ensinam a importância de mantermos o equilíbrio entre igreja e convenções sociais, desde que estas não firam os princípios éticos e morais da revelação bíblica. Paulo apela para uma norma socialmente estabelecida quando pede que os coríntios “julguem entre vocês mesmos: é apropriado a uma mulher orar a Deus com a cabeça descoberta? A própria natureza das coisas não lhes ensina [...] que o cabelo comprido é uma glória para a mulher?” 1Co. 11.13-14. Observe que para o apóstolo o consenso comunitário serve como corolário de toda sua argumentação teológica.  
No caso de 1Co. 14.33b-36 as observações do erudito alemão, Werner de Boor, são bastante esclarecedoras: “O ponto de vista do apóstolo, quando escreveu o presente trecho em sua carta, é simplesmente o seguinte: a igreja de Jesus não pode nem deve conceder à mulher uma posição que ela já não possua na vida pública e que contradiga o sentimento ético da época. Então, porém, isso significa para nós hoje: a igreja de Jesus não pode nem deve negar à mulher uma posição que ela já possui na vida pública e que corresponde a todo o sentimento óbvio da época! Assim como naquele tempo a mulher que falasse em público representaria uma estranha extrapolação, assim seria hoje com a mulher condenada ao silêncio.”
Desta forma, é compreensível que Paulo fale que em sua época “é vergonhoso uma mulher falar na igreja”. Se vivesse nos dias atuais, poderia afirmar: “é vergonhoso uma mulher não falar na igreja.”
          

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

APOCALIPSE


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O livro do Apocalipse na mente de muitas pessoas é sinônimo de terror. Quem nunca ficou intrigado com a representação gráfica dos gafanhotos, cavaleiros, besta do mar e da terra, chifres e afins? O próprio título do livro serve como termo para denominar grandes catástrofes. Não é sem motivo que o livro do Apocalipse seja pouco lido nas igrejas.
O grau de aceitação do Apocalipse será proporcional a sua demitização, quando o escoimarmos do estigma adquirido ao longo do tempo que o tornou em literatura obscura e sem sentido.
A palavra αποκάλυψις (apocalipse) significa simplesmente revelação. O que no dizer de Emil Brunner é o “autodesvendamento de Deus”. É o tornar algo conhecido somente por meio da ação divina.
O autor do escrito se identifica como João. A tradição da igreja antiga, em especial Justino e Clemente de Alexandria, entendia que o João do Apocalipse era o apóstolo, filho de Zebedeu. Irineu entendeu, contrariando o pensamento de Justino que este João era o mesmo que escreveu o quarto evangelho. Já o bispo Dionísio de Alexandria (séc. III), afirmava que o autor do Apocalipse não poderia ser o mesmo que escreveu o quarto evangelho, pois a diferença de estilo nos dois escritos era muito evidente.
Assim, o autor do Apocalipse seria o João de Éfeso, não o apóstolo do quarto evangelho. Esta posição é bastante possível de ser verdadeira, pois o João do Apocalipse não se inclui no círculo dos 12 apóstolos (cf. Ap. 21.14). Por outro lado, ele se autodenomina profeta (Ap. 10.10-11).
Os apocalipses eram escritos secretos, somente alguns felizardos tomavam conhecimento. O apocalipse de João, por sua vez, deveria ser lido no culto público (cf. Ap. 1.3).
O livro tem um objetivo muito claro: alertar seus leitores sobre a espera do fim. Enquanto Daniel fomenta uma atitude de tranqüilidade em suas visões, pois o que ele relata somente acontecerá “nos últimos dias” (Dn. 2.26-27; cf. Dn 12 e veja que o próprio Daniel não participará dos acontecimentos finais), o apocalipse, por outro lado, descreve “o que em breve há de acontecer” (Ap. 1.1). João, assim como Daniel, quer tranquilizar seus leitores, mas ao contrário daquele alertar sobre a urgência do fim.
Sendo o fim uma realidade próxima, João informa que o Dragão possui pouco tempo para suas investidas (Ap. 12.12; Cf. 20.3). Não menos tempo possui as comunidades e o mundo para uma busca de mudança de vida. Com isto em mente pode-se compreender a descrição de Jesus batendo à porta da igreja em Ap. 3.20, ou o chamado de todos os povos para temer e adorar “aquele que fez os céus, a terra, o mar e as fontes das águas” Ap. 14.6. Os alertas não devem ser ignorados, pois o dia do juízo está próximo (Ap. 11.18).
Se o objetivo do apocalipse é alertar os crentes sobre a proximidade do fim, não menos importante é o seu conceito, pois este deve ser compreendido como pessoal, o encontro glorioso com o Senhor Jesus Cristo (Ap. 22.12,20), não a expectativa desesperada pela destruição do cosmo criado.
Vivemos um momento onde muitos tentam prever o fim da história. O livro do apocalipse serve como literatura que propõe uma nova perspectiva, a esperança do fim, não o fim de toda esperança. O que para muitos é o fim de tudo, para os salvos é o início de um novo começo (Ap. 21-22).     

quinta-feira, 8 de abril de 2010

DOUTRINA ERRÔNEA?


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Esta frase encontra-se na revista Primeiros Passos Na Fé, Doutrinas Básicas Para Novos Convertidos, A Importância Do Conhecimento, da editora Central Gospel, edição comentada pelo Pr. Jorge Linhares.
A assertiva usada como tema do nosso artigo encontra-se no contexto da revista que trata do novo nascimento. Eis a declaração completa: “Alguns mais radicais acreditam numa doutrina errônea que ensina que a pessoa quando se entrega para Jesus estará salva para sempre.”
Por qual razão os supostos “mais radicais” não são identificados na revista? É completamente injustificável, tanto metodológica quanto bíblico – teologicamente não fazer referência as razões da crença de um determinado grupo quando se tenta desmerecer sua doutrina. Assim, não sabemos quem são os mais radicais nem a razão para acreditarem que o convertido não perde a salvação.
Para aqueles que desejam conhecer os “mais radicais”, passarei então a identificá-los: batistas tradicionais e presbiterianos. Logo, estes grupos são caracterizados como defendendo uma “doutrina errônea”, o que não passa de um eufemismo. O que se quer dizer na verdade é que batistas e presbiterianos defendem uma HERESIA. Não posso admitir que uma revista doutrinária faça uso de sua crença como meio para determinar indiretamente que batistas e presbiterianos estejam errados em sua forma de pensar. Esta atitude não passa de sectarismo exacerbado. Seria admissível o autor informar que existem grupos protestantes que defendem a crença que o convertido não perde a salvação, ao passo que outros, como assembleia de Deus, revista publicada, e essencialmente fundamentada em sua doutrina, não compreende desta forma.
O mais preocupante não se encontra no fato da revista denominar de doutrina errônea a crença de que o convertido não perde a salvação. O absurdo, se me permitem assim falar, acha-se no fato de que batistas estejam usando esta literatura como material para a escola bíblica. Estão desta forma, ensinando a batistas que é um engodo pensar como batista. São batistas aprendendo a doutrina de outra denominação, ao invés de estarem conhecendo a sua. 
Se a doutrina da não possibilidade de o convertido perder a salvação é errônea, eminentes teólogos como: João Calvino (1509-1564), John Gill (1697-1771) Charles Hodge (1797-1878), A.A.Hodge (1823-1886), Charles Spurgeon (1834-1892), A.H.Strong (1836-1921), Millard J. Erickson, Wayne Grudem, Augustos Nicodemos e tantos outros, não são outra coisa senão teólogos enganados.
A declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira nos diz o seguinte com fundamento nas Escrituras Sagradas:
A salvação do crente é eterna. Os salvos perseveram em Cristo e estão guardados pelo poder de Deus. Nenhuma força ou circunstância tem poder para separar o crente do amor de Deus em Cristo Jesus. O novo nascimento, o perdão, a justificação, a adoção como filhos de Deus, a eleição e o dom do Espírito Santo asseguram aos salvos a permanência na graça da salvação. Jo. 3.16,36; 10.28,29; 1Jo. 2.19; Mt. 24.13; Rm. 8.35-39; Jd. 24
            Textos que declaram que somente aqueles que perseverarem serão salvos, não devem ser usados para se dizer que o convertido pode perder a salvação se não perseverar. Só persevera até o fim quem é verdadeiramente convertido (Jo. 8.31). A perseverança final determina quem é o verdadeiro salvo.  
            Se usarmos Hebreus 6.4-8 como recurso para defendermos a perda da salvação, teremos também que admitir a impossibilidade de se restaurar o apóstata. Strong entende esta passagem como nos informando “qual seria o destino dos verdadeiros regenerados, se eles não perseverassem”. Logo, o caso é entendido como hipotético, não como real. No verso 9 Paulo vai dizer que não espera isto dos verdadeiros salvos.
            Aqueles que não admitem a certeza da salvação contestam que se o crente não pode perdê-la então ele poderá viver em pecado, pois está salvo para sempre. Sobre isto, Hodge nos informa que no sistema de Paulo “a salvação em pecado é uma contradição lógica.” O verdadeiro salvo busca constantemente uma vida de santidade. Se for verdade que o salvo pode se separar de Cristo, então é mentira o que Paulo fala em Romanos 8. 35-39.
            A doutrina da certeza da salvação encontra-se fundamentada na doutrina da eleição, seja ela compreendida nos sistemas calvinista ou arminiano. É impossível o eleito perder a salvação, pois isto contrariaria a própria eleição feita por Deus. A doutrina da união com Cristo, pois ela é indissolúvel. A doutrina da regeneração, pois ela é o começo da nova criação de Deus. A doutrina da justificação, pois ela nos garante que não há mais nenhuma condenação para o crente (Rm.8.1). A possibilidade de o verdadeiro convertido perder a salvação seria a anulação completa destas verdades.
            Não devemos pensar que a certeza da salvação induz o convertido ao orgulho. A seguinte declaração de Charles Hodge nos esclarece muito bem isto:
Ver-se-á que o apóstolo não apóia a perseverança dos santos na natureza indestrutível da fé, nem na natureza imperecível do princípio da graça no coração, nem na constância da vontade do crente, mas tão-somente no que está fora de nós. A perseverança, ensina ele, deve-se ao propósito de Deus, à obra de Cristo, à habitação do Espírito Santo e à fonte primária de tudo, ao infinito, misterioso e imutável amor de Deus. Não nos guardamos a nós mesmos: somos guardados pelo poder de Deus, por intermédio da fé, para a salvação (1Pe. 1.5).
            Recomendo a leitura dos seguintes teólogos para uma compreensão aprofundada do assunto: Millard J. Erickson, p. 242-246; Wayne Grudem, p. 659-674; Charles Hodge, p. 732-733, 1108-1110; A.B.Langston, p. 242-246; Augustus H. Strong, p. 624-631; Zacarias Severa, p. 305-309.

sexta-feira, 12 de março de 2010

UMA BREVE REFLEXÃO SOBRE O SILÊNCIO


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Para onde foi o silêncio nas nossas igrejas? Onde ele se encontra? Será que alguém já experimentou sua existência em alguns dos nossos cultos, antes dele sumir por completo? E se ele retornar será que conseguiremos identificá-lo mesmo depois de tanto tempo sem convivência?
Mas afinal de contas, o que é o silêncio? Se neste momento você acabou de responder, o próprio silêncio foi ignorado por sua resposta. Não pretendo, contudo, afirmar que o silêncio exija necessariamente a ausência total do som articulado. Posso me encontrar em silêncio ouvindo uma música, ou apreciando a beleza de uma praia, mesmo sendo envolvido pelo som de suas ondas.
O silencio foi banido dos nossos cultos porque nos enganamos com a falácia do “culto avivado”. Mas porque um culto vivo deve ser barulhento, ainda não sou capaz  de entender. O filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788 – 1860), disse certa vez: “A soma de barulho que uma pessoa pode suportar está na razão inversa de sua capacidade mental.” Gostaria de readaptar este pensamento da seguinte forma: a soma de barulho que uma pessoa pode suportar durante um culto está na razão inversa de sua capacidade de ouvir a voz de Deus em seu interior.
Até quando algumas pessoas aparecerão mais durante o culto do que o Deus cultuado? Qual o motivo real de um dirigente de louvor ficar constantemente falando: “feche seus olhos”, “pense em Deus neste momento”, “imagine o trono de Deus”. Seria ele um mediador? Não da salvação, é claro, mas da presença de Deus? Sem falar da disputa que há entre alguns cantores e tocadores para ver qual voz ou som de instrumento sobressai mais. Gostaria de ficar em silêncio cantando, ouvindo sim, a doce e suave voz de Cristo ministrando no meu ser interior.
Não poderia deixar de fora também alguns pregadores do evangelho. Somos constantemente incomodados com: “fale para o irmão que está do seu lado”, “repita comigo”, e logo após ouve-se uma frase com um possível poder transformador. Não há espaço para um silêncio de reflexão durante a mensagem. Desejamos ouvir Cristo no pregador, mas como isso é possível se sempre ele oblitera o som da voz do Cristo ressurreto durante a mensagem.
Que possamos ter bons momentos de louvores nos cultos, mas sem os incômodos das vozes. Que a voz de Cristo seja identificada nos pregadores durante o momento do sermão. Lembremos, acima de tudo, o que diz o profeta Habacuque: “ O SENHOR, porém, está em seu santo templo; diante dele fique em silêncio toda a terra.” (Hb. 2.20). 
 

quarta-feira, 3 de março de 2010

ONIPRESENÇA

Qual a relação de Deus com o espaço? Seria o espaço um simples termo existente somente para seres finitos, e que não se aplicaria a Deus? O atributo da onipresença Divina pode ser entendido como se Deus estivesse difundido por todo o cosmo criado? Estes e outros questionamentos farão parte do presente artigo.

O primeiro problema que envolve a idéia de onipresença é a própria definição de espaço. O teólogo presbiteriano do século XIX, Charles Hodge, nos diz que a idéia de espaço é evidente para todos, não obstante ser impossível a sua descrição em conceitos. Portanto, o escopo deste artigo não é trazer uma compreensão do que seja o espaço, mas como a onipresença de Deus é entendida teologicamente.

O atributo da onipresença divina é na verdade um termo restrito para se referir a infinitude geral de Deus. Assim, quando queremos falar que Deus é infinito em relação ao espaço, afirmamos que Ele é onipresente. O mesmo se dá com o tempo, poder e conhecimento. Eternidade é a infinitude de Deus em relação ao tempo. Onisciência, sua infinitude em relação ao conhecimento, e onipotência, sua infinitude em relação ao poder.

O Dr. Charles Hodge, entende que “Deus está no espaço de forma que o ocupa em sua totalidade.” Para ele, o espaço não possui nenhum poder limitador para Deus, pois “as limitações do espaço não têm referência alguma ao seu ser.” O termo “ser”, na teologia de Hodge, é compreendido como aquilo que possui uma existência real e objetiva. Logo, poderíamos afirmar que Deus está real e objetivamente ocupando cada espaço na totalidade do seu ser.

Para que se evite um falso entendimento da onipresença divina, Charles Hodge afirma: “Ele (Deus) não se acha ausente de nenhuma porção do espaço, nem está presente em uma porção mais que em outra.” Isto não passa, na verdade, de um corolário, no entanto, sua finalidade é que se exclua do ser de Deus a noção de que Ele se encontra estendido por todo o espaço, o que neste caso, poder-se-ia atribuir ao ser divino uma peculiaridade da matéria. “Extensão é uma propriedade da matéria, e não pode ser atribuída a Deus.”

Augustus Hopkins Strong, teólogo batista do século XIX, possui o mesmo entendimento de Hodge sobre o atributo da onipresença. Em sua teologia sistemática, Strong entende que a onipresença “significa que Deus, na totalidade da sua essência, sem difusão ou expansão, multiplicação ou divisão, penetra e ocupa o universo em todas as suas partes.”

Inferi-se disto, que o mesmo Deus que está presente na imensidão de todo o universo criado, encontra-se também, com toda a sua essência, presente na menor partícula que constitui o cosmo. Falaremos disto um pouco mais a frente.

Strong define os atributos de Deus em absolutos ou imanentes e atributos relativos ou transitivos. A primeira classificação está relacionada unicamente com a natureza divina, sem nenhuma relação direta com a criação. A segunda categoria é constituída, no entender de Strong, daqueles atributos que se referem à revelação exterior do ser de Deus em conexão com o universo. Os atributos relativos ou transitivos, só existem porque o universo foi criado por Deus.

Somente assim podemos entender a seguinte assertiva de Strong: “A onipresença de Deus não é necessária, mas livre [...] Deus poderia por sua vontade deixar de ser onipresente, porque ele poderia destruir o universo; mas, enquanto o universo existir, ele está e deve estar em toda parte.”

Concordando em parte com a exposição feita acima, encontra-se o teólogo batista A.B.Langston. Sabiamente, Langston afirma que a “relação de Deus com o espaço não é a mesma que existe entre este e a matéria.” Para ele, no entanto, não “devemos julgar que Deus está dentro de tudo.” Com esta assertiva, pode-se observar que o entendimento de Langston sobre a onipresença tomará um rumo distinto da exposição do tema feita até agora.

Para ser fiel a declaração feita anteriormente, o teólogo nos declara que se “Deus estivesse dentro de tudo, teriam todas as coisas vida divina.” Este entendimento de Langston tem por finalidade evitar a indevida associação da onipresença com a idéia panteísta. No panteísmo tudo é divino, pois a natureza passa a ser a própria expressão objetiva do corpo de Deus. Logo, a única possibilidade de se compreender o atributo da onipresença é afirmando que a “verdadeira idéia da onipresença de Deus é que ele age com a mesma facilidade com que pensa e quer, porque para Deus não há espaço nem tempo.”

O pensamento de Langston é coerente, no entanto problemático. Langston subordinou a onipresença ao atributo da onisciência divina. Seu posicionamento é semelhante ao do teólogo Vicent Cheung. Este, em sua teologia sistemática, não obstante declare que Deus “está presente em todo lugar”, faz a seguinte ressalva: “Isto não quer dizer que Deus ocupe cada ponto no espaço, visto que não tem ele dimensões espaciais em hipótese alguma. Todavia, podemos afirmar que Deus está de fato presente seja onde for no sentido de que ele conhece tudo o que ocorre em cada ponto do espaço, e pode exercitar seu pleno poder ali. Deus é onipresente porque nada pode escapar a seu conhecimento e poder.”

Assim, Deus está em todos os lugares porque conhece cada lugar simultaneamente. Poderíamos, no entanto, questionar este raciocínio da seguinte forma: será que Deus não conhece todos os lugares simultaneamente porque se encontra presente em cada ponto do espaço? Por isso Hodge declara que a onipresença não “significa mera presença em conhecimento e poder.”

Dizer que para Deus não há espaço nem tempo, como faz Langston, é fomentar uma idéia de que as coisas criadas possuem uma realidade objetiva para nós, mas não para Deus. Strong, por outro lado, nos fornece um entendimento mais equilibrado sobre a idéia de espaço para Deus: “[...] o espaço tem uma realidade objetiva para Deus. Com a criação o espaço começou a ser e, porque Deus vê segundo a verdade, ele reconhece as relações de espaço na criação.” Desta forma, o espaço existe para Deus, mas este não se encontra Nele.

Wayne Grudem, em sua exposição do atributo da onipresença diz que “Deus é um ser que existe sem tamanho nem dimensões no espaço.” O mesmo Deus que não pode ser circunscrito pela imensidão do espaço, encontra-se simultaneamente no menor ponto existente do cosmo. O quark, por exemplo, partícula elementar que compõe o próton, formando assim o núcleo atômico, possui a dimensão espacial de 10 elevado a menos 18, ou seja, 0,000,000,000,000,000,001 metro de diâmetro. Neste diminuto espaço, acha-se nosso Deus presente com todo o seu ser.

Finalizamos nosso artigo com a frase do renomado teólogo do século XX, Paul Tillich: “Na certeza do Deus onipresente, sempre nos encontramos no santuário.”

Referências:

GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1999.
HODGE, Charles. Teologia Sistemática. São Paulo: Hagnos, 2001.
LANGSTON, A.B. Teologia Sistemática. 3ª ed. Rio de Janeiro: JUERP,1999
STRONG, Augustus Hopkins. Teologia Sistemática. São Paulo: Hagnos, 2003, vol. 1.
TILLICH, Paul. Teologia Sistemática. 5ª ed. São Leopoldo: Sinodal, 2005.